Leitura da Torá: Porção Semanal: Parashá Yitrô – parte I

 
 

 
Shemot 18:1 – 20:23

(Êxodo)18:1-20:23

 

A porção de Yitrô inicia-se com o sogro de Moshê, Yitrô, chegando ao acampamento do povo judeu no deserto, onde é saudado calorosamente por grande quantidade de pessoas. Yitrô desejou juntar-se a eles quando ouviu falar de todas as maravilhas e milagres que D’us realizara para o povo judeu durante o êxodo do Egito.

Quando vê que Moshê está agindo como único juiz do povo desde o amanhecer até a noite, Yitrô declara que este sistema jamais funcionará. Sugere portanto que juizes subordinados sejam designados para julgar os casos menos importantes. Moshê concorda com este plano.

O povo judeu chega ao Monte Sinai e prepara-se para receber a Torá. Moshê escala a montanha e D’us lhe diz para transmitir ao povo de que serão para Ele como um tesouro entre as nações. Após três dias de preparação, finalmente chega o momento da revelação, e em meio a trovões, raios e o som do shofar, D’us desce sobre a montanha e proclama os Dez Mandamentos.

Moshê então sobe à montanha para receber o restante da Torá de D’us, tanto a parte escrita como a oral. A porção é concluída com várias mitsvot referentes à construção do Altar no Templo.

Mensagem da Parashá

"No terceiro mês após a saída dos Filhos de Israel do Egito, neste dia finalmente chegaram ao deserto do Sinai" (Shemot 19:1).

À primeira vista, este versículo parece inócuo; o que pode haver de especial em dizer-nos que os Filhos de Israel chegaram ao Sinai? Entretanto, Rashi imediatamente nos alerta para o fato de que este versículo contém mais que possamos suspeitar. Rashi enfatiza que a Torá não escreve "naquele dia", implicando que "naquele" no passado, quando eles chegaram. Ao contrário, a Torá escreve "neste dia", parecendo indicar o verdadeiro dia no qual lemos este versículo. Este emprego, continua Rashi, nos ensina que a Torá deveria ser nova para nós a cada dia, como no dia em que foi outorgada.

Se examinarmos o contexto deste versículo, verificamos que esta lição está situada apropriadamente. Como declara o versículo, os judeus acabaram de chegar ao Monte Sinai e logo depois, receberá a Torá diretamente das mãos de D’us. Imagine, se puder, a cena no acampamento dos Filhos de Israel. Limpeza, lavagem, banhos – todos estão ocupados se preparando, pois todos perceberam que este não é apenas mais um dia comum. A revelação no Monte Sinai assinala o maior de todos os acontecimentos, desde a Criação. É o clímax dos eventos que começaram com a divisão entre luz e trevas.

Relâmpagos, trovões e fumaça rodeiam a montanha – o mundo todo não pode evitar de perceber este evento extraordinário. Os judeus no Monte Sinai receberam permissão de chegar mais perto do Divino que qualquer outro povo, antes ou depois. Como poderia um judeu vivenciar este fenômeno incrível e não se tornar cativo da Torá e suas leis? Como poderia alguém em tal estado de euforia não ser avassalado por um sentimento de paixão para realizar a vontade do Criador?

Obviamente, nesta notável ocasião, os filhos de Israel sentem um intenso nível de fascinação e comprometimento com a Torá que acabaram de receber. Não podem deixar de cumprir suas leis e mandamentos. Mas e quanto ao amanhã? O que acontecerá quando o entusiasmo inicial arrefecer? O que acontecerá quando os relâmpagos, trovões e efeitos especial forem esquecidos? Os Filhos de Israel ainda cumprirão as mitsvot com a mesma intensidade? Na verdade, isso parece muito pouco provável. Exatamente por esta razão, a Torá escolheu este momento específico para ensinar a lição importante enfatizada por Rashi.

Após a euforia inicial do recebimento da Torá ter passado, eles devem entender que seu zelo em cumprir as mitsvot não pode diminuir. Assim, cada dia deve ser visto como se a Torá tivesse sido outorgada hoje. Ao relembrar aquele primeiro dia em que chegaram ao deserto do Sinai, os judeus podem novamente atingir aquele nível de entusiasmo pela Torá.

Se aqueles judeus que viveram apenas alguns dias subseqüentes à Revelação precisassem ser lembrados desta mensagem, muito mais nós que vivemos nos dias de hoje, três mil anos depois, precisamos receber esta lição em nosso coração. É muito fácil tornar-se envolvido pela rotina. Rezar três vezes ao dia, recitar bênçãos antes de comer – estas coisas facilmente tornam-se tão habituais que começamos a realizá-las feito robôs, ao invés de seres humanos. O status quo é confortável e familiar. Entretanto, este tipo de comportamento e maneiras deveria ser evitado a qualquer custo.

Os perigos da mediocridade estão bem documentados, mesmo nos domínios da não-Torá. Dante reservou o lugar mais quente do Inferno para aqueles que não queriam ir adiante, contentes em correr no mesmo lugar. Assim que começamos a cumprir as mitsvot mecanicamente, ao invés de fazê-lo com a atenção e concentração que merecem, as leis tornam-se sem vida e rançosas. Em vez de servirem de inspiração para nossa vida do dia-a-dia, os mandamentos tornam-se fardos problemáticos dos quais logo nos cansamos.

Dessa maneira, a Torá nos reúne aqui hoje para quebrarmos o círculo vicioso. Não podemos nos satisfazer com o status quo. Devemos nos esforçar para ir para a frente, buscando novos picos em nossa vida espiritual. O primeiro passo neste plano é uma mudança de atitude. Como uma criança transbordando de entusiasmo por ter acabado de ganhar um brinquedo novo, da mesma forma devemos receber cada novo dia, com o mesmo entusiasmo. Com tal mudança de atitude, a Torá e suas leis recebem um novo significado. Ao invés de serem obstáculos nas estradas, as mitsvot tornam-se nossos mapas na estrada da vida. em vez de nos restringir, a Torá agora nos liberta das amarras da mediocridade. Se apenas considerarmos a mensagem de "neste dia", nós também podemos atingir o mesmo nível de fervor e zelo pela Torá que tinham os judeus quando da Revelação. Nós também podemos nos sentirmos recebendo a Torá no Monte Sinai.

