Purim – Meguilat para jovens – Capítulos IV,V,VI

Capítulo IV

Rumores da competição que se aproximava espalharam-se como fogo. Muitas pessoas acharam engraçado. Algumas sorriam com desdém, mas a maior parte antecipava ansiosamente o que parecia ser diversão garantida. Apesar da jocosidade que ia pelos ares, havia pelo menos uma pessoa que estava temerosa e preocupada pelo desenrolar dos acontecimentos. Era Mordechai, o Judeu, filho de Ya’ir, filho de Shim’i, por sua vez filho de Kish, da tribo de Binyamin. Ele estivera entre os judeus cativos de Jerusalém, exilados para a Babilônia com o rei Yechonyá por Nevuchadnêtsar. Quando a cidade foi tomada pelos persas, o Sinédrio (San’hedrin), que incluía Mordechai, o renomado sábio, e outros líderes da comunidade judaica, mudara-se para Shushan, a nova capital do império.

Mordechai era reconhecido como um devoto cumpridor de Torá, muito franco e sincero. Havia sido o único a santificar publicamente o nome de D’us quando o rei Achashverosh convidara os judeus para a festa. Os outros sábios recusaram-se a participar e se esconderam, mas Mordechai desobedeceu abertamente a ordem do rei, recusando-se a comer ou beber no banquete real. Demonstrara ter orgulho de seu judaísmo e deu um exemplo para seu povo.

Agora, estava inquieto pelos boatos na cidade, e com razão. Tinha uma prima jovem e bonita, a quem havia criado desde tenra infância, após a morte dos pais. Era Hadassa, uma jovem delicada e adorável, conhecida pelo recato e caráter excepcional.

Quando nasceu, todos comentaram: "Que lindo bebê! Sua pele de um oliva profundo é como a cor da murta, de tão fina e delicada." Sua mãe entreouvira os elogios e decidira. "Então, este será seu nome, Hadassa, a palavra hebraica para murta." Orou para que a filha tivesse uma personalidade tão agradável como a suave fragrância da murta.

Hadassa fez realmente jus a seu nome. Muitas árvores perdem as folhas durante o inverno. A murta, entretanto, é sempre verde, mantendo as folhas durante o ano todo. Como a murta, Hadassa era o tipo de menina que permaneceria virtuosa e merecedora de louvor onde quer que se encontrasse.

Por isso, Mordechai estava inquieto com os rumores vindos do palácio. Conhecedor da beleza ímpar e caráter excepcional de Hadassa, temia que fosse uma candidata perfeita à coroa real. Porém, se fosse desígnio de D’us, como ousaria interferir?

Mesmo assim, Mordechai decidiu que seria de bom alvitre esconder temporariamente a identidade judaica de sua prima. Hadassa é obviamente um nome judeu, por isso Mordechai decidiu mudá-lo.

"Precisamos esconder seu verdadeiro nome" – disse gentilmente à jovem prima. "De agora em diante será chamada de Ester, que significa ‘oculta’." Hadassa, agora Ester, assentiu com a cabeça. Confiava sem restrições em seu santo primo e aceitou a decisão de boa vontade.

Como se provou mais tarde, os temores de Mordechai eram justificados. Quando espalhou-se a notícia que o rei estava procurando uma nova rainha, os persas atiravam as filhas para os administradores do rei. Mordechai fez exatamente o oposto. Escondeu Ester da melhor maneira que pôde.

Ester sempre fora recatada, raramente aparecendo em público. Mesmo assim, muitas das mulheres persas haviam-na avistado, e sua beleza era famosa. Os oficiais do rei logo ouviram que havia uma jovem de extraordinária beleza em Shushan, embora não soubessem sua nacionalidade. Procuraram em vão pela "jovem misteriosa" entre as numerosas moças que se apresentaram.

"Por que procurarmos através deste vasto reino?" – perguntaram-se frustrados. "Pelo que temos ouvido, há uma jovem em Shushan mais bela que qualquer uma dessas donzelas."

Quando não puderam encontrar Ester, falaram ao rei sobre ela. Achashverosh imediatamente fez dois decretos. Qualquer moça que se escondesse dos agentes seria condenada à morte, e qualquer jovem que agrade ao rei tornar-se-á rainha do Império Persa.

Choviam garotas em Shushan, vindas de todas as partes do reino. Ester, claro, mantinha-se escondida, esperando não ser descoberta. Se tivesse de ser encontrada, ao menos todos saberiam que havia sido levada contra sua vontade.

