Leitura da Torá: Porção Semanal Parashá Metsorá (25/04)

 Metsorá
 
Após a discussão ao final da porção da semana passada, a respeito da tumá resultante de animais mortos, a Parashá Tazria (Vayicrá 12:1-13:59) introduz as várias categorias de tumá emanando de seres humanos, começando com uma mulher dando à luz. O restante da porção descreve com riqueza de detalhes as várias e numerosas manifestações da doença chamada tsaraat . Embora tenha sido traduzida erroneamente como lepra, esta doença de pele tem pouca semelhança com qualquer moléstia corporal transmitida através do contato normal. Ao contrário, tsaraat é a manifestação física de uma doença espiritual, uma punição enviada por D’us, primeiro pelo pecado da maledicência, entre outras transgressões e comportamento anti-social.

Conhecida como metsorá, a pessoa afligida por uma mancha parecida com tsaraat na pele está sujeita a uma série de exames por um cohen, que declara se o paciente está tahor ou tamê. Se for tamê, ele será isolado para fora do acampamento, um castigo apropriado para alguém cuja língua infame fez com que pessoas se separassem umas das outras. Após descrever os vários tipos, cores e manifestações da doença na pele, cabeça e barba da pessoa, a porção conclui com uma discussão sobre as vestes contaminadas por tsaraat.

A Parashá Metsorá (ibid. 14:1-15:33)) continua a discussão de tsaraat , detalhando o processo de purificação de três partes da metsorá, ministrada por um cohen, completa com imersões, Corbanot, e a raspagem de todo o corpo. Após uma demorada descrição da tsaraat em casas e a ordem de demolir toda a residência caso a doença tenha se espalhado, o capítulo final da porção discute várias categorias de emissões humanas naturais, que tornam uma pessoa impura em graus variáveis.

 
 
Mensagem da Parashá Metsorá
 
Dores do parto
 
Por Yoel Spotts
 
Ao escrever um romance, o escritor certamente será cuidadoso para arranjar a trama de maneira lógica e ordenada, fazendo as transições de um tópico a outro de maneira suave. Da mesma forma, poder-se-ia esperar que a Torá, sendo a fonte da vida para o povo judeu e tendo muito mais importância que um romance, seguisse a mesma linha. Entretanto, a seção introdutória da porção desta semana da Torá parece divergir desta consistência requerida. 

A Parashá Tazria começa com uma discussão das leis sobre o status de uma mulher que acaba de dar à luz, e os vários procedimentos que devem ocorrer com ela e a criança. A Torá então imediatamente prossegue com uma descrição detalhada dos diferentes tipos de manchas e descolorações que podem tornar um indivíduo um metsorá. Estes dois assuntos – a mulher que acaba de dar à luz e uma pessoa que está sofrendo de tsaraat – poderiam parecer totalmente desconectados. Por que então estão colocados tão próximo um do outro?

Para responder esta pergunta, seria lógico examinar primeiro os detalhes destas duas leis. Em Vayicrá 12:7, lemos que uma mulher que teve um filho deve trazer uma oferenda: "O Cohen oferecê-la-á perante D’us e expiará por ela, e ela ficará purificada da fonte de seu sangue; esta é a lei para aquela que dá à luz um menino ou uma menina." Esta lei provoca uma pergunta óbvia: Qual foi o pecado desta mulher que necessita de expiação?

Os rabinos do Talmud fornecem uma resposta interessante a este problema: enquanto está sob a tensão e dor do parto, pode ser que esta mulher tenha jurado jamais retornar a seu marido, a fonte e causa de seu sofrimento atual. Portanto, quando a mulher se recobra totalmente, volta para seu marido e assim negligencia seu juramento anterior, na verdade está quebrando este voto. Embora a Torá reconheça que este juramento foi feito sob grande angústia e dor, mesmo assim a mulher não pode ser totalmente absolvida de realizar qualquer tipo de penitência. Afinal, fez um juramento e isso não pode ser desprezado. Portanto, a Torá possibilita à mulher a oportunidade de obter completo perdão ao trazer uma oferenda.

Se mudarmos nossa atenção agora ao segundo ponto em questão, a aflição da tsaraat, descobrimos que a Torá inicia sua discussão da pessoa atacada por esta doença sem nenhum tipo de introdução; o leitor é lançado imediatamente numa discussão abrangente das várias formas e manifestações da tsaraat. A Torá não menciona a causa do tsaraat em lugar algum, dessa forma deixando a pessoa imaginar qual pecado poderia precipitar esta doença no corpo ou na propriedade de alguém. Rashi oferece uma resposta baseada sobre o Talmud, de que a causa primária do tsaraat é o grave crime de lashon hará. A fim de avaliar a gravidade de suas ações, aquele que fala lashon hará é afligido com tsaraat. Não apenas a pessoa afetada deve lidar com lesões cobrindo seu corpo, como também é forçada a separar-se da comunidade em geral, e suportar um longo processo de cura, assinalado por repetidas visitas do Cohen, para determinar o status e o desenvolvimento da doença.