Seleções do Midrash

 

A chegada de Yitrô, sogro de Moshê

Apesar de todas as nações terem ouvido o retumbante ribombar da abertura do Mar Vermelho e perguntado acerca de seu significado, e mesmo todas saberem da vitória do povo judeu sobre Amalec, não deram ouvidos à mensagem.

Havia um único homem que escutou e captou o verdadeiro significado destes eventos transcendentes. Compreendendo que D’us é Onipotente, concluiu que é seu dever moral servi-Lo. Os milagres que D’us havia feito pelo Povo de Israel o convenceram de que D’us é o verdadeiro D’us. Este homem era Yitrô, o sogro de Moshê.

Na parashá de Shemot, Moshê havia levado sua esposa Tsipora e seus dois filhos de volta a Midyan para casa de Yitrô. Lá estariam a salvo, e o Faraó não poderia lhes causar dano. Agora o exército do Faraó se havia afogado e Moshê estava no deserto com o povo judeu.

Sem demora, Yitrô pegou Tsipora e seus dois filhos, e dirigiu-se ao deserto, ao acampamento do povo judeu. Sua intenção era converter-se e juntar-se ao povo judeu no deserto, mesmo se isso significasse sacrificar sua honra e conforto no tocante a assuntos mundanos.

Quando chegou ao acampamento deles, não pôde entrar por causa das nuvens que o rodeavam como uma muralha. O que ele fez?

Escreveu uma carta a Moshê: "Sou Yitrô, seu sogro. Vim para o deserto. Venha saudar-me, se não por mim, então ao menos por sua esposa e seus dois filhos, que me acompanharam e desejam juntar-se a você."

Yitrô amarrou a carta a uma flecha e atirou-a dentro do acampamento israelita. Apesar de geralmente as nuvens rechaçarem projéteis, aceitaram esta carta, em honra a Moshê.

A conversão de Yitrô

Moshê leu a carta e perguntou a D’us se devia ir ao encontro de Yitrô e aceitá-lo como judeu. D’us ordenou a Moshê: "Vá encontrar seu sogro, Moshê! Dê boas-vindas a Yitrô, que veio de tão longe para estar com você e deseja fazer parte da nação judia. Eu sou Aquele que decide quando é apropriado aceitar um convertido, e Eu te digo que Yitrô veio aqui apenas em nome dos Céus. Ensine-lhe as leis da Torá. Se um não-judeu deseja converter-se por amor à Torá e suas mitsvot, por um reconhecimento sincero de D’us e um desejo de ser um verdadeiro judeu em todos os sentidos, é uma mitsvá ajudá-lo, dedicar-lhe amizade, convertê-lo e tratá-lo como judeu em tudo."

O tom do comando de D’us revela que Moshê hesitava em receber seu sogro. D’us convenceu-o, pois Yitrô havia sido sacerdote de ídolos a vida inteira. Moshê não tinha meios de saber se Yitrô estava sendo sincero sobre converter-se e ser judeu, e se manteria o compromisso e lhe seria fiel. Apenas D’us, que perscruta os pensamentos da pessoa poderia assegurara a Moshê que Yitrô permaneceria leal ao judaísmo. Portanto, Ele ordenou a Moshê que honrasse Yitrô.

Moshê, Aharon e os setenta anciãos deixaram as Nuvens da Glória e foram dar as boas-vindas a Yitrô. Quem poderia ver este distinto cortejo e não se sentir compelido a segui-lo? A nação inteira juntou-se a Moshê, Aharon e aos anciãos. Yitrô, o primeiro convertido sincero, recebeu boas-vindas reais. Até a Shechiná (Divindade) apareceu em sua recepção.

Moshê inclinou-se para seu sogro e beijou-o.

Inferimos da maneira respeitosa como Moshê tratou seu sogro, que a pessoa deve honrar a seus sogros.

Tsipora, que ouvia tudo que seu marido contava a Yitrô, lamentou não ter estado entre as mulheres para juntar-se a Miriam em seu cântico a D’us depois do milagre no Mar Vermelho. Por isso D’us prometeu que anos depois, a alma dela entraria no corpo de Devora, a profetisa, que entoaria um cântico de louvor a D’us junto com todo povo de Israel após a vitória sobre os inimigos, na época dos Juizes.

Moshê conduziu Yitrô direto à casa de estudos, onde descreveu, entusiasmado, os detalhes do Êxodo, da abertura do Mar e a milagrosa guerra contra Amalec. Esperava, através disso, atrair seu sogro à senda da Torá.

Moshê narrou a Yitrô: "D’us nos deu o maná, Pão Celestial, que pode assumir o sabor de pão, carne ou peixe – contém todos os deliciosos sabores do mundo. Temos o Poço de Miriam, cujo líquido tem gosto de vinho antigo ou novo, leite ou mel; transforma-se em qualquer bebida gostosa que exista. Estamos a caminho da Terra de Israel, e D’us nos prometeu a maior das recompensas: a Terra Santa, o Mundo Vindouro, a monarquia de David e a ressurreição dos mortos!"

Ao ouvir a detalhada narrativa dos grandes milagres que D’us realizou, pôs imediatamente em prática a decisão de converter-se ao judaísmo. Pegando uma faca afiada, fez circuncisão em si mesmo, e reconheceu D’us como único Legislador e Soberano. Yitrô se regozijou de que D’us houvesse salvado os judeus. Mas ao mesmo tempo, em seu coração Yitrô sentiu pena dos egípcios que se afogaram no mar.

"Louvado seja D’us!" – proclamou Yitrô, "Que os redimiu do Egito, uma nação temível, e das mãos do Faraó, um rei cruel, e Que os libertou da escravidão do Egito! É verdadeiramente miraculoso que uma nação de seiscentos mil homens pudesse cruzar as fronteiras egípcias, que são tão hermeticamente seladas que nem um único escravo jamais foi capaz de escapar.

"Estudei todas as religiões do mundo, e rejeitei-as todas, por serem falsas; alcancei o entendimento de que D’us é o verdadeiro D’us. Agora compreendo até com mais clareza que D’us transcende todos os outros poderes, pois a praga da morte dos primogênitos destruiu todas as divindades egípcias. Ademais, Sua grandeza fica evidente pelo fato de que Ele ferveu os egípcios na mesma panela que usavam ferver outros. Uma vez que tentaram destruir os bebês judeus afogando-os, Ele afogou os egípcios em retribuição."

