Purim – Meguilat para jovens – Capítulos VII,VIII,IX

Capítulo VII

Agora a parte mais difícil" – disse Haman. "Tenho que persuadir o rei a concordar com meu plano. Certamente, ele odeia os judeus tanto quanto eu, mas provavelmente recusará por causa do possível dano que o extermínio possa causar ao reino."

Haman sabia que tinha que agir cautelosamente. O rei poderia ter muitas razões para recusar-se a eliminar os judeus. Desempenhavam papel importante na economia do império. Poderiam ter muitos aliados. Também havia a possibilidade de que reagissem, causando tremenda consternação e danos ao reino.

"Além disso" – pensou Haman – "o rei talvez concorde com o plano, mas e a rainha? Ela parece aprovar os judeus. Foi ela que convenceu o rei a nomear Mordechai. Talvez ela se coloque em meu caminho."

"Já sei" – decidiu finalmente. "Não me aproximarei do rei como inimigo declarado dos judeus. Nem ao menos mencionarei o nome "judeu". Apenas descreverei um povo rebelde que está contra o bem do reino e precisa ser exterminado. O rei certamente concordará que tal grupo deve ser destruído.

"Quando os escribas compuserem o decreto de extermínio, posso facilmente adicionar que os judeus são o grupo visado. Uma vez que o decreto seja selado pelo rei, não pode ser alterado. Ninguém poderá salvá-los."
Antes de se aproximar do rei, Haman ensaiou seu discurso com cuidado. Queria desesperadamente o consentimento do rei; por isso, escolheu bem as palavras, tentando não deixar passar nada que pudesse fazer o soberano discordar.

Armado com argumentos e acusações, apresentou seu caso ao rei. "Majestade," – começou – "há um povo que está disperso e espalhado por todas as nações do seu império. Eles se consideram um povo distinto, e acham que somos impuros. Não comem nossa comida e não bebem nosso vinho. Na verdade, se cair uma mosca num copo de vinho, eles a removem e bebem o resto. Mas se Sua Majestade tocar nesse vinho, o derramarão e teimosamente recusar-se-ão a tomá-lo. Até mesmo esfregarão o copo antes de usá-lo novamente."

O rei Achashverosh ficou profundamente ofendido. Haman astuciosamente conseguira preparar o espírito do rei para lançar suas próximas reclamações sobre os judeus.

"Este povo tem suas próprias festas e costumes bizarros. São preguiçosos e nunca trabalham por completo. Enquanto nosso povo trabalha duramente, estão sempre celebrando um dia de Shabat ou algum outro tipo de dia festivo, no qual não podem fazer nenhum trabalho. Porém, quando acontece um feriado nosso, o ignoram por completo. É óbvio que não querem nada conosco."

O rei inclinou-se para a frente. "Onde Haman está tentando chegar?" – pensou. "Tal povo definitivamente não parece ser de grande vantagem para meu reino; porém, meu império é feito de muitos povos e nações."

Como se lendo os pensamentos do rei, Haman continuou: "Não há nenhum outro grupo como esse. Existem muitas outras nacionalidades no reino, mas todos confraternizam uns com os outros e até mesmo casam-se entre si. Este grupo em particular continuamente se recusa a se assimilar. Até mesmo mutilam os filhos, marcando os corpos com a circuncisão para ter certeza de que não farão casamentos mistos. Normalmente, os refugiados tentam se encaixar em seu novo país e ser amigáveis para com os outros. Não esse povo. Faz tudo ao seu alcance para permanecer diferente. Tentam persuadir as pessoas de que nossos deuses não são bons e que apenas seu D’us deve ser venerado. Estão minando a religião nacional."

O desprazer de Achashverosh com o povo descrito por Haman estava aumentando. Como podia manter um grupo tão perigoso em seu império?

Haman continuou: "Não têm respeito nenhum pelas leis do rei. Todas as outras nações no império incorporaram estas leis em suas constituições. Este grupo não adicionou sequer um decreto do monarca à sua lei."

Nesse ponto, a ira do rei havia sido suficientemente provocada. Assim, Haman espertamente desvelou seu plano. "De nada vale ao rei manter esse povo. A menos que deseje que permaneçam um eterno espinho, Majestade, não tem outra escolha senão matá-los."

O rei assentiu, finalmente compreendendo a intenção do primeiro ministro. Embora estivesse em concordância com o plano, sabia que levá-lo a termo não seria tarefa fácil.

"Acha realmente que esse povo horrível, embora mereça ser eliminado, simplesmente caminhará como ovelhas para o matadouro?" – perguntou o rei. "Não quero desencadear uma revolução em meu império."

"Muito improvável, Majestade" – Haman assegurou-lhe. "Veja, estas pessoas estão espalhadas por todo o império. Existem uns poucos numa cidade, uns poucos mais em outra. Não precisa se preocupar de que revidem: estão espalhados demais para que possam desfechar um ataque unificado. Até que consigam se juntar para elaborar um plano de defesa, serão apenas uma triste memória.

"Além disso" – continuou Haman – "estão constantemente discutindo e brigando entre si. Nunca concordam sobre coisa alguma, e certamente não para começar uma rebelião. Mesmo seus sábios discordam uns dos outros. Pode-se achar costumes diferentes entre eles. Tenho eu próprio observado isso. Algumas dessas pessoas se apercebem de minha presença e prestam-me os devidos respeitos, mas uns poucos teimosamente se recusam a fazê-lo. Mesmo em tempos de perigo, nunca se unem."

