Leitura da Torá: Porção Semanal: Parashá Vaera (24/01)

 

 
Êxodo 6:2 – 9:35

 

A parashá começa com D’us afirmando a Moshê que redimirá o povo judeu da escravidão e o conduzirá a liberdade, a Terra que prometeu a Avraham, Yistchac e Yaacov por herança. D’us incumbiu Moshê e Aharon de irem ao encontro do faraó e pedir que liberte o povo de Israel.

Instruiu-os a realizar um milagre, caso o faraó quisesse colocá-los à prova, de tomar a vara e jogá-la para que se transformasse em serpente. E procederam conforme Suas instruções. O faraó chamou seus sábios e feiticeiros e pediu que fizessem o mesmo através de suas magias. Mas a vara de Aharon tragou todas as outras varas enfurecendo o faraó e endurecendo seu coração, não permitindo o povo judeu partir. Iniciam-se então as dez pragas do Egito.

A primeira transformou as águas do Nilo em sangue, causando mal cheiro, morte dos peixes e impossibilitando os egípcios de beber de seus mananciais. Cada vez que o faraó recusava-se em libertar o povo judeu do Egito, D’us enviava uma nova praga. Desta forma sucederam-se as pragas enviadas "com mão forte e braço estendido" de D’us, sobre o Egito: após o sangue, as rãs, os piolhos, animais selvagens, cobras, escorpiões e serpentes, a peste, a sarna, chuva de granizo (gelo e fogo), a cada praga o faraó declarava que se a mesma se extinguisse, deixaria o povo partir. Mas novamente, assim que Moshê rezava para D’us para que parasse de ferir os egipcios, novamente o faraó mudava de idéia não permitindo ao povo partir.

 

Mensagem da Parashá

 

Nessa porção semanal lemos sobre os nossos grandes líderes, Moshê e seu irmão Aharon. Os comentaristas notam que Moshê e Aharon permaneceram resolutos e dedicados em sua missão, do começo ao fim. Há um comentário muito difícil de se compreender: "Que outra coisa era de se esperar de tão grandes homens?"

Talvez a intenção aqui seja dar-nos uma lição muito significativa. Muitos líderes de grandes causas iniciam suas atividades com muito ardor, sinceridade e devoção. Com o decorrer do tempo, impressionados com a própria grandeza de sua posição, alteram sua atitude e começam a mudar sua sinceridade original; eles são os líderes que ninguém se atreve a atravessar no caminho ou sequer ousa duvidar de sua autoridade. Isso ocorreu com os líderes dos maiores impérios e repúblicas, e também infelizmente, com lideranças da história judaica.

O Rei Shaul (Saul) começou sua carreira com humildade, mas no fim tornou-se um homem diferente que esqueceu da dedicação de seus antepassados. Com muita frequência encontramos em nossos dias homens e mulheres que começaram a trilhar um caminho com tremenda devoção e idealismo e que continuaram dirigindo as rédeas do poder com arrogância e orgulho.

Os comentaristas nos informam que isso não ocorreu com Moshê e Aharon. Permaneceram fiéis, justos e devotos do começo ao fim; o poder não lhes subiu à cabeça. Eram verdadeiros homens de D’us, homens dignos de liderança. Que possamos aprender de seu exemplo.

 

Seleções do Midrash

 

D’us envia Moshê para avisar os judeus que serão libertados

Moshê perguntou a D’us: "Por que me mandaste aos judeus se apenas piorei as coisas? Antes de ir falar com o faraó, os egípcios proporcionaram palha aos judeus para fazer tijolos. Mas depois que me enviaste ao seu palácio, o faraó ordenou aos judeus que juntassem sua própria palha." D’us se aborreceu com Moshê e respondeu: "Não me critiques! Tenho boas razões para tudo que estou fazendo."

Os judeus foram obrigados a trabalhar até o limites de suas forças para satisfazer as exigências do faraó. Porém, não se concentraram em seus próprios problemas, porque recordaram que cada judeu estava passando pela mesma situação. Ao terminar o dia, quando o corpo estava tão exausto que mal podia mover-se, um judeu que havia terminado o trabalho ainda ajudava o outro que a terminar sua tarefa. D’us viu como os judeus mostravam compaixão uns pelos outros. De modo que, também, mostrou compaixão por eles e ordenou a Moshê: "Vá a todos os lugares onde trabalha o Povo de Israel e diz: ‘logo D’us os tirará daqui!’ Escutei suas tefilot (preces) e tenho visto como ajudam-se uns aos outros! Assim como vocês se mostram compassivos entre vós, D’us mostrará compaixão também!"

Moshê se encaminhou aos lugares onde os judeus trabalhavam e anunciou:
" Escuta, Bnê Yisrael! Logo estareis livres e D’us os levará a Eretz Yisrael!"
Mas os judeus tinham tanto medo dos supervisores do faraó que não deixaram de trabalhar nem um minuto para escutar a Moshê.

Moshê e Aharon mostram sinais ao faraó

D’us disse a Moshê e Aharon. "Agora volta ao faraó e diz: "D’us te ordena: Deixa os judeus irem embora."

"Se o faraó pede um sinal de que sou Eu que o envia, que Aharon pronuncie as palavras: "Cajado – transforme-se em serpente." Então transformarei o bastão de Aharon em serpente."

Com efeito, aconteceu que quando Moshê e Aharon foram ver o faraó, este lhes pediu um sinal. Aharon jogou o cajado ao solo e pronunciou essas palavras. E o cajado se transformou em serpente.
O faraó começou a rir. "Acham que me deixarei impressionar por este truque? Não sabeis que nós, os egípcios, somos todos mágicos? Também podemos fazer o mesmo truque!"