Mordechai tornou-se muito ansioso por causa da lei impondo a pena de morte para quem se escondesse dos agentes do rei. Percebeu que não poderia esconder Ester para sempre. No fundo, Mordechai tinha um pressentimento que algo de grandioso aconteceria se Ester desposasse o rei. Além disso, se D’us assim o havia decretado, nada podia ser feito para evitá-lo. Por isso, Mordechai instruiu Ester a deixar seu esconderijo. Deveria misturar-se com as outras jovens e, assim, ninguém saberia sua nacionalidade. Com uma prece no coração, Mordechai mandou-a sair, decidindo deixar tudo nas mãos de D’us.

Assim que os agentes avistaram Ester, perceberam que era a jovem pela qual haviam procurado. Imediatamente, foi trazida ao palácio. Os emissários estavam tão confiantes que Ester seria a escolhida, que não planejaram separá-la como estavam fazendo com as outras garotas.

Quando foi apresentada a Hagai, encarregado do harém, ele gostou muito. Enquanto todas as outras jovens pareciam-se entre si, a beleza e personalidade de Ester destacavam-se de longe.

"Parece uma candidata promissora" – devaneou Hagai. "Embora seja uma grande honra ser alojada em qualquer parte do palácio, pretendo acomodá-la no próprio harém. Lá, o contraste entre sua beleza e a das outras moças saltará aos olhos, e o rei certamente será informado a respeito."

Ester foi levada ao harém e muito bem tratada. Hagai mimou-a com cosméticos e presentes, favorecendo-a acima de todas. Ao contrário das outras jovens que estavam sempre pedindo produtos de beleza e quinquilharias, Ester estava muito mais preocupada com seu judaísmo que com sua beleza.

"Como conseguirei manter-me casher aqui?" – pensou ansiosamente.

Percebendo a atenção especial que recebia de Hagai, decidiu aproveitá-la. "Não parece ser um mau sujeito. Vou dizer-lhe que sou vegetariana e que como somente comida natural, crua. Espero que não crie caso por isso."

Felizmente para Ester, Hagai concordou em aceder a cada desejo seu sem muitas perguntas. Outro favor que Hagai concedeu a Ester foi que ela escolhesse pessoalmente sete garotas do palácio real, que fossem convenientes para servi-la. Ela selecionou moças virtuosas e de bom caráter.

Secretamente, Ester ficou muito agradecida por sua boa sorte. "Que maneira perfeita de manter o Shabat despercebido. Farei com que cada moça me sirva apenas um dia por semana. Não me verão nos outros dias, e ninguém saberá que não trabalho no Shabat."

Com efeito, a "criada do Shabat" nunca se deu conta que suas obrigações eram diferentes do resto das moças. Presumiu que sua ama evitava trabalhar durante toda a semana. "Como é mimada esta senhora!" – pensou a serva. "Age como se já fosse rainha, jamais fazendo qualquer tipo de trabalho."

Embora Ester estivesse com outras jovens que percebiam seus modos diferentes e que ela não se alimentava das mesmas comidas, não sabiam o suficiente sobre judaísmo para entender as razões de seus atos.
Cochichavam entre si invejosamente: "Age como se fosse nobre. Seus modos e comportamento são provavelmente parte de seu jogo, tentando de toda forma parecer especial e superior, esperando ser escolhida como rainha."
Começaram a se perguntar. "De onde veio ela? Não contou a ninguém sobre seus pais ou em que país nasceu."
O que aquelas garotas infantis e atarantadas não sabiam era que Mordechai havia instruído Ester para esconder o fato de que era judia. Sentindo que havia uma razão importante para que Ester fosse trazida ao palácio de Achashverosh, percebeu que, se o rei viesse a saber que Ester era judia, jamais a faria sua rainha.

Mordechai também não queria que ninguém soubesse que Ester era aparentada com ele. "Se as pessoas descobrirem que somos primos" – disse a Ester – "serão cautelosos com o que dizem em sua presença. Talvez sua posição no palácio seja útil a nosso povo, permitindo que obtenhamos informação internas de forma relativamente fácil; assim saberemos o que nossos inimigos tramam contra nós."

Mordechai sabia que havia sobrecarregado Ester com uma tarefa muito difícil. Por isso, mantinha vigilância cerrada sobre o que estava acontecendo no palácio. É claro que não fazia perguntas sobre Ester abertamente. Apenas passeava todos os dias perto do pátio do harém, mantendo olhos e ouvidos bem abertos.