Yitrô ficou deveras impressionado pela maneira como D’us pune com a mesma moeda, que frustra a possibilidade de chance e acaso provando que a vida dos homens é realmente moldada pela Divina Providência.

Quando Yitrô, antigo sacerdote que pesquisara todos os cultos do mundo exclamou: "Agora sei que D’us é maior que todos os outros poderes," realizou a maior santificação do Nome de D’us possível. As nações do mundo ouviram sobre isto, e abandonaram seus ídolos, com isso reconhecendo a futilidade de servir imagens.

O mesmo Yitrô que por muitos anos sacrificou oferendas aos deuses das nações, agora oferecia sacrifícios a D’us. Então sentou-se para fazer uma refeição com Aharon e os anciãos. Todos comeram juntos e se regozijaram com Yitrô por sua conversão ao judaísmo e porque a partir desse dia cumpriria todas as mitsvot de D’us. Moshê, contudo, não juntou-se a eles, mas permaneceu em pé, servindo a todos. Pois Moshê era o mais humilde de todos os homens da terra. Embora fosse o líder do povo de Israel, não se importava de servir a outros: ao contrário, sentia-se feliz de praticar bondade.

Aconteceu um milagre especial em honra a Yitrô – uma porção de maná desceu para ele durante a refeição. Isto demonstrava claramente que ele havia se tornado parte do povo judeu.

Yitrô aconselha a designação de juizes

Durante sua estadia no acampamento do povo judeu, Yitrô deve ter observado como a rotina diária era diferente da de outras nações "civilizadas." No deserto, o povo judeu não estava empenhado na agricultura, indústria ou comércio, uma vez que a maná que descia pela manhã provia alimento suficiente para o dia inteiro. As atividades domésticas e culinárias tampouco eram necessárias, pois a maná descia pronta para consumo, e as Nuvens de Glória lavavam e passavam suas roupas. Sua ocupação o dia inteiro era estudar Torá e cumprir mitsvot.

Todo dia Moshê se colocava no centro do acampamento para ensinar e julgar as pessoas que se reuniam à sua volta como se estivessem diante de um rei. Uma multidão se apinhava em torno de Moshê a fim de escutá-lo. Levantavam diversas questões sobre assuntos legislativos da Torá, tentando entender melhor as mitsvot. Algumas pessoas o procuravam para ser julgadas, porque haviam brigado com alguém. Outras queriam pedir a Moshê que orasse por uma pessoa enferma.

Como levava muito tempo a Moshê para escutar o pedido de cada um e resolver suas pendengas, tinham que aguardá-lo por muitas horas. Moshê terminava muito tarde. No dia seguinte, estava de novo ocupado de manhã à noite. Embora Aharon e os anciãos se sentassem junto a Moshê, somente ele se ocupava pessoalmente dos problemas e das dúvidas que surgiam.

Quando Yitrô viu Moshê sentado e as pessoas em pé ao seu redor, perguntou-lhe: "Por que você permanece sentado enquanto as pessoas ficam em pé desde a manhã até a noite?" Moshê respondeu: "Não é em minha honra que o faço, mas em honra a D’us. Todo aquele que tem um problema ou uma questão legal vem a mim e eu pronuncio uma sentença. Julgo os litígios e ensino ao povo como deve comportar-se."

Yitrô exclamou: "O que você está fazendo não é bom!" (Sendo Yitrô um homem refinado, evitou a expressão "ruim", e disse a Moshê apenas que a maneira como lidava com a situação "não era boa.") Yitrô aconselhou-o: "A sobrecarga sobre você, Aharon e os anciãos é grande demais para suportar. Por causa do enorme esforço, vocês murcharão como uma folha murcha na árvore. Permita-me, portanto, aconselhá-lo, contanto que D’us esteja de acordo! Continue a ser intermediário entre o povo e D’us, instruir ao povo as palavras de Torá, e ensiná-los a praticar a bondade e como rezar. Todavia, não tome sobre si, e não atribua a Aharon e aos anciãos a total responsabilidade de responder à questões legais. Em vez disto, designe juízes sobre o povo. Os juízes decidirão todas as questões e contendas menores, e lhe trarão apenas os problemas mais importantes.

"Estes juízes devem estar isentos de qualquer outro tipo de ocupação, a fim de estarem disponíveis ao povo a qualquer hora."

As qualidades requeridas de um líder

Yitrô afirmou que um homem deve possuir as seguintes características a fim de qualificar-se como um juiz:

– Deve ser bem versado em Torá, e deve ser rico (de forma que não necessite adular ninguém, e não dê preferência a nenhum litigante). Deve possuir personalidade dinâmica, que sirva de inspiração para que outros façam o que é certo.

– Deve ser temente aos Céus, para que julgue verdadeiramente.

– Deve ser um homem confiável, em cuja palavra o povo se apóia.

– Deve detestar o dinheiro. Não pode atribuir nenhuma importância ao seu próprio dinheiro, e certamente não ao dinheiro alheio. Não pode tender a aceitar subornos.

(Os líderes da Torá, através dos séculos, distinguiram-se por servir o povo judeu sem serem remunerados. O exemplo foi estabelecido pelo nosso grande líder Moshê que, ao final da vida, declarou que nunca havia aceito pagamento algum do povo. Mesmo quando viajou ao Egito para redimi-los, montou seu próprio burro, e não foi reembolsado pelas despesas da viagem. O profeta Shemuel, igualmente, antes de sua morte, conclamou a nação inteira para testemunhar que ele jamais aceitara mesmo o menor artigo de qualquer um deles. Ao viajar para julgar o povo, costumava carregar consigo sua própria tenda e alimentos.)

A sugestão de Yitrô é implementada e os juizes são nomeados

Yitrô disse a Moshê: "Escolha juízes com as qualidades que descrevi. Use o Espírito Divino que paira sobre você (assim não se enganará acerca de seu caráter). Indique juízes que serão responsáveis, cada um, por milhares de pessoas, por cem, por cinqüenta e por dez pessoas."

Para 600.000 pessoas, haveria:

– 600 juízes encarregados de milhares

– 6.000 juízes encarregados de centenas

– 12.000 encarregados de meias-centenas

– 60.000 encarregados de dezenas.

Yitrô propôs designar, ao todo, 78.600 juizes.

"Se colocar em prática meu plano, então a lei certamente será decidida como deve ser." Moshê escutou o bom conselho de seu sogro. O rei Salomão escreve, referindo-se a Moshê (Mishlê 12:15): "Aquele que aceita conselhos é sábio."