O faraó chamou seus magos. Estes jogaram os cajados ao solo e cada um se converteu em serpente! Logo todos os magos voltaram a converter as serpentes em cajados. Então D’us fez um milagre que os egípcios não puderam copiar:

A serpente de Aharon voltou a transformar-se em cajado e engoliu a todos os outros cajados! O faraó sabia que acabara de presenciar um milagre, algo que nenhum mago poderia fazer. Mas era perverso e teimoso. Disse: "Não escutarei a Moshê e Aharon apesar disso!"

Por que o cajado de Aharon se converteu em serpente

Por que D’us converteu o cajado de Aharon em serpente e não qualquer outra coisa?

D’us deu a entender ao faraó: "Tu pronunciaste palavras más, tal como a serpente no Gan Éden (o paraíso) quando disseste: "Não sei quem é D’us." Por isso, serás castigado como a serpente o foi."

As Dez Pragas

Quando Moshê e Aharon saíram do palácio do faraó, D’us disse a Moshê: "Vá novamente ver o faraó amanhã cedo. Irás encontrá-lo junto ao rio por onde passeia todas as manhãs. Adverte-o de que disse: "Não sei quem é D’us." Mas se não escutas a D’us logo começarás a saber quem é, pois Ele trará um terrível castigo! Transformará a água do Nilo em sangue."

Moshê advertiu o faraó, mas este não se importou. D’us mandou a primeira praga: sangue.

A ordem das dez pragas

Esta é a ordem das prgas que D’us enviou ao Egito:

  • Sangue
  • Rãs
  • Piolhos
  • Animais selvagens
  • Morte dos animais (peste)
  • Sarna
  • Granizo
  • Gafanhotos
  • Trevas
  • Morte dos primogênitos

Por que D’us enviou as pragas nesta ordem em particular: primeiro o sangue, depois rãs, piolhos, etc.? Uma resposta é que D’us atuou como general que vai a uma guerra contra seu inimigo.

Sangue:
Antes de entrar na cidade inimiga, o general e seu exército envenenam os poços de água dos inimigos para que não tenham mais água potável. Do mesmo modo, D’us primeiro cortou os suprimentos de água dos egípcios.

Rãs:
Logo o general ordena aos tocadores de trombeta e tambores que toquem os instrumentos tão forte que o barulho assuste o inimigo.
De maneira análoga, D’us trouxe as rãs, cujo coaxar incomodou terrivelmente os egípcios.

Piolhos:
O general ordena que os soldados disparem flechas sobre os inimigos para matar os soldados e assustar o restante deles.Do mesmo modo, D’us castigou aos egípcios com piolhos que os picaram como flechas.

Animais selvagens: Antes do ataque, o general convoca outros exércitos para que se unam na luta. Igualmente, D’us chama os animais selvagens para que se reúnam e lutem contra os egípcios.

Morte dos animais (peste):
Antes da batalha, o general envia mensageiros especiais que encontram formas de destruir os animais do inimigo. D’us trouxe uma praga especial: a peste, que atacou os animais dos egípcios e lhes causou a morte.

Sarna: O general busca formas de destruir soldados no campo inimigo, para que restem menos guerreiros para lutar. Igualmente, D’us causou a doença dos egípcios, fazendo com que tivessem sarna.

Granizo: O general bombardeia a cidade com armas e mísseis. D’us enviou tempestades de granizo sobre os egípcios.

Gafanhotos: Por último, o general e seu exército entram na cidade inimiga e a destroem. Da mesma forma, os gafanhotos destruíram todos os campos que restaram depois da praga do granizo.

Trevas:
O general joga muitos dos seus inimigos na prisão. D’us causou uma escuridão tão grande que aprisionou os egípcios, pois os impediu de moverem-se.

Morte do primogênito: O general mata os líderes do inimigo que se julgam imortais e superiores, D’us com isto envia um recado de Quem realmente manda.

Por que os egípcios mereceram as pragas

Todos os castigos de D’us são justos. Ele castigou o povo egípcio com as dez por terem sido extremamente cruéis. Cada uma das pragas tinha um motivo que correspondia a cada um dos tratamentos que os egípcios deram ao Povo de Israel.

Sangue: Os egípcios obrigavam os judeus a trazer-lhes água do rio; assim, D’us transformou a água em sangue. Outra razão pela qual D’us fez que o primeiro castigo fosse relacionado ao rio Nilo foi porque os egípcios pensavam que o Nilo era um "deus". Ao converter a água em sangue, D’us mostrou-lhes que Ele tinha poder sobre o rio.

Rãs: Os egípcios ordenavam aos judeus: "Tragam-nos rãs, caracóis e insetos. Queremos divertir-nos com estes animais." Ao obrigar os judeus a trazerem rãs, D’us castigou os egípcios com estes animais.

Piolhos: os egípcios costumavam ordenar aos egípcios: "Varram os pisos de nossas casas e ruas, e arem os nossos campos". D’us transformou todo o pó do Egito em piolhos, para que os judeus não tivessem mais que varrer!

Animais selvagens: Os egípcios também diziam aos judeus: "Precisamos de leões, tigres e ursos para nossos zoológicos e circos. Capturem estes animais para nós!" Era apenas uma desculpa cruel para enviar os judeus ao deserto e aos bosques, mantendo-os afastados de suas famílias e correndo alto risco de vida. D’us castigou os egípcios por este ato, fazendo que desabasse sobre eles animais selvagens.

