Leitura da Torá – Porção Semanal: Parashá Vayechi (10/01)

Comentários:

Vivendo com o Rebe

Com a Porção desta semana da Torá, Vayechi, concluímos o Livro de Bereshit. "Então Yossef faleceu, aos cento e dez anos… e ele foi colocado num caixão no Egito" é seu versículo final.
Esta conclusão do livro inteiro é um tanto surpreendente, tendo em vista o princípio de que "deve-se sempre terminar com uma nota positiva". Por que Bereshit não poderia ter concluído alguns versículos antes, quando vimos que Yossef teve uma longa vida e mereceu ver seus netos e bisnetos?

Por que a descrição da morte de Yossef não poderia ter esperado até o Livro de Shemot?
Devemos portanto concluir que o falecimento de Yossef está de certa forma relacionado com o tema do próprio Bereshit.

A diferença básica entre Bereshit e os outros quatro Livros de Moshê é que Bereshit relata a história inicial de nossos antepassados e das doze tribos – a preparação para nossa existência como uma nação distinta – ao passo que os outros quatro livros contêm uma narrativa de nossa história como um povo.

O Livro de Bereshit começa com uma narrativa da criação do mundo. O Sábio, Rabi Yitschac, explicou que embora a Torá devesse ter começado com um mandamento prático, D’us escolheu começá-la com a Criação para refutar os argumentos dos gentios, que um dia alegariam que os judeus tinham roubado a Terra de Israel das nações que ali viveram antes de sua conquista.

Para registrar sua afirmativa, os judeus dirão: "O mundo todo pertence a D’us; Ele o criou e dividiu como julgou apropriado. Foi Sua vontade dá-la a eles, e foi Sua vontade tirá-la deles e dá-la a nós."
Certamente D’us não mudou toda a ordem de Sua Torá apenas para dar uma resposta aos argumentos dos gentios. Os comentários de Rabi Yitschac devem portanto conter um ensinamento mais fundamental para o povo judeu como um todo.

Os países do mundo são conhecedores da missão especial dos judeus. Sua alegação, no entanto, é que exatamente porque os judeus são diferentes, eles deveriam limitar-se ao serviço espiritual de D’us e não se aterem a uma terra física.

Como os judeus são um povo como nenhum outro, não devem ter o direito de alegar a propriedade de um país. Para o não-judeu, os reinos espiritual e físico são incongruentes e incompatíveis.
"O mundo inteiro pertence a D’us" – explica o judeu – o mundano e o espiritual. Ambos requerem santificação por meio da luz da santidade – a missão sagrada do judeu.

Com este conceito tem início o Livro de Bereshit, e com esta nota ele termina. O caixão de Yossef permaneceu no Egito para fortalecer e inspirar os Filhos de Israel durante seu exílio ali. Yossef é um símbolo da capacidade do povo judeu de superar até o mais difícil dos obstáculos, imbuindo até a matéria física mais comum com santidade e trazendo a longamente esperada Redenção.

Adaptado de Likutê Sichot do Rebe, vol. 30.

 

A revelação final

Por Rabi Shmuel M. Butman
 

Na porção desta semana da Torá, nosso ancestral Yaacov diz a todos seus filhos que se reúnam para que possa contar-lhes "o que acontecerá com vocês até o final dos dias".

O Talmud relata que Yaacov desejava revelar o final do exílio mas este estava oculto dele. O significado literal, no entanto, é que Yaacov desejava "revelar" – i.e., fazer acontecer, o fim."

Os ensinamentos judaicos explicam que as ações de seus antepassados são uma luz de orientação para o povo judeu de todas as gerações. Eis aqui uma lição importante para cada um de nós. Devemos seguir os passos de Yaacov, esperar e rezar pela manifestação do supremo fim – a Redenção Final. Esperar por isso irá por si mesmo ajudar em nosso serviço a D’us, inspirando-nos a atingir nosso supremo objetivo, a revelação de Mashiach.

Esperar e ansiar por Mashiach na verdade apressa a vinda de Mashiach. Isso é claramente visto na concepção do tradutor e comentarista Onkelos, sobre o versículo em Yeshayahu 64:3: "D’us agirá para aquele que espera por Ele." Como menciona Onkelos, "para aqueles que esperam e anseiam por Tua Redenção."

