Impactos da Ética Judaica no século XXI

IMPACTOS DA ÉTICA JUDAICA NO SÉCULO XXI

Vivemos em um mundo extraordinário. Os acelerados avanços tecnológicos têm multiplicado a capacidade da humanidade de produzir bens e serviços.

As revoluções na informática, robótica, micro-eletrônica, biotecnologia, genética, comunicações e outros campos têm criado possibilidades econômicas inéditas.

Ao mesmo tempo, 30 mil crianças morrem diariamente devido à miséria, 800 milhões de pessoas estão desnutridas, 3 bilhões são pobres.

A polarização social tem alcançado índices absurdos. As três pessoas mais ricas do mundo têm um patrimônio maior que o produto bruto dos 49 países mais pobres. A América Latina, região de excepcional potencial econômico, rica em matérias-primas estratégicas, fontes de energia baratas e terras muito férteis, é vista hoje como a terra da pobreza e desigualdade. Sessenta por cento das crianças são pobres, 36% dos menores de 2 anos estão desnutridos, 1/3 da população não tem água potável.

Junto a estes paradoxos extremamente impactantes, a sensação que o grande filósofo canadense Charles Taylor denomina de “o desencanto do mundo” se espalha entre as novas gerações. A atual sociedade consumista, voltada aos bens materiais, à concorrência feroz para alcançar melhores posições, à luta pelo dinheiro e poder, gera uma sensação de solidão, que Victor Frankl chamou de um dramático “vácuo dos sentidos”.

As respostas a estes graves problemas não parecem claras. Cresce o ceticismo sobre até onde pode chegar uma globalização repleta de oportunidades tecnológicas, mas totalmente carente de um código ético que a oriente.

Neste contexto, as propostas da ética judaica estão tendo valor crescente como referência e orientação. Muitas delas estão sendo retomadas com vigor por organismos internacionais, ONGs e movimentos que visam um mundo melhor. Vejamos resumidamente o atual impacto de algumas destas propostas:

• Um princípio básico da mensagem moral transmitido por D’us ao povo judeu é o de que somos responsáveis uns pelos outros. Para a ética judaica é proibida a indiferença ao sofrimento de outros. Diz-se no Levítico: “Não desconsideres o sangue de teu próximo” (19:16). Nossa época carateriza-se por altas doses de egoísmo, daqueles que têm face aos que não têm, e de insensibilidade. O secretário geral da ONU, Kofi Anan, ao exigir recentemente que o mundo supere a indiferença diante da morte de 22 milhões de pessoas nos últimos anos por Aids, determinou que é imprescindível voltarmos a ser responsáveis uns pelos outros.

• Para a ética judaica, a pobreza não é um problema apenas dos pobres, mas de todos. Leibowitz observa que os profetas dizem “Não haverá pobres entre vós”. Não estão dizendo o que irá acontecer, mas o que deveria acontecer. Sua voz não é de oráculo, senão de exigência moral. Para que não haja pobres, a sociedade deve tomar algumas medidas. Diante daqueles que, na América Latina, atribuem a pobreza dos pobres a eles mesmos, o judaísmo se revolta porque considera tal atitude uma injustiça. Esta mensagem foi recentemente incorporada à Carta dos Direitos Humanos da ONU. Entre estes, foram incluídos os direitos básicos do homem a não ser pobre, à alimentação, à saúde, à educação, ao trabalho, à moradia entre outros. A partir de agora estes são direitos essenciais do ser humano, embora proclamados há milênios pela ética judaica.

• As grandes desigualdades são severamente censuradas pelo judaísmo. Os profetas questionaram-nas implacavelmente e julgaram moralmente os poderosos que as fomentavam. O judaísmo criou uma institucionalidade completa para prevenir as polarizações sociais. A Torá estabelece que a cada 7 anos a terra deve descansar para que os pobres possam aceder a seus frutos. A cada 50 anos a terra deve retornar a seus proprietários originais. Procura-se assim impedir sua monopolização. É o jubileu. Assim mesmo, a cada 7 anos as dívidas devem ser perdoadas. O grande movimento mundial vigente pelo perdão total ou parcial da dívida dos países mais pobres do mundo, encabeçado pelo Papa João Paulo II, apoiou-se nesta mensagem e intitula-se “Movimento do Jubileu”.

• Em recente pesquisa realizada pelo Banco Mundial, 60 mil pobres de todos os continentes disseram que o que mais lhes dói é o desprezo, o fato de serem tratados como pessoas inferiores por serem pobres. A Torá estabelece o mais absoluto respeito pelo pobre. É idêntico aos outros. D’us se preocupa especialmente por ele e exige este respeito. O Rabino Leo Baeck observa que no idioma hebraico não existe a palavra mendigo, por si só pejorativa. Esta determinação de se escutar e respeitar o pobre está sendo um eixo para a ação dos organismos internacionais.

• Como ajudar o desfavorecido? Este tema, discussão permanente nos organismos internacionais, foi analisado por Maimônides no século XII aplicado à ética judaica. O genial sábio identificou oito níveis sobre “a ajuda”. O nível inferior é quando ajuda-se alguém de má vontade. A segunda categoria é quando aquele que ajuda e aquele que recebe desconhecem um ao outro; neste momento, o anonimato que protege a dignidade do pobre é completo. No entanto, o nível mais alto de todos, a melhor ajuda que alguém possa dar, é aquela que fará com que o necessitado não volte mais a precisar dela. Hoje, na ONU e nos principais organismos em prol do desenvolvimento, procura-se que os projetos tenham orientação no sentido de que haja sempre esta auto-sustentação enfatizada por Maimônides.

• Na ética judaica, ajudar os outros é um dever imprescindível. Como tal, não merece nenhum prêmio nem reconhecimento. O Rebe de Lubavitch observa que a ajuda deve ser desinteressada, não se deve esperar nada em troca e, exemplificando isto, destaca que no dia mais sagrado do judaísmo, o Dia do Perdão, nas orações sefaraditas pede-se perdão à D’us não só pelos prejuízos causados ao próximo, mas também pelos atos que não foram feitos desinteressadamente. O Rabino Abraham Y. Heschel diz que ajudar é simplesmente “o modo de viver correto”. O prêmio está em viver-se desta forma. A força destes conceitos no judaísmo, seu contínuo ensinamento no âmbito familiar e na escola judaica assentaram as bases para grandes resultados em matéria de trabalho voluntário. Os países estão tentando dar forças ao voluntariado e vêem com crescente interesse os bons resultados. Israel e as comunidades judaicas têm índices recordes de trabalhadores voluntários. Em Israel, 25% da população pratica trabalho voluntário, produzem principalmente bens e serviços sociais que representam 8% do PNB. Exércitos de voluntários, de diferentes comunidades judaicas do mundo, trabalham diariamente levando adiante suas instituições e programas em proporção superior às médias de seus respectivos países. A conclusão é clara: a possibilidade de desenvolver o voluntariado está ligada à interiorização dos valores éticos pelas pessoas.

• Hoje vemos duas instituições fundamentais do judaísmo que são bases da sociedade: a família e a educação. O judaísmo lhes assegura o mais alto valor. A Torá dá especial destaque. A ética judaica zela vigorosamente pelas relações entre marido e mulher, pais e filhos, irmãos e até sogros, genros e noras. O Rabi Yoshua Ben Gamla criou no ano 69 a primeira escola pública de que se tem referência. Hoje, muitos países estão analisando como fortalecer a família, duramente deteriorada, e gerar educação. O judaísmo tem contribuições muito expressivas para oferecer nestes campos.

• Nas sociedades latino-americanas, entre outras, adota-se com frequência políticas que sabidamente irão significar grande sofrimento para a população, com o argumento de que “o fim justifica os meios” e que são necessários para que haja maior crescimento econômico. A ética judaica não aceita tal raciocínio. Na Torá pode-se ler textualmente que “o fim não santifica os meios”. Refletindo sobre esta diferença, Albert Einstein perguntava “Quem havia sido o melhor condutor dos homens, Maquiavel (autor original do princípio de que o fim justifica os meios) ou Moisés? Quem teria dúvidas sobre a resposta?”