Espera-se que toda esta angústia e tormento ajudarão a reconhecer seu mau procedimento e leve-a ao arrependimento. Neste ponto, podemos facilmente entender a justaposição destes assuntos aparentemente tão desconexos. A Torá aqui deseja nos ensinar o poder da palavra. Enquanto a sociedade ocidental professa crenças como "as pedras podem quebrar meus ossos, mas as palavras não podem ferir-me", o Judaísmo atribui muito mais importância e significado à palavra falada. 

Toda palavra pronunciada deve ser cuidadosamente medida. Mesmo um juramento feito em meio as dores do parto deve ser contabilizado. Até um comentário aparentemente inofensivo sobre um judeu deve ser tratado. As palavras têm um significado. Não podemos permitir que nossa boca aja livremente, sem qualquer preocupação quanto ao resultado. Assim como a Torá nos foi outorgada no Monte Sinai, não por um rolo que caiu do céu, mas através da palavra sagrada de D’us, assim também devemos nos purificar e santificar nossas palavras.

 
 
 
Seleções do Midrash Metsorá
 
 
O remédio secreto

Um mascate judeu em Êrets Yisrael caminhava penosamente de uma aldeia a outra, vendendo seus produtos. Ao se aproximar da cidade de Tsipori começou a anunciar: "Quem quer comprar um remédio que prolonga a vida?" 

Um dos sábios, Rabi Yanai, estava passando e ouviu as palavras do ambulante.

"Venda-me seu remédio!" – pediu ao mascate.

"Ao senhor e aos outros santos sábios eu não o venderei; não precisam disso," respondeu o homem.

"Por favor, venda-o," Rabi Yanai implorou.

Então o mascate pegou um livro de Tehilim e mostrou um versículo a Rabi Yanai: "Quem é o homem que deseja a vida? Quem quer ter dias longos e bons? Proteja sua língua para não falar o mal e seus lábios de dizer mentiras (Tehilim 34:13-14)! Aquele que é cuidadoso para não falar lashon hará merecerá a vida no Mundo Vindouro. Ele terá também dias longos e agradáveis neste mundo."

Rabi Yanai comentou: "Isto é realmente um bom remédio."

O rei Shelomô nos advertiu de forma similar em seu livro Mishlê: "Shomer piv uleshono shomer mitsarot nafsho" ; "Aquele que vigia sua língua e a boca, protege o corpo de problemas." A palavra tsará (problema) é quase a mesma que tsaráat. Aquele que se refreia e não fala lashon hará, protege-se contra tsaráat. 

O que é lashon hará e por que é tão grave?

Lashon hará é uma observação negativa verdadeira sobre outra pessoa. A Torá nos proíbe de fazer tal declaração ou de dar ouvidos a ela.

Nossos sábios nos ensinam que um judeu que fala lashon hará peca tão gravemente como um assassino, um adúltero ou um idólatra. Na época do Bet Hamicdash um judeu que falasse lashon hará era punido com tsaráat.

É fácil entendermos porque um judeu que cometeu assassinato ou roubo ficou com tsaráat. São crimes graves. Mas por que um judeu que profere umas poucas palavras proibidas também recebe tsaraát?

Eis algumas das razões pelas quais lashon hará é considerado uma falha tão séria. 

1 – É muito difícil, e às vezes quase impossível, fazer teshuvá por haver falado lashon hará.
Para fazer teshuvá, a pessoa deve sentir-se arrependida por haver falado lashon hará e decidir nunca mais repetir este falha. Mas não é suficiente. Ela deve também dirigir-se à pessoa sobre a qual falou e desculpar-se. É muito difícil procurar um parente ou amigo e dizer: "Falei lashon hará sobre você; por favor, perdoe-me!" Isto é tão constrangedor que a maioria das pessoas não o fará. Mesmo se uma pessoa deseja pedir o perdão de outra, pode acontecer de ter falado lashon hará sobre um grupo de pessoas e não pode desculpar-se com todas elas. Ou pode ter falado lashon hará sobre alguém que viajou ou faleceu.
A teshuvá completa pela grave falha de lashon hará é muito difícil. Por isso, devemos ser cuidadosos para evitar este pecado.