De que maneira nossa ânsia apressa a Redenção?

Se esperarmos e rezarmos pela Redenção, sincera e firmemente, se vivermos vidas com mais ética e moral, em virtude das boas ações de cada indivíduo, o povo judeu como um todo será considerado mais merecedor, e a Redenção há tanto esperada será apressada.

 

Aconteceu certa vez

 

Reb Nota foi contratado por um simples aldeão para ensinar seus dois filhos. Tudo sobre Reb Nota parecia bastante comum. Ele ensinava, rezava, estudava, comia, ele descansava. No Shabat costumava se juntar à família durante a refeição de Shabat e depois retirava-se ao seu quarto, para desfrutar um pouco de descanso.

Na sexta-feira, a dona da casa acordou no meio da noite e ouviu ruídos. Em seguida, o silêncio. Após alguns momentos de confusão, ela percebeu que era a voz melodiosa do professor, e que ele estava cantando as preces noturnas do Shabat! Ela decidiu observá-lo mais atentamente no dia seguinte.

Na refeição do Shabat durante o dia, a mulher notou que Reb Nota apenas fingia comer. De vez em quando ele colocava alguns bocados de comida num lenço que tinha no colo. Como ela jamais percebera isso antes? Depois da refeição, ela ouviu novamente à porta de Reb Nota. Dessa vez, também, escutou a mesma bela voz entoando as preces matinais do Shabat, com grande devoção. Pelo buraco da fechadura ela viu que após completar suas preces, Reb Nota fez kidush com o vinho, abluiu as mãos para o pão e recitou a bênção hamotsi. Então serviu-se da modesta refeição que tinha guardado no lenço.

A mulher percebeu que Reb Nota não era um simples professor, e revelou ao marido tudo aquilo que havia visto. Juntos, fizeram a Reb Nota a seguinte oferta: "Sabemos que é um homem justo. Pedimos que permaneça conosco e não lhe faltará nada. Pode estudar e rezar à vontade. Nossos filhos são simples como nós e sabemos que eles jamais serão grandes eruditos de Torá. Pedimos apenas que como retribuição, passe algum tempo com eles todos os dias, ensinando a porção semanal da Torá, leis simples e ensinamentos éticos, para que eles possam ter uma vida íntegra e repleta de amor a D’us e ao próximo."

Reb Nota concordou com a generosa oferta do casal. O tempo passava, e os aldeões começaram a perceber as maneiras simples mas exemplares de Reb Nota. Voltaram-se a ele em busca de conselho e ensinamentos de Torá. O aldeão e sua mulher recebiam calorosamente em sua casa os eruditos que começaram a chegar de longe para ouvir os ensinamentos de Reb Nota. D’us abençoou o casal e sua loja prosperou.

Finalmente, os anciãos de Vladova pediram a Reb Nota que se mudasse para sua cidade, e ele concordou. Poucos anos depois, a comunidade de Chelm na Polônia convidou-o para ser seu rabino, Reb Nota aceitou o pedido e foi ali que se tornou famoso como o rebe, Reb Nota de Chelm.

Passaram-se os anos, e os negócios do aldeão começaram a declinar. Por fim, ele se viu obrigado a vender suas propriedades até que nada lhe restou. A essa altura, sua mulher disse: "Talvez você devesse procurar Reb Nota de Chelm e pedir-lhe uma bênção. Certamente ele se lembrará de nós e nos abençoará."

O aldeão viajou a Chelm, Imagine sua surpresa quando chegou ao escritório de Reb Nota e, após esperar, na fila para ser recebido foi cumprimentado da mesma maneira que todos os outros visitantes!

O aldeão procurou lembrar-se que era a véspera do Shabat e que Reb Nota estava ocupado. Com certeza seria diferente depois. Durante todo o Shabat, o aldeão recebeu a mesma gentileza e reconhecimento que qualquer outra pessoa que tinha vindo passar o Shabat com Reb Nota, mas nada além disso.

O homem ficou tão desapontado que mal podia se conter. Quando estava na hora de sair, apresentou a Reb Nota seu bilhete como faziam todos os outros visitantes. Reb Nota leu a mensagem e abençoou-o, como fizera com todos os outros que ali se encontravam.