Peste: Os egípcios também obrigaram os judeus a serem pastores do gado para enviá-los a campos distantes e mantê-los afastados das famílias. Como castigo, D’us matou os animais dos egípcios com uma peste.

Sarna: Outra cruel idéia dos egípcios era dar ordens confusas aos judeus nas casas de banhos: "Aqueça-me a água! Traga-me água fria!" De modo que D’us afligiu os egípcios com bolhas de sarna que doíam tanto que já não podiam tomar banhos, quentes ou frios! Outra razão pela qual os egípcios foram castigados com horríveis bolhas foi porque consideravam os judeus uma classe social inferior. Um egípcio nunca comia junto a um judeu. Assim, D’us castigou os egípcios com bolhas dolorosas com aspecto tão desagradável que ninguém queria aproximar-se deles.

Granizo: Outro ato de maldade dos egípcios consistia em ordenar aos judeus: "Planta-me um jardim! Planta-me algumas árvores!" D’us destruiu, pois, os jardins e bosques dos egípcios com granizo.
Gafanhotos: os egípcios também ordenavam aos judeus: "Colham grãos para nós, favas e plantas", por isso estes foram comidos pelos gafanhotos.

Trevas: Os egípcios também ordenavam aos judeus levar velas e tochas por eles, nas ruas escuras. Também encerravam os judeus em cárceres escuros. Por este motivo D’us também causou a escuridão. Além disto entre os judeus havia reshaim (malvados), que não mereciam ser libertados do
Egito. Esses judeus perversos morreram durante a praga das trevas, de maneiras que os egípcios não pudessem vê-los e exclamar com alegria: "Vejam, os judeus também estão sendo castigados, como nós!"

Morte do primogênito: D’us castigou os egípcios matando os filhos primogênitos, pois o Faraó havia dado a ordem: "Matem a todos os primogênitos varões judeus!" Os egípcios também eram cruéis com o povo judeu que era chamado de "primogênito de D’us". Por isso, D’us matou seus filhos mais velhos.

A intransigência do faraó

Sangue

Perante o faraó e seus servos, Aharon estendeu o cajado sobre o rio Nilo. Neste instante, o rio e toda a água do Egito se transformaram em sangue!

Nos tempos antigos, muitas nações bebiam sangue. Talvez os egípcios também tivessem bebido, se D’us não tivesse causado a morte de todos os peixes do Rio Nilo. Isto fez com que o rio cheirasse tão mal que os egípcios não puderam beber o sangue. Não apenas o rio se transformou em sangue, mas toda a água da terra do Egito. Se alguém fosse à casa de banhos, não encontraria água para banhar-se, somente sangue. Mesmo nos lugares secos havia sangue. De repente, havia poças sobre as camas e cadeiras. Quando em egípcio se sentava, ficava empapado de sangue. Levantava-se rapidamente, mas sua roupa já estava estragada. Os egípcios começaram a sentir muita sede porque não se encontrava água em lugar nenhum. Como podiam aplacar a sede?

Na terra de Goshen, onde viviam os judeus, a água estava normal. Os egípcios para lá viajaram, e ordenaram aos judeus que lhes dessem de beber. Mas sabem o que acontecia, assim que um judeu dava água a um egípcio e este tentava bebê-la? Transformava-se em sangue!

Então alguns egípcios disseram aos judeus: "Bebamos do mesmo copo!" Mas isso também não adiantou, pois o líquido que saía do copo para o judeu era água, e para o egípcio… sangue!
Alguns egípcios disseram aos judeus: "Queremos comprar água." Quando estes pagavam a água com dinheiro, esta não se transformava em sangue. Assim que os egípcios perceberam isso, começaram a comprar água. Os judeus ganharam muito dinheiro durante sete dias, até que D’us pôs fim à praga.

O faraó perguntou aos magos: "Vocês também podem transformar água em sangue? "Sim", responderam os magos, e assim o fizeram. "Neste caso, não darei ouvidos a Moshê," decidiu o faraó.

Rãs

D’us disse a Moshê: "Vá e torne a advertir o faraó que liberte os judeus. Se não escutar, enviarei uma praga de rãs."

Moshê avisou o faraó, mas este não lhe deu atenção. D’us, pois, fez sair do rio Nilo uma rã gigantesca. Os egípcios não gostaram do enorme e horrível animal, e o golpearam com pedras. "Matemos essa rã monstruosa!’ gritaram.

Mas o que aconteceu foi que ao invés de morrer, a rã cuspia pequenas rãs, a cada vez que a golpeavam. Era terrível! Mais e mais rãs saíam do rio, e logo o Egito se encheu de rãs. Quando um egípcio queria falar, seus amigos não podiam ouvir o que dizia, pois coaxavam sem parar. O barulho era muito forte. "Vamos a um lugar tranquilo!" Os egípcios desistiram de falar entre si, porque ninguém podia escutar uma palavra do que o outro dizia. A noite as pessoas não podiam conciliar o sono por muito tempo, de tão forte era o coaxar que se ecoava por toda parte.

As rãs entraram em todos os lugares. Quando uma mulher egípcia assava pão, as rãs se metiam no forno. Era cozida junto com o pão, de maneira que o gosto era de rã assada. Tinha sabor tão desagradável que os egípcios perderam o apetite. Se um egípcio bebia água, o copo fervilhava de rãs. Não se podia evitar de engolir algumas. Todos os quartos dos locais egípcios estavam cheios de rãs. Quando um egípcio ia banhar-se, as rãs saltavam e o mordiam. O faraó odiava as rãs. Seu palácio estava cheio delas. Havia rãs na cozinha, no banheiro, saltando por toda a parte. O faraó chamou Moshê e Aharon.