"Seguirei tua sugestão e perguntarei a D’us se devo designar muitos juizes para ajudar-me," respondeu-lhe Moshê. Quando perguntou a D’us, Ele aprovou a idéia de Yitrô, e Moshê a colocou em prática.

A estes homens escolhidos, Moshê disse: "Bem-aventurados são vocês por serem juizes dos filhos de Avraham, Yitschac e Yaacov. Bem-aventurados são vocês pelo privilégio de guiar os filhos de D’us. Devem ser pacientes e cautelosos com todo caso que tiverem diante de si. A partir de agora vocês são servidores públicos. É uma função séria e distinta, que devem desempenhar com integridade."

Por que Moshê nunca indicara juizes antes de Yitrô aconselhá-lo? Por que ele mesmo jamais havia pensado nesta solução aparentemente simples?

Na verdade, Moshê recebera um comando de D’us para indicar juizes. Subseqüentemente, contudo, foi-lhe ocultado, a fim de que Yitrô tivesse o mérito de ter esta parashá inscrita em seu nome.

Originalmente, o nome de Yitrô era "Yeter". Mais tarde, a letra "vav" foi acrescentado ao seu nome, formando Yitrô, tanto para indicar que tornou-se judeu, quanto para indicar que o relato da nomeação dos juizes foi acrescida à Torá em seu nome.

(Sob diversas instâncias a Torá acrescenta uma letra ao nome de alguém, como sinal de que a pessoa adquiriu grandeza. Por exemplo, uma letra foi acrescida aos nomes de Avram e Sarai, modificando-os para Avraham e Sara, quando adquiriram maiores alturas espirituais. Similarmente, o discípulo de Moshê, Hoshea, recebeu uma letra adicional precedendo seu nome, transformando-o em Yehoshua.)

Yitrô viveu no acampamento do povo judeu por quase um ano, enquanto permaneceram aos pés do Monte Sinai. Porém quando se preparavam para viajar para Israel, Yitrô recusou-se a acompanhá-los adiante, dizendo a Moshê: "Permita-me retornar ao meu país, a fim de difundir a verdade lá, e trazer as pessoas para sob as asas da Shechiná."

Moshê então despediu-se de seu sogro com grande honra e abundantes e belos presentes.

A Torá e o deserto do Sinai

No primeiro dia (Rosh Chôdesh) do mês de Sivan, o povo judeu chegou ao deserto de Chorev, que também tinha outro nome, Sinai.

– O snê, a sarça ardente, na qual D’us revelou-Se a Moshê localiza-se neste deserto e deu nome a ambos (snê – Sinai). A letra "yud" (cujo valor numérico é dez) foi acrescentada a snê, transformando-o em Sinai, por causa dos Dez Mandamentos que ali seriam dados.

– Além disso, o nome Sinai dá a entender que desde a Outorga da Torá, as nações nutrem ódio (sin’á, em hebraico) contra os judeus, que foram diferenciados como o Povo Eleito de D’us, como resultado daquele imponente evento.

A Torá foi dada aos judeus no deserto, num lugar amplo e aberto, que não pertence a nenhuma nação, de modo que qualquer um que desejasse aceitar a Torá e suas mitsvot poderia ir ao deserto e fazê-lo livremente.

Por que a Torá não foi dada imediatamente após a saída do Egito

Por que D’us não presenteou a Torá a Seu povo assim que saíram do Egito? Por que Ele esperou sete semanas entre o Êxodo do Egito e a Outorga da Torá?

No meio do ano letivo, um jovem ficou doente e foi obrigado a ficar em casa. Teve que ficar de cama por muitas semanas. Quando finalmente pôde se levantar, sentia-se fraco, e estava pálido

Um dia depois, o telefone tocou na casa do garoto. Era o diretor da escola dizendo ao pai: "Ouvi que teu filho não está mais doente. Já é hora de ele voltar à escola!"

"Impossível!" – protestou o pai. "O menino ainda não está realmente pronto para isto. Deixe que fique em casa por dois ou três meses, para que convalesça e recupere as forças através de uma dieta nutritiva. Então será capaz de freqüentar a escola!" Similarmente, D’us não considerava o povo judeu apto a receber a Torá imediatamente após ter deixado o Egito. Disse: "Eles ainda estão sofrendo os efeitos posteriores ao trabalho escravo egípcio. Deixe que fiquem no deserto por alguns meses, comam a maná e as codornizes, e bebam a água do poço. Quando estiverem recuperados, Eu lhes darei a Torá."

Uma razão adicional é ilustrada por esta parábola:

Um príncipe que estava procurando por uma esposa ouviu falar sobre uma moça de família nobre que possuía todas as qualidades desejáveis para se tornar rainha. A fim de conquistá-la para o matrimônio, resolveu apresentar-se dando-lhe muitos presentes. Só depois procuraria o consentimento dos pais dela para o casamento.

Quando ouviu que ela estava saindo para a padaria, mandou que lhe dessem um grande bolo recheado de creme, em seu nome. Quando foi a uma loja de departamentos, entregaram-lhe um elegante traje pago pelo príncipe. No restaurante, recebeu dele um ganso recheado; na loja de bebidas, um vinho de seleta safra; na bombonière, uma caixa de finos bombons embrulhada para presente. Depois, quando o príncipe pediu sua mão, não levantou objeções.

Assim D’us, antes de entregar a Torá ao povo judeu, tornou-Se conhecido deles manifestando Sua grande bondade – Ele conduziu-os pelo Mar Vermelho em terra seca; salvou-os de Amalec, deu-lhes o maná, que continha os mais refinados e deliciosos sabores do mundo; o Poço de Miriam, cujo líquido tinha o sabor das melhores bebidas; e as codornizes. Só depois Ele perguntou-lhes se desejavam aceitar Sua Torá, e não recusaram.

Ademais, quando o povo judeu deixou o Egito, havia muita rivalidade e contenda entre o povo. Deixaram a cidade de Sucot ainda com discussões, e quando acamparam em seu próximo destino, Etam, a discórdia ainda prevalecia. D’us não podia outorgar Sua Torá a um povo que não estava em paz entre si.

Finalmente, ao chegarem ao deserto de Sinai, colocaram fim a todas as rixas e uniram-se. Disse D’us: "A Torá de Paz pode agora lhes ser dada, pois aprenderam a viver em harmonia uns com os outros!"