O harém real era uma colméia em atividade. As jovens recebiam um tratamento de beleza que durava um ano, com óleos delicados, perfumes raros e os mais finos cosméticos. Cada garota exigia atenção constante das atendentes, solicitando uma lista infindável de produtos de beleza para melhorar a aparência, esperando ser escolhida como rainha.

Após muitos meses no harém, as moças finalmente foram escaladas para serem apresentadas ao rei. Cada uma seria oficialmente requisitada a passar uma noite nos aposentos do rei. Qualquer coisa que desejasse do harém lhe seria concedida.

Pela manhã, retornaria a um segundo harém, ficando aos cuidados de Shaashgaz, um ministro real.

"Registre o nome da moça no caderno" – Shaashgaz ordenava a seus assistentes.

A primeira garota a ser levada de volta ao segundo harém olhou sobre os ombros do atendente que anotava seu nome. Foi tomada de surpresa.

"Mas este não é meu nome!" – protestou furiosamente.

Shaashgaz explicou: "Muitas jovens vêm de outros países, e nomes estrangeiros não podem ser usados no palácio. Então cada uma recebe um nome especial para o palácio, pelo qual possa ser chamada, se o rei resolver vê-la novamente."

Não revelou, porém, a verdadeira razão para dotar as moças de nomes diferentes neste harém. Isso impediria que a jovem oferecesse suborno para conseguir voltar ao rei uma segunda vez, na esperança de passar por alguém que ainda não houvesse sido chamada. Esses cuidadosos arranjos tinham de ser feitos, pois as candidatas dispunham-se a qualquer estratagema para conseguir o trono de Vashti.

Todas, exceto Ester. Ela estava tudo menos ansiosa para tornar-se rainha. Quando chegou sua vez, recusou os lindos vestidos de festa que lhe ofereceram, bem como os cosméticos e perfumes caros que recebeu.
Hagai ficou horrorizado ao ver sua atitude. "Se Ester apresentar-se ao rei sem jóias, ficará furioso e eu serei responsabilizado" – pensou.

Implorou a Ester para usar qualquer coisa que desejasse, assim Achashverosh não ficaria furioso. Mesmo assim, nada solicitou, pegando apenas o que Hagai insistiu para que aceitasse.

Apesar disso, Ester era atraente para quem quer que a visse. Sua personalidade excepcional se destacava, não importando o que vestisse. Como ninguém conhecia sua nacionalidade, as pessoas sentiam-se orgulhosas em reivindicá-la como sendo sua compatriota. Todos a elogiavam e admiravam.

O próprio rei sentiu-se atraído por Ester assim que foi trazida ao palácio, mas não se apressou. Muito tempo passaria antes que esquecesse a lição de Vashti. Antes de tomar uma decisão a respeito de Ester, observou-a por muitos meses para ver se escondia quaisquer características indesejáveis.

Entretanto, Ester despertou a afeição e favores do rei mais que qualquer das outras jovens. Ele percebera que sua beleza era mais que aparência. Ficou especialmente impressionado com o fato de que ela nada havia pedido para realçar sua beleza. Sentiu também que Ester era possuidora de uma personalidade altruísta e generosa.
Finalmente, o rei colocou a coroa da rainha sobre a cabeça de Ester. Foi instalada no palácio de Vashti e assentou-se no trono real. Embora sua origem fosse desconhecida, recebeu as mesmas honras que Vashti, filha da linhagem real da Babilônia.
O rei Achashverosh celebrou a coroação de Ester, oferecendo uma grande festa em sua honra. "Esta é a ‘Festa de Ester’ " – declarava feliz. Ele lembrou-se do que havia acontecido durante o último banquete que havia oferecido e estava determinado a não deixar que este fosse arruinado. "Na verdade" – pensou o rei com um meio-sorriso – "se não fosse por aquela primeira festa, jamais estaria celebrando esta."
Pensou sobre o desenrolar dos acontecimentos que haviam culminado com a coroação de Ester. "Meus súditos têm sido leais e tolerantes com minhas despesas" – pensou. "As províncias gastaram muito para mandar as jovens para o concurso. Muitas pessoas ajudaram na minha busca por uma rainha. Devo mostrar-lhes minha gratidão."