"Estas rãs, saltando e coaxando, estão me deixando louco! Deixarei os judeus irem embora, se fizeres desaparecer as rãs!"

Moshê implorou a D’us: "Por favor, faça desaparecer as rãs!"

As rãs morreram. Logo que o faraó viu isso, seu coração endureceu. "Por que haveria de escutar Moshê e Aharon?" disse. E decidiu: "Não libertarei os judeus!"

Piolhos

D’us disse a Moshê: "Causarei outra praga. Desta vez, não avises ao faraó. Já o advertiste duas vezes e ele não te escutou."

Aharon estendeu o cajado à frente do faraó e sua corte. Nesse instante, o pó da terra se transformou em piolhos. Somente os judeus não foram afetados por esta praga. O faraó chamou os magos e perguntou: "Conseguem produzir piolhos?"

"Sentimos muito, majestade," responderam. "Não podemos criar piolhos. Deveis crer que esta praga não é magia. D’us fez um milagre, ao trazer os piolhos."

Porém, o faraó se negou a escutar os magos.

Sete dias mais tarde, D’us pôs fim à praga.

Animais selvagens

D’us disse a Moshê: "Volta a falar com o faraó! A menos que liberte Meu povo, trarei animais selvagens ao Egito, exceto a Goshen, onde vivem os judeus."

O faraó não fez caso dessa advertência. Em consequência, começou a nova praga. Foi aterradora! Vindos do deserto, chegaram leões, ursos e panteras. Invadiram os campos e vinhedos, e até mesmo as casas dos egípcios! Enormes pássaros os acompanhavam, agitando as asas e fazendo um barulho amedrontador! Os egípcios puseram ferrolhos nas portas e janelas para impedir a entrada dos animais. D’us, porém, mandara alguns animais antes de outros para que abrissem as portas e janelas. Somente os judeus não foram atacados por bestas selvagens. O faraó estava absolutamente apavorado. Chamou Moshê e Aharon e prometeu-lhes: "Os judeus já não são escravos. Todos os judeus estão livres para servir a D’us e oferecer-Lhe sacrifícios aqui no Egito."

"Não é isso que desejamos", respondeu Moshê. "Queremos sair do Egito e ir para o deserto." "Está bem,", replicou o faraó, "apenas peça a D’us que leve todos estes animais selvagens."

Moshê rezou a D’us. Suplicou que fizesse desaparecer até o último animal, inclusive os mortos.
Pois como haviam restado animais mortos, os egípcios estavam aproveitando as peles, fabricando casacos e calçados, tendo já comido sua carne. D’us aceitou as preces e fez desaparecer até o último animal.

Mal foi interrompida a praga, o faraó mudou de idéia. "Não deixarei os judeus livres", afirmou desafiadoramente.

Peste

D’us ordenou a Moshê que advertisse o faraó: "Se persistires em não escutar a D’us, todos os animais dos campos morrerão através de uma peste!"

A peste matou todos os animais nos campos. Os cavalos, burros, camelos, ovelhas, todos morreram. Na terra de Goshen, onde viviam os judeus, nenhum animal morreu. No caso de rebanhos misturados, alguns pertencentes aos judeus e outros aos egípcios, apenas morriam os dos egípcios.

Alguns egípcios tentaram o seguinte truque: Diziam a um judeu: "Venderei a você meus animais durante a praga. Logo voltarão a ser meus." Mas D’us não pode ser enganado e esses animais morreram mesmo assim.

O faraó voltou a endurecer o coração sem reconsiderar a atitude que deveria ter tmoda desde o início: libertar o povo judeu da escravidão. Como o faraó não dera atenção à mensagem transmitida pelas cinco pragas, agora era muito mais difícil reconsiderar seus atos. D’us sabia que sua fala e atitudes não eram sinceras, assim, D’us endureceu seu coração. Isto deu ao faraó mais forças para resistir às advertências de Moshê. Foi um castigo para o faraó, por ter-se negado a escutar.

Sarna

A praga da sarna seguiu-se à morte dos animais. D’us anunciou a Moshê: "Causarei uma enfermidade terrível na pele dos egípcios e seus animais, cujos corpos se cobrirão de bolhas dolorosas que os incomodarão muito."

D’us estendeu a doença entre os egípcios da seguinte forma milagrosa:

Ordenou a Moshê e Aharon que pegassem dois punhados de cinza de carvão cada um. Logo Moshê pegou com uma das mãos os quatro punhados de cinza (por milagre todos entraram na mão de Moshê) e os jogou com força ao céu. D’us espalhou a cinza por todo o Egito, e esta se depositou sobre a pele dos egípcios e seus animais causando bolhas pela sarna que eram terrivelmente dolorosas.

Por que D’us trouxe esta praga por meio da cinza

D’us disse: "Os judeus merecem que se faça um milagre para eles por meio da cinza de carvão de um forno. Por que? Porque morreram por mim em fornos. Avraham se deixou jogar num forno aceso em Ur Kasdim, por acreditar em mim. No futuro também, três tsadikim, (justos) Chanania, Mishael e Azaria, serão atirados em um forno pelo rei babilônico Nabucodonosor, por se negarem a inclinar-se perante uma imagem. Também por esta razão, os egípcios merecem ser castigados através da cinza: por escravizar e destruir uma nação que está disposta a morrer por Mim."