No dia de sua chegada ao sopé da montanha, que foi no segundo dia da semana, D’us não Se dirigiu ao povo diretamente, pois ainda estavam fracos da viagem. Descansaram aos pés da montanha.

A Torá é oferecida às nações do mundo

Antes de dar a Torá a Seu povo, D’us desceu às nações que viviam naqueles tempos, perguntando-lhes se estavam dispostas a aceitá-la, para que mais tarde não pudessem dizer que ela não lhes tinha sido oferecida e que por isso tinham permanecido idólatras.

Os primeiros a serem procurados foram os filhos de Essav (Esaú). "O que está escrito na Torá?", perguntaram. "Não matarás", respondeu D’us. "Se é assim, não podemos aceitar a Torá e cumprir o que nela está escrito, porque vivemos pela espada", responderam eles.

D’us foi em seguida aos descendentes de Yishmael: "Vocês aceitam a Torá?" "O que está escrito nela?", perguntaram eles. "Não roubarás", disse D’us. "Então não podemos aceitar a Torá, porque não seremos capazes de cumprir esse mandamento. Diz-se do nosso ancestral Yishmael já praticava o roubo."

D’us dirigiu-se então aos filhos de Tsor e Tsidon e a todas as outras nações, oferecendo-lhes a Torá. Cada uma perguntou primeiro o que estava escrito nela. Ao ouvirem que ela continha proibições e mandamentos, leis e práticas de todo tipo, de acordo com as quais elas teriam de viver pacificamente umas com as outras, julgando com justiça e abstendo-se de comportamentos indesejáveis, rejeitavam-na. Por fim D’us foi aos israelitas e perguntou-lhes se queriam a sagrada Torá. Eles indagaram: "O que ela contém?" D’us respondeu: "Seiscentos e treze mandamentos." Ao ouvirem isso, eles imediatamente se puseram em pé e declararam simultaneamente: "faremos e ouviremos".

Em seguida acrescentaram: "Mestre do Universo, nós e nossos antepassados guardávamos muitos preceitos mesmo antes de sabermos do maravilhoso presente que viríamos a receber. Avraham despedaçou os ídolos de seu pai, exigindo que os membros da família retirassem de casa todas as imagens e ídolos que possuíssem, cumprindo assim o mandamento de não fazer imagem esculpida. Yitschac cumpriu o mandamento de honrar o pai quando lhe obedeceu de todo o coração, deixando-se colocar sobre o altar. Yehudá, o filho de Yaacov, cumpriu o mandamento "Não matarás" ao evitar que Yossef fosse morto pelos outros irmãos. Todas as tribos guardaram o preceito de não roubar quando devolveram o dinheiro que acharam em suas sacolas. Estamos acostumados a observar os mandamentos; portanto, D’us, estamos sinceramente dispostos a aceitar tudo que está contido em Sua sagrada Torá."

A Torá é primeiro apresentada às mulheres

No terceiro dia daquela semana, D’us convocou Moshê ao topo da montanha, e deu-lhe as seguintes instruções acerca de como preparar o povo judeu para a Outorga da Torá: "Fale com as mulheres até mesmo antes que com os homens, dirija-se a elas gentilmente, e dê-lhes os princípios gerais. Os homens, por outro lado, devem ser ensinados de maneira severa, e devem ser bem-versados em todos os intricados detalhes das leis."

Por que D’us ordenou que as instruções referentes a Outorga da Torá sejam dadas primeiro às mulheres e só depois aos homens?

Há diversas razões:

1. Da mesma forma como as mulheres são obrigadas a cumprir as mitsvot com doze anos de idade, um ano antes dos homens, assim receberiam as mitsvot antes na Outorga Torá.

2. Se as mulheres fossem assim diferenciadas, fariam um maior esforço para dar a seus filhos uma educação de Torá.

3. D’us disse: "Quando dei uma única mitsvá a Adam (Adão), não a ensinei a Chava (Eva). Em conseqüência, ela pecou e fez Adam errar também. Agora que vou dar seiscentas e treze mitsvot, falarei primeiramente com elas para que saibam da importância das mitsvot.".

4. Todo povo de Israel foi redimido do Egito pelo mérito das mulheres justas e virtuosas. Portanto mereciam a honra de serem procuradas por D’us antes dos homens.

A mensagem de D’us: o povo judeu é escolhido como o Povo Eleito

As palavras de introdução que D’us mandou Moshê transmitir ao povo judeu antes da Outorga da Torá:

"Vocês testemunharam pessoalmente como castiguei os egípcios por terem-nos escravizado. Não escutaram sobre as dez pragas e o Êxodo do Egito através de mensageiros; ou inferiram o conhecimento destes eventos de registros escritos ou de alguma tradição oral. Vocês vivenciaram pessoalmente como Eu intervim em seu favor. Os egípcios já mereciam morrer por causa de seu derramamento de sangue, idolatria e imoralidade antes mesmo de vocês terem chegado ao Egito. Mesmo assim, não os puni por seus pecados, até que lhes fizeram mal. Foram testemunhas de como transportei vocês até Ramsés num curto espaço de tempo, uma vez que chegara a hora de sua redenção. Quando, mais tarde, os egípcios os perseguiram, aparei os projéteis com a Nuvem da Glória, protegendo-os de maneira similar a que uma águia protege sues filhotes. Todas as outras aves carregam seus filhotes entre os pés, por medo de serem atacadas por aves maiores. A águia, contudo, não teme outros pássaros; apenas as flechas do homem. Por isso, transporta seus filhotes nas costas, preferindo ser perfurada pelos projéteis a expôr os filhotes. Agi igualmente, protegendo-os das flechas egípcias por meio de Minha Nuvem. Também agora vocês continuam a viajar através do deserto protegidos pelas Nuvens de Glória.

"O motivo por que os trouxe para o Monte Sinai é para que Me sirvam. Se guardarem Minha aliança observando a mitsvá de Shabat que lhes ordenei em Mará; e se diferenciarem-se fazendo a circuncisão e abolindo os pensamentos idólatras de seus corações, estão prontos para receberem a Torá e tornarem-se Meu Povo Eleito. Serão Meu povo amado. Apesar de toda a Terra ser Minha, terei um amor especial por vocês, dentre as nações. Serão para Mim um reino de sacerdotes, e uma nação sagrada!"