O rei anunciou uma isenção de impostos e distribuiu presentes de valor. Achashverosh desejava também convidar os habitantes da cidade de Shushan para uma festa, como havia feito anteriormente. Ester aconselhou-o contra essa idéia. "Há muita gente pobre em Shushan" – disse ela. "Comparecer a um banquete real é uma despesa enorme. Somente com roupas gastarão uma fortuna. A melhor idéia é decretar um feriado e deixar o povo comemorar em casa. Envie presentes às pessoas, assim poderão organizar suas próprias festas."

Impressionado pela sabedoria de Ester, o rei concordou. O banquete real ficou conhecido como "A Festa de Ester", expressando seu carinho pelo povo.

O rei, entretanto, tinha outra razão para promover esta festa. Achashverosh estava ansioso para descobrir a origem de Ester. Ao proclamá-la como a "Festa de Ester", insistiu com ela para que enviasse convites a quem quisesse.

"Certamente convidará seus parentes para que vejam sua recém-adquirida posição" – pensou o rei. "Muito provavelmente convidará seus conterrâneos e lhes dará reconhecimento especial."

Dessa maneira, o rei esperava descobrir a origem de Ester, mas calculara mal. Ester tratou todos os convidados da mesma forma e não mostrou favoritismo a nenhum grupo.Quando pressionada pelo rei a revelar de onde viera, declarou calmamente: "Sou órfã. Meu pai morreu antes que eu nascesse, e minha mãe faleceu quando eu era bebê." Mas Achashverosh não ficou satisfeito com essa resposta. Incapaz de descobrir a identidade de Ester por meios escusos, tentou uma abordagem direta. "Quero que você me diga sua nacionalidade" – disse ele.

Ester solicitou ao rei permissão para falar francamente e respondeu. "Por favor, não se zangue pelas minhas palavras, mas Sua Majestade me surpreende. Está sendo teimoso, da mesma forma que fez quando matou Vashti. Agora está me pressionando. E se por acaso digo a coisa errada? Irá matar-me, também? A primeira vez que perguntou sobre meus pais, eu disse a verdade. Sou órfã e nunca os conheci. Tenho boas razões para não lhe dizer o pouco que sei sobre meu nascimento. Quando chegar a hora, saberá. Por enquanto, saiba que sou de sangue real. Escolheu-me como sua mulher e rainha sem conhecer minhas origens. Se está satisfeito comigo, porque desperdiçar o tempo com curiosidade vã? Se quiser matar-me, nada há que possa fazer. Mas um verdadeiro rei governa com paciência e sabedoria, percebendo que toda a verdade será revelada a seu tempo.

"Sei que seus conselheiros estão muito curiosos a meu respeito e o estão pressionando para esmiuçar meu passado. Lembre-se quanto sofrimento lhe causaram ao sugerir que mandasse executar Vashti. Se der ouvidos a eles agora, arrepender-se-á, como já o fez antes."

Suas palavras causaram uma profunda impressão no rei, que disse: "Compreendo o que disse sobre meus assessores. Mas um rei não pode governar sozinho. Se despedir os conselheiros, a quem deverei admitir?"
Ester sabia que estava correndo um risco, e agiu cuidadosamente. "Ouvi falar de alguns homens sábios" – replicou – "de uma nação conhecida como Israel. São considerados instruídos e confiáveis. Como é de seu conhecimento, tanto Nevuchadnêtsar como Belshatsar, os grandes monarcas da Babilônia, tinham um conselheiro judeu cujo nome era Daniel. Seu próprio predecessor, Ciro, empregava um judeu, Zerubavel, como conselheiro mor. Talvez, se tivesse pessoas assim, o governo funcionasse melhor."

O rei contemplou esta nova rainha pensativamente. Sempre havia tentado ser como os outros reis famosos e governantes poderosos "Se aqueles grandes reis tiveram conselheiros judeus, devo imitá-los. Acha que ainda existem sábios judeus por aí?"

Ester tentou falar tão casualmente quanto possível. "Na verdade" – respondeu – "ouvi falar de um descendente de Shaul, o rei judeu, que vive aqui em Shushan. Chama-se Mordechai, e sua mente é considerada das mais brilhantes do reino."

Achashverosh sabia sobre Mordechai, e decidiu agir conforme a recomendação da rainha. Chamando Mordechai, nomeou-o conselheiro real e juiz no Portão do Rei. Foi designado para o Portão, de forma a ficar disponível para aconselhar o público.

