Leitura da Torá: Porção Semanal: Parashá Tetsavê (07/03)

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A construção do Mishcan
 
Por Michael Alterman
 
A Torá faz algo muito intrigante ao final da porção da Torá desta semana. Após uma longa discussão dos melu’im, o serviço de consagração do Mishcan, a Torá começa imediatamente a descrever o corban tamid, a oferenda que devia ser levada ao Mishcan (e nos Templos subseqüentes) duas vezes ao dia, enquanto o Templo existisse. 

Em nada se relacionava com os melu’im, mesmo assim as duas seções são separadas apenas por uns poucos espaços em branco (chamado de stumá) no rolo da Torá, após o capítulo 29, versículo 37. Quase se consegue imaginar Moshê e os Filhos de Israel dizendo a D’us: 
"Acabamos de consagrar o Mishcan, portanto que tal dar-nos um descanso antes de iniciarmos o serviço diário."

Rabi Samsom Raphael Hirsch explica que a decisão da Torá de justapor a consagração inaugural ao corban tamid diário não foi por acaso. D’us estava nos ensinando uma lição crucial para toda a eternidade. D’us prometera ao povo judeu (na porção da Torá da semana passada): "Façam para Mim um Santuário, e Eu habitarei entre vós" (Êxodus 25:8). Qualquer judeu poderia ter facilmente assumido que simplesmente construir a estrutura era o objetivo final e suprema realização. D’us tinha prometido habitar entre os Filhos de Israel se eles construíssem para Ele um Santuário – fim da história. Após a pessoa ter contribuído para o fundo da construção, ajudado a coletar os equipamentos, e talvez mesmo martelado alguns pregos, poderia achar que estava na hora de ir para casa, completamente satisfeito com o que havia realizado. Alguns indivíduos podem ter sentido que haviam completado suas obrigações a ponto de não mais terem desejo de participar. Afinal, tinham construído o Santuário de D’us como D’us havia pedido. 

Para impedir que as pessoas cometessem um erro tão grave, a Torá coloca o mandamento de realizar o corban tamid diário imediatamente a seguir da consagração inicial da própria estrutura. D’us estava nos dizendo que a construção do Mishcan não era o final, mas sim um meio para servi-Lo com toda nossa capacidade. Podemos ir para casa, satisfeitos de que os cohanim realizarão nossas obrigações no Santuário. Similarmente, não podemos deixar de participar e comparecer aos serviços em nossas respectivas sinagogas, satisfeitos de que os rabinos preencherão nosso requerimentos.

O Judaísmo é uma religião participativa, com mitsvot designadas para transformar em ação a moral e a ética da Torá; não se é um expectador de esportes.

Notavelmente, é apenas após os mandamentos do corban tamid, quando principiamos a participar no serviço de D’us de forma diária, que D’us reitera Sua promessa de ser Nosso D’us, diretamente envolvido em nossa vida cotidiana. Como D’us diz em Êxodus 29:45 após descrever o corban tamid: "Eu habitarei entre os Filhos de Israel, e Eu serei para eles um D’us."

 
 
O Cohen
 
 
Por Ezra Cohen
 
Todo Cohen que servia no Templo usava quatro vestes especiais, incluindo uma camisa, calças, cinto e turbante, todos confeccionados de linho branco. O Cohen gadol vestia quatro roupas adicionais, incluindo o manto, o avental, o peitoral e o capacete. Presos à bainha do manto havia 72 ornamentos ocos no formato de romãs, alternando-se com 72 sinos de ouro. As campainhas tilintavam para anunciar a chegada do Cohen Gadol ao santuário. Há muitas lições que podemos extrair do tilintar dos sininhos.

O Chasam Sofer comenta que as campainhas nos lembram que os líderes de Israel, às vezes, precisavam fazer-se ouvir. Embora o silêncio certamente seja algo bem desejável na vida de um judeu, às vezes o líder precisa afirmar seus pontos de vista – ele tem de fazer barulho – especialmente se a santidade da Torá está em perigo. Ele deve falar em voz alta contra qualquer possível profanação do nome de D’us.