"Transmita estas palavras ao povo judeu exatamente como Eu lhe disse e pergunta-lhes se estão dispostos a aceitar Minha Torá."

Moshê voltou ao povo judeu ao anoitecer, e transmitiu a mensagem acima aos anciãos na presença do povo inteiro. Todos estavam sequiosos por receber a Torá e responderam jubilosamente: "Na’asê – o que quer que D’us diga, faremos."

D’us queria transmitir os Dez Mandamentos através de Moshê, que por sua vez falaria ao povo

Depois de Moshê ter comunicado a D’us a grande vontade e o entusiasmo do povo judeu em receber a Torá, D’us predisse a Moshê: "Aparecerei a você numa espessa nuvem, e o povo inteiro ouvirá quando Eu falar com você, para que todos acreditem em você e nos profetas que o sucederão, para sempre."

As palavras de D’us denotavam que, no Monte Sinai, o povo inteiro ouviria D’us dirigir-Se a Moshê. Isto os convenceria da verdade, de que Moshê é realmente Seu mensageiro.

Moshê anunciou então ao povo: "Todos vós escutareis a voz de D’us me chamando. Ele me transmitirá a Torá e eu a transmitirei a vós."

(A Moshê foi concedido o privilégio de dar a Torá à nação judia porque ele era mais humilde e modesto do qualquer outra pessoa, assim como o Monte Sinai foi escolhido para receber esta honra devido a sua extrema humildade. Quando D’us comunicou a Moshê pela primeira vez que ele deveria conduzir os judeus na saída do Egito, ele recusou esta missão cobiçada, por julgar que havia membros de sua família muito mais respeitados, sábios, ricos ou tementes a D’us. Já então D’us lhe disse: "Você é grande e respeitado aos Meus olhos. Eu o escolhi como o salvador de Meu povo. Se ele não for redimido através de você, não haverá outra pessoa para tirá-lo do Egito." E assim Moshê recebeu a distinção de ser o líder da nação, tirá-la do Egito, levá-la através da terra seca pelo meio do Mar Vermelho, conduzi-la nos quarenta anos de suas andanças pelo deserto e, sobretudo, de dar-lhes o presente especial: a Torá.)

Os filhos de Israel pedem que D’us lhes fale diretamente e não através de Moshê

O povo não estava completamente satisfeito com a mensagem que Moshê lhe relatara e ficou consternado. Disseram: "Moshê Rabênu, queremos escutar a voz do próprio D’us!" Ansiavam por escutar D’us, Ele Mesmo, e não apenas terem uma prova de que Moshê era Seu mensageiro. "Aquele que aprende algo de um mensageiro não é como o que ouve do próprio Rei!" – exclamaram. "Queremos ver e ouvir D’us."

Ao formular este pedido, não estavam conscientes do terrível impacto que a revelação da Shechiná teria sobre eles. Mais tarde, arrependeram-se do pedido original, e imploraram a Moshê que continuasse falando com eles, em vez de D’us.

Naquele mesmo dia, Moshê recebeu o mandamento de fixar os limites para o povo aos pés da montanha. D’us instruiu Moshê: "Estabeleça um limite ao redor da montanha e ordene ao povo que não cruze este limite durante o tempo em que Minha Shechiná repousar sobre o Monte Sinai, pois a montanha será santa."

Na manhã do quarto dia da semana, bem cedo, Moshê voltou ao Céu para informar a D’us da reação do povo.

(Na verdade, D’us não necessitava escutar o que o povo havia dito através de Moshê. Mas Moshê quis demonstrar que um mensageiro deve levar a resposta a alguém que o encarregou de tal.)

Moshê disse que enquanto o povo concordara em permanecer aos pés da montanha, expressaram seu desejo de que D’us Se dirigisse diretamente a eles. D’us respondeu a Moshê: "Conceder-lhes-Ei seu desejo. Eu Mesmo descerei sobre o Monte Sinai aos olhos de todo povo."

D’us concordou em falar Ele próprio aos judeus porque eles disseram: "Faremos e ouviremos", mostrando disposição para obedecer antes mesmo de ouvir. É contra a natureza humana estar disposto a fazer algo antes de saber o que isto envolve, mas os judeus declararam sinceramente sua prontidão para cumprir o que quer que estivesse escrito na Torá, mesmo antes de saber o que isto acarretaria.

Preparativos para o recebimento da Torá

Naquele dia, Moshê foi requisitado a instruir o povo a preparar-se para o recebimento da Torá. "Para escutar Minha voz, o povo deve preparar-se, submergindo num micvê". Moshê disse-lhes que evitassem a impureza, o pecado e o comportamento inadequado nos próximos três dias, para estarem puros e santos na entrega da Torá. As purificações durariam dois dias, e no terceiro, D’us lhes outorgaria a Torá.

Apesar de D’us ter designado apenas dois dias para purificação, Moshê entendera Sua verdadeira intenção – que seria correto acrescentar um terceiro dia como precaução especial. Por conseguinte, mandou o povo preparar-se por um período de três dias. Ao retornar ao povo, no anoitecer do quarto dia, disse-lhes: "Preparem-se hoje, e também no quinto e sexto dias; pois no Shabat vocês receberão a Torá."

D’us concordou com a decisão de Moshê.

Após terem pronunciado a palavra "Na’asê" (faremos) e purificarem-se por três dias, os filhos de Israel pareciam-se com anjos. Atingiram novamente o nível de Adam, o primeiro homem antes de pecar, e estavam prontos para receber a Torá.

As crianças como fiadores da Torá

D’us perguntou a Seu povo: "Quem garante que vocês cumprirão a promessa de observar a Torá?" Eles responderam: "Nossos antepassados serão nossos fiadores." D’us disse: "Até seus ancestrais necessitam de garantia. Quando prometi a Avraham a terra de Israel, ele também perguntou como poderia ter certeza de que esta promessa seria cumprida. Portanto, não posso aceitar a fiança de seus ancestrais apenas." Os judeus então prometeram que seus filhos e os filhos de seus filhos assegurariam o cumprimento da Torá e das mitsvot.

Trouxeram suas esposas e filhos e prometeram a D’us, naquele momento e lugar, ensinar a Torá a seus filhos e às sucessivas gerações, estudar e revisar o que está escrito nela de dia e de noite, para todo o sempre.

D’us cura os enfermos

Antes da Outorga da Torá, D’us curou todos os defeitos do povo judeu.