O rei, entretanto, queria se beneficiar da sabedoria desse homem famoso para seus próprios assuntos também. Certo dia, chamou Mordechai e lhe disse: "Vejo como é respeitado por sua inteligência e judicio-sos conselhos. Talvez possa ajudar-me num assunto pessoal. Escolhi recentemente uma donzela excepcio-nal para ser minha rainha, e cheguei a conhecê-la como uma pessoa ímpar. Porém, não tenho informação nenhuma a respeito de suas origens. Eu simplesmente preciso saber sua nacionalidade."

Mordechai sabia que sua posição era delicada. Precisava fingir que não tinha nenhum interesse espe-cial no assunto. Queria também provar seu pressentimento de que a presença de Ester no palácio era parte de uma importante missão recebida de D’us. Talvez o desprazer do rei fosse um sinal de que a estada de Ester no palácio não tivesse que acontecer. Sua própria nomeação levantava suspeitas que ele queria apagar. Então pensou num plano simples mas engenhoso.

"Majestade," – disse – "convoque um novo grupo de jovens a Shushan, como se quisesse escolher outra esposa. Deixe a rainha pensar que está infeliz com ela, por causa dos segredos que esconde. Ficará nervosa e logo desatará a língua."

Este conselho agradou muito ao rei, sendo também aplaudido pelos príncipes e nobres. Estavam invejosos de Ester por causa de sua proximidade com o rei. Por que havia sido escolhida, e não uma de suas filhas? Haman estava particularmente aborrecido. Havia planejado tão cuidadosamente livrar-se de Vashti e substituí-la por sua própria filha, mas Ester havia interferido.

As palavras de Mordechai também dissiparam as suspeitas sobre seu possível relacionamento com Ester. Se Ester fosse judia, concluíram, Mordechai jamais teria aconselhado o rei a trazer possíveis rivais ao palácio. Uma boa garota persa poderia facilmente tomar o lugar de Ester, e Mordechai seria também prontamente substituído.

No desenrolar dos acontecimentos, o plano de Mordechai funcionou. Tivesse o rei escolhido outra esposa, ele e Ester teriam tido um aviso de que a posição de Ester no palácio não era desígnio de D’us. Mas na verdade, o rei não se cansara de Ester, e não a rejeitou por recusar-se a contar seu segredo.

Era óbvio agora que Ester fora designada por D’us para desempenhar um importante papel. A curiosidade do rei aquietou-se e os nobres ficaram satisfeitos, enquanto Ester e Mordechai secretamente anteciparam o futuro.

top

 

Capítulo V

Embora a vida no palácio parecesse agora ter voltado ao normal, sob essa calmaria problemas já fermentavam. Dois dos guardas do rei, Bigtan e Têresh, tornaram-se hostis a Achashverosh, e planejaram assassiná-lo.

"Olhe o que o rei Achashverosh nos fez" – Bigtan sibilou ao colega. "Desde que este sujeito, Mordechai, foi indicado para conselheiro real, temos sido rebaixados. Sabe o que este judeu Mordechai tem feito? Julga os casos de acordo com a lei judaica, sempre que é consultado por judeus. Que desgraça! Como se nossas leis não fossem boas o suficiente."

"Pois é" – disse Têresh, rilhando os dentes – "Mordechai apoderou-se de nossos empregos e agora é o encarregado da guarda pessoal do rei. Fomos estacionados aqui para supervisionar os aposentos do rei. Que trabalho miserável, ficar em pé o dia todo. Haman tem sido fiel a nós e tentou argumentar em nossa defesa, mas em vão."

"Nossa má sorte é por culpa da rainha" – continuou Têresh. Foi ela quem aconselhou o rei a nomear Mordechai."

Bigtan olhou intencionalmente para o amigo.

"Sabe, esse trio petulante está me dando nos nervos. Digo a você, devemos agir rápido e dar um fim neles."
Bigtan e Têresh tinham uma queixa adicional contra o rei. Eram parentes de Vashti e haviam emigrado da Babilônia para Shushan quando fora aprisionada.

"Creio que chegou a hora de vingar a morte de Vashti" – sussurrou Têresh. Os dois traidores tinham tudo planejado. Iriam assassinar o rei, declarando que o haviam feito por ordens de Mordechai. Como este fosse seu superior, não tiveram outra escolha a não ser obedecer. Mordechai então teria um fim bem triste.

Bigtan e Têresh tinham esperança de conseguir outra vantagem ao matar Achashverosh. Acabara de irromper uma guerra entre Pérsia e Grécia. O campo de batalha era distante, mas Bigtan e Têresh tinham certeza de que, caso pudessem entregar a cabeça de Achashverosh aos gregos, seriam recompensados com fama e posições de destaque.