O faraó sentiu-se tão doente por causa das bolhas de sarna que teve que ficar na cama. Os magos também se sentiram doentes e abandonaram o palácio do faraó, humilhados e envergonhados, para nunca mais retornar.

Granizo

D’us disse a Moshê: "Diga ao faraó que a próxima praga será tão terrível como todas as outras pragas juntas. Cairão grandes pedras e muitos egípcios morrerão."

O faraó não se importou. Por isso, D’us disse a Moshê no dia seguinte: "Estende tua mão ao céu. Então começará uma tempestade de granizo."

Nenhum egípcio jamais havia visto tal tormenta! Os trovões eram tão fortes que muitos morreram de susto. Quando soou um trovão especialmente forte, o faraó caiu no chão. Mas D’us lhe deu forças para pôr-se de pé, de maneira que este rashá (malvado) continuasse com vida para ser castigado com as outras pragas.

Muitos egípcios foram atingidos por bolas de granizo e pereceram. Este granizo continha não somente gelo, como também fogo. (Isto foi um milagre. O comum é que o fogo consuma o gelo e este extinga o fogo). Alguns egípcios foram queimados pelo fogo.

O faraó chamou Moshê e Aharon. "Eu pequei," admitiu. "D’us é é perfeito. Por favor, suplica a D’us que ponha fim a essa terrível praga. Prometo que desta vez estão livres para deixar o Egito." O faraó manteve sua promessa? Não. Assim que a tempestade de granizo terminou, sentiu-se tão poderoso quanto antes e decidiu não libertar o povo de Israel.

Então sucessivamente D’us enviou as três últimas pragas, gafanhotos, trevas e morte dos primogênitos egípcios, até que na útltima, o faraó não suportou mais e permitiu que o povo partisse.
Mas não sem mandar seus exércitos logo em seguida atrás, pois não queria ter cedido ao pedido.

Embora o faraó não tivesse se arrependido, ele admitiu: "D’us é perfeito". Por ter admitido a grandeza de D’us, todos os egípcios também o fizeram. D’us, em Sua infinita bondade fez com que após os egípcios terem se jogado no Yam Suf (Mar Vermelho), D’us ordenou ao mar que os transportasse à terra firme, e ordenou à terra que cobrisse seus corpos. Por terem admitido: "D’us é perfeito", mereceram ser sepultados.

Uma lição para todos nós

Lembram-se de quem estendeu o cajado para atrair a praga do sangue? Foi Aharon. E quem causou a segunda praga? Novamente Aharon. E a praga seguinte, piolhos? Outra vez Aharon. Não foi Moshê. Este causou algumas das pragas seguintes, mas não as três primeiras.

D’us não permitiu Moshê de realizar as três primeiras porque teria que golpear o rio e a areia. O rio havia protegido Moshê, fazendo-o flutuar na caixa em que sua mãe o havia colocado quando bebê, e a terra havia coberto o corpo do malvado supervisor egípcio que Moshê havia matado. Como o rio e a terra haviam sido bondosos com Moshê, D’us não quis ofendê-los com golpes para trazer essas pragas. A Torá nos ensina que devemos estar agradecidos por todos os favores que recebemos.
D’us mostrou a Moshê que havia agido com consideração até mesmo com a água e o solo, que não têm sentimentos, para nos ensinar a sermos agradecidos com nossos amigos e nossos pais; e mais ainda, com D’us!

Sobre o cumprimento das promessas

Todos os perversos agem como o faraó. Quando D’us lhes envia um castigo, prometem melhorar. Mas assim que termina o sofrimento, esquecem por completo a decisão de serem bons e se arrependerem.

Esta é a lição do faraó: como não devemos agir.

Se estamos em dificuldades e nos propusemos a atuar de maneira melhor no futuro, mantenhamos firme nossa decisão, mesmo depois de superar nossas dificuldades!

 

Comentários

 

Vivendo Com o Rebe

Uma das principais razões para o Êxodo do Egito ter um papel tão importante no Judaísmo (nós o mencionamos diariamente em nossas preces) é que o Êxodo original simboliza o êxodo espiritual diário que deve ocorrer na vida de um judeu.

A palavra hebraica para Egito, Mitsrayim, vem do radical Meitzar, que significa limitações e obstáculos. Cabe a cada indivíduo liberar-se de suas próprias limitações internas, liberando assim sua alma Divina para expressar-se e buscar a plenitude espiritual.

A Porção desta semana da Torá, Vaerá, nos fala do início dos eventos que levaram os judeus do cativeiro à triunfante libertação. Ao estudar as circunstâncias do Êxodo do Egito, vemos de que maneira podemos aplicar estas lições a nossa jornada pessoal e espiritual.

A primeira praga a afligir os egípcios foi o sangue; cada gota de água do país foi afetada. Portanto, o primeiro passo rumo à libertação espiritual deve ser algo conectado com a transformação de "água" em "sangue".

A água simboliza a tranqüilidade, e falta de entusiasmo emocional. O sangue, por outro lado, é um símbolo de calor, entusiasmo e fervor. A Torá pergunta a cada judeu: Você deseja realmente sair do "Egito", superar suas limitações auto-impostas? A primeira coisa que você deve fazer é transformar sua "água" em "sangue". Transforme sua apatia e inércia em entusiasmo e amor para com a Torá e mitsvot (mandamentos). Infunda em sua vida o calor e o fervor dirigidos a D’us e à santidade.

Alguém poderia alegar: "Não basta que eu cumpra as mitvsot, estude Torá e evite o que é proibido? Não sou um bom judeu, mesmo que não sinta entusiasmo por aquilo que faço?"