• Como encarar a pobreza e a desigualdade na América Latina e no mundo? O judaísmo indica caminhos que ecoam de forma crescente. Para este, o problema deve ser encarado por uma ação conjunta de todos os agentes sociais. Cada um deles deve assumir suas responsabilidades. Necessita-se de políticas públicas muito ativas. O judaísmo criou a primeira legislação fiscal sistemática para uso coletivo, o dízimo. Por outro lado, a comunidade e a sociedade civil devem organizar-se e agir. E, finalmente, tudo isso não exime cada pessoa de individualmente fazer o correto em cada situação de miséria ou injustiça com que se depare.

• Uma idéia central do judaísmo é a de Tikum Olam – ajudar a consertar o mundo. O Rebe de Lubavitch faz menção a uma simples interpretação de um conhecido episódio bíblico. Depois de sair do Egito e atravessar o deserto, quando os judeus se aproximam de Canaã, Moisés envia 12 exploradores. Ao regressarem, 9 deles desestimulam as pessoas, dizendo-lhes que não continuem. Com freqüência são considerados traidores. O Rebe observa que Moisés escolheu os melhores de cada tribo, eram pessoas excelentes; porque iriam ser desleais? O que ocorreu é que encontraram-se com sociedades perdidas na luxúria, corrupção e idolatria. O povo judeu, no deserto, era em contrapartida um povo espiritual entregado ao estudo da Bíblia. Temiam que seguindo para Canaã pudessem ser contaminados. Mas, se equivocaram disse o Rebe, pois o desejo de D’us era diferente. O que D’us queria não era que se recolhessem para conservar sua pureza e sim que levassem a espiritualidade aos mundanos, que difundissem os valores éticos nas sociedades infestadas de vícios. Em uma época como a nossa, em que tantas ideologias tombaram, a proposta do judaísmo de avançar até que o mundo se redima eticamente – e de que não é permitido ficar à deriva, mas sim agir para transformá-lo e lhe dar valores éticos – prevê grande duração e diz muito a todos os homens e mulheres empenhados em uma humanidade melhor.

A ética judaica está viva e fresca, podendo ajudar a enfrentar o “desencanto do mundo”, o “vácuo dos sentidos” e a inadiável conscientização dos paradoxos da grande pobreza em meio à riqueza potencial que particularizam a América Latina e o mundo. A mensagem deste conjunto ético foi dita pelo sábio do Século I, Hillel: “Se eu não for por mim, quem o será?” significa dizer que todos devemos defender nossa saúde, nossa vida, nossa família; somos insubstituíveis nisto. Mas, acrescentou: “E se eu for somente para mim?”, significando que a vida sem solidariedade, responsabilidade pelo destino de outrem, amor ao próximo, transcedência, não faz sentido. Finalizou: “Se não agora, quando?” O que espera a ética judaica de cada um de nós é que entremos em ação, agora!

Bernardo Kliksberg é presidente da Comissão de Desenvolvimento Humano do Congresso Judaico Latino-americano; assessor da ONU, OIT, UNESCO, UNICEF entre outros organismos internacionais.

Fonte: http://www.morasha.com.br/etica/impactos-da-etica-judaica-no-seculo-xxi.html – Edição 34 – Setembro de 2001.

 

 

Citação | Publicado em por | Deixe um comentário

A arte dos amuletos judaicos

Citação | Publicado em por | Deixe um comentário

A vida dos judeus na Ucrânia até início do século 20

Continuar lendo

Citação | Publicado em por | 1 Comentário

O Eterno D’US de Israel

 

 
 
O princípio fundamental da religião judaica é a existência absoluta de D’s. O judaísmo revela que D’s é um Ser pleno de propósitos, criador de um mundo no qual o homem tem uma razão de ser.
 
Maimônides, o maior de todos os filósofos judeus, inicia o seu Código de Leis com a afirmação de que o fundamento de todos os fundamentos e o pilar de todo o conhecimento reside em saber-se que existe um D’s que dá vida a todos os seres. Similarmente, o primeiro dos Treze Princípios de Fé Judaica, outra obra de Maimônides, proclama que D’s é o Criador Único e Senhor de todas as coisas. O judaísmo se inicia e termina com a menção a D’s – o D’s de Abrahão, Isaac e Jacob, que, ao longo de toda a Bíblia, se autodenomina “D’s de Israel”.
No entanto, quem é este D’s de Israel? O que sabemos sobre este D’s que libertou o povo judeu da servidão no Egito e, a seguir, revelou-Se a eles no Deserto do Sinai?
 
D’us verdadeiro

Na Bíblia, o profeta Jeremias proclama que “o Senhor D’s é a Verdade; Ele é o D’s Vivo…” (Jeremias 10:10). O profeta assim nos dá os conceitos mais básicos acerca de D’s. Como o D’s de Israel é um D’s Vivo, Ele certamente é tão existente e presente quanto qualquer outro ser. Portanto, D’s não pode ser apenas considerado como um “princípio universal” ou um “conceito filosófico”, como tentam apregoar alguns pensadores. Além disso, como o D’s de Israel é o D’s verdadeiro, Sua existência é real e incondicional, não sendo, portanto, sustentada ou definida pela fé ou imaginação de um ou outro indivíduo.
D’us oculto

E, no entanto, apesar de ser D’s Vivo e Verdadeiro, o D’s de Israel nos parece, com freqüência, misterioso e inatingível. A Torá relata que nem mesmo Moisés, o maior entre todos os profetas, podia perceber plenamente o alcance da Glória Divina (Êxodo 33:18-20). Em outra parte da Bíblia, o profeta Isaías clama diante de D’s: “Tu és um D’s misterioso, que te ocultas” (Isaías 45:15). E, em uma obra clássica do Zohar consta que “Não há idéia ou pensamento que possa abarcar a plenitude de D’s” (Tikunei Zohar, 17a). O Rabi Shneur Zalman de Liadi, fundador do movimento Chabad-Lubavitch, explica-nos que assim como fisicamente uma mão não consegue agarrar um pensamento, tampouco consegue a mente humana captar a plenitude de D’s.
Na Torah D’s nos aponta que o homem jamais O entenderá verdadeiramente, assim como não entenderá os Seus caminhos (Isaías 55:8-9). Entretanto, D’s também proclama que se verdadeiramente O buscarmos, com todo o nosso coração e toda a nossa alma, certamente O encontraremos (Deuteronômio 4:29). De fato, apesar de nenhum ser humano jamais poder alcançar o Divino, nem tampouco captar toda a Sua essência, há uma enormidade de noções acerca de D’s que nos são conhecidas.
 
Criador do Universo
 
A Bíblia basicamente define D’s como o Criador de todos os seres vivos e inanimados. Não há absolutamente nada no universo, quer seja espiritual ou material, que não se tenha originado de D’s. O verso de abertura da Torá nos relata: “No princípio criou D’s os Céus e a Terra” (Gênese 1:1). Adiante, afirma: “Eu sou o Senhor, que faço todas as coisas” (Isaías 44:24). Claramente, por ter criado todo o universo, D’s criou todas as matérias físicas.
No artigo intitulado “O que sabemos acerca de D’s”, Aryeh Kaplan, renomado rabino e físico norte-americano, utiliza a Teoria da Relatividade de Einstein para derivar algumas definições básicas sobre D’s. O Rabi Kaplan escreve que a Teoria da Relatividade estabelece que espaço e tempo são atributos da matéria. Isto significa que em tendo criado tudo o que é físico, D’s simultaneamente criou as noções de espaço e tempo. Como, obviamente, D’s antecede Suas criações, Ele não é afetado nem determinado pela matéria, espaço ou tempo.
 
Tempo

E como D’s esta alem da noção de tempo, todas as estruturas temporais – início, período de existência e fim – não se aplicam a Ele. As pessoas geralmente perguntam: se D’s criou o universo, quem, então, criou D’s? A estas se responde que D’s esta alem da noção de tempo que Ele mesmo criou. Portanto Ele não teve início , nunca foi criado. D’s sempre existiu.
O judaísmo sempre afirmou que D’s é Eterno, não teve início, “não envelhece” e não tem fim. Como nos explica o Rabino Aryeh Kaplan, o fato de D’s manter-se apartado de qualquer atributo de tempo nos revela ainda mais sobre a natureza de Sua existência. As mudanças somente ocorrem dentro de uma estrutura de tempo e, portanto, D’s não vivencia mudanças. Este conceito também é mencionado na Bíblia: “Porque Eu sou o Senhor, eu não mudo” (Malaquias 3:6).
 