O rei ainda não estava convencido. "Com certeza os amigos, vizinhos e concidadãos virão para ajudá-los. Terei uma rebelião se espalhando como fogo através de meu reino."

"De forma alguma" – replicou Haman com um esgar. Mantêm-se tão acima de todos que nenhuma outra nacionalidade os ajudará. Ninguém tem uma boa palavra sobre eles. Ninguém pode tolerá-los. Se Sua Majestade eliminar este grupo, nenhuma nação se levantará para defendê-los. Pelo contrário, todos tecerão elogios e proclamarão um feriado."

"Não vejo como o extermínio de grande porcentagem de cidadãos possa ser útil ao império" – protestou o rei, fracamente.

Haman estava ficando impaciente com a resistência do rei. "Majestade, se está verdadeiramente interessado no bem-estar do reino, deve fazer com que este povo indigno seja destruído imediatamente. Não são essenciais ao império. São totalmente improdutivos. São tão estranhos à nossa cultura, que em nada contribuem. Além disso, estão escassamente distribuídos pelo reino; assim, se forem eliminados, dificilmente alguém sentirá falta" – disse.

O rei ainda não estava bem convicto. O lado moral de sua natureza pedia uma consideração mais humana.
"Os adultos parecem maus, mas talvez as crianças devessem ser salvas?" – sugeriu, hesitantemente.
Está claro que Haman tinha uma resposta pronta. Não desistiria de uma chance de se vingar do povo que recebera ordem de destruir sua nação, os agaguitas.

"Não, não, Majestade!" – declarou. "Quando esse povo ataca seus inimigos, mata homens, mulheres e crianças da mesma forma. Dê a eles uma dose de seu próprio remédio, exterminando-os completamente!"

O rei recostou-se no trono e deu um suspiro satisfeito. O plano de Haman o agradara. Já tinha secretamente adivinhado quem era "esse povo". Percebeu que Haman se referia aos judeus, e sentia mais ira em relação a eles que seu próprio primeiro ministro.No entanto, o rei hesitava. Durante toda a conversa, Haman não havia tocado no ponto que era na verdade o cerne da questão. "Os judeus podem ser uma nação inferior, mas todos sabem que têm um D’us poderoso. Sei muito bem o que aconteceu com todos os reis que tentaram prejudicar os judeus."

Lembrou-se com um tremor da descrição dos últimos infelizes dias de Nevuchadnêtsar. Belshatsar também tivera um triste fim. "O D’us dos judeus pode ser muito perigoso" – pensou sinistramente.

Achashverosh meditou: "Sei como defender-me e isentar-me de qualquer responsabilidade por este plano. Haman nunca mencionou a palavra ‘judeu’. Vou levar este plano adiante, alegando que nunca soube quem eram os rebeldes. Estava apenas cumprindo meu dever, protegendo o império de elementos perigosos."

Haman permitiu que o rei pensasse sem interrompê-lo. "Afinal, o rei precisa de tempo para amadurecer a idéia" – pensou. Quando percebeu a mudança no humor do rei, agiu rápido e apresentou o argumento final.
"Majestade, não pense que esta será uma tarefa difícil e que terá de enfrentar grandes batalhas contra esse povo. Uma assinatura sua e serão eliminados. Têm suficientes inimigos que estarão dispostos a fazer o trabalho.

"Contribuirei pessoalmente com 10.000 lingotes de prata a serem depositados no tesouro real. Os fundos cobrirão quaisquer despesas necessárias para eliminar esse povo. Sobrará dinheiro suficiente, também, Majestade, que pode ser usado para repor os impostos que seriam coletados desses cidadãos indignos. Pense a respeito – todo aquele dinheiro dos impostos sem que tenha o trabalho de coletá-lo."

O rei estava convencido. "Nada tenho a perder e tudo a ganhar" – disse de si para si. "Na verdade, não me envolverei diretamente na matança. Deixe que Haman faça o trabalho sujo. Sempre poderei alegar ignorância. Dar-lhe-ei carta branca, e a responsabilidade será toda sua."

O rei Achashverosh deu a Haman seu anel de sinete, garantindo-lhe completa autoridade para fazer o que desejasse, sem precisar de mais nenhuma permissão do rei.

Achashverosh então reconsiderou a oferta de dinheiro. Voltou-se a Haman dizendo: "Se o que disse a respeito daquele povo for verdade, então merecem ser mortos sem piedade. Por que, então, me oferece dinheiro? Outros poderiam dizer que está tentando me subornar para matá-los. Não aceito subornos. Fique com o dinheiro e faça com aquele povo como bem lhe aprouver."

Na verdade, Achashverosh sentia que deveria estar pagando Haman pelo serviço que estava na iminência de fazer para o reino. Afinal, Achashverosh queria os judeus assassinados tanto quanto Haman o desejava; talvez mais até. O rei estava satisfeito com o desenrolar dos acontecimentos. Não havia declarado guerra aberta contra os judeus. Poderia alegar ignorância, e Haman faria o trabalho desagradável por ele.

Haman não perdeu tempo. "Com um rei como Achashverosh, nunca se sabe" – pensou. "Pode mudar de idéia amanhã." Começou imediatamente a compor os termos do decreto a ser emitido.

"A melhor coisa será matar todos os judeus num único dia. Assim, não se prepararão para revidar nem tentarão fugir" – pensou Haman. "As pessoas terão permissão de assumir a propriedade dos judeus após matá-los. Ninguém será tentado a salvar a vida de um judeu com essas condições. Porém, se o povo souber disso, iniciará os assassinatos em massa antes do dia aprazado, e meu plano poderá ruir."

