Estrangeiros fazem história em Sergipe

 
 

 
Texto: Antônio Carlos Garcia/Foto: Jadilson Simões

“Sergipe é uma espécie de consulado mundial”. Guardando-se as devidas proporções, a frase do historiador e intelectual Luiz Antonio Barreto refere-se ao número significativo de estrangeiros de diversas nacionalidades que começaram a chegar ao Estado desde 1820, na época da emancipação política, até agora. Dados atuais da Superintendência da Polícia Federal indicam que existam no Estado cerca de 1.600 estrangeiros, 1.300 vivendo em Aracaju. “Muitos deles têm o visto permanente”, disse o delegado de polícia de Imigração e Interpol, João Vianey Xavier Filho, explicando, no entanto, que estes números são flutuantes.

Passados 189 anos – de 1820 até os nossos dias –, Sergipe continua recebendo gente de todas as nacionalidades. Com o início da exploração de petróleo em alto mar pela Petrobras, em 1968, no Campo de Guaricema, muitas empresas multinacionais vieram se instalar junto com os seus “gringos”, como são apelidados os estrangeiros. “A descoberta do petróleo trouxe o empregado rico, que não tinha limites financeiros naquela época”, lembra Luiz Antônio Barreto. E muita gente que veio para Aracaju, como funcionários de multinacionais, acabou ficando.

Um dos desses é o americano James Harvick, 58 anos, que chegou em Aracaju em 1975 como funcionário da Schlumberger, para trabalhar na extração de petróleo. Passou apenas cinco meses, mas tempo suficiente para conhecer Fátima Prado e se apaixonar, mas foi transferido para a Líbia. Harvick retornou em 1976 e levou Fátima para Gibraltar, onde se casou. Trabalhou em diversos países até voltar ao Texas, sua terra natal.

Passados 17 anos, já no Brasil, era gerente geral da UP Petróleo Brasil Ltda. Não querendo ser transferido para os EUA, saiu da empresa, mas continuou como consultor. Desde que chegou a Aracaju, em 1975, o sonho de Harvick era morar em Aracaju e conseguiu realizar o seu sonho. Em sua casa falam-se as línguas inglesa e portuguesa. Até mesmo o papagaio de estimação da família, que é africano, repete as línguas portuguesa, inglesa e espanhol, além de dançar. “Não gosto muito de sair do Brasil”, disse. Hoje, James é gerente de operações da TDC do Brasil Petróleo.

As histórias são praticamente idênticas. O boliviano Jorge Arce, 60 anos, é há 22 anos funcionário da Petrobras, mas veio transferido para Aracaju quando trabalhava na Schlumberger, em 1976, e conheceu sua atual mulher, Rosângela Carmelo de Arce, com quem tem um casal de filhos.

Depois de casados, Jorge e Rosângela passaram seis anos fora de Sergipe, pois Jorge era sempre transferido para outro país. Passou pelos Emirados Árabes, Kwait, Egito, Colômbia,
Argentina, Peru e Venezuela. Ao retornar para Aracaju, pediu demissão da Schlumberger, foi trabalhar em outra multinacional, demitiu-se tempos depois e hoje é funcionário da Petrobras. Deixar Aracaju não está em seus planos.

Quem também não tem planos de sair de Aracaju é o inglês Peter Ellice, 64 anos, aposentado desde 2000, casado com uma sergipana e com quem tem dois filhos. Assim como James e Jorge, Peter era funcionário da Schlumberger e chegou a Aracaju em 1972. Passou 18 meses trabalhando em plataformas de petróleo em alto mar, em seguida foi transferido para a Indonésia e um ano depois retornou a Aracaju. “Não pretendo sair mais daqui”, confessou.

O canadense Gordon Jackson, 65, tem planos de morar em Aracaju cinco ou seis meses por ano quando se aposentar, pois conheceu a capital em 1972, quando a Schlumberger o transferiu e ele se casou com a sergipana Raimunda. Tempos depois adoeceu e retornou para o Canadá onde passou 15 anos, mas sempre retornando a Aracaju, onde tem um apartamento na praia de Atalaia. Hoje, Gordon continua residindo em Calargy Alberta, no Canadá.