Matéria e espaço

Como os atributos de matéria e espaço não se aplicam a D’s, Ele naturalmente não possui aparência nem forma. Em hipótese alguma D’s pode ser um Ser físico, pois tudo o que é físico é feito de matéria e ocupa espaço Basicamente, é esta a razão pela qual D’s não pode ser visto. Quando D’s se revelou ao povo judeu no Monte Sinai, o povo apenas O ouviu, não O podendo ver. E, de fato, a Torá diz que os atributos físicos não se aplicam a D’s: “Guardai, pois, cuidadosamente as vossas almas, pois aparência nenhuma vistes no dia em que o Senhor vosso Deus vos falou, em Horeb (Sinai)” (Deuteronômio 4:15).
Surge, às vezes, confusão, pois a Bíblia parece indicar, em algumas passagens, que D’s tem atributos físicos e humanos e que vivencia mudanças. Um exemplo clássico disto é o verso da Torá que afirma que o homem foi criado à imagem de D’s (Gênese 1:26). No entanto, tal afirmação é apenas uma figura de retórica. Pois, como explicam nossos sábios, se a Torá deve ser compreensível ao homem – um ser finito que vive em um mundo físico finito – precisa, então, falar a linguagem dos homens (Berachot 31a). Portanto, a Bíblia utiliza uma linguagem antropomórfica – atribuindo qualidades humanas a D’s – para que o homem possa, ao menos em parte, entender e relacionar-se com Ele. Assim sendo, ao invés de falar da Infinita Onisciência Divina, a Bíblia diz que os “olhos” de D’s estão em toda a parte e vêem tudo o que se passa no mundo. Quando D’s se contém em aplicar a justiça severa, a Bíblia afirma que Ele “se tornou misericordioso”, ou que “usou Sua mão direita”. Quanto ao conceito de ter o homem sido criado à imagem de D’s, uma das inúmeras explicações para esse verso é que o homem foi criado com uma alma Divina que, como o Criador, é imortal e eterna.
 
Unicidade Divina

Há ainda um atributo de D’s de importância capital. É revelado no verso mais enfatizado da Torá: “Escuta, ó Israel, o Senhor é nosso D’s, o Senhor é Um” (Deuteronômio 6:4). Tal verso, conhecido como o Shemá Israel, é a mais sagrada de todas as preces judaicas, porque revela o principal atributo Divino. O D’s de Israel é definido por Sua Unicidade. D’s e apenas Ele é a Fonte e o Criador de todos os seres animados e inanimados, espirituais e físicos. Não há outras divindades nem fontes independentes de poder no universo. A Torá nos diz: “Por isso hoje saberás, e refletirás no teu coração, que só o Senhor é D’s em cima no céu, e embaixo na terra; nenhum outro há”. (Deuteronômio 4:39).
Até mesmo a Filosofia deixa claro que D’s necessariamente é Único, e que não pode haver dois Seres Onipotentes. Pois se um é mais poderoso que o outro, obviamente o menos forte não é onipotente. E se ambos são absolutamente iguais em poder, um pode refrear o outro, e, assim, nenhum dos dois é onipotente. Daí, pois, que só pode haver Um Ser Onipotente.
Todos os conceitos da moralidade dependem da Unicidade de D’s. Se D’s não fosse Uno, não haveria código universal de conduta e comportamento humano, nem um código único de Verdade e Justiça. É por este motivo que a Torá afirma que a idolatria – a crença de que existe mais do que um único D’s – equivale à negação de toda a Torá. Os Mandamentos Divinos só podem ser absolutos e supremos se Ele é reconhecido como sendo Uno e o Único Senhor e Juiz do universo.
A Bíblia assim se refere a D’s: “Porque o “Senhor Altíssimo é tremendo, é o grande Rei de toda a terra” (Salmos 47:2). Poderia parecer, como alguns indivíduos pensam erroneamente , que um D’s assim tão grandioso, que não pode ser visto e que é intemporal, fosse distante e inatingível. Acreditam , erroneamente como explicaremos mais adiante , que um D’s que criou todo um universo não poderia ou ” não se interessaria em cuidar ” dos seres humanos, muito menos de cada indivíduo em especial.
 
Um D’us pessoal

O primeiro dos Dez Mandamentos é a revelação Divina ao povo judeu. Está escrito: “Eu sou o Senhor teu D’s, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão” (Êxodo 20:2).
Alguns comentaristas indagam por que teria D’s estabelecido a Sua existência através do Êxodo, e não através do fato de que Ele criou e rege todo o universo. Por que D’s não teria dito: “Sou o Senhor teu D’s que criou e rege todo o universo”? Estes comentaristas respondem que se D’s Se tivesse revelado como o Criador do Universo, poderíamos pensar que D’s criou o mundo e seus habitantes, retirando-se e afastando-se, a seguir.
O primeiro dos Dez Mandamentos revela que D’s está profundamente envolvido com a Sua criação. É um D’s pessoal, como está escrito: “Perto está o Senhor de todos os que O invocam, de todos os que O invocam em verdade” (Salmos 145:18). Na Bíblia, o profeta Ezequiel fala contra aqueles que clamam que “O Senhor não nos vê, o Senhor abandonou a terra” (Ezequiel 8:12).
Mas é natural que se pergunte como iria um D’s que criou um universo inteiro preocupar-se com os seres humanos. O Rei David dirigiu esta mesma pergunta a D’s: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste; que é o homem, mero mortal, para que dele te lembres? E o filho do homem para que o visites? (Salmos 8:3,4 ).
A resposta a esta e outras perguntas semelhantes é que D’s é Infinito. O Rabi Shneur Zalman of Liadi escreve em sua obra-prima cabalística, o Livro Tanya, que não há lugar algum no universo desprovido da presença Divina. Na linguagem da Cabalá, D’s é mencionado como o Ein Sof – o Infinito, Aquele que não tem fim nem limite.
D’s não é limitado pela matéria, espaço ou tempo; e por ser Uno e Infinito, Ele está em todas as partes a todo o tempo. A infinidade é indivisível e sem dimensões nem limitações e, portanto, para um D’s Infinito, o grande e o pequeno são iguais em magnitude e relevância. Este D’s que olha por todas as galáxias e estrelas no firmamento é igualmente consciente e atento aos detalhes mais ínfimos na vida de cada uma das pessoas. D’s vê o que fazemos, ouve o que dizemos e sabe de tudo o que pensamos e sentimos. A Bíblia nos conta que: ” O homem vê o exterior, porém o Senhor vê o coração” (Samuel 16:7). D’s alegra-se com nosso feitos, partilha de nosso júbilo e sente nosso sofrimento. Pois está escrito: “Ele Me invocará, e Eu lhe responderei; na sua angústia Eu estarei com ele…” (Salmos 91:15). Os sábios do Talmud usam a linguagem antropomórfica ao dizer que quando uma pessoa está em aflição, a Divina Presença está em aflição (Sanhedrin 6:5).
Apesar de D’s só se ter revelado no Sinai ao povo judeu, incumbindo-os de uma missão Divina, a Bíblia deixa claro que D’s é o Pai de todos os seres humanos (Malaquias 2:10). Juntamente com Sua Unicidade, D’s é definido, acima de tudo, por sua Bondade, Amor e Misericórdia Infinitas. Como está escrito: “Com amor Eterno Eu te amei…” (Jeremias 31:3). Em Sua Bondade Infinita, D’s concede Sua Providência e Sua Atenção a cada uma de Suas criaturas. Pois está dito: “Ele fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e mantém para sempre a sua fidelidade. Ele faz justiça aos oprimidos e dá pão aos que têm fome” (Salmos 146:6-7). Também está escrito: “O Senhor é bom para todos, e as Suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras” (Salmos 145:9).
Quanto ao povo judeu, D’s o chama o Seu primogênito, Sua glória, Seu tesouro, e uma nação de justos da qual se orgulha. O Baal Shem Tov, fundador do movimento Chassídico, ensina que D’s ama cada judeu mais do que os pais amam seu único filho, nascido em sua velhice. E este amor Divino é incondicional e se aplica a cada judeu, sem distinção. Maimônides escreveu que uma pessoa pode passar a vida em pecado, blasfemando contra D’s, mas Este sempre está pronto a aceitá-lo de volta e a lhe permitir um novo começo.
Maimônides inicia seu Código de Leis afirmando que o fundamento de todos os fundamentos é a existência de D’s. Encerra este Código falando de uma era em que o mundo inteiro estará ocupado apenas em conhecer os mistérios de D’s. Diz que será a época em que não haverá fome nem guerras, dificuldades nem sofrimento. A bondade fluirá em abundância e todas as benesses estarão disponíveis como o pó.
Esta época, conhecida como a Era Messiânica, será a redenção suprema para toda a humanidade. Falando desta era, dizemos ao término de nossas preces diárias: “Naquele dia D’s será Um e Seu Nome será Um” (Zacarias 14:9). Nossos sábios fazem a seguinte pergunta: Não será D’s sempre Um, como o proclamamos no Shemá? Ao que respondem explicando que na redenção messiânica não veremos mais diferenças entre às vezes D’s que nos cobre de bondade e outras nos cobre de tristeza. Naquele época ficará claro que D’s apenas pratica o bem, e que tudo o que ocorre no mundo – mesmo o que é visto pelos homens como sendo ruim e doloroso – na realidade visa o próprio bem da humanidade.
O Rebe de Lubavitch costumava proclamar que esta época deixara de ser um sonho distante, e era uma iminente realidade. Perguntavam-lhe como ele podia antever tanta coisa boa para o futuro de uma era marcada por tanta maldade, especialmente com o povo judeu. O Rebe respondia que a hora mais escura é a que antecede a aurora. O Êxodo foi precedido pela escravidão. A mais intensa opressão de nossos antepassados no Egito ocorreu justamente antes de sua libertação.
Nossos sábios nos ensinam que a redenção suprema irá comparar-se à redenção de nosso povo da escravidão no Egito. Na Bíblia, D’s mesmo nos promete: “Eu te mostrarei maravilhas, como nos dias da tua saída da terra do Egito” (Miquéias 7:15). Será uma era de paz universal na qual a existência e a presença de D’s serão claras para todo o mundo. Não mais haverá idolatria nem interpretações errôneas sobre D’s Vivo e Verdadeiro. O mundo inteiro reconhecerá que o D’s de Israel é o Rei Único de todo o universo. E, naquele dia, toda a humanidade perceberá e proclamará que D’s é Um e Seu Nome Santificado é Um.
 