Concentrando-se, Haman finalmente achou a solução perfeita. A única parte do decreto a ser tornada pública seria que todos deveriam se preparar para o dia 13 de Adar. Centros seriam estabelecidos para que todos os homens fisicamente aptos se apresentassem naquele dia. Seriam informados que algo importante estava para acontecer, porém mais não seria revelado até a data apropria-da.

Cartas mais específicas seriam mandadas para as lideranças, os oficiais do rei, os nobres e governadores. Seriam notificados do plano de ação e advertidos a fazerem preparativos secretos. Haman convocou os secretários reais e ditou o conteúdo do decreto público e das cartas particulares. Foram emitidos em nome do rei Achashverosh e selados com seu anel de sinete. Em seguida, estafetas foram enviados para entregar as cartas. Fizeram a jornada de dez dias em apenas um.

Sendo informados da pressa dos mensageiros e vendo que seu plano começava a tomar forma, Achashverosh e Haman sentaram-se para celebrar, brindando ao sucesso da empreitada.

O povo de Shushan, entretanto, estava confuso. O rei despachara seus mensageiros por todo o reino, embora houvesse tempo suficiente. Era um sinal certo de que o rei estava ansioso sobre alguma coisa. Caso contrário, por que a pressa? Ainda faltavam onze meses até o dia 13 de Adar. A confusão aumentou ao se espalharem os rumores, e as pessoas sentiam-se inseguras sobre o futuro.

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Capítulo VIII

No entanto, uma pessoa ficou conhecendo os fatos. Logo após o decreto ter sido emitido, Mordechai descobriu os detalhes da trama. Percebeu que o rei havia ordenado a destruição dos judeus sem, ao menos, investigar as acusações. Os fatos haviam acontecido tão depressa, que parecia não haver tempo para desfazê-los.

Angustiado, Mordechai rasgou suas roupas, como os enlutados fazem pelos mortos. "Se nada for feito" – lamentou – "logo muitos judeus perecerão." Vestiu-se de aniagem, sinal de tristeza e arrependimento, e colocou cinzas sobre a cabeça. "Não removerei este saco de aniagem até que meu povo esteja seguro" – prometeu.

Mordechai caminhou pelas ruas da cidade, chorando alto e amargamente. "Tudo aconteceu porque me recusei a inclinar-me perante Haman" – pensou consigo. "Na verdade, fiz a coisa certa, mas sou responsável pelo terrível decreto."

Mordechai sabia que a situação era séria, mas também sabia o que deveria ser feito. Erguendo a voz, proclamou: "A tragédia se abateu sobre nós! Haman e o rei decidiram nos matar a todos!"

Alguns passantes judeus ouviram seus brados e olharam para Mordechai com horror. A notícia correu célere, e logo uma enorme multidão se juntou. Mordechai levantou-se e dirigiu-se à turba: "Queridos irmãos judeus, sabem o que está acontecendo? Fomos proclamados um povo condenado. Nossos dias estão contados. Fomos sentenciados à morte."

Pessoas entreolhavam-se em choque. A ameaça de morte descera subitamente, sem nenhum aviso.
Mordechai continuou a bradar: "Devemos nos arrepender! Fomos advertidos. Bem sabíamos que participar do banquete real era um pecado. Agora, devemos pedir perdão a D’us."

Como era costume em tempos difíceis naqueles dias, uma arca contendo um Rolo da Torá era trazida à praça principal. Mordechai tirou o Rolo e leu alguns trechos, conclamando o povo a pedir o perdão de D’us, e implorar a Ele que os salvasse.

Dirigiu-se novamente ao povo: "Meus irmãos! Todos os portões dos Céus estão fechados aos malfeitores, exceto o portão das lágrimas. Peguem o exemplo de Ninvê (Nínive). D’us decretou que a cidade fosse destruída. Quando o profeta Yoná (Jonas) disso informou o rei, esse desceu do trono, removeu a coroa, cobrindo-se de estopa e cinzas. Percorreu pessoalmente a cidade, ordenando um período de jejum e penitência. D’us teve misericórdia e anulou o decreto. Devemos fazer o mesmo, jejuar e nos arrepender. D’us verá nossa sinceridade e aceitará nossas preces."

Ao ouvir estas palavras, as pessoas começaram a chorar amargamente. Agora que os judeus de Shushan sabiam do terrível fado que se abateria sobre eles e, tendo sido instruídos a se arrepender, Mordechai decidiu que deveria tentar a apresentação de um pedido oficial para cancelar o decreto. Esperava conseguir uma audiência com Achashverosh e persuadi-lo a reverter as ordens.

Abrindo caminho até o palácio, Mordechai encontrou um grupo de meninos voltando da escola. Parou uma das crianças: "Que versículo você aprendeu hoje?" – perguntou.

O menino ergueu os olhos para o sábio com respeito e admiração. Respondeu corajosamente: "Estudamos o versículo que diz: ‘Não temas o terror súbito, nem a destruição dos perversos se vier.’ "

A face atormentada de Mordechai iluminou-se. Abordou uma segunda criança e fez a mesma pergunta. O menino respondeu: " ‘Façais um plano – mas será malogrado. Digai tudo que quiserdes – não se materializará, pois D’us está conosco!’ "

Encorajado pela fé sincera da criança, pediu a uma terceira para repetir o versículo que acabara de estudar. O menino citou as palavras reconfortantes do profeta Yesha’yáhu (Isaías). " ‘Até tua velhice, Eu estou contigo; até tua senilidade, Eu te sustentarei; Eu te fiz, Eu te conduzirei; Eu te sustentarei e te libertarei!’ "
Ao ouvir estas palavras de esperança, o espírito de Mordechai se elevou. "Não importa o que Haman tenha tramado, D’us ajudará Seu povo" – pensou confiante.