Saúde e turismo

O americano Ralph James Mullins, 42 anos, nunca trabalhou na indústria de petróleo, mas veio parar em Sergipe por causa de uma sergipana que conheceu em 1977, em Cancun, no México, em sua segunda saída dos Estados Unidos. Eles namoraram dois anos e meio e nesse período Ralph veio a Aracaju umas cinco ou seis vezes. Hoje ele tem uma filha, mas o namoro não foi avante. “Ela tinha um emprego bom, queria casar e ficar no Brasil eu cedi”, lembra. Quando estava para voltar para os Estados Unidos, a esposa ficou grávida, Ralph ficou em Aracaju, mas o casamento não foi avante e eles se divorciaram. Ralph continua morando em Aracaju e tem uma empresa – MJR Devenlopments – na área de compra de terrenos e imóveis.

O norueguês Ian Ellefsen, 50 anos, tem uma história diferente. Ele veio cuidar da saúde. Passa cinco meses por ano em Aracaju, pois tem uma doença respiratória e o governo norueguês paga para que ele passe o período de inverno na Noruega num país onde o clima seja de verão. A primeira vez que chegou a Aracaju foi há nove anos, mas gostou tanto que sempre passa o verão aqui. Ele retorna para a Noruega em abril, onde voltará a trabalhar num hospital para pessoas especiais, mas já disse que retorna em janeiro de 2010 para Aracaju.

A inglesa Jennifer Priestley, 62 anos, está em Aracaju como turista, acompanhando a amiga Nilsa, com quem mora há quatro anos em Londres. Nilsa, que se formou em Medicina Chinesa em Londres, tem família em Aracaju e a trouxe junto. “Talvez ela [Jennifer] venha passar mais tempo em Aracaju”, disse Nilsa, que há 20 anos mora em Londres. Elas ficam em Aracaju todo mês de janeiro e não descartam a possibilidade de comprar um imóvel por aqui, para integrar o “consulado mundial”, como disse o historiador Luiz Antonio Barreto.

Veio para descobrir o amor

Enquanto a maioria dos estrangeiros veio a Sergipe para trabalhar, o texano Bob Heiljr, 61 anos, veio descobrir o amor. Quando os Estados Unidos declarou guerra ao Vietnã, na década de 70, o jovem Bob, com 23 anos, não quis lutar, preferindo ingressar no Programa Voluntários da Paz e foi mandado a Japaratuba, a 54 quilômetros de Aracaju, para desenvolver projetos em eletrificação rural. Passou dois anos no município – de 1970 a 1972 – e por insistência do prefeito da época deu aulas de inglês num colégio público. Foi lá que notou uma aluna bastante aplicada, Jônice Maria Menezes Lopes, então com 12 anos. Eles se apaixonaram, mas o amor era impossível naquela ocasião, por conta da diferença de idade.

“Eu lembro que na cidade [Japaratuba] tinha energia elétrica, mas não nos povoados e partimos para o trabalho junto com a prefeitura e o governo do Estado”, lembra Bob, frisando que o programa foi um sucesso, assim como as aulas de inglês. Depois de dois anos, Bob retornou para os Estados Unidos, enquanto Jônice seguia sua vida no interior sergipano. Durante 30 anos os dois não se falaram e cada um seguiu sua vida: Bob foi trabalhar e se casou nos EUA. O mesmo aconteceu com Jônice, que fez o curso universitário de Letras, foi lecionar Língua Inglesa e depois cursou Direito. Viajou para a Europa, onde conheceu um rapaz, teve uma filha e depois de um ano e meio de casamento se divorciou.

Bob continuava casado nos Estados Unidos, mas um dia a relação não deu mais certo, ele se separou e, logo depois, aposentou-se. Então, bateu-lhe aquela pergunta: “Por onde andará Jônice?”. Através de um amigo comum, conseguiu localizá-la em Aracaju. Jônice, agora com 50 anos, aposentou-se como professora de inglês, atualmente é funcionária do Tribunal de Justiça de Sergipe, onde atua há 27 anos, e também não havia esquecido Bob. E os contatos recomeçaram, via email. “Trocávamos 15 emails por dia, sem falar nos telefonemas”, disse Bob, diante do olhar apaixonado de Jônice.