 
Fonte: http://www.morasha.com.br/ –  Edição 28 – Abril de 2000
Publicado em OS SÁBIOS ENSINAM | Deixe um comentário

ALBERT EINSTEIN

Imagem

Einstein: cientista e humanista

Autor da Lei da Relatividade e Prêmio Nobel de Física de 1922, Albert Einstein foi eleito Personalidade do Século XX pela revista Time. Considerado o pai da Física Atômica, seu nome é consenso na comunidade científica mundial e ninguém duvida de que suas teorias revolucionaram a ciência abrindo perspectivas até então inimagináveis.

 

Não há ninguém no mundo que não tenha ouvido o nome de Einstein. Seja como humanista, cientista ou homem, todos falam de maneira corriqueira sobre a Teoria da Relatividade. No entanto, nem sempre foi assim. Houve mesmo momentos, no início de sua vida profissional, em que nem emprego como professor ele conseguia, apesar de seu diploma e de seus excelentes resultados acadêmicos.

Segundo a revista Time, que traz em sua edição de 10 de janeiro deste ano uma ampla reportagem sobre o físico, Einstein conseguiu seu primeiro emprego graças a uma recomendação do pai de Marcel Grossman, um de seus melhores amigos. Foi, então, em 1901, contratado como assistente técnico do Departamento de Patentes da Suíça. Quatro anos mais tarde, obtinha o seu doutorado.

Judeu assumido, apesar de ter sido criado em um lar no qual o judaísmo jamais fora praticado e, posteriormente, simpatizante do sionismo, Einstein sempre acreditou em D’us. Sempre defendeu a ideia de o cosmo ser uma obra harmoniosa, fruto de uma inteligência suprema, responsável pela organização da matéria e da vida.

Foi elogiado por um grão-rabino da França, Jacob Kaplan, que admirou a sua capacidade de conciliar a rigorosa pesquisa sobre o universo com a convicção da existência de uma força criadora superior. Sua ligação com o sionismo e o Estado de Israel levou o então primeiro-ministro David Ben-Gurion, em 1952, a convidá-lo a suceder Chaim Weizmann na presidência do Estado Judeu, convite que o físico recusou alegando não estar à altura do cargo. Anteriormente, havia participado ao lado de Weizmann da campanha para arrecadação de fundos para a criação da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Einstein conseguiu ser a rara combinação de um gênio que possui um profundo senso de moral e é totalmente indiferente às convenções. Dono de uma personalidade controversa, segundo os seus amigos mais próximos, um tanto quanto temperamental principalmente em suas relações pessoais, Einstein foi o símbolo de tudo o que era novo, original e incerto na era moderna.

O jovem Einstein

Albert Einstein nasceu em Ulm, Alemanha, em 1879. Em sua certidão de nascimento constam as seguintes informações: “Nº 224. Ulm, 15 de março de 1879. Hoje, o comerciante Hermann Einstein, residente em Ulm, Bahnhofstrasse, 135, judeu, pessoa conhecida, compareceu perante o escrivão abaixo e declarou que uma criança do sexo masculino, que recebeu o nome de Albert, nasceu em Ulm, na sua residência, filho de Pauline Einstein, sua esposa, com o sobrenome Koch de solteira, judia, no dia 14 de março de 1879, às 11h30. Lido, confirmado e assinado: Hermann Einstein. O escrivão, Hartman”. A casa de Bahnhofstrasse foi destruída durante um ataque aéreo em 1944, mas o registro de nascimento ainda se encontra nos arquivos de sua cidade natal.

Albert foi o primeiro dos filhos de Hermann e Pauline, depois do qual nasceu Maria, em 18 de novembro de 1881. Segundo Abraham Pais, autor da obra “Sutil é o Senhor…A Ciência e a Vida de Albert Einstein”, provavelmente ela foi o ser humano a quem Einstein se sentiu mais ligado ao longo de sua vida. Chamava-a, carinhosamente, de Maja. Criados no seio de uma família predominantemente liberal, Einstein e sua irmã não receberam educação religiosa no lar e lhes foi transmitida uma visão pragmática face à religião.

Em um ensaio biográfico de Maja sobre o irmão, terminado em 1924, e mencionado na obra de Pais, há muitas informações sobre os primeiros anos de Einstein. São recordações familiares entre as quais ela menciona a preocupação da mãe, quando Einstein nascera, por causa da grande e angulosa parte posterior da cabeça do bebê; e da primeira reação de uma das avós ao ver o então mais jovem membro da família: “Viel zu dick! Viel zu dick” (“É pesado demais”). Maja fala também dos primeiros receios familiares de que a criança pudesse ser retardada, por causa do tempo excessivo que levou para começar a falar.

Segundo a obra de Pais, com base em uma das primeiras memórias de infância do próprio Einstein, quando tinha entre dois e três anos, ele queria dizer frases completas. Ensaiava a frase para si mesmo, dizendo-a em voz baixa. Se lhe parecesse boa, pronunciava-a em voz alta. Pais afirma, também, que Einstein era muito calmo quando pequeno, preferindo brincar sozinho. “Todavia era temperamental. Podia explodir de cólera. Nesses momentos, a face empalidecia, a ponta de nariz embranquecia e podia descontrolar-se. O pequeno e querido Albert chegou a arremessar objetos na irmã em várias ocasiões, mas os ataques de cólera cessaram por volta dos sete anos”, lembra Maja em seu ensaio. Ainda em sua infância, aprendeu a tocar violino, tornando-se um amante da música, mas jamais um músico brilhante.

Seis meses após o nascimento de Einstein, a família mudou-se para Munique, onde ele iniciou sua vida escolar posteriormente no Luitpold Gymnasiun, no qual permaneceu até os 15 anos. Em todos esses anos, obteve sempre, ou quase sempre, as notas mais altas em Matemática e em Latim. Sobre este período, sua irmã escreveu: “No conjunto, Einstein, no entanto, não gostou daqueles anos de escolaridade; professores autoritários, estudantes servis, ensino livresco – nada disso lhe caía bem. Além do mais, tinha uma natural antipatia por (…) ginástica e esportes (…). Tinha tonturas e cansava-se facilmente. Sentia-se isolado e fazia poucos amigos na escola”.