2 – Lashon hará frequentemente é cometido mais de uma vez. Quando se trata de roubo ou assassinato, um judeu entende que deve fazer teshuvá e nunca cometer o ato novamente. Mas quando trata-se de lashon hará, a pessoa erroneamente pode pensar: "Que diferença faz umas poucas palavras?"

3 – D’us quer que todos os judeus vivam em paz uns com os outros
O lashon hará causa ressentimentos e brigas entre o ouvinte e aquele de quem se falou. Frequentemente alguém pode recusar-se a ser amigo de outro, apenas porque certa vez escutou algo de negativo sobre ele.
O metsorá era obrigado a sair do acampamento e ficar isolado, pois foi ele quem causou rompimento de amizades. Mesmo fora do acampamento ninguém tinha permissão de aproximar-se dele. Ficava separado da família, amigos e vizinhos.

Devemos usar a língua para a finalidade correta

De todas as criaturas que D’us criou, apenas seres humanos podem falar. (Embora animais possam comunicar-se de algumas formas, não usam as palavras). O dom da palavra é um presente de D’us à humanidade. Por isso, D’us nos ordenou manter nossas línguas puras e usá-las para palavras de Torá e chêssed (bondade). Pela maneira que nos expressamos, pode-se perceber que tipo de pessoa somos.

A Guemará conta a seguinte história:

Dois estudantes estavam sentados em frente ao sábio Hilel e discutiam uma Mishná. Um deles perguntou: "Por que uvas devem ser colhidas em recipientes puros, ao passo que azeitonas podem ser cortadas em recipientes impuros?" Ele então explicou a resposta da Mishná.
O outro aluno usou palavras diferentes para fazer a mesma pergunta: "Porque uvas devem ser colhidas em recipientes puros, e azeitonas não necessitam ser colhidas em recipientes puros?" Ele foi cuidadoso em evitar a palavra impuro.

Quando Hilel ouviu as palavras do segundo estudante, disse: "Tenho certeza que este aluno, que foi tão cuidadoso em usar apenas palavras boas, tornar-se-á um mestre de Torá para o povo judeu!" E assim aconteceu; ele tornou-se um grande professor de halachá (lei judaica).
Há outra história a respeito de três cohanim que comentavam entre si o tamanho da porção de lêchem hapanim (o pão do shulchan) que haviam recebido.

O primeiro disse: "Recebi uma porção pequena como uma ervilha."

O segundo declarou: "Recebi um kezáyit, um pedaço do tamanho de uma azeitona."

O terceiro falou: "Recebi um pedaço do tamanho da cauda do lagarto."

Este último exemplo não era uma comparação correta. Não era apropriado comparar uma porção do sagrado lêchem hapanim à cauda de um lagarto, um animal impuro.

Quando os sábios ouviram esta declaração, conferiram a árvore genealógica do cohen. 
Descobriram que havia nascido de um casamento proibido para os cohanim. ˜Não lhe foi mais permitido servir no Bet Hamicdash. 

Destes relatos aprendemos quão importante é usar uma linguagem pura, refinada, e não vulgar.

Como um metsorá torna-se puro?

Como já explicamos, um das razões principais que causavam tsaraát era o lashon hará.

A palavra metsorá (aquele que tem tsaraát), é parecida com a palavra motsirá, (alguém que fala o mal). Se o metsorá fez teshuvá enquanto estava fora do acampamento, D’us fazia as manchas brancas na pele desaparecerem.

O metsorá se sentia aliviado quando percebia que as marcas tinham desaparecido. Ele então chamava um cohen. O cohen caminhava até fora do acampamento para examiná-lo. O cohen dizia: "Começaremos a torná-lo tahor (puro). Hoje é o primeiro dia de sua tahará (purificação). No oitavo dia você oferecerá corbanot, ficará completamente puro e poderá juntar-se à sua família."
Após a oferenda dos corbanot o judeu tornava-se puro novamente e podia reunir-se à família. Ele sentia-se quase como alguém que havia morrido e voltara a viver. Este homem jamais falaria lashon hará novamente! Certamente prestaria mais atenção às suas futuras palavras.

O Midrash explica:

Por que duas aves, um graveto de cedro e ezov (grama) eram usados para purificar o metsorá? Por que a Torá nos ordenou usar aves para purificar o metsorá? D’us, assim, está lhe dizendo: "Você agiu como um pássaro! Um pássaro chilreia constantemente! Você também falou e falou, sem prestar atenção no que dizia."

Por que um pássaro é abatido e o outro é libertado?

O pássaro colocado em liberdade significa: Se você usar sua língua com palavras de Torá e bondade, estará usufruindo da vida de modo correto.