Como se pela mão do destino, aconteceu que Haman estava passando. Percebeu a calma disposição de Mordechai e não pôde suprimir a curiosidade.

"Vi você falando com aqueles meninos" – disse, suspeitosamente. "O que disseram que o deixou tão feliz?"

"Nada de importante para você" – replicou Mordechai – "mas me disseram que nada temos a temer dos planos que engendrou."

Haman ficou furioso. "Cuidarei primeiro destes malandros. Depois deles, será sua vez" – resmungou com um sorriso cruel.

Mordechai chegou ao Portão do Rei. Quis entrar e aproximar-se do rei, mas não lhe foi permitida a entrada. O costume local proibia a qualquer pessoa entrar no Portão do Rei vestindo estopa. Como aniagem era um sinal de luto, era considerado de mau agouro no palácio, como se o usuário estivesse antecipando a morte do rei.

Mordechai não desanimou. Sentou-se perto do portão lastimando-se, de aniagem e tudo, na esperança de atrair atenção oficial. Alguém se encarregaria de reportar ao rei essa cena indigna. Achashverosh certamente mandaria chamá-lo, exigindo uma explicação de seu comportamento.
Nesse meio tempo, a notícia se espalhou como fogo. Apesar do plano de Haman de manter tudo em segredo, o decreto foi amplamente divulgado em todo o império. Os judeus entraram em pânico; o anti-semitismo estava se intensificando.

"Esperem só" – seus vizinhos não-judeus ameaçavam. "Logo mataremos vocês e tomaremos posse de todo seu dinheiro."

Nas províncias mais distantes, os judeus estavam desesperados. Temiam que seus cobiçosos vizinhos não esperassem até 13 de Adar. Parecia haver pouca chance de preparar algum tipo de defesa. Levantavam os olhos aos Céus, decretando dias de jejum e luto, vestindo aniagem e cinzas.

Lá na capital, em Shushan, entretanto, os judeus sabiam que a ordem provavelmente seria mantida. Ao menos teriam tempo até que o decreto fosse efetivado. Esperavam que Mordechai fosse admitido à presença do rei. Talvez tivesse êxito, conseguindo a anulação da lei.

Para seu desgosto, a presença de Mordechai no Portão do Rei permanecia ignorada pelos oficiais do palácio e pelo próprio rei. Apenas uma pessoa parecia transtornada pelo protesto de Mordechai.

Quando a Rainha Ester foi informada do comportamento de Mordechai, ficou horrorizada. A princípio, não pôde acreditar no que ouvia; porém, quando suas criadas pessoais contaram-lhe a mesma história, percebeu que deveria ser verdade.

Ester recompôs-se rapidamente e mandou roupas para Mordechai. Queria que viesse ao palácio e discutisse o assunto com ela. "Diga-lhe que não é apropriado para uma rainha ir até a rua" – disse à criada.

Na verdade, Ester teria ficado feliz em sair e encontrar Mordechai, seu santo primo a quem tanto respeitava. Entretanto, pensou que pudesse ser perigoso ser vista com ele nessa ocasião.

Mordechai não quis aceitar as vestimentas. Não tiraria sua roupa de aniagem até que seu povo estivesse a salvo. Ester logo entendeu que Mordechai estava extremamente perturbado. Pensou num plano que lhe permitisse comunicar-se com Mordechai sem levantar suspeitas. Escolheu Hatach como mensageiro. Era um velho cortesão judeu. Havia servido como conselheiro para Belshatsar, Dario e Ciro. O rei Achashverosh o havia rebaixado e colocado à disposição de Ester.

Se os cortesãos do rei vissem as criadas de Ester indo e vindo entre ela e Mordechai, poderiam suspeitar de um complô contra o rei. Entretanto, como Hatach ainda servia oficialmente como um dos conselheiros do rei, sua presença não levantaria tantas suspeitas.

"Descubra qual é o problema" – ela instruiu Hatach. "Por que Mordechai está de luto em público?"

Hatach não foi diretamente a Mordechai. Passeou pela rua principal como se tivesse algo a fazer, para dar a impressão que encontrara Mordechai ao acaso. Embora muitos judeus caminhassem por ali em estado de choque, Hatach não os questionou. Queria dar a Ester informação precisa, vinda diretamente de Mordechai. Este notou Hatach e contou-lhe tudo. Também revelou seu plano para tentar o cancelamento do decreto.

"Como é possível?" – exclamou Hatach. "Um decreto emitido pelo rei não pode ser revogado."

"Este é um caso excepcional" – disse Mordechai. Fomos falsamente acusados, e o rei selou o decreto sem saber de todas as conseqüências."

Hatach assentiu lentamente. "Se ao menos alguém pudesse ir ao rei e explicar o caso. Mas quem ousaria?"
Mordechai tinha a resposta. "Chegou a hora de Ester revelar sua identidade. Vá e explique a situa-ção para ela. Diga-lhe que dou permissão para contar seu segredo. Ela deve entender que também está incluída no decreto, já que é judia. Dê-lhe instruções para abordar o rei e implorar misericórdia, suplicando-lhe por nosso povo. Ela deve fazê-lo em segredo, pois Haman tem agentes em todo o palácio."