O aldeão não pôde mais se refrear. Reuniu sua coragem e disse: "Rebe, tenho uma pergunta que está me incomodando."

"Faça-a" – disse Reb Nota gentilmente.

"Todos os dias, durante cada uma das três preces diárias, mencionamos os méritos dos Patriarcas. Nos dias que antecedem Rosh Hashaná, também pedimos a D’us: ‘Lembra-Te do pacto que fizeste com Avraham e do sacrifício de Yitschac.’ De Rosh Hashaná até Yom Kipur, pedimos a D’us para nos ajudar pelo mérito dos Patriarcas. Finalmente, chega Yom Kipur e no decorrer daquele dia lembramos a D’us o mérito dos Patriarcas. Na última prece de Yom Kipur, Neilá, lembramos a D’us de ‘Nosso Pai Avraham que Te conheceu desde a infância.’ Já não mencionamos Avraham, Yitschac e Yaacov o suficiente? O que é acrescentado aqui?"

Reb Nota sorriu. "Certamente você tem uma resposta. Por favor, compartilhe-a comigo."

"Bem" – começou o aldeão – "no clímax de Yom Kipur, estamos preocupados de que um anjo acusador possa dizer: ‘Qual o mérito dos Patriarcas? Mesmo que eles jamais tivessem existido, todos ainda conheceriam a grandeza de D’us, que criou céu e terra e os sustém.’ E é por isso que dizemos: ‘Nosso pai que Te conheceu desde a infância.’ Avraham reconheceu a grandeza de D’us quando ninguém mais O reconheceu. Foi Avraham o primeiro a tornar conhecido o Nome de D’us.
"O mesmo ocorre comigo" – continuou timidamente o aldeão. "Sem mim, o Rebe seria ainda um homem justo. Mas quem conhecia e quem jamais ouvira falar do Rebe anos atrás? Não fui eu que tornei o nome do Rebe conhecido? Por que então, Rebe, não toma conta de mim quando estou passando necessidades?"

Reb Nota sorriu bondosamente mais uma vez. "Vá em paz e D’us certamente fará seu negócio prosperar daqui em diante."

E assim foi. A partir daquele dia, os negócios do aldeão prosperaram, até que ele de novo recuperou sua antiga fortuna.

Reb Nota costumava contar este incidente a seus chassidim, elogiando o aldeão e sua fala simples. Os chassidim, por sua vez, acrescentaram que não foi à toa que Reb Nota negou uma calorosa acolhida ao aldeão. Pois foi exatamente por isso que ele teve o mérito de ter um discernimento tão poderoso.

 

Bênçãos disfarçadas

Esta Porção refere-se às bênçãos de Yaacov, apesar dele ter admoestado severamente vários de seus filhos.

Como podem palavras de repreensão ser consideradas bênçãos?

Crítica construtiva – de fonte amiga – é uma bênção se quem a recebe a considera bem intencionada, visando seu aperfeiçoamento. Em contraposição, referir-se às falhas com palavras vexatórias é sinal de pouca consideração e amizade.

Abençoado é o filho cujo pai sabe como puni-lo, e que reage positivamente à repreensão do pai. Abençoado é o marido que ouve com atenção os conselhos da esposa e aprecia sua crítica construtiva.

Feliz a comunidade que é abençoada com líderes que criticam, repreendem e estimulam seus seguidores a alcançar maiores realizações, quando a boa intenção e motivação idealista são devidamente apreciadas.

Yaacov criticou seus filhos, sim, mas com espírito de alta consideração e propósito construtivo. Suas palavras eram bênçãos – porque assim ele as queria, e porque seus filhos assim as consideravam.

 

Completamente fechado

Por Michael Alterman
 

Além de ser a porção final no livro de Bereshit, a Parashat Vayechi é única pela maneira peculiar como aparece no rolo da Torá.

Ao contrário de qualquer outra porção da Torá, claramente separada de sua vizinha, ou por começar numa nova linha no rolo da Torá ou por pular um número significativo de espaços, a Parashat Vayechii é stumá ou selada, continuando diretamente nos calcanhares da porção prévia sem a divisão normal. Rashi declara que "fechando" a separação normal, a Torá quer dizer que, com a morte de Yaacov, os olhos e corações do povo judeu foram fechados e anuviados pela amarga servidão deles aos egípcios, que começou na época de sua morte.