Enquanto discutiam os detalhes de sua trama, Bigtan e Têresh mal perceberam que Mordechai estava ouvindo a conversa. Quando notaram sua presença, Bigtan rapidamente fez sinal a Têresh para calar-se, mas este desprezou seu aviso.

"Ele não pode entender uma palavra do que falamos" – riu. "Acha mesmo que Mordechai pode falar tarso, nossa língua nativa?"

Os dois continuaram a tramar, descuidadamente supondo que Mordechai não tinha a mínima idéia do que falavam. Estavam errados. Como um dos requisitos para servir ao San’hedrin, Mordechai precisava saber os setenta idiomas do mundo civilizado. Era tão bem versado neles que o povo o chamava de "Balshan", i.e., o "Poliglota".

Mordechai não perdeu tempo. "A Torá nos ordena que sejamos patrióticos e que rezemos pelo bem do governo" – pensou. "Embora eu saiba que o rei não é lá grande amigo dos judeus, é minha obrigação informá-lo desse conluio."

"Além disso" – concluiu Mordechai – "se o rei for assassinado tão pouco tempo após a coroação de Ester e de minha nomeação para o palácio, poderemos ambos ser suspeitos de traição."

Mordechai passou a informação a Ester, querendo que ela ganhasse o crédito por salvar a vida do rei. Ester, entretanto, reportou tudo ao rei em nome de Mordechai.

Após completa investigação, Bigtan e Têresh foram acusados de um complô para envenenar o rei. Haman, seu bom amigo, tentou em vão salvá-los. Apesar de seus esforços, foram condenados à morte.
Ao assistir os dois pendendo no cadafalso, Haman crispou as mãos com ódio. Culpou Mordechai pela execução de seus amigos e jurou vingança.

Ester não obedecera as instruções de Mordechai para reivindicar o crédito pela descoberta da conspiração. Como não queria que ele soubesse que o tinha desobedecido, conseguiu que o nobre ato de Mordechai não fosse recompensado de imediato.

Ester chamou os escribas reais e ordenou-lhes que registrassem o incidente nos arquivos do palácio. Deveriam anotar que Mordechai merecia uma grande recompensa por salvar a vida do rei.

Acontece que os escribas eram ninguém menos que os filhos de Haman, e fizeram o possível para distorcer a descrição do evento. Mas a verdade pode ser esticada apenas até um certo limite. Por fim, os arquivos do rei declaravam que Mordechai havia salvado a vida do rei e que não recebera uma recompensa.

Na verdade, os eventos todos eram dirigidos por D’us. O rei não daria a recompensa a Mordechai naquele dia, mas quando chegou a hora, este incidente seria bem útil.

top

 

Capítulo VI

Após esses acontecimentos, o rei Achashverosh promoveu Haman. Para o observador, esta decisão poderia parecer estranha. Mordechai, que havia salvado a vida do rei, não fora recompensado, e Haman, que havia defendido os conspiradores, foi elevado a uma posição mais alta. Porém, Achashverosh era muito instável e agia por capricho. De início, havia ficado furioso com Haman por tê-lo aconselhado a matar Vashti. Entretanto, agora que desposara Ester, Achashverosh estava contente por estar livre de Vashti, sentindo-se em débito com Haman por haver este indiretamente lhe trazido Ester. Por isso, o rei recompensou-o generosamente, garantindo-lhe a mais alta posição do reino.

Até então, embora Haman fosse um dos sete conselheiros mor, havia sido o membro de menos prestígio no conselho. Agora era o mais importante. Como prova de sua posição, seu assento estava acima dos outros. Mesmo quando não estava presente às reuniões, a posição de sua cadeira servia como lembrança de seu posto elevado.

Vendo que o rei havia promovido Haman, o povo sentia-se obrigado a mostrar-lhe respeito. Muitos, entretanto, sabiam de suas origens e de sua profissão no passado, e esse respeito não vinha de forma natural.

"Você sabia que Haman era atendente nos banhos e barbeiro antes de se tornar político?" – diziam as pessoas que o haviam conhecido. Havia mesmo aqueles que declaravam ter tido o cabelo cortado por ele.
Para preservar a dignidade da posição de Haman, o rei ordenou que o povo se prostrasse diante dele, concedendo-lhe honras devidas a um Primeiro Ministro. Até mesmo os homens que tinham assento no Portão do Rei, o local de assembléia de todos os mais altos oficiais do reino, foram solicitados a ajoelhar-se perante Haman.

