TRÊS SÉCULOS DE PÁSCOA SECRETA NO BRASIL

 
 

 

Anita Waingort Novinsky – Exclusivo para Notícias da Rua Judaica

 

Neste Pessach, a festa que considero a mais significativa da religião judaica, pela sua mensagem de liberdade, pensei que seria importante lembrar que brasileiros, durante três séculos, celebravam a festa do Pessach no mais absoluto segredo. Proibidos pelo Santo Ofício da Inquisição, que os vigiava também no Brasil, de seguir a religião judaica, sob pena de prisão, confisco, galeras ou morte na fogueira, os descendentes de judeus portugueses (cristãos-novos, marranos), que haviam sido convertidos ao catolicismo pela violência (1497), passaram a ter duas vidas – uma aberta, na qual seguiam os preceitos da Igreja, e uma secreta, vivida no mais íntimo de seus lares, só com familiares e amigos cristãos-novos. Na Bahia, Goiás, Pernambuco, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Sergipe, Alagoas e outras regiões do Brasil, em um ambiente secreto, os cristãos-novos acompanhavam rituais judaicos do Pessach. Quando descobertos eram levados para Portugal, onde, no cárcere, aguardavam durante anos suas sentenças. Durante os longos inquéritos ou  na câmara da tortura, confessavam ter praticado a cerimônia judaica por “crença na Lei de Moisés”.

Apesar de estarem há séculos distantes do judaísmo, os cristãos-novos sempre lembravam que eram judeus. Sem mestres, sem livros, sem nenhuma autoridade religiosa, acabaram perdendo muitas das práticas judaicas de seus antepassados. Mas um capítulo que ficou profundamente gravado nos seus corações foi o Êxodo.

Curiosamente, a maioria dos cristãos-novos brasileiros conhecia a história da fuga do Egito, quando Moisés os libertou da escravidão. De todas as festas judaicas, as mais celebradas eram o Pessach e o Purim, que eles chamavam de “festa da rainha Esther”, com a qual se identificavam porque como eles, também a rainha Esther teve que viver sua religião em segredo.

 

 

Os Gomes, Castro Lara, Oliveira, Pereira, Guimarães, Ribeiro, Siqueira, Alvares, Barros, Mendes, Fernandes, Rodrigues  e tantas outras famílias brasileiras constam nos registros inquisitoriais como judaizantes.  Mesclaram-se com índios e negros e os senhores de engenho chegavam a ter numerosos filhos com as escravas. Quantos negros, mulatos, mamelucos no Brasil são descendentes de judeus?

Como os brasileiros cristãos-novos viviam a religião judaica na clandestinidade, muito de sua história ficou até hoje ignorada, mas os manuscritos existentes nos arquivos da Inquisição testemunham o que permaneceu  vivo na sua memória: “fomos escravos no Egito…” e “Deus nos tirou do cativeiro…”

A festa da Páscoa revestia-se de enorme significado porque enquanto funcionou a Inquisição,  os cristãos-novos não se sentiam livres. Na Páscoa, o patriarca recostado na sua cadeira, na cabeceira da mesa, conforme mandava a Hagadá, lembrava uma liberdade, que na realidade, não existia. Comiam  o pão ázimo (matza)  que as mulheres faziam longe dos olhares dos vizinhos. Transmitiam a seus filhos e netos a história da mais linda festa do judaísmo – porque é o símbolo da liberdade. As crianças aprendiam que durante toda sua vida deviam guardar segredo do que se passava nessa noite.

A Páscoa tem uma mensagem para a consciência e o coração de toda a humanidade – é protesto contra as injustiças.

Os anos e séculos passaram e brasileiros continuaram a festejar seu Pessach, esperando sempre que Deus viesse  de novo  tirá-los do exílio.

Os três séculos de Páscoa judaica celebrada no Brasil é um capítulo da história do Brasil  que nossos livros didáticos ignoram.

 

Fonte: http://www.owurman.com/blog/

 

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