Hatach correu de volta e relatou a Ester as palavras de Mordechai. Ela podia sentir a urgência na mensagem. Teria gostado de seguir as instruções imediatamente, mas fazê-lo não seria assim tão simples. Pediu a Hatach que explicasse sua delicada posição a Mordechai. "Não posso tentar uma reunião com o rei por causa da lei que Haman fez incluir na constituição persa: ninguém pode convocar uma audiência com o rei. Qualquer um que entre nos aposentos reais sem um chamado será sentenciado à morte imediatamente."

"Não podia fingir desconhecer esta lei?" – sugeriu Hatach.

"Não" – respondeu Ester. "Todos os servos do rei conhecem esta regra, que tem sido largamente divulgada no império.

"Além disso" – continuou" – mesmo se eu tivesse de arriscar minha vida e, por milagre, o rei me recebesse estendendo seu cetro real, não há garantia de que serei capaz de anular o decreto. Se eu falhar, é mais provável que seja destituída ou mesmo morta, perdendo qualquer chance de falar em nome de nosso povo quando uma ocasião mais favorável se apresentar.

"Embora nosso povo esteja ameaçado" – ela continuou – "ainda há muito tempo. Eu não hesitaria em enfrentar o perigo se a ameaça fosse imediata. Estou certa de que o rei logo me chamará. Já faz trinta dias que não me chama, e deverá fazê-lo a qualquer hora. Então, poderei falar com ele."

Embora falasse esperançosamente sobre uma possível audiência com o rei, Ester estava realmente preocupada. "Talvez o rei esteja entediado comigo, e seja esse o motivo pelo qual não tenho sido chamada por um mês."

A mensagem de Ester a Mordechai não parecia muito encorajadora. Para aumentar a dificuldade da situação, Haman infelizmente percebera as frequentes idas e vindas de Hatach a Mordechai, ficando desconfiado.

"Aposto que estão conspirando para cancelar o decreto" – pensou. "Bem, darei um basta nisso tudo agora mesmo." Sem mais hesitação, Haman mandou executar Hatach.

Apesar de muito abalada com a tragédia, Ester estava determinada a ajudar. Achou outras pessoas para confiar suas mensagens a Mordechai.

Embora os argumentos de Ester pudessem parecer convincentes a outras pessoas, Mordechai não fora persuadido. Sabia que qualquer demora poderia ser prejudicial ao povo judeu, e sua resposta ao arrazoado de Ester foi bem clara.

"Não espere o rei mandar chamá-la! Muitos judeus estão caindo no desespero. Podem abandonar a religião e tentar se assimilar entre outras nações, na esperança de escapar à morte certa. Além disso, se demorar, pode ser que o rei não tenha tempo de mandar mensagens às províncias mais longínquas a tempo de salvar os judeus locais da destruição. Além do mais, quem sabe o que pode acontecer? Da mesma forma que se tornou rainha inesperadamente, pode ser destituída sem aviso. Certamente sua presença no palácio foi planejada por D’us."

"D’us nunca abandonou seu povo" – continuou Mordechai. "Não nos abandonará agora e tem muitas maneiras de nos resgatar. Entretanto, pense em seu próprio futuro. Não acredite estar segura no palácio ou que escapará ao destino de todos os outros judeus."

Ester ficou agastada pela resposta severa de Mordechai. Respondeu rapidamente: "Por favor, não pense que estou hesitante por medo de perigo pessoal. Se houvesse uma chance de salvar meu povo, alegremente me ofereceria. Apenas planejei esperar a ocasião mais propícia para explicar ao rei como tem sido enganado por Haman. Percebo por sua insistência que a hora chegou. Vou agora mesmo."

Como Mordechai, Ester sabia que o terrível perigo pairando sobre o povo judeu era o resultado dos pecados do povo. Se os judeus se arrependessem, D’us certamente mostraria mercê; e ela poderia então persuadir o rei Achashverosh a anular o decreto.

Disse a Mordechai: "Vá, reuna todos os judeus. Haman mentiu sobre nós ao dizer que não somos unidos. Que os judeus se juntem e demonstrem sua união e amor mútuo. Mostremos que os primeiros argumentos de Haman não passavam de mentiras.

"O rei então começará a duvidar do restante das palavras de Haman. Além do mais, se Haman vir que os judeus são unidos, pode ser que entre em pânico e revogue o decreto. Perceberá a força da união e saberá que não seremos derrotados facilmente.

"Proclame três dias de jejum e rezem por mim! Orem para que Achashverosh não me mate por violar a lei, entrando em seus aposentos sem um chamado.

"Minhas criadas e eu jejuaremos também, e rezarei para que D’us perdoe meu povo por participar do banquete de Achashverosh. Se eu rezar pelos outros, minhas preces serão ouvidas."

Mordechai ficou aliviado ao receber a corajosa mensagem de Ester, mas um tanto apreensivo por seu pedido. O decreto fora expedido no dia 13 de Nissan. Se Mordechai agisse sem perda de tempo, os três dias de jejum coincidiriam com Pêssach. Mandou a Ester uma mensagem urgente.

"Como podemos pedir às pessoas para jejuar em Yom Tov (dia festivo)?"

A resposta de Ester não se fez esperar. "Você é o líder de Israel e está autorizado a promulgar o jejum. Se os judeus deixarem de existir, quem irá então guardar Pêssach? Se Israel for destruído, o que será da Torá e seus mandamentos? Não hesite, por favor! Eu também agirei imediatamente de acordo com suas instruções. Farei o que puder. Se eu morrer, morrerei tentando ajudar nosso povo."