A filosofia chassídica explica que frieza e apatia são a fonte de todo o mal. Quando alguém é frio em relação a algo, isso significa que é totalmente desinteressado naquilo. Vemos que quando alguém que nos é caro ao coração é mencionado, nosso pulso se acelera e nos "aquece". A frieza mostra o desempenho mecânico dos mandamentos e termina por levar à deterioração espiritual.

A primeira ação a ser feita para a libertação espiritual é substituir nossa morna dedicação ao Judaísmo com calor e entusiasmo. Devemos pelo menos ser tão entusiasmados pelo Judaísmo quanto somos a respeito das outras facetas de nossa vida.

Uma das maneiras práticas de expressar isso é quando cumprimos uma mitsvá de maneira particularmente especial. O desejo de aumentar nossa observância nos leva a cumprir os preceitos do Judaísmo por amor. Este, então, é o primeiro passo rumo à nossa saída do Egito e ao final de nosso exílio coletivo.

Um médico para um paciente

Os chassidim queriam chamar um médico, talvez houvesse ainda algo a ser feito para ajudar o Rebe enfermo, Rabi Yekusiel Yehuda Teitelbaum. Mas Rabi Teitelbaum não quis saber da sugestão. Em vez disso, declarou:

"Deixe-me contar-lhes uma história…

"Certa vez Rabi Yoel Sirkes, que mais tarde ficaria famoso como o ‘Bach’ (por seu livro Bayit Chadash) visitou seu genro, Rabi David ben Shmuel Halevi, que mais tarde seria conhecido como o "Taz" (por seu livro Turei Zahav.) Quando Rabi Yoel chegou, toda a cidade saiu para encontrá-lo e dar-lhe as boas-vindas com a tradicional saudação de "Shalom", exceto um jovem erudito, que não se aproximou.

"Que petulância" – disse seu genro, Rabi David, sobre o jovem.

"Fui informado pelo próprio Elihahu, o Profeta, que Rabi Yoel tinha sido banido pela Corte celestial, e por esse motivo não lhe estendi um cumprimento formal" – replicou o jovem.

Rabi David ficou chocado e pediu mais detalhes ao erudito.

"Certa vez, Rabi Yoel estava passando por uma determinada cidade. Dois homens estavam discutindo sobre uma carroça carregada de madeira que um homem tinha vendido a outro. O comprador alegava que tinha concordado com um preço de três moedas de ouro, ao passo que o vendedor era categórico em afirmar que tinha vendido por 3 e 1/10.

"Quando os dois homens viram Rabi Yoel, perguntaram-lhe se ele poderia arbitrar a questão.
"Qual o valor que está sob discussão?" perguntou Rabi Yoel.

"A décima parte de uma moeda de ouro" – responderam eles.

"Devo retardar minha viagem e ser incomodado por um décimo de uma moeda de ouro?" Rabi Yoel protestou.

"Os anjos acusadores no céu tiveram um dia e tanto com o comentário do Rabi, pois nossos Sábios ensinam que ‘Uma disputa envolvendo uma moeda de cobre deve ser tratada tão seriamente como uma questão envolvendo uma centena de moedas.’"

Rabi David apressou-se a procurar seu sogro para certificar-se de que a história era verdadeira. Na verdade, Rabi Yoel lembrou-se do incidente como se fosse inadequado para ele fazer esse tipo de comentário. Os dois homens perceberam que este jovem erudito tinha sido levado a eles pela Divina Providência, para ajudar Rabi Yoel a fazer teshuvá (arrependimento) e acertar tudo.
Procuraram então uma corte rabínica que imediatamente anulou o banimento celestial.

Rabi Yoel aproximou-se do jovem e pediu um favor. "vejo que é uma pessoa correta e temente a D’us aos olhos do Céu. Portanto, gostaria de dar-lhe meu manuscrito, um comentário sobre Arba Turim (uma seção do Código da Lei Judaica) que planejo publicar sob o título Bayit Chadash. Antes de publicá-lo, gostaria que você o olhasse e me desse sua opinião."

O jovem concordou.

Pouco depois, Rabi Yoel aproximou-se do rapaz e perguntou-lhe se tinha tido uma chance de examinar o manuscrito, e se podia devolvê-lo.

"Não o devolverei nem mesmo em vinte anos" – respondeu o jovem erudito.

Chocado, Rabi Yoel pediu uma explicação. "Minha obra não teve sua aprovação? Se é este o caso, diga-me o que há de errado, pois eu a entreguei a você para que a examinasse com olho crítico."

O rapaz respondeu: "Seu livro é bom. No entanto, assim que o publicar e distribuir em todo o mundo, terá completado sua missão na vida e não haverá motivo para viver neste mundo. Portanto, farei tudo que puder para retardar sua publicação, para que você permaneça aqui conosco neste mundo."

"Se é este o motivo de ter ocultado seus comentários, então não atrasarei a publicação" – disse Rabi Yoel. "Pois, como você mesmo notou, o mundo precisa dele."

O jovem não teve outro recurso senão devolver o manuscrito ao autor, que foi em frente com a publicação, volume por volume. Foi publicado no decorrer de nove anos. Em 1640, logo após a publicação do último volume, Raby Yoel faleceu.

Rabi Yekusiel Yehuda Teitelbaum completou sua história. Então acrescentou: "O mesmo ocorre comigo. Se com a ajuda de D’us eu tiver completado minha missão neste mundo, então nada tenho a fazer aqui, e não quero um outro médico."