Haman vangloriava-se dessa nova promoção. Tirando vantagem desse poder, pendurou a figura de seu ídolo favorito ao redor do pescoço sempre que desfilava pela cidade. Ao se inclinarem perante ele, estavam também curvando-se ao ídolo.

Haman estava agindo de forma contrária à lei. O Império Persa garantia liberdade de religião, e nenhuma pessoa podia ser forçada a prostrar-se para ídolos contra a vontade.

Não era a lei persa, entretanto, que influenciava a forte resistência demonstrada por Mordechai no Portão do Rei. Ele se recusava a ajoelhar-se perante Haman e a prostrar-se para seu ídolo. Nem ao menos faria uma breve inclinação formal. Como Haman deixara óbvio que qualquer sinal de respeito a ele também incluía seu ídolo, Mordechai não tinha permissão, pela lei da Torá, para fazê-lo, mesmo que sua vida estivesse em risco.
Mordechai não fingia ignorar Haman. Olhando-o diretamente nos olhos, corajosamente recusava-se a arredar pé, criando ali um Kidush Hashem (santificação do nome de D’us), dando um exemplo para todos os judeus.
Os outros oficiais no Portão do Rei ficaram perturbados pelas ações de Mordechai. "Por que desobedece as ordens do rei?" – perguntaram preocupados. "Achashverosh pode pensar que o encorajamos a demonstrar nosso desprazer com suas ordens. Seremos todos acusados e punidos por esta teimosia."

"Prostro-me apenas perante o único D’us" – declarou Mordechai, explicando sua identidade judaica.

Após tentar convencer Mordechai a não brincar com fogo, os servos do rei denunciaram-no a Haman. Queriam testar Mordechai. Estaria realmente disposto a colocar a vida em risco, somente para não inclinar-se perante Haman? Ficaria firme em suas crenças, a despeito do que pudesse acontecer?

Haman não podia acreditar nos relatos sobre Mordechai. "Que coragem!" – resmungou. "Como ousa desafiar as ordens do rei!" Deliberadamente, passou pelo local onde Mordechai estava lotado para ver a verdade com seus próprios olhos.

"A paz esteja consigo" – falou Haman, fingindo ser educado.

"Para o perverso, não há paz" – respondeu Mordechai.

Fervendo de fúria, Haman rilhou os dentes. Contratara agentes para seguir Mordechai e reportar suas ações. Disseram-lhe: "Mordechai é uma pessoa amigável, com um cumprimento gentil para todos que encontra. Saúda até mesmo o mais humilde plebeu." Quando Haman percebeu que Mordechai recusava-se a prestar homenagem somente para ele, sua fúria extrapolou. Estava determinado a vingar-se.

A princípio, Haman tramou matar somente Mordechai. "A alta posição de Mordechai está engasgada na minha garganta. Enquanto estiver no palácio, os judeus sentir-se-ão seguros e seguirão seu exemplo. Pretendo mostrar-lhe logo quem manda em Shushan."

Porém, ao passo que sua fúria se acumulava, Haman decidiu que estava abaixo de sua dignidade matar apenas Mordechai. "Esse povo respeita seus líderes. Se não for Mordechai, será algum outro! Vou dar um fim em todos os sábios. Então, ficarão como carneiros sem pastor. Negligenciarão sua religião e tornar-se-ão assimilados."

"Não" – pensou Haman, reconsiderando – "não é suficiente. Terão ainda sua Torá que ordena explicitamente denunciar os descendentes de Amalek e varrer sua memória! Nós, os agaguitas, descendemos de Amalek! Por essa razão, os judeus são nossos inimigos mortais e seu interminável ódio por nós é uma ameaça contínua. A única solução é exterminá-los todos: homens, mulheres e crianças. E isso é exatamente o que pretendo fazer!"

Tendo tomado uma decisão, Haman seguiu, formulando seu plano maléfico. Ele era mau, mas não tolo. Estava informado sobre os muitos eventos miraculosos da História Judaica e sabia que os judeus tinham um D’us poderoso a seu lado. "Mas pretendo suplantá-lo" – declarou Haman arrogantemente.

Embora seu D’us seja poderoso, às vezes as coisas não vão tão bem para os judeus" – pensou Haman. "Determinarei o tempo astrologicamente mais propício para levar adiante meu plano."