Alguns anos mais tarde, seus pais foram para Milão, Itália, mas ele continuou seus estudos na Suíça e, em 1896, ingressou na Escola Politécnica Federal, em Zurique, onde estudou Física e Matemática. Foi neste ano que decidiu desistir de sua cidadania alemã, pagando então três marcos por um documento, autenticado em Ulm, que declarava que já não era mais cidadão alemão. Em 1901, ao formar-se, adquiriu a cidadania suíça e começaram suas dificuldades para conseguir lecionar. Foi quando obteve o emprego no Departamento de Patentes em Berna.
Simultaneamente à sua vida profissional e científica, Einstein encontrou tempo para sua vida pessoal. Em 1903 casou com Mileva Maric, ex-colega de estudos, apesar da oposição da família. Teve dois filhos, Hans Albert e Eduard, divorciando-se. O mais velho tornou-se um importante professor de Hidráulica na Universidade da Califórnia e o mais jovem, formado em Música e Literatura, morreu em um hospital psiquiátrico na Suíça. Em 1919, Einstein e Mileva divorciaram-se e ele casou-se com sua prima, Elsa Einstein, que faleceu em 1936.

Início do sucesso

Em 1909, Einstein tornou-se professor Extraordinário em Zurique e, dois anos mais tarde, professor de Física Teórica em Praga. Em 1912, passou a ocupar o mesmo cargo em Zurique. Em 1914, foi indicado diretor do Instituto Kaiser Wilhelm de Física e professor da Universidade de Berlim, tornando-se, novamente, cidadão alemão no mesmo ano. Em 1920, durante uma de suas aulas em Berlim, foram realizadas manifestações anti-semitas, fato que o levou a deter-se com mais atenção aos fatos que então ocorriam na Alemanha.

Um ano mais tarde, fez sua primeira visita aos Estados Unidos cujo objetivo principal era arrecadar fundos para a construção da Universidade Hebraica de Jerusalém. Na ocasião, recebeu a Medalha Barnard e deu várias palestras. Em 1922, recebeu o Prêmio Nobel de Física, não pela Teoria da Relatividade, mas por um trabalho de 1905 sobre os efeitos fotoelétricos. Ele não participou da cerimônia de premiação pois estava no Japão. Ao longo de sua vida, visitou vários países, incluindo alguns da América Latina.

Em 1933, Einstein renunciou mais uma vez a cidadania alemã por razões políticas e emigrou para os Estados Unidos, onde assumiu a função de professor de Física Teórica na Universidade de Princeton. Tornou-se cidadão americano em 1940, mas manteve a cidadania suíça. Aposentou-se em 1945.

Ao longo de sua vida, Einstein atuou em prol da paz. Em 1944, por exemplo, autografou o seu trabalho de 1905 e permitiu que fosse leiloado para ajudar as vítimas da guerra. Cerca de seis milhões de dólares foram arrecadados e o manuscrito encontra-se atualmente na Livraria do Congresso.

Doou os manuscritos de seus trabalhos científicos para a Universidade Hebraica de Jerusalém, da qual foi presidente de 1925 a 1928. Recusou um convite para retornar ao cargo em 1933, por discordar da forma como era administrada. Uma semana antes de sua morte assinou sua última carta. Foi endereçada a Bertrand Russel na qual concordava em que seu nome fosse incluído em um manifesto pedindo a todas as nações que abandonassem as armas nucleares. Uma posição totalmente diferente da que possuía em 1939, quando defendeu o desenvolvimento da bomba atômica.

Einstein morreu no dia 18 de abril de 1955 em Princeton, Nova Jersey. Seu corpo foi cremado e seu cérebro doado a Thomas Harvey, patologista do Hospital de Princeton. Deixou várias histórias sobre sua vida e personalidade, muitas da quais, apesar de repetidas inúmeras vezes como se fossem verdadeiras, não passam de simples histórias, como por exemplo, o fato de que não conseguiu passar em matemática quando ainda era jovem; ou então que não era capaz de lembrar o endereço de sua casa ou de contar o troco correto da passagem de ônibus…

Em 1996, a Fundação Filantrópica Jacob E. Safra e a família Safra doaram ao Museu de Israel os manuscritos de Albert Einstein sobre a Teoria Especial da Relatividade, datados de 1912.

Idéias e teorias

Einstein sempre teve uma visão clara sobre os problemas da Física e a determinação de encontrar soluções. Tinha uma estratégia própria e era capaz de visualizar as etapas para atingir seus objetivos. Para ele, cada êxito era apenas mais um passo para o próximo avanço. Ele descobriu, apenas pensando sobre isso, a estrutura essencial do cosmos. Os pilares do mundo atual – a bomba, viagens espaciais, eletrônica, entre outros – têm a marca de suas impressões digitais.

Desde que começou a se dedicar à ciência, o então jovem físico percebeu algumas inadequações nas idéias de Newton e desenvolveu uma teoria especial da relatividade em uma tentativa de reconciliar as leis de mecânica com o campo da eletromagnética. Lidou com problemas clássicos de mecânica estatística os quais se fundiam com a teoria quântica, entre outros temas.

Durante sua permanência no Departamento de Patentes da Suíça, aproveitando o tempo livre que tinha, produziu uma grande parte dos seus trabalhos científicos que lhe garantiram posterior notoriedade. Em 1903 e 1904 publicou artigos sobre os fundamentos da mecânica estatística. Em 1905 terminou um trabalho que lhe garantiu o Prêmio Nobel de Física em 1922, além de finalizar o texto que lhe deu o título de Doutor pela Universidade de Zurique. Em finais de 1906, acabou um artigo fundamental sobre calores específicos e, no ano seguinte, deu as primeiras contribuições importantes para a Teoria da Relatividade geral.

Durante os anos 20, Einstein trabalhou no campo da unificação das teorias, embora prosseguisse com seus estudos sobre as probabilidades de interpretação da teoria quântica. Deu continuidade a estas pesquisas após emigrar da Alemanha para os Estados Unidos. Contribuiu também para o desenvolvimento da mecânica estatística. Ao aposentar-se continuou a trabalhar rumo à unificação dos conceitos básicos de física assumindo uma posição geometricamente oposta a da maioria dos físicos.

Seus principais trabalhos são: “Teoria Especial da Relatividade”, 1905; “Teoria Geral da Relatividade”, 1916; “Investigações sobre a Teoria do Movimento Browniano”, 1926; e “Evolução da Física”, 1938. Entre seus trabalhos não científicos destacam-se “Sobre Sionismo”, 1930; “Minha Filosofia”, 1934; e “Meus últimos anos”, 1950.

Einstein recebeu o título de Doutor Honorius Causa em Ciência, Medicina e Filosofia de diferentes universidade americanas e europeias  Durante os anos 20, lecionou na Europa, América e Leste Europeu e recebeu os títulos de Fellowship e Membro-Honorário da várias instituições científicas renomadas de todo o mundo. Recebeu vários prêmios entre os quais O Nobel de Física em 1922; a Medalha Copley da Sociedade Real de Londres, em 1925; e a Medalha Franklin, do Instituto Franklin, em 1936.

Frases de Einstein

“A paixão pelo conhecimento em si mesmo, a paixão da justiça até o fanatismo e a paixão da independência pessoal exprimem as tradições do povo judeu e considero minha pertença a esta comunidade como um dom do destino.

Aqueles que hoje se desencadeiam contra os ideais de razão e de liberdade individual e que, com os meios do terror, querem reduzir os homens a escravos imbecis do Estado, nos consideram com justiça como seus irreconciliáveis adversários. A História já nos impôs um terrível combate. Mas, por longa que seja nossa defesa do ideal de verdade, de justiça e de liberdade, continuamos a existir como um dos mais antigos povos civilizados, e sobretudo realizamos no espírito da tradição um trabalho criador para a melhoria da humanidade”.

“A História confiou-nos nobre e importante missão sob a forma de uma colaboração ativa para construir a Palestina… Temos a possibilidade de instalar focos de civilização nos quais todo o povo judeu pode reconhecer sua obra. Esperamos profundamente estabelecer na Palestina um lugar para as famílias e para uma civilização nacional própria, que permita despertar o Oriente Médio para uma vida econômica e intelectual”.

“Tem um sentido a minha vida? A vida de um homem tem sentido? Posso responder a tais perguntas se tenho espírito religioso, Mas, ‘fazer tais perguntas tem sentido?’ Respondo: ‘Aquele que considera sua vida e a dos outros sem qualquer sentido é fundamentalmente infeliz, pois não tem motivo algum para viver”.