O manto e seus sininhos, como foi declarado pelos comentaristas, eram uma expiação pelo pecado de lashon hará, maledicência. Quando examinamos o objetivo e a natureza das campainhas, vemos como isso é possível. O som de sininhos anuncia a presença das pessoas antes que ela entre, e isso demonstra sensibilidade para com os outros. Se a pessoa é sensível e sente empatia pelos sentimentos do próximo, certamente se refreará de falar mal desta pessoa. 
Os sinos também nos ensinam uma lição de derech erets, boas maneiras. O Midrash comenta sobre o tilintar dos sininhos antes da entrada do Cohen Gadol no Mishcan. Isto nos ensina que devemos avisar antecipadamente quando visitamos outras pessoas, e não entrar inesperadamente na casa dos outros. Isto aplica-se mesmo quanto a entrar em nossa própria casa.

Além disso, Rabi Chaim Shmulevitz acrescenta que mesmo se estivermos fazendo um ato louvável, seja no serviço sacerdotal no Templo ou coletando caridade (fora dele), devemos demonstrar sensibilidade para com os outros informando-os previamente sobre nossa chegada. O Cohen Gadol era vestido com roupas que demonstravam suas boas maneiras. Apenas entrava no Mishcan avisando com antecedência – pelo som dos sininhos na baínha de seu manto. Vemos aqui que nem mesmo uma causa valiosa supera a regra imperativa de se ter boas maneiras. A pessoa deveria perceber que os sinos do Cohen dobram com uma mensagem para todos nós.

 
 
Moshê desaparece
 
 
Por Yanki Tauber
 

 

A Torá consiste em cinco livros, subdivididos em 54 parshiyot. Estes são comumente denominados "Os Cinco Livros de Moshê".

À primeira vista, o nome parece de certa forma mal aplicado. É verdade que Moshê os transcreveu, e também é certo que ele é o personagem principal na narrativa; porém, não é a Torá de D’us? Similarmente, o Talmud estranha o chamado do profeta (Mal’achi 3:22) a "Lembrem-se da Torá de Moshê, meu servo." Então é a Torá de Moshê? Sim, é, diz o Talmud. "Como ele deu a vida à ela, é chamada por seu nome."

Não há menção de Moshê no primeiro livro, Bereshit (Gênesis). Isso faz sentido – ele ainda não havia nascido. A palavra "Moshê" aparece somente umas poucas vezes no quinto livro, Devarim (Deuteronômio). Isso, também, é entendido – o livro de Devarim, na sua totalidade, é um longo discurso com 37 dias de duração, que Moshê pronunciou ao povo de Israel antes de seu falecimento. Durante todas as onze porções de Devarim ouvimos sua voz falando – "Naquele tempo, D’us disse a mim…", "E então viajamos em frente…" (em contraste, o restante da Torá está escrito na terceira pessoa – "E D’us falou a Moshê…", " E Moshê subiu a montanha…", etc.)

Nos outros três livros, o nome "Moshê" aparece diversas vezes em cada parashá – freqüentemente até dezenas de vezes numa única página. Em todas as parshiyot, exceto uma: a seção de Tetsavê (Shemot 27:20 – 30:10) não inclui uma única menção do nome de Moshê.

O comentário Báal Haturim sobre a Torá explica este fenômeno como uma conseqüência de algo que Moshê disse a D’us logo após o pecado do Bezerro de Ouro. Quando o povo de Israel traiu sua aliança com D’us, apenas 40 dias após receber a Torá no Monte Sinai, D’us disse a Moshê que Ele planejava destruir a nação errante e construir um povo novo e melhor a partir dos descendentes de Moshê. Moshê suplicou e argumentou em favor do povo, finalmente dizendo a D’us: "Ora, se Tu esqueceres o pecado deles… Mas se não esqueceres, apaga-me do livro que escreveste" (Shemot 32:32). Eis por que, diz o Báal Haturim, o nome de Moshê não consta da parashá Tetsavê.

Algumas coisas, porém, ainda precisam ser entendidas:

a) No final, evidentemente, D’us não destruiu o povo de Israel e não apagou o nome de Moshê da Torá. Então, por que o nome de Moshê foi removido de Tetsavê? Seria algum tipo de punição ou "desavença" por causa de suas palavras audaciosas, ou existe um significado mais profundo para esta constatação parcial?

b) O que Moshê estava tentando conseguir? Isso era algum tipo de "ameaça" para forçar D’us a concordar? A obliteração do nome de Moshê da Torá de alguma forma salvaria o povo de Israel?

c) Por que, de todas as 54 parshiyot da Torá, Tetsavê é a única a omitir o nome de Moshê? De fato, o relato do pecado de Israel e o "ultimato" de Moshê aparecem na parashá seguinte, Ki Tissá!


 

O Zôhar fala de D’us, da Torá e do povo de Israel como "os três elos que estão conectados um a outro… cada um consistindo de um nível sobre outro nível, oculto e revelado."