A grama e o cedro são totalmente opostos. O cedro é a mais alta das árvores e o ezov, o mais baixo dos arbustos. O metsorá é lembrado: Por que você falou lashon hará? Porque pensou que era um cedro – melhor que os outros. Para evitar falar lashon hará no futuro, deve sentir-se humilde como a grama.

Por que D’us trazia tsaraát às casas?

D’us às vezes também enviava manchas de tsaraát às paredes das casas. Isto acontecia por uma série de razões:

1 – Uma casa judia é especial. As portas têm mezuzot, e a cada sete dias transforma-se em um palácio, recebendo o Shabat. O dono de um verdadeiro lar judeu abre suas portas àqueles que necessitam de comida, tsedacá, um empréstimo, ou qualquer outro tipo de ajuda. Entretanto, se um judeu tem uma bela casa, mas nega-se a ajudar àqueles que precisam de dinheiro ou objetos, de uma refeição ou um lugar para dormir, D’us o pune. No tempo do Bet Hamicdash, D’us fazia com que aparecesse tsaraát nas paredes da casa.

O cohen então tinha que lacrar aquela casa. E o dono nem ao menos podia entrar em sua própria residência, da mesma forma que a havia fechado para outros que pediram ajuda. E se as manchas de tsaraát continuavam voltando, a casa tinha de ser demolida. Desta maneira, ele era punido por não compartilhar sua casa e seus pertences com outros judeus.

2 – Tsaraát nas paredes era uma recompensa: Tsaraát às vezes atingia as paredes de uma casa cujo dono não cometera uma falha. Para esse, a tsaraát era uma recompensa. Descobriam ouro, prata e objetos de valor que haviam sido escondidos nas paredes. Isto jamais teria sido descoberto se não fosse pelas manchas de tsaraát aparecendo nas paredes.

O que acontecia se a casa tinha tsaraát

Se um judeu que vivesse em qualquer cidade em Êrets Yisrael (exceto Jerusalém) e achasse uma mancha na parede, ele chamava um cohen e lhe dizia: "Percebi uma mancha em uma das paredes. Parece tsaraát." O cohen ordenava: "Antes que eu vá, tire todos os pertences de sua casa!" Desta maneira, os objetos não se tornariam impuros, caso o cohen decidisse trancar a casa.

Como explicamos, uma das razões pelas quais D’us mandava tsaraát a uma casa era por causa da avareza do proprietário. Recusava-se a emprestar seus pertences a outrem, pensando que jamais alguém pudesse descobrir quantos objetos tinha escondido em sua casa. Agora ele precisava colocar seus utensílios e pertences à mostra, na rua. Todos os vizinhos viam os objetos que tinha mantido em segredo nos armários. Talvez isto despertasse a teshuvá nele. 
Então, quem sabe, D’us deixasse as manchas de tsaraát nas paredes da casa desaparecerem ou tornarem-se mais fracas. Porém, se não o fizesse, o cohen afirmava que a mancha na parede era tsaraát. Ordenava, então: "Esta casa deve ser trancada por sete dias!"

Após uma semana, finalmente, a família tinha permissão de retornar para sua casa. Se os membros daquela família tivessem sido mesquinhos ou antipáticos, certamente tornar-se-iam generosos e humildes. Primeiro, seus pertences haviam sido colocados na rua. Depois eles foram mantidos fora de casa por uma semana (algumas vezes por três semanas). O tempo todo temeram que o tsaraát pudesse se espalhar e que a casa tivesse que ser demolida. Agora percebiam que o lar de uma pessoa e todas suas posses na verdade pertencem a D’us. Dinheiro e objetos nos são concedidos para que os usemos com o propósito correto.

Tsaraát era um milagre

Quando Moshê ensinou as leis de tsaraát a Benê Yisrael, eles tornaram-se temerosos deste terrível problema de pele. Mas Moshê os acalmou: "Vocês não precisam ter medo! Tsaraát é um sinal de D’us que vocês são uma nação sagrada. D’us adverte-os a fazerem teshuvá. Isto é um privilégio que D’us não concede a nenhuma outra nação!" 

O tsaraát provou a Benê Yisrael o quanto D’us se preocupava com eles.

Os judeus tiveram que guardar as leis de tsaraát apenas em Êrets Yisrael; não em outros países. Êrets Yisrael é uma Terra Santa, onde a Shechiná repousa; por isso, os judeus que lá vivem devem ser mais cuidadosos com as mitsvot que outros vivendo fora da Terra Santa.

 
 
 
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Uma resposta para Leitura da Torá: Porção Semanal Parashá Metsorá (25/04)

  1. reginaldo disse:

    Excelente comentário.Da mesma forma que D-s criou o mundo com a palavra Hashem nos da a oportunidade de construirmos o mundo social com a nossa palavra.

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