Bibliografia

Pais, Abraham, “Sutil é o Senhor…A Ciência e a Vida de Albert Einstein”
Einstein, Albert, Como Vejo o Mundo
Revista Time, 10/01/2000
Manuscritos de 1912 da Teoria Especial da Relatividade de Einstein

 

Fonte: http://www.morasha.com.br/  –  Edição 28 – Abril de 2000

 

 

Publicado em OS SÁBIOS ENSINAM | Deixe um comentário

Purim e a Providência Divina

Purim é uma festividade judaica única. Enquanto as demais festas religiosas enfatizam a espiritualidade – em Chanucá, por exemplo, acendemos velas que simbolizam a alma do homem e a Torá – Purim é guardada cumprindo-se quatro mandamentos, três do quais envolvem alimentos e bebidas.

 

Precisamos ter uma refeição festiva e abundante; enviar presentes com dois ou mais alimentos prontos para os amigos; doar dinheiro aos pobres, para que eles, também, possam desfrutar da festa; e estar presente na sinagoga para ouvir a leitura da Meguilat Esther. O principal tema de  Purim é a alegria, assim, além dos fartos alimentos e bebidas, realizam-se desfiles e celebrações, e as pessoas e crianças se fantasiam e usam divertidas máscaras.

Purim é uma ocasião festiva, mas pode dar a impressão de ser extremamente materialista. Mesmo a leitura pública daMeguilat Esther aparenta ser despida de espiritualidade, pois entre os 24 livros do Tanach (Torá, Profetas e Escritos Sagrados), é o único que nunca menciona o nome de D’us. Isso parece indicar que D’us não participou na história dePurim.

O mandamento dessa leitura da Meguilá parece ser a antítese das luzes de Chanucá: ao invés de dar publicidade a um milagre Divino, aparentemente aqui há uma negação do mesmo. De fato, podemos perguntar-nos por que a Meguilat Esther foi incluída no Tanach. Não se trata de um livro de mandamentos Divinos, como a Torá, tampouco uma ode a D’us, como o Livro dos Salmos. Pelo contrário, lê-se o Livro de Esther como um romance, onde há heróis e vilãos, tramas de conspirações e assassinatos, amor e sedução, reviravoltas, e, por fim, um final que foi plagiado, repetidamente, por escritores e cineastas: o mal se volta contra quem o iniciou, enquanto os heróis, após passar por um período de turbulência e sofrimento, emergem triunfantes.  Uma história fascinante e divertida, com certeza; mas seus autores acharam por bem não elencar D’us como um de seus personagens.

Um dia no qual comemos e bebemos, vestimo-nos com fantasias, realizamos festas e vamos à sinagoga para ouvir a leitura pública de uma história na qual não se menciona nem uma única vez o nome do Todo Poderoso parece contrário ao espírito do judaísmo. Contudo, nossos Sábios sempre prezaram a festa de Purim e nos ensinaram que deve ser celebrada como o dia mais jubiloso do calendário judaico. Os Cabalistas chegam ao ponto de equipará-la ao dia mais sagrado do ano: eles indicam que Yom HaKipurim literalmente significa “o Dia da Expiação”, mas também, o “Dia comoPurim” (Yom (Ha) ke´Purim). Quanto ao texto que conta sua história, além de ter sido escolhido para integrar o Tanach, aMeguilat Esther foi comentada por nossos maiores Sábios.  Há um tratado inteiro do Talmud – Tratado Meguilá – que discute, entre outros, a Meguilat Esther e a história e as leis de Purim

Mas, se Purim é uma festividade tão sagrada, por que razão seus mandamentos são tão materialistas? E se a Meguilat Esther é um livro sagrado, digno de ser incluído no Tanach, por que razão não faz menção a D’us sequer uma única vez?

Uma história feliz e inesperada

A história de Purim, segundo o relato da Meguilat Esther e a elucidação do Talmud e do Midrash, é uma saga com final feliz e inesperado, constituída por um sem fim de eventos fortuitos – a que muitos chamam de “coincidências”.

O rei da Pérsia, Achashverosh, que reinava sobre um grande império, organizara uma celebração com duração de um semestre. Ele ordenou à sua mulher, a rainha Vashti, que desfilasse nua durante as celebrações, como forma de mostrar sua grande beleza. Normalmente, ela não se teria oposto àquele pedido, no entanto, como havia contraído uma terrível doença de pele, não quis revelar o seu aspecto desagradável. O rei, furioso com sua recusa, fez com que a banissem do reino e a executassem.

Como o rei necessitava uma nova rainha, seus mensageiros saíram em busca de lindas moças, levando-as ao harém real. Uma delas era Esther, que era judia.  Ela também, por “coincidência”, era parenta de Mordechai – líder, à época, do Povo Judeu – que a criara.  Entre todas as mulheres do harém, é com Esther que o Rei se encanta e por quem se apaixona.

Enquanto Esther vive com Achashverosh em seu palácio, Mordechai toma conhecimento de um complô para assassinar o rei. Ele se apressa em levar a informação à Esther. O assunto é investigado e corroborado, sendo executados os que conspiravam contra a vida do soberano. Esther comunica a Achashverosh que fora Mordechai quem os prevenira sobre a conspiração. Inexplicavelmente, Mordechai não é recompensado por ter salvado a vida do rei; mas seu ato heroico é registrado nas crônicas reais. 

A trama se intensifica quando Haman – um homem que, como Hitler, era obcecado com a idéia de extirpar o Povo Judeu da face da Terra, de uma hora para outra, sobe ao poder e se torna primeiro ministro do reino. Ele convence Achashverosh – que não sabe que sua amada esposa Esther é judia – a lhe dar permissão de executar uma Solução Final para o Problema Judeu.  Haman estava determinado a executar Mordechai, que se recusa a se curvar perante ele, e, em seguida, a exterminar todos os judeus – homens, mulheres e crianças.

Haman manda construir a forca onde executaria Mordechai. Mas, na noite antes da planejada execução, o rei Achashverosh acorda em meio a seu sono e não consegue voltar a dormir. Pede então a seus serviçais que leiam para ele as crônicas reais. Entre os relatos encontra-se o episódio em que Mordechai havia salvado sua vida. Achashverosh pergunta aos serviçais se Mordechai tinha sido recompensado por tão nobre feito e é informado de que não. O Rei decide que era chegada a hora de pagar sua dívida de gratidão. E assim, no dia em que Mordechai devia ser executado, ele é recompensado pelo rei Achashverosh. Para cúmulo da ironia, o Rei ordena a Haman que ele, pessoalmente, renda o tributo ao líder dos judeus. Este se torna o momento da virada na história: a roda da vida começa a girar para o protagonista e o antagonista.

Enquanto a sorte de Mordechai começa a subir, a de Haman cai vertiginosamente. O clímax ocorre quando Esther – que vinha tramando secretamente com Mordechai uma forma de frustrar os planos genocidas de Haman – finalmente revela a Achashverosh que era judia. O rei desencadeia sua fúria contra Haman, e o vilão é enforcado no próprio patíbulo que construíra para Mordechai.  A história termina com Haman morto, em desgraça. Seus dez filhos malvados também foram enforcados – assim como o foram os dez filhos espirituais de Hitler após os julgamentos de Nuremberg. A Solução Final para o Problema Judeu é frustrada, Esther continua como rainha, Mordechai se torna o novo primeiro ministro do reino e os judeus passaram a ser honrados e favorecidos. Como escreveu Shakespeare: “Tudo bem quando termina bem”…

Mas é bem possível que tudo não tivesse terminado bem se qualquer um dos eventos da história de Purim tivesse sido um pouco diferente. E se a rainha Vashti não tivesse contraído uma doença de pele justo antes das celebrações? E se o rei Achashverosh tivesse sido mais compreensivo e tivesse decidido perdoá-la? E se uma moça não judia tivesse atraído seus olhares e fosse “a eleita” para sua rainha? E se uma moça judia fosse escolhida, mas não Esther – alguém que não conhecesse Mordechai, alguém que preferisse manter sua identidade judaica em segredo, e que não tivesse feito nada para salvar seu povo? E se jamais tivesse havido um complô para matar o Rei? E se Mordechai não tivesse tomado conhecimento de tudo? E se o Rei não tivesse despertado no meio da noite antes da planejada execução de Mordechai? E se outras passagens das crônicas reais, que não aquela sobre o nobre gesto do líder judeu que lhe salvara a vida, lhe tivessem sido lidas? E se Mordechai tivesse sido recompensado por seu ato ao invés de ter um mero registro nas crônicas reais? 