Mordechai estava grato a Ester pela devoção a seu povo e por ter concordado em arriscar a vida. Convocou os judeus e declarou um jejum. Milhares de cohanim (sacerdotes) se reuniram, tocando shofar e segurando Rolos de Torá. O povo juntou-se a eles em ardente prece. Seu lamento era tão intenso que parecia atingir o mais alto dos Céus.

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Capítulo IX

Como parte das preparações espirituais necessárias para a audiência de Ester com o rei, Mordechai enviou cartas, comunicando aos judeus nas províncias mais distantes para jejuar por três dias. Por três dias repletos de preces, a Rainha Ester vestiu-se de aniagem e cinzas, no lugar de suas lindas túnicas. Então, ao terceiro dia, vestiu seus aparatos reais. Pôs uma túnica adornada com jóias e um traje entrelaçado com a mais fina seda, enfeitada com raras pedras africanas. Calçou seus pés em sandálias de ouro e colocou a magnífica coroa sobre a cabeça.

Chamou então três de suas criadas. "Gostaria que me acompanhassem à Sala do Trono"– disse casualmente, tentando esconder a ansiedade.

"Mas, Majestade, como podemos nos aproximar do rei sem que nos chame? Além disso, jejuamos por três dias e não estamos tão atraentes como de costume. É assim que se ganha o favor do rei?" – a serva deixou escapar. Teria continuado, mas foi silenciada pelo olhar sério e determinado da rainha.

Confiantemente, duas criadas se postaram cada uma a seu lado, e a terceira atrás, segurando a cauda do vestido para que não arrastasse no chão.

Ester esperava que a presença das criadas a protegesse em sua ousada tentativa de entrar sem convite nos aposentos do rei. A lei mandava que os guardas matassem qualquer um que entrasse sem permissão. Porém, se viesse com todos os aparatos de seu cargo, certamente hesitariam. Talvez considerassem a rainha igual ao rei, e a isentassem do decreto. No mínimo, ganharia tempo.

Lentamente, as mulheres caminharam em direção à Sala do Trono. As criadas recobraram a calma ao sentir a autoconfiança da rainha. Embora estivesse arriscando a vida, a face de Ester brilhava com uma luz interior que escondia seus temores. Parecia tranqüila e despreocupada. Precisava-se passar através de sete portas para entrar na Sala do Trono. Ester caminhava com tal autoridade e confiança que os guardas não a pararam. Antes que alguém percebesse o que tinha acontecido, ela estava de pé à porta da Sala do Trono. Os guardas dos aposentos íntimos rodearam-na ameaçadoramente, incertos sobre que atitude tomar.

O rei estava sentado em seu trono, envergando as vestes reais e portando o cetro de ouro nas mãos. Levantando os olhos, viu Ester de pé à sua frente, olhando-o.

"Como ousa entrar em meus domínios, violando a lei?" – pensou furiosamente. "Está assinando sua própria sentença de morte.

"Que perda terrível! Que ironia! Tantas vezes chamei Vashti, mas ela se recusou a apresentar-se para mim, e foi executada" – lembrou estremecendo. "Agora Ester está violando a lei, entrando sem ser convidada; será detida e condenada à morte." Incapaz de encarar diretamente a execução da rainha, virou-se para outro lado.

Ester havia levantado os olhos e encarado o rei. Vendo fúria em seu olhar, ficou imóvel, silenciosamente implorando pela ajuda de D’us. O cetro! Se ao menos o rei o levantasse e apontasse para ela!

Apesar das ordens claras de dar morte imediata a qualquer um que entrasse sem permissão, ninguém ousava tocar na rainha. Ela se postava bem em frente ao rei e Achashverosh testemunhara a violação da lei tão claramente como todos os demais presentes. Não seria apropriado executá-la sem instruções. Todos permaneceram em silêncio, esperando pela reação do rei.

Os cortesãos assistiam ao drama que lá se desenrolava. O rei desviara o olhar e não estava estendendo o cetro para ela. Os guardas tomaram isso como um sinal para avançar e prendê-la.

Mas D’us, o Rei dos reis, estava protegendo Ester. De repente, Achashverosh voltou-se para ela, quase como se alguém o tivesse esbofeteado na face. A aparência calma e composta de Ester teve um efeito calmante nos nervos do rei, que começou a relaxar. Sorrindo, estendeu o cetro de ouro para Ester.

"Qual é o problema, Rainha Ester? O que deseja?" – perguntou o rei, sua curiosidade aguçada. "Obviamente, não teria arriscado a vida à toa. Deve ter um pedido importante. Por favor, diga-me o que há. De boa vontade dar-lhe-ei o que deseja, mesmo se for a metade do reino!"

O rei escolhera as palavras cuidadosamente. Daria somente "metade do reino". Havia algo que não concederia a ninguém. Metade do reino seria até os limites de Jerusalém. Jamais permitiria a reconstrução do Templo dos judeus.

Ouvindo estas palavras, Ester estremeceu. Ainda não havia entendido completamente que sua vida fora poupada, e agora tinha de encarar um desafio adicional. O que se escondia atrás das palavras do rei? Suspeitaria que ela era judia? E Haman, estaria ele ciente de sua identidade? Agora é a hora de acalmar as suspeitas que possam ter.

Ester percebeu quão perto chegara de ser morta. Apenas no último minuto, o rei estendera o cetro. Agora não era a hora certa de falar ao rei sobre seu povo.