Um homem rico queria casar seu filho, mas não gostava do salão de festas da vizinhança. Alguns equipamentos estavam quebrados, as cortinas velhas, o papel de parede desbotado, e o teto também não estava perfeito. "Este salão não é adequado a um casamento tão grandioso como será o do meu filho," pensou.

"O que eu tenho a fazer é consertar este salão antigo, e remobiliá-lo." Contratou um empreiteiro, que trouxe um grupo de marceneiros, pedreiros e pintores. Consertaram e pintaram o teto, colocaram papel de parede novo, trocaram as cortinas; consertaram e reformaram tudo o que estava quebrado. No dia do casamento, o salão parecia glorioso – ninguém acreditaria que fosse o mesmo velho salão!

Assim, D’us examinou os israelitas que saíram do Egito, e achou-os imperfeitos. Alguns deles eram coxos, cegos, ou defeituosos de alguma outra maneira. Disse D’us: "Como posso dar Minha Torá perfeita a uma nação que é imperfeita? Eu curarei este povo!"

D’us então curou todos os cegos, fato que se infere do versículo que diz que na Outorga da Torá "todo o povo viu". Ele curou os surdos, como está escrito que todos responderam "tudo o que D’us disser faremos e ouviremos".

Os coxos também foram curados, como está escrito: "e eles ficaram de pé aos pés da montanha." Deste modo, D’us também curou-os de todas as deficiências.

Todos teriam de estar de posse perfeita de todas as suas faculdades, para aceitar perfeitamente a Torá, pois se alguns deles não vissem ou não ouvissem a Shechiná, a experiência da Outorga da Torá não seria completa.

Os anjos não querem ceder a Torá ao Homem

Os anjos perceberam que Moshê levaria a Torá aos judeus e choraram porque teriam então de separar-se dela. D’us disse a Moshê: "Vá e argumente com os anjos. Prove que eles não tem necessidade da Torá nem motivo para lamentar que ela lhes esteja sendo tirada." Moshê se encheu de coragem e começou: "Tudo que está escrito na Torá não se destina a vocês. O que diz a Torá? ‘Eu sou D’us teu D’us, Que te tirei da terra do Egito.’ Acaso vocês foram escravos no Egito? D’us os tirou de lá? A Torá também diz: ‘Não terá deuses estranhos diante de Mim.’ Acaso vocês adoram ídolos feitos pelo homem? A mitsvá do Shabat encontra-se na Torá. Vocês trabalham a semana inteira para precisarem de descanso no Shabat? E quanto ao restante das proibições da Torá: não matarás, não roubarás, não cobiçarás o que pertence ao próximo… Vocês têm uma má inclinação que os leva a transgredir estas proibições? Se não, de que lhes serve a Torá? Vocês não podem observar seus preceitos positivos nem os proibitivos!"

Depois de ouvir o argumentos de Moshê, os anjos responderam simultaneamente: "Você está certo, Moshê, assim como são certos os atos de D’us."

A escolha do Monte Sinai

Quando D’us escolheu a montanha sobre a qual daria a Torá, irrompeu uma discussão entre as montanhas. Cada uma insistia: "a Torá deve ser dada sobre mim!" O Monte Tavor e o Monte Carmel clamaram: "Sou eu que D’us quer!" D’us, contudo, rejeitou-os, dizendo: "Montanhas, por que discutem? Todas têm defeitos. Ídolos foram erguidos no topo de cada uma. O monte Sinai é baixo, e por isso nunca serviu como local de idolatria. Portanto, é merecedor de receber a Shechiná.

Em conseqüência, D’us desceu sobre o Monte Sinai.

O que aconteceu no dia da Outorga da Torá

Por vinte e seis gerações, desde a criação de Adam, D’us esperou para transmitir à humanidade a preciosa Torá, que precedeu a Criação do Universo. Finalmente, Ele encontrou um povo disposto a aceitá-la. O grande momento de Sua Revelação foi aguardado ansiosamente pelo mundo todo, uma vez que com isso se realizaria o objetivo espiritual da Criação.

O dia em que D’us nos entregou a Torá foi um Shabat: 6 de Sivan do ano 2448. Havia chovido à noite sobre a montanha para refrescar o ar. O Monte Sinai tremia de emoção ante o portentoso transcendental evento prestes a ocorrer sobre ele. Todas as montanhas estavam em estado de agitação junto com esse, até que D’us acalmou-as.

O povo ainda estava dormindo, porque a noite de verão havia sido curta. Foram acordados por raios e trovões sobre o Monte Sinai, e por Moshê chamando-os: "O noivo está esperando pela noiva sob o pálio nupcial!" Moshê levou o povo ao Monte Sinai como quem conduz a noiva ao casamento.

Ao povo judeu, que estava reunido aos pés do Monte Sinai, homens e mulheres separadamente, uniram-se todas os milhões de almas de seus descendentes, e as almas de todos os convertidos que viriam a aceitar a Torá em futuras gerações.

Quando D’us desceu sobre o Monte Sinai numa explosão de fogo, cercado por uma hoste de 22.000 anjos, a terra tremeu, e havia raios e trovões. O povo judeu ouviu o som de um shofar cada vez mais alto, crescendo de intensidade até atingir o volume máximo suportável. O fogo do Monte Sinai elevou-se ao próprio céu, e a montanha fumegava como uma fornalha. O povo tremia de medo.

D’us então pegou o Monte Sinai e o susteve sobre as cabeças do povo. A montanha ficou transparente como cristal, suspensa sobre o Povo de Israel de modos que todos puderam ver através dela. Os céus se abriram e D’us lhes mostrou que não havia nada ali, com exceção Dele.

Uma espessa nuvem envolveu a montanha. D’us inclinou os céu até alcançarem o Monte Sinai, e Ele desceu sobre a montanha.

A reação do povo judeu ao ouvir a voz de D’us

Nesta ocasião, o povo não apenas escutou a Voz de D’us, mas realmente viu as ondas sonoras emergindo da "Boca" de D’us. Visualizaram-nas como uma substância ardente, em chamas. Cada Mandamento que saía da Boca de D’us viajou através do acampamento inteiro, e então voltou a cada judeu individualmente, perguntando-lhe: "Aceita sobre si este Mandamento, com todas as leis pertinentes?" – todos os judeus responderam "Sim" após cada mandamento. Finalmente, a substância ardente que viram gravou-se nas Tábuas.