 

Histórias Chassídica relacionada à Parashá Vaerá

 

Versículo 7:28

"E o Nilo multiplicará rãs, e virão à sua casa e entrarão em seu quarto, e sua cama… seus fornos, e seus restos de provisões."

Chanania, Mishael e Azaria aprenderam o auto sacrifício com os sapos, que en-traram nos fornos dos egípcios para cumprir a vontade de D’us.

Talmud, Pesachim 53b

O mundo afirma que se a pessoa não pode passar por baixo (de um obstáculo) então deve passar por cima; mas eu afirmo: para começar, vá por cima.

Rabi Shmuel de Lubavitch

Ao ponto do auto-sacrifício

Numa reunião a 12 de Tamuz de 5745 (1º de julho de 1985), assinalando o 105º aniversário de nascimento de Rabi Yossef Yitschac Schneerson, o Rebe de Lubavitch relatou o seguinte incidente da vida de seu ilustre predecessor:

"Foi durante a juventude de Rabi Yossef Yitschac, quando o regime czarista ain-da governava o Império Russo. Um novo decreto contra a comunidade judaica estava sendo preparado, dirigido a mudanças forçadas na estrutura do rabinato e na área educacional e colocando em sérios riscos a continuidade de exercer o judaísmo.

"Rabi Sholom Dovber despachou seu filho Rabi Yossef Yitschac para a capital russa, Petersburgo, para impedir a validação do decreto. Quando Rabi Yossef Yitschac perguntou quanto tempo deveria ficar em Petersburgo, seu pai replicou: ‘até o ponto do auto sacrifício.’

"Chegando a Petersburgo, Rabi Yossef Yitschac soube que o decreto já chegara à mesa de Stalin, o homem mais poderoso do Império Russo. A inteligência do Czar (ou a falta dela) fê-lo um carimbo virtual para qualquer ministro que o clima político dominante favorecesse; Stalin era um tirano cruel e anti-semita ferrenho, que era pessoalmente responsável por muitos dos devastadores pogroms que eram ‘arranjados’ para os judeus na Rússia naquela época.

"Vivia em Petersburgo um velho erudito, antigo mestre e mentor do Ministro do Interior. Rabi Yossef Yitschac fez amizade com este homem, que ficou profun-damente impressionado pela competência e profundidade do conhecimento do jovem chassid. Por mais de uma noite, os dois sentaram-se e conversaram no escritório do homem mais idoso.

"Certo dia, Rabi Yossef Yitschac relatou ao novo amigo o propósito de sua visita a Petersburgo, e insistiu com ele para que o ajudasse a chegar até o Ministro do Interior. Replicou o velho erudito: ‘Falar com ele seria inútil. O homem tem um coração cruel e impiedoso, e cortei todo o contato com esta criatura abominável há muitos anos. Porém há uma coisa que posso fazer por você. Devido a meu status como mentor de Stalin, recebi um passe de entrada permanente nos escritórios do Ministro. Não preciso lhe explicar as conseqüências, para nós dois, se você for descoberto. Mas tenho respeito a você e àquilo por que luta, e decidi ajudá-lo.’

"Quando Rabi Yossef Yitschac mostrou o passe que dava acesso ao Ministro do Interior, o guarda de plantão ficou estupefato: poucos eram os ministros em nível de gabinete que recebiam tal privilégio, e aqui estava um jovem chassid, com barba, costeletas, veste chassídica e sotaque iídiche, numa época quando até mesmo residir em Petersburgo era vedado aos judeus. Mas o passe era válido, portanto o guarda mandou-o entrar.

"Rabi Yossef Yitschac entrou no edifício e começou a procurar o escritório de Stalin. Aqueles a quem perguntava o caminho podiam apenas fitar a estranha aparição percorrendo confiantemente os corredores do Ministério do Interior. Logo encontrou o escritório do ministro ao final de um salão principal no quarto andar do prédio. Enquanto Rabi Yossef Yitschac caminhava em direção ao escritório, a porta abriu-se e o próprio Stalin saiu e fechou a porta atrás de si. O filho do rebe e o Ministro do Interior passaram a poucos metros um do outro. Rabi Yossef Yitschac caminhou direto para o escritório, abriu a porta e entrou.

"Após uma rápida busca, Rabi Yossef Yitschac localizou o documento a respeito do decreto na escrivaninha de Stalin. Sobre a mesa estavam dois carimbos, um com a palavra APROVADO e o outro com REJEITADO, ambos com a assinatura e o selo do ministro. Rapidamente, Rabi Yossef Yitschac carimbou o decreto com REJEITADO e inseriu os papéis numa pilha de documentos vetados que estavam numa bandeja sobre a escrivaninha. Deixou então a sala, fechou a porta atrás de si, e caminhou para fora do prédio."

 

O Caso da Caveira Flutuante

por Yossi Marcus – diretor do Centro Chabad em S. Mateo, Califórnia

Um homem que saiu para um passeio à beira do rio notou algo estranho e assustador: uma caveira flutuando na superfície da água. Sua reação foi incomum. Não pegou seu celular nem sua câmera digital. Em vez disso, voltou-se para a caveira e pronunciou as seguintes seis palavras em aramaico: "Ahl d’ateiff aftfuch, v’sof mitofayich yitufun." Se tivesse falado em português, teria dito isso: "Você se afogou porque afogou outros. E em última análise, aqueles que o afogaram você também afogará." Um tanto menos poético em nosso idioma, mas essencialmente, o mesmo teor.