"Convidarei o rei para uma festa e ficará de bom humor" – pensou Ester. "Amanhã, talvez poderá ter esquecido que entrei na Sala do Trono sem convite. Além disso, se eu falar agora, Haman pode aproximar-se depois e fazê-lo mudar de idéia. Seria melhor abordar o rei durante o banquete. Talvez o ambiente o faça lembrar da maneira que Haman o persuadiu a matar Vashti. Convidarei Haman, também, para deixá-lo desprevenido. Não quero que desconfie que tenho algo contra ele. Pensará que sou sua aliada, e não suspeitará que tenho a intenção de estragar-lhe os planos. Se eu lhe der atenção especial, talvez consiga despertar suspeitas no rei sobre ele."

Ester sabia o quanto Haman a odiava. Fizera com que Vashti fosse executada para que sua própria filha se tornasse rainha, mas ficara extremamente frustrado desde que Ester fora a escolhida. Agora havia publicamente ignorado sua autoridade, violando a lei por ele instituída, e, o que era pior, saindo impune disso tudo. Obviamente, estaria furioso e ofendido. "Devo fazer todo o possível para agradá-lo" – decidiu Ester.

Todos os presentes na Sala do Trono fitavam a rainha perdoada, esperando que manifestasse seu desejo.

"Posso esperar que o rei compareça ao banquete que preparei para ele? – disse finalmente. "Como tenho sido ingrata com Haman, sem cujos conselhos sobre Vashti eu jamais teria me tornado rainha, poderá ele vir também?"

O rei Achashverosh foi rápido na aceitação do convite. Uma festa? A qualquer hora! "Façam com que Haman se apresse e venha conforme Ester deseja" – ordenou. Secretamente, o rei não gostara nada que Ester convidasse Haman para jantar com eles. Ordenou que Haman se apressasse para mostrar que era subordinado à rainha.

Haman prontamente aceitou o convite. Não o fez porque queria obedecer Ester, mas porque assim poderia comer, beber e jactar-se com os oficiais do rei, dizendo ser o único convidado a uma festa particular com o casal real.

Durante o banquete, Ester não participou da refeição que havia preparado, pois ainda estava jejuan-do. O rei e Haman comeram juntos enquanto Ester atuava como anfitriã. Embora o rei insistisse para que se juntasse a eles, declinou, fingindo estar com problemas no estômago. Após comer e beber até ficar satisfeito, o rei voltou-se para Ester. "Tudo que desejar" – disse – "darei a você. Antes, você quis que Haman e eu viéssemos à sua festa; eu o tenho aqui, agora. O que você quer? Não pôs sua vida em perigo apenas para ter um banquete. Para correr tal risco, deve haver um assunto de vida ou morte a preocupando, ou um problema envolvendo enormes somas de dinheiro. Haman é o tesoureiro real. Se precisa de dinheiro, ele o dará a você imediatamente. Pegue quanto precisar – até o valor de metade do reino."

"Não quero metade do reino. Não preciso de nenhum dinheiro" – declarou Ester. Ela não queria que Achashverosh pensasse que desejava alguma coisa de Haman. Esta não era a razão de tê-lo convidado para a festa. O que Ester queria podia apenas ser concedido pelo próprio rei.

"Se isso agrada ao rei, e se ele quer satisfazer-me um desejo, tenho apenas um agora. Quero que o rei e Haman venham à festa que prepararei para amanhã. Então, revelarei a verdadeira razão da minha ida à Sala do Trono."

Achashverosh franziu o cenho, mas pareceu ficar satisfeito quando Ester acrescentou em seguida: "Amanhã, também revelarei detalhes sobre minha família e meu local de nascimento."

A festa terminou e Haman saiu. Feliz e contente, suspirou de alívio ao voltar para o Portão do Rei.

"Ótimo!" – pensou ele. "Estava realmente com medo de que meus planos dessem em nada. Parecia um pouco suspeito. O decreto acabara de ser emitido e, de repente, a rainha Ester organiza festas e me convida. Pensei realmente que iria me denunciar ao rei, dizendo que meu plano ‘solução final’ para os judeus lhe é desfavorável."

Porém, nada deste tipo havia ocorrido, e Haman estava de bom humor. "Não apenas a rainha nada disse de desagradável sobre mim, como ainda convidou-me para outra festa. Não há necessidade de me preocupar de que algo de mal aconteça no banquete de amanhã.

"A rainha não estava se sentindo bem e não pôde comer hoje. Quer fazer outro festim amanhã porque então poderá comer e beber também" – concluiu Haman.

Imerso nesses pensamentos agradáveis, Haman passou pelo Portão do Rei. Lá estava Mordechai de novo. Como sempre, não se levantou ao ver Haman passar, nem fez qualquer gesto de respeito. Foi como se Mordechai não o tivesse avistado.

Haman sentiu um duro golpe em seu orgulho. Vindo diretamente da festa onde a própria rainha o havia homenageado, era-lhe particularmente odioso. Apenas um olhar para Mordechai e sentiu-se ferver de raiva.
"O que Mordechai está fazendo?" – pensou furiosamente. "Posso entender sua recusa em inclinar-se porque é um judeu. Mas porque nem ao menos mostra um sinal de respeito? Nem ao menos pode se mover? Isso nada tem a ver com sua religião. Apenas é teimoso e tem orgulho como todos os outros judeus. Senta-se à cabeceira do conselho e vira a cabeça das crianças judias. Quem pensa que é, afinal?