Há outros eventos fortuitos na história de Purim. Mencionamos alguns deles para ilustrar que bastava algum acontecimento, de maior ou menor porte, ter-se desenrolado de forma ligeiramente diferente para que a história fosse completamente outra. Mas como devemos interpretar esta cadeia de ocorrências fortuitas? Teriam os judeus sido poupados da aniquilação porque Alguém os guardava – trabalhando por trás dos bastidores para poupá-los? Ou teria a série de coincidências, resultado, em última instância, na salvação dos judeus?

Providência Divina ou simples coincidência?

Falando de modo geral, todos os seres humanos se dividem em dois grupos. Quando algo notável acontece com os integrantes do primeiro grupo, eles o entendem como algo mais do que simplesmente sorte; consideram como evidência de que Alguém zela por eles. Para tais pessoas, tudo é um sinal ou mensagem Divina e nada na vida é simples coincidência. Em contraste, os que pertencem ao segundo grupo, mesmo crentes em D’us, não endossam a ideia da Providência Divina. Portanto, sempre que algo de fortuito lhes ocorre, eles o consideram uma coincidência, e sempre que são confrontados com uma situação de incerteza, sentem-se apreensivos e até temerosos, pois crêem que nós, seres humanos, estamos sós neste mundo, sem ninguém que zele por nós.

Todos nós, judeus e não judeus, nos enquadramos em um desses dois grupos. Interpretamos os eventos felizes em nossas vidas como sinais Divinos, milagres? Ou os vemos como meras coincidências?

À luz desta pergunta, podemos abordar o mistério da Meguilat Esther não mencionar o nome de D’us sequer uma vez. Quem a escreveu? Não foi nenhum dramaturgo laico, mas seus próprios protagonistas: Mordechai e Esther. E foram os membros da Grande Assembleia, os Anshei Knesset Ha’Guedolá – constituída por 120 sábios, escribas e profetas – que  a incluíram entre os 24 livros do Tanach. Os autores da Meguilá omitiram propositalmente o Nome de D’us, e os Homens da Grande Assembleia corroboraram sua decisão, pois a história de Purim tem o propósito de nos ensinar uma lição que é ainda mais profunda do que a que nos é transmitida pelas velas de Chanucá.  Esta lição é que D’us governa Seu mundo enquanto Ele Próprio permanece oculto.  A mensagem da Meguilá é atemporal e universal.

Em Pessach, celebramos os milagres que D’us fez em favor do Povo Judeu na época de Moshé – no Egito e no deserto de Sinai.  Em Chanucácelebramos os milagres que D’us realizou em prol de nossos antepassados na época do segundo Templo Sagrado. Mas, desde então, quando foi que D’us realizou milagres? A Meguilat Esther ensina que o Todo Poderoso nunca cessou de fazer milagres, mas Ele agora trabalha por trás dos bastidores. Para simultaneamente fazer milagres e ocultar a Sua Presença e participação, Ele orquestra os eventos em nossas vidas em uma forma que nos faz imaginar a quem os atribuir: à Providência Divina ou simplesmente à sorte.

Não é apenas a Meguilat Esther, mas Purim como um todo que tem como seu tema básico e subjacente a ocultação Divina. Até mesmo o nome da protagonista da história, Esther, alude a isso. Este nome é derivado da palavra hebraica “Hester”, que significa “ocultação”, e alude ao conceito deHester Panim – a ocultação da “Face Divina”: uma época quando D’us não mais Se revela abertamente.

De fato, Esther nem era mesmo seu verdadeiro nome, que era Hadassah. O nome Esther, muito comum na Pérsia antiga, fora escolhido para ocultar sua identidade judaica até o momento em que ela a tornasse pública.

O costume de usar fantasias e máscaras em Purim também faz referência à ocultação Divina. Como o relato da Meguilá, aparentam ser mero entretenimento, mas transmitem uma séria mensagem: a de que D’us usa um disfarce e uma máscara e estes são o curso natural dos eventos e as leis naturais do mundo, que ocultam a Sua Presença e a Sua Providência. De fato, os Cabalistas ensinam que a palavra hebraica Olam, mundo, deriva da palavra Helem, que significa “oculto”. Vivemos em um mundo no qual seu Criador e Governante – Aquele que verdadeiramente comanda o espetáculo – permanece nas sombras.

O Nome de D’us foi propositalmente deixado fora da Meguilá para servir como uma mensagem e um desafio para todos os judeus e, de fato, para todos os seres humanos: não apenas quando ouvirmos a história de Purim, mas em nossa vida diária, vemos sinais Divinos – milagres ocultos – ou apenas coincidências? Colocando de outra maneira: Estará alguém zelando por nós? Ou nós, os 7 bilhões de seres humanos, estamos completamente sós neste mundo?

Três tipos de milagres

Há três festas judaicas que comemoram a salvação do Povo Judeu –PessachChanucá e Purim – sendo que cada uma simboliza um tipo diferente de milagre.  Em Pessach, celebramos milagres sobrenaturais ocorridos na época em que Moshé liderou o Povo Judeu: as 10 pragas, a divisão do mar, o maná que caía dos céus e outros mais. Esses milagres Divinos foram tão óbvios que mesmo o Faraó e seus magos idólatras não puderam negar sua Origem. Mas após Moshé Rabenu, milagres sobrenaturais em tamanha quantidade e magnitude jamais voltaram a ocorrer. 

Já os milagres que celebramos em Chanucá são uma mescla entre o natural e o sobrenatural. São naturais no sentido de que não caíram dos Céus: os Macabeus tiveram que lutar para vencer. Ademais, uma superpotência ser derrotada por um exército paramilitar, apesar de altamente improvável, não pode ser considerado um evento sobrenatural. Há apenas poucas décadas, as duas grandes superpotências foram derrotadas por exércitos de guerrilhas: os americanos pelos vietcongues e os soviéticos pelos afegãos. 

Daí a necessidade de um segundo milagre em Chanucá: o suprimento de azeite para um dia que ardeu durante oito dias.  Este milagre, que foi, de fato, sobrenatural, foi necessário para fazer entender ao Povo Judeu que sua vitória militar tinha sido também milagrosa, ainda que natural.  Mas mesmo os milagres de Chanucá, aos quais anunciamos acendendo as velas da festividade, estes ocorreram em nível nacional, quando os judeus viviam na Terra de Israel – a Morada Terrena de seu Pai Celestial. Sua luta era empreendida em nome de D’us, para preservar a Sua Torá e reaver Seu Templo Sagrado. Portanto, não surpreende o fato de o Divino ter vindo em seu socorro: o Rei lutou ao lado de Seus leais soldados.

Mas, será que D’us opera milagres por nós, individualmente, mesmo quando vivemos fora da Terra de Israel? Purim nos ensina que Ele o faz. Mas se por um lado os milagres de Pessach foram sobrenaturais e os de Chanucá uma mistura do natural com o sobrenatural, os de Purim foram unicamente do tipo natural. Milagres desse tipo são menos empolgantes do que os demais, mas em alguns aspectos, são os mais maravilhosos, pois acontecem o tempo todo, sem que nos demos conta de estarem ocorrendo.

A seguinte analogia ajuda a transmitir a razão para um milagre natural ser, de certa forma, superior a um sobrenatural. De tempos em tempos, temos notícia de uma operação extraordinária realizada pelas Forças Especiais do exército de Israel. Esses feitos heroicos são semelhantes a milagres sobrenaturais no sentido de serem louvados e celebrados e causarem um “big-bang” no mundo. Mas raramente ouvimos falar das inúmeras vezes em que os espiões israelenses – pessoas que ocultam sua identidade – frustram um ataque terrorista. Somente os espiões e os chefes dos serviços de inteligência em Israel estão cientes de quantas vezes eles conseguiram abortar tragédias e sofrimento. Em Israel e na Diáspora, eles são heróis judeus dos tempos modernos que zelam por nós; mas como são espiões, não podem revelar sua identidade, nem o que fazem, muito menos o que sabem. Portanto, raramente chegam ao nosso conhecimento seus esforços extraordinários e heroicos. As Forças Especiais de Israel realizam feitos que são espetaculares, porém raros. Em contraste, os espiões agem nas sombras, mas trabalham todos os dias para nos salvar contra aqueles que querem nosso mal.