O motivo pelo qual ele usou aramaico foi porque na época em que o incidente ocorreu – próximo ao final da era do Segundo Templo – o aramaico ainda não era uma língua extinta. Na verdade, estava bem vivo, especialmente entre os judeus que viviam na Babilônia.

O homem que caminhava ao longo do rio tinha vivido na Babilônia até os quarenta anos. Então emigrou para a cidade sagrada de Jerusalém para estudar aos pés de Shma’aya e Avtalyon, dois irmãos de origem grega, que tinham se convertido ao Judaísmo e surgiram para se tornarem os principais eruditos judaicos daquela época.

O homem era Hilel, autor de conhecidas declarações como: "Se eu não for por mim, quem será" e "Aquilo que é odioso a você, não o faça ao seu amigo" e outras. Ficou famoso por sua profunda sabedoria e extraordinária paciência.

Como Moshê, Hilel era conhecido por sua humildade, e também viveu por cento e vinte anos. Segundo a tradição cabalista, ele e Moshê partilharam a mesma alma.

Maimônides e a Caveira

Um outro homem chamado Moshê, Maimônides, que viveu cerca de 1.000 anos depois da história da caveira, escreveu o seguinte em seu comentário sobre o Tratado Avot (Ética dos Pais") onde a história da caveira está registrada.

"Há conseqüências para nossas ações – conseqüências que refletem aquelas ações. Se você cometer assassinato e afogar outras pessoas num rio para ocultar seu crime, receberá seu castigo na forma de seu crime. Se você inventar algo injusto para se beneficiar às custas de outros, aquela injustiça terminará por ser usada contra você. Pelo lado positivo, se você introduzir algo que beneficie outros, aquilo também terminará por vir em seu benefício. Em hebraico, é chamado: midá k’neged midá – medida por medida.

Eis como Maimônides e outros comentaristas explicam a mensagem de Hilel.

Faraó versus Moshê – 2º round

O neto de Maimônides, Rabi David Hanagid, cita uma tradição passada pelos "anteriores", que a caveira flutuante pertenceu a ninguém menos que o próprio faraó. Hilel, portanto, disse-lhe: "Como você ordenou que os bebês judeus fossem afogados no Nilo, você foi afogado." Foi especificamente Hilel que confrontou a caveira do faraó, pois como reencarnação de Moshê ele era a pessoa adequada para enfrentar o faraó.

Segundo essa interpretação, diz Rabi Isaac Luria, o famoso místico de Safed do século dezesseis, conhecido como "o Sagrado Ari", a segunda metade da declaração de Hilel está dirigida não ao faraó, mas ao povo judeu. "Assim como o faraó foi afogado, assim todos os perseguidores de Israel terminarão por se afogarem."

O Lubavitcher Rebe, Rabi Menachem Mendel Schneerson, de abençoada memória, viu nos comentários do Ari palavras de conforto para a alma exausta do judeu exilado, para a alma daquele que sente estar enfrentando um desafio insuperável, uma densa nuvem de escuridão. Hilel, o notável líder de Israel, volta-se a esta pessoa e diz: "Se o faraó, a personificação do mal, o homem que pôs medo até no coração de Moshê, a tal ponto que D’us teve de acalmá-lo e dizer: ‘Vá ao faraó – Eu o acompanharei’, terminou afogado num rio, certamente todos os faraós da História, todas as grandes serpentes que tentaram e tentarão afogá-lo por meio de perseguição física e espiritual – serão afogados também. Pois o mal não tem pernas para ficar em pé. Como a fumaça, obscurece nossa visão durante algum tempo, mas termina por desaparecer."

Zombando dos Pobres

Se isso fosse tudo que podemos aprender com a declaração de Hilel, já seria suficiente, mas há algo mais. Eis aqui outro belo pensamento.

Parece estranho que Hilel, o homem da bondade, humildade e paciência impossível, admoestasse um homem morto! Segundo a tradição judaica, não se deve cumprir qualquer mitsvá perto de um túmulo. Fazê-lo é considerado como "zombar dos pobres" (loeg la’rash) pois aqueles que estão sob a terra não são mais capazes de cumprir mitsvot. Assim como você não se serve de um jantar suntuoso defronte a alguém incapaz de ter um pedaço de pão, ninguém deveria exibir tsitsit, por exemplo, na presença daqueles que não podem mais cumprir este mandamento.

Por quê, então, Hilel, o homem da bondade e humildade, repreendeu este pobre morto, que não poderia reagir à repreensão?

A resposta – diz o Rebe – é que quando Hilel avistou a caveira do faraó, pensou consigo mesmo: "Por que D’us fez com que eu tivesse esta visão?" Ele então chegou à conclusão de que finalmente tinha chegado a hora de a alma do faraó encontrar a paz. E ao usar o faraó como um exemplo para ensinar uma mensagem significativa, Hilel elevou a alma do faraó e concedeu-lhe a capacidade de encontrar a paz.

Resumindo:

Portanto, aquilo que começa como um inocente passeio à beira do rio acaba sendo uma passagem repleta de lições importantes.

Tudo aquilo que vai acaba voltando. Até o mal mais poderoso é passageiro.

Tudo aquilo que cruza seu caminho tem um propósito, e você deveria preencher aquele propósito. Nem sempre aquele propósito é aparente, mas devemos ao menos aproveitar aquelas situações nas quais o propósito é visível.

Até um faraó pode ser redimido, e será redimido quando chegar a hora.

E esta foi a história da caveira flutuante.

 

 

Fonte: http://www.chabad.org.br/

 

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