Apesar de o povo judeu ter pedido para ver a Glória de D’us e ouvir Sua Voz, suas almas deixaram o corpo quando realmente experimentaram a Revelação. A Voz de D’us reverberou com tal força que quebrou árvores de cedro, fez montanhas estremecerem, fez com que cervas dessem à luz devido ao choque, e desmatou bosques inteiros.

As nações que testemunharam a comoção, mas não sabiam a causa foram até o feiticeiro Bil’am, que era famoso por sua sabedoria e questionaram: "D’us estaria prestes a trazer outro dilúvio sobre a terra?"

"Não," acalmou-os Bil’am. "O mundo está em efervescente atividade porque D’us está dando a Torá a Seu povo."

D’us queria dar o Primeiro dos Dez Mandamentos. Naquele momento, Moshê estava no topo da montanha. D’us mandou-o descer.

D’us pensou: "Se Moshê permanecer no cume, o povo poderia não ter certeza de que realmente ouviu os Dez Mandamentos de Mim. Poderiam pensar que a era a voz de Moshê. Portanto, que desça primeiro, e então Eu pronunciarei os Dez Mandamentos."

Por isso, D’us ordenou a Moshê: "Desça e avise o povo que não deve aglomerar-se além dos limites fixados ao sopé da montanha, apesar do desejo de Me ver. Aquele que tocar o Monte Sinai morrerá. Após a partida da Shechiná, serão novamente autorizados a subir a montanha."

"Já lhes transmiti esta advertência," respondeu Moshê.

"Não obstante, avise-os uma segunda vez. Pois agora é o momento ao qual a advertência se aplica. Após avisá-los, você, Aharon e os primogênitos que realizarão o serviço subirão a montanha, e cada um assumirá a posição que lhe foi designada. O povo deve ficar aos pés da montanha; os primogênitos subirão mais alto, Aharon mais alto ainda, e você ao topo!" Assim que Moshê desceu, D’us começou a falar, dizendo: "Eu Sou D’us, teu D’us…"

Primeiro D’us pronunciou os Dez Mandamentos simultaneamente. Este é um ato além da capacidade humana. O propósito deste milagre era demonstrar claramente que os Dez Mandamentos vieram diretamente Dele. Nenhum ser humano, ou criatura celestial poderia realizar tal milagre. Falou-os todos ao mesmo tempo, de modo que o povo os escutou mas não os entendeu.

Em seguida, Ele repetiu cada Mandamento separadamente.

Os israelitas não experimentaram o total impacto da Voz Divina. Cada indivíduo percebeu-a de acordo com sua capacidade única de vivenciar a Shechiná. Não obstante, desmaiaram após cada Mandamento, uma vez que este nível de profecia realmente excedia seus poderes de percepção.

Quando os judeus escutaram a voz de D’us, sentiram-se como se beijados por D’us. Estavam tão empolgados de júbilo que as almas abandonaram os corpos e todos caíram mortos.

A própria Torá suplicou que D’us restituísse a vida aos judeus, argumentando: "Como pode o universo estar contente com o recebimento da Torá se seus filhos morrem no processo? Será que há motivo para regozijar-se se o rei que casa sua filha, ao mesmo tempo mata todos os membros de sua casa?"

D’us então aspergiu o Orvalho da Ressurreição sobre o povo. Este era o mesmo Orvalho com o qual Ele ressuscitará os mortos em tempos futuros. Os israelitas, contudo, ainda sentiam-se fracos do choque que experimentaram. Por isso, D’us encheu o ar com a fragrância de especiarias, e recuperaram-se. Não obstante o temor pela Voz de D’us era tão grande que correram apressadamente ao final do acampamento. Os anjos de D’us tiveram que transportá-los de volta às suas posições iniciais aos pés do Monte Sinai, para ouvir o próximo Mandamento. Novamente os judeus ficaram tão maravilhados e felizes ao escutar a voz de D’us que suas almas abandonaram seus corpos. D’us voltou a revivê-los.

Moshê transmite ao povo os oito Mandamentos restantes

Após os dois primeiros Mandamentos, os judeus estavam tão amedrontados que imploraram a Moshê que transmitisse o resto dos Mandamentos, em vez de escutar a voz de D’us outra vez. Pediram pois, a Moshê: "Por favor, fale você em lugar de D’us. É difícil para nós suportar a emoção de escutar a Voz Dele. Temos medo de voltar a morrer."

Apesar de D’us saber de antemão que os filhos de Israel não seriam capazes de sobreviver ao ouvir Sua Voz, não obstante Ele concedeu-lhes seu pedido original de ouvi-Lo. Ele não queria que os judeus, no futuro, reclamassem: "Se apenas Ele nos tivesse concedido uma Revelação direta, nunca teríamos servido ídolos!"

D’us mandou então os dois anjos, Michael e Gavriel, para trazerem Moshê ao topo da montanha. Pegaram-no pela mão e, contra sua vontade, arrastaram-no montanha acima, para a nuvem espessa. Moshê tinha a habilidade de penetrar a escuridão, a Nuvem, e o espesso da Nuvem. Foi-lhe permitido entrar no compartimento mais íntimo do Céu, ao qual nem anjos têm acesso. Ele mereceu isto por causa de sua extrema modéstia, pois a Shechiná paira sobre quem é humilde.

D’us amplificou a voz de Moshê, para que alcançasse todo povo. Moshê, em sua grande sabedoria, acalmou o povo amedrontado.

"Não temam! D’us apareceu apenas para elevar vocês, e para isto Seu temor deve estar sobre vocês, para que não pequem!"

D’us então transmitiu a Moshê os outros oito Mandamentos, e Moshê os repetiu para o povo. Então D’us ordenou que Moshê dissesse ao povo: "Vocês testemunharam pessoalmente que Eu falei com vocês do Céu. Não receberam um relato de outros. Se alguém ouve algo de outros, pode suscitar dúvidas em sua mente. Contudo, todos vocês viram a Outorga da Torá com seus próprios olhos."

Até os dias de hoje continuamos convencidos da veracidade da Torá, pois estamos cônscios da certeza histórica de que nosso povo inteiro testemunhou a Outorga da Torá, a Divina Revelação da Torá no Monte Sinai. O judaísmo, em contraste com outras religiões, não se baseia na crença de relatos de indivíduos, mas sobre fatos históricos.


 

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