O que são estes níveis "oculto" e "revelado" de que fala o Zôhar? Os mestres chassídicos explicam que há dois níveis nos quais D’us, Israel e a Torá estão interligados. No nível "revelado", a Torá é o elo entre D’us e Israel. D’us é infinito e impenetrável, e nós somos seres mortais e finitos. Porém D’us nos deu Sua Torá, decretando que seria a incorporação de Sua sabedoria e vontade; quando estudamos a Torá e cumprimos seus preceitos, conectamo-nos com D’us.

Em um nível mais profundo, a conexão é ao contrário: As almas de Israel são aquilo que conecta a Torá com D’us. Neste nível, a alma é uma centelha da Divina essência, e a Torá é o produto desta unicidade. D’us, como Ele é em Si Mesmo, está além de possuir uma "sabedoria" ou "vontade"; Ele adquire estas unicamente como um meio pelo qual expressar Seu relacionamento intrínseco conosco.

Em outras palavras, no nível "revelado", um povo judeu que rejeite a Torá, D’us não o permita, perde sua conexão com D’us. No nível oculto, é a Torá que "precisa" de nós para estar conectada com o Todo Poderoso.

(Assim, há versículos e Midrashim que descrevem o povo judeu como "filhos" de D’us – o relacionamento de um filho com o pai ou a mãe deriva do fato de que ele ou ela é uma extensão do progenitor. Em outros locais, vemos a Torá como fonte de nosso vínculo, como o Midrash que descreve a Torá como "filha" de D’us e Israel como o "genro do Rei.")


Agora podemos entender o que Moshê conseguiu, insistindo que D’us "apagasse" seu nome da Torá.

O nome de uma pessoa é o "eu" que apresenta ao mundo, além do qual está um "eu" mais profundo e interior que transcende toda nomenclatura e descrição. Assim, Nossos Sábios nos dizem que "a Torá inteira são os nomes de D’us" – i.e., a forma pela qual D’us Se dá a conhecer a nós.

Quando D’us disse a Moshê que o abandono da Torá por parte de Israel tinha destruído seu vínculo com Ele, Moshê entendeu que isso significava que D’us estava então Se relacionando com eles no nível de Seu "nome" – a dimensão "revelada" de seu vínculo, onde a Torá é o elo entre D’us e Israel. Ele sabia que para salvar o povo de Israel, deveria evocar seu relacionamento "oculto" com D’us – o vínculo intrínseco que nenhuma transgressão pode abalar. Então, ele disse a D’us: "Apague meu nome da Torá."

A Torá é minha vida, estava dizendo Moshê. Além disso, é a substância de meu relacionamento com o povo que amo: sou seu mestre, o transmissor de Sua sabedoria a eles. Porém meu supremo vínculo com eles é muito mais profundo. A tal ponto, que eu desejo obliterar meu nome da Torá, pois desde que eu defina meu papel na vida deles como sua fonte de Torá, o fato de eles abandonarem a Torá significará que não estou mais conectado com eles.

Os atos dos justos têm um efeito interessante sobre D’us – fazem com que Ele aja da mesma forma. As palavras de Moshê estimularam D’us a também assumir Seu relacionamento "oculto" e "sem nome" com Seu povo – o vínculo que transcende a Torá, e na verdade a fonte e razão de ser da Torá. (Assim, na análise final, Moshê não apenas salvou o povo de Israel – salvou também a Torá.)


A parashá Tetsavê serve como um glorioso monumento ao grande feito de Moshê, e àquilo que ele realizou. Pois embora seu "nome" esteja de fato ausente da parashá, sua essência não nomeada a impregna ainda mais pela sua ausência nomeada. Isso pode ser visto na primeira frase de Tetsavê, que registra as palavras de D’us a Moshê; "E comandarás os Filhos de Israel…" Na primeira palavra da parashá – veatá, "e tu" – Moshê está ali. Não pelo seu nome, mas pelo "tu", que transcende o nome.

Por que Tetsavê? Esta terça-feira é 7 de Adar – nascimento de Moshê e data de seu falecimento. É também a terça-feira da semana na qual é lida a parashá Tetsavê, no ciclo anual de leitura da Torá. O mesmo acontece todos os anos – 7 de Adar sempre cai na semana de Tetsavê, tornando-a uma semana apropriada para ser introduzida ao "tu" quintessencial de Moshê.

 

Fonte: http://www.chabad.org.br/

 

 

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