"Todo o povo judeu está para ser morto porque Mordechai se recusa a se curvar a mim. Mesmo assim ousa não se inclinar ou mostrar o mínimo respeito. Talvez esteja planejando usar suas ligações com a rainha Ester para anular o decreto. Talvez seja por isso que Mordechai age tão presunçosamente!"

Haman estava confuso. "A rainha nada tem contra mim. Pelo contrário! Tem me convidado para festas mais íntimas com o rei. Mas, e se algo acontece e o decreto contra os judeus for anulado? Mordechai também viverá. NÃO! Algo precisa ser feito com ele imediatamente!"

Antes, Haman havia sentido que matar apenas Mordechai estava abaixo de sua dignidade, mas agora Mordechai precisava de tratamento especial.

"Darei um fim nele antes mesmo que chegue a hora do decreto. Não quero que tenha qualquer chance de sobreviver."

Pensou em matar Mordechai imediatamente. Uma palavra a seus guardas, e seria feito. Porém, controlou-se, decidindo ir para casa e discutir o assunto com sua mulher e amigos. Portanto, Haman apressou-se para casa.

Reunidos à volta da mesa estavam Zêresh, sua esposa, e seus amigos mais chegados. Todos os olhos seguiam Haman, passeando incessantemente pela sala. 

"Apenas olhem para mim, o Primeiro Ministro" – vociferou. "Sou tão rico. Tenho tanto poder. Tenho muitos filhos em altas posições no governo. Alguns deles são escribas do rei, que controlam o governo de todas as formas, exceto no nome. Mesmo assim, tudo parece sem valor, a cada vez que vejo aquele Mordechai. Está me deixando louco."

"Que é isso, Haman" – disseram seus assessores, racionalmente. "Por que preocupar-se com Mordechai? Sua morte está decretada, junto com o resto dos judeus. Tenha um pouquinho de paciência e logo desaparecerá para sempre."

"Vocês não parecem entender minha situação" – disse Haman com arrogância. Mas como poderiam? Suas posições não foram elevadas, como a minha, acima de todos os nobres e assessores do rei! Não foram pessoalmente convidados às festas da rainha. Não podem sentir a excitação do poder supremo. Então, como podem entender que uma pessoa importante como eu não tolere ser constantemente ofendido?"

Todos se calaram. Haviam sido insultados e não queriam ser repreendidos novamente. "Sei como se sente" – disse Zêresh. "Tem toda razão em odiar Mordechai. Apresse sua morte a todo custo e relaxe."
Os assessores de Haman concordaram: "Por que não? Mate-o!"

"Livre-se dele!"

"Acabe com ele, e compareça à festa da rainha para celebrar sua vitória!"

Zêresh continuou: "Deixe seus homens construirem uma plataforma de cinqüenta cúbitos5 de altura. Fale ao rei cedo pela manhã, enquanto Mordechai ainda recita suas preces. Diga ao rei que Mordechai é um rebelde, um traidor, que merece ser enforcado por renegar o poder dos deuses persas e rezar a seu próprio D’us.
"Construa a plataforma nos nossos terrenos particulares, assim ninguém poderá impedir que o enforque de imediato. Não lhe dê sequer uma chance de terminar suas preces judaicas.

"E não vá ao rei especialmente para requisitar a execução de Mordechai. Aja como se tivesse outros importantes assuntos de estado para discutir, e então mencione o enforcamento de Mordechai de modo casual. Será fácil chegar ao rei bem cedo, quando a rainha Ester não estiver por perto. O rei gosta de você, e agora também sabe que a rainha o favorece. Um pedido pequeno como livrar-se de Mordechai será facilmente concedido."

A idéia não apenas agradou a Haman, como também o obcecou. Não conseguiu comer nem dormir até que tivesse ordenado aos construtores que começassem o trabalho. Até os filhos de Haman participaram, pregando pregos e cantando. Zêresh e algumas amigas tocaram música, emprestando à construção dessa esquisita plataforma um ar estranhamente festivo.

Quando ficou pronta, Haman subiu ao topo, experimentando o laço do carrasco em si mesmo para certificar-se de que estava na altura apropriada.

A mente de Haman começou a girar com grandes planos que iam muito além de livrar-se do inimigo judeu. Assim que Mordechai estivesse morto, também assassinaria Achashverosh e Ester. Ainda tinha vínculos estreitos com o rei da Grécia, por causa de suas conexões com Bigtan e Têresh. Se matasse Achashverosh, o governante grego o proclamaria rei, dando-lhe poder supremo e vingando a morte de seus bons amigos, Bigtan e Têresh.

Haman sentia-se em segurança. Ninguém no palácio sabia da trama. Mal sabia ele que Charvoná, um dos assessores do rei, o estava investigando e já estava em seu rastro maléfico.

Após erigir o cadafalso, Haman foi até Mordechai para vê-lo pela última vez. Achou-o, ainda vestindo roupas de luto, ensinando a uma enorme multidão de crianças.

Haman rangeu os dentes. "Mostrarei a eles" – resmungou.

"Guardas!" – gritou. "Peguem todas essas crianças, acorrentem-nas, e joguem-nas na prisão. Ha! Ha! Seus infelizes! Logo farão companhia a seu professor no outro mundo! Lá, poderão estudar o quanto quiserem!"

As crianças se amontoaram nas escuras masmorras, preparando-se para a morte. Suas preces sinceras abalaram os alicerces dos Céus.

Haman não percebeu que esta ação selara seu destino. Foram as preces das crianças corajosas, e seu apego ao estudo de Torá apesar do perigo ameaçador, que anularam o decreto celestial contra os judeus.

 

Fonte: http://www.chabad.org.br/

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