E lá se vão seis anos de convivência que Bob chama de “lua-de-mel”, porque o casal só se vê de três em três meses, pois o texano ainda não tem o visto definitivo para permanecer no país e tem que retornar aos EUA. Mas isso não é empecilho para o casal apaixonado continuar o romance. “Sem Jônice eu ia passar a vida inteira sem saber o que é o amor”, disse um apaixonado Bob, que nas terras do excêntrico artista e louco Artur Bispo do Rosário descobriu que o melhor da vida é o amor.

Cem anos de Nicolau Pungitori

No dia 27 março de 2009, completam-se cem anos da morte do italiano Nicolau Pungitori, que chegou a Aracaju por volta de 1841. Em 12 de fevereiro 1904 ele abriu o Teatro Carlos Gomes e em abril de 1913, no mesmo prédio, o Cine Rio Branco, que não existe mais. De qualquer modo, escreve Luiz Antonio Barreto: “Devem ser comemorados cem anos do teatro e 90 do Cine Rio Branco”. Pungitori foi apenas um dos muitos estrangeiros que contribuíram para o crescimento do Estado, como escreveu Barreto numa coletânea de cinco artigos intitulada “Estrangeiros em Aracaju”. Muitos deles ingressaram na Maçonaria, como o argelino José Narboni, um dos fundadores da Loja Maçônica Cotinguiba, em 10 de novembro de 1872.

“A Maçonaria abrigou diversos estrangeiros, muitos deles marítimos [denominação para diversos trabalhadores ligados às atividades portuárias da nova cidade]. Durante o ano de 1873, no começo, portanto, do funcionamento da Loja Cotinguiba, requereram iniciação maçônica o alemão Guilherme Frederico Roberto Koshi, o dinamarquês H.M. Jansen e o holandês Hans Jans, todos marítimos, todos solteiros”, escreveu Luiz Antônio Barreto, somente para citar alguns que foram iniciados na maçonaria.

Aracaju, frisou Luiz Antônio Barreto, sempre atraiu estrangeiros. Ele lembrou do alemão Carlos Loeser, também maçom da Cotinguiba, iniciado em 15 de agosto de 1898, que “abriu caminho para muitos outros que aqui organizaram negócios, fundaram estabelecimentos comerciais e foram, aos poucos, sendo incorporados pela dinâmica da cidade e se transformaram em cidadãos conhecidos e influentes”. Os descendentes de Carlos Loeser continuam vivendo em Aracaju, uma delas a advogada e ex-delegada da Polícia Civil, Ilma Loeser. Ela é filha de Siegfried Loeser [filho de Walter, que vem a ser um dos três filhos do patriarca Carlos Loeser].

Nem tudo foi sucesso para algumas famílias estrangeiras. O comerciante italiano Nicola Mandarino, nascido em Vibonati, na Sardenha, foi acusado, durante a Segunda Guerra Mundial, de passar informações ao comandante do submarino alemão que torpedeou navios mercantes na costa sergipana, “deixando um rastro de mortes nas praias de Aracaju, Itaporanga e Estância. Por isso, sofreu com os sergipanos que depredaram sua casa, móveis, livros e objetos pessoais”, escreveu Luiz Antonio. A casa onde Nicola residia fica na praça Olímpio Campos, onde hoje é a Cúria Metropolitana.

Para o historiador Luiz Antonio Barreto, “dentro e fora da Maçonaria foram muitos os estrangeiros, de várias partes do mundo, que optaram por Sergipe e foram incorporados ao cotidiano sergipano. Sobrenomes como Wynne e Shramam, em Maruim; Gambardela, Fiscina e Mandarino, em Itaporanga; Jasmim, em Estância; Hagembeck, em Laranjeiras; Abud, Chapermann, Salmeron, Navarro e Loeser, em Aracaju”.

 

 

Fonte: http://www.jornaldacidade.net/ – Publicada: 18/01/2009

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Uma resposta para Estrangeiros fazem história em Sergipe

  1. RODRIGUES disse:

    preciso enviar um curriculo como faço.valrodrigues_85@hotmail.com

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