Haman usava um artefato mágico conhecido como "pur". Primeiro, queria estar certo de que seu plano para destruir os judeus era factível. O primeiro "pur" era lançado, usando cubos semelhantes a dados. Mas, ao contrário de dados normais, os números eram arranjados de tal forma que os valores numéricos em lados opostos nos cubos somavam sete. Um cubo tinha lados opostos com os números 1 e 6, o segundo com 2 e 5, e o ter-ceiro com 3 e 4.

Como o "pur" determinaria o destino do povo judeu, Haman usou letras hebraicas1 para adicionar os valores numéricos dos números. Os cubos eram agora 1=t (alef), 6=u (vav), 2=c (bet), 5=v (hê), 3=d (guímel), 4=s (dalet).

Haman usava três dados para cada lance. Na primeira jogada, os cubos mostraram 1-3-3. Haman ficou deliciado, pois percebera que os dados haviam soletrado ddt (alef, guímel, guímel) formando a palavra Agag em hebraico – o nome de seu ancestral. Ansioso, virou o dado ao contrário para conferir que letras estavam na base. Oposto ao t (alef), estava um u (vav), e oposto a cada d (guímel) estava um s (dalet). As três letras na base formaram a palavra sus (David).

"Que boa sorte!" – exclamou Haman extasiado. "Estas letras soletram o nome David. É sinal certo de que meu povo, o povo de Agag, terminará no topo e os judeus, o povo de David, ficarão por baixo." 

Agora Haman estava ansioso por determinar a melhor ocasião para exterminar os judeus. "Este ano, qualquer data será ótima" – decidiu. "Na verdade, tudo está indo perfeitamente bem. Eu não teria sonhado com um plano desses antes. O rei jamais teria concordado. Exterminar uma nação inteira enfraqueceria seu reino, e os aliados dos judeus nas outras províncias poderiam vir em sua defesa. Mas agora, o governo do rei está firmemente estabelecido. Tem uma nova rainha. Minha posição foi elevada e o palco está montado."

Mesmo assim, Haman queria conferir novamente para assegurar-se que sua boa sorte estava realmente lhe sorrindo. Lançando outro "pur" para determinar a data exata de levar seu plano adiante, novamente colocou ao sabor do acaso a verificação sobre se estava no caminho certo.

Cortou vários pergaminhos nos quais escreveu os nomes dos doze meses lunares (conforme o calendário judaico). Outro jogo de pergaminhos era numerado de 1 a 354, um para cada dia do ano lunar.

Haman planejou duas jogadas separadas, uma para determinar o mês e outra, o dia. Se coincidissem, saberia que a sorte estava a seu lado. Caso contrário, perceberia que as coisas poderiam não dar certo. Por exemplo, se a jogada dos meses mostrasse Nissan2, e a jogada dos dias mostrasse 100, ficaria claro que o esquema não estava predestinado pelo sobrenatural, pois o 100º dia do ano cai em Tamuz3, não em Nissan.
Haman escolheu seu filho Shimshi para fazer o sorteio. Tão ávido como seu pai, Shimshi tirou um número do primeiro conjunto. Podia-se ler: "Adar"4. Haman fez um sinal para que o filho tirasse um da segunda pilha. Lenta e deliberadamente, pegou um pergaminho e o desdobrou com cuidado. Seus olhos brilharam quando o número apareceu. Era 337, dezessete dias antes do fim do ano.

"Fantástico!" – gritou Haman, saltando de alegria. "É dia 13 de Adar. Funcionou! Vencemos! Os judeus já podem se considerar mortos!"

Shimshi e Haman festejaram o sucesso da loteria. Estavam certos de que Adar seria o mês perfeito. Centenas de anos antes, Moshê havia falecido no sétimo dia de Adar. Obviamente, era uma época inoportuna para os judeus.

Haman também ficou contente que a data lhe desse tempo suficiente para realizar seus planos – quase um ano inteiro. Mensageiros seriam enviados a todas as partes do império com tempo suficiente para todos os arranjos. "Deixe os judeus passarem um ano todo sabendo que estão condenados. Talvez, devido ao medo ou ao desespero, abandonem a religião. Se eu puder forçar os judeus a se assimilarem, será quase tão bom quanto matá-los" – pensou Haman

 

Fonte: http://www.chabad.org.br/

Anúncios
Esse post foi publicado em BEIT CHABAD. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s