Esta analogia está longe de ser perfeita, porque diferentemente dos espiões, D’us está em toda parte. Mas serve para transmitir a ideia de que a qualquer momento podemos vivenciar milagres, ainda que naturais. Como ensina o Talmud, não podemos sequer imaginar quantas vezes na vida D’us evitou males que vinham em nosso caminho. E mais, como o Todo Poderoso habita acima de tudo e do tempo, Ele zela por nós no presente e também olhando para o futuro. Isto significa que um evento mundano e aparentemente inconsequente poderia ter, muitos anos depois, um enorme significado – poderia ter sido um grande milagre. 

A história de Purim é o maior exemplo disto.  Poucas pessoas estão cientes de que os eventos narrados na Meguilá ocorreram durante um período de 12 anos.  Muitos dos eventos que constituem a história de Purim provavelmente passaram despercebidos pela grande maioria dos judeus que viviam no reinado de Achashverosh. Que diferença fez para eles o fato de a rainha Vashti ter-se recusado a desfilar nas comemorações? Doze anos depois, tornou-se claro: iniciava-se um processo que acabaria salvando-os da aniquilação. 

Mas não sejamos ingênuos neste debate sobre os sinais e os milagres Divinos. Acreditar na Providência Divina não significa que a vida seja despida de dor e sofrimento. Nós, judeus, sabemos disto muito bem. O que significa é que como D’us está sempre presente, nada acontece sem uma razão ou propósito: tudo é, de alguma forma, parte de um plano Divino. Um corolário disto é que o homem não pode fugir nem se esconder de D’us.

Os Hamans e os Hitlers do mundo não são apenas a personificação da maldade – eles também são tremendamente tolos. Não importa quão poderoso um homem possa se julgar, é estúpido tentar medir forças com o Infinito. Haman e seus filhos, Hitler e seus capangas, e todos aqueles que com eles colaboraram, são responsáveis perante D’us por todos os seus atos. Sua desgraça e sua morte não foi seu fim, mas apenas o começo do sofrimento eterno que eles vivenciariam após deixar este mundo. Pois não há sofrimento na Terra que seja comparável ao castigo Divino imputado aos malfeitores no Mundo Vindouro. Mas o oposto também é válido para todas as pessoas de bem neste mundo, judeus ou não. Suas boas ações e seu sofrimento não passam despercebidos perante D’us e a recompensa infinita que recebem d’Ele após suas almas deixarem seu corpo sobrepuja qualquer prazer ou júbilo que o ser humano possa conhecer neste mundo. 

O dia mais feliz do ano

Como Purim celebra um tipo de milagre que ocorre frequentemente, é fácil entender por que a festa é tão apreciada por nossos Sábios e pelos Cabalistas. Mas como explicar o caráter materialista dos mandamentos referentes a esse dia? Mencionamos acima que dentre todas as demais festividades, Purim, devido à natureza de seus mandamentos, é a menos espiritual. A realidade é o oposto: os mandamentos de Purim são os mais espirituais, e é por isso que Yom HaKipurim, o dia mais sagrado do calendário judaico – é chamado de um “ dia como Purim”. Os quatro mandamentos de Purim representam a própria essência da Torá.

O mandamento de Mishloach Manot – enviar presentes de alimentos a amigos – destina-se a promover o amor e a amizade entre o nosso povo. Rabi Akiva, o maior mestre do Talmud, ensinava que o mandamento de “Amar nosso próximo como a nós mesmos” é o ensinamento fundamental da Torá (Sifra, Levítico, 19:18). O envio de presentes na forma de alimento é um cumprimento desse mandamento central da Torá.

O mandamento de dar dinheiro aos pobres para que, também eles, possam comer e beber é o mandamento de maior valor da Torá. A Tzedacá – o cuidado com os necessitados – é a Mitzvá que se destaca entre todas as demais. Quando o Talmud de Jerusalém usa a palavra Mitzvá sem especificar qual delas, está implícita a de Tzedacá.  O judaísmo nos ensina que nossa maior preocupação espiritual deve ser atender as necessidades materiais de pessoas carentes. Portanto, quando doamos para os pobres emPurim, estamos cumprindo o mandamento supremo da Torá.

No tocante ao mandamento de fazer uma refeição festiva e abundante, isto nos ensina que D’us está presente em nossa vida não apenas quando oramos e estudamos e realizamos bons atos, mas também quando comemos e bebemos e desfrutamos a vida. Isto, na verdade, faz eco ao próprio tema de Purim: ao fato de que D’us está presente no curso natural da vida. Nossos sábios ensinam, ademais, que D’us se preocupa muito com nosso corpo, talvez ainda mais do que com nossa alma. A razão para tal é que até a mais nobre das almas não pode cumprir os mandamentos Divinos se estiver desprovida de um corpo. Cuidar bem de nosso corpo é, pois, essencial para podermos servir a D’us. O judaísmo dá muita ênfase à vida e à boa saúde, pois quando estas não existem, não podemos cumprir plenamente a missão que nos foi atribuída por D’us na Terra. Como ensinava o Rabi Dov Ber de Mezeritch, o Grande Maguid: “Um pequeno furo no corpo pode causar um enorme vazio na alma”.

E, por fim, no que toca o mandamento de ouvir a leitura da Meguilá, esse ato representa o maior atestado de fé em D’us. Ouvimos essa leitura duas vezes – uma delas na noite de Purim e de novo no dia de Purim – e recitamos uma berachá antes de sua leitura. Ao assim proceder, estamos transmitindo a D’us que nós,  judeus, não nos deixamos iludir por Sua ocultação e não nos intimidamos por um mundo que ousa mascarar o Divino. Apesar do “Hester Panim”, a ocultação da “Face Divina”, acreditamos não em eventos aleatórios nem em coincidências, mas na Providência Divina e nos sinais e milagres Divinos.

Em Purim, as comidas e bebidas, os presentes e as doações, as fantasias e as máscaras, as festas e os desfiles, e o ouvir atentamente uma história que nos fascina… tudo isso tem um tema que tudo permeia: o júbilo.  Maimônides, o maior filósofo e codificador da história judaica, escreveu: “O júbilo com o qual o homem deve alegrar-se no cumprimento dos preceitos e no amor a D’us, Aquele que os ordenou, é um ato de suprema devoção Divina” (Hilchot Lulav, 8:15).

Devemos alegrar-nos em todas as festividades judaicas. No entanto, emPurim, há uma medida adicional de júbilo. Por que razão?

Nas demais festas, como PessachSucotShavuot, celebramos a revelação de milagres e a manifestação da “Face Divina”. Em Chanucá, festa das luzes, celebramos o fato de que D’us é encontrado na luz: de tempos em tempos, especialmente quando ousamos erguer-nos contra a escuridão e empreender Suas guerras, Ele faz brilhar Sua Face sobre nós. Por outro lado, em Purim, festa cujo tema é a ocultação Divina, celebramos o fato de que D’us também é encontrado na escuridão – mesmo quando Ele esconde Sua Face de nós.

O Rei David – um homem que conheceu as maiores Alturas e as maiores profundezas – escreveu: “Se eu aos Céus ascendesse, lá Te encontraria, e se às profundezas me lançasse, também lá estarias… De Ti nada encobrem as trevas e para Ti brilha a noite como o dia, pois luz e trevas são para Ti iguais” (Salmos, 139:8, 12).

Purim é o dia mais jubiloso do ano porque nos faz lembrar que onde quer que estejamos – em meio à luz ou em meio às trevas, na mais alta felicidade ou na mais profunda tristeza, neste mundo ou no vindouro – jamais estamos sós.

 

Fonte: http://www.morasha.com.br/ – Edição 74 – dezembro de 2011Imagem

Publicado em OS SÁBIOS ENSINAM | Deixe um comentário

Os números de 2012

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um resumo:

600 pessoas chegaram ao topo do Monte Everest em 2012. Este blog tem cerca de 11.000 visualizações em 2012. Se cada pessoa que chegou ao topo do Monte Everest visitasse este blog, levaria 18 anos para ter este tanto de visitação.

Clique aqui para ver o relatório completo

Citação | Publicado em por | Deixe um comentário