Há apenas um problema com a explicação de Rashi: a escravidão física não começaria realmente por pelo menos mais cinqüenta anos, após as mortes de Yossef e o restante de seus irmãos. A que poderia o Rashi estar se referindo?

O Sfas Emes responde que Rashi de maneira alguma se refere à escravidão física que o povo judeu suportaria mais tarde; ao contrário, está se referindo ao mal-estar espiritual que dominou os Filhos de Israel quando Yaacov morreu. Enquanto o grande Patriarca estava vivo, seus filhos e netos puderam afastar as terríveis influências que permeavam a imoral sociedade egípcia, permanecendo separados na província de Goshen. Entretanto, quando Yaacov se foi, era natural que o povo judeu começasse a se sentir mais confortável residindo no estrangeiro, baixando a guarda e permitindo que aspectos da desprezível atmosfera egípcia penetrasse aos poucos em seu espírito nacional.

Já na época da morte de Yaacov, seus olhos e corações começaram a se tornar nublados pela impureza do ambiente em que viviam.

Referindo-se à servidão espiritual com o mesmo termo geralmente aplicado a uma escravidão física, Rashi está nos enviando uma poderosa mensagem sobre a gravidade de tornarmo-nos presas das influências de uma nação estrangeira: só porque não estamos fisicamente escravizados, isso não significa que estamos a salvo de sermos subjugados pela sociedade que nos rodeia.

 

História chassídica relacionada à parashá

Versículo 47:28

E Yaacov viveu…

Condições de vida

Rabi Schneur Zalman de Liadi desejava abençoar Rabi Yekutiel Lefler com riquezas. Mas o chassid não aceitou, explicando que as preocupações com a fortuna atrapalhariam seu estudo de Torá e seu serviço ao Todo Poderoso.

O Rebe então ofereceu-se para abençoá-lo com vida longa. Disse Rabi Yekutiel: "Mas não com uma vida de iletrado. Não com os anos daqueles ‘que têm olhos mas não vêem, que tem ouvidos mas não ouvem’ – não com uma vida na qual a pessoa não veja a Divindade e não ouça a Divindade."

O Lubavitcher Rebe perguntou: "Não é presunçoso para alguém a quem se oferece um presente dizer: ‘Tudo bem, aceito, mas apenas com a condição que você adicione umas coisinhas’"?

Porém para Rabi Yekutiel, explicou o Rebe, ‘ver a Divindade e ouvir a Divindade’ não é uma questão de consciência exaltada ou uma ampliação da qualidade ‘espiritual’ de sua vida, mas da própria definição da vida em si mesma.

Versículo 49:10

Não se tirará poder de Yehudá, nem o cetro dentre seus pés, até que venha o Mashiach…

Cada alma possui uma centelha da alma de Mashiach.

Rabi Israel Báal Shem Tov

 

Mashiach está no ar

Após o falecimento de Rabi Dovber de Mezeritch, em 5533, Rabi Menachem Mendel de Horodok levou um grupo de chassidim para se estabelecer na Terra Santa.

Um dia, apareceu um certo indivíduo que subiu ao Monte das Oliveiras em Jerusalém e tocou o shofar, de modo enganador. Logo espalhou-se o rumor de que Mashiach havia chegado, provocando uma grande comoção nas ruas.

Rabi Mendel foi até a janela e aspirou o ar. "Não," disse ele, "infelizmente o Redentor ainda não chegou. Quando chegarmos ao grande dia, ‘o mundo ficará repleto do conhecimento de D’us, como as águas cobrem o mar’ e ‘toda carne perceberá’ a realidade do Criador. Não sinto a Divina verdade que permeará o mundo na era de Mashiach."

Disse o renomado Rabi Grunem Estherman: "Por que Rabi Mendel precisou ir até a janela para farejar a presença de Mashiach? Porque a verdade toda penetrante de D’us já era uma realidade tangível dentro das paredes do quarto de Rabi Mendel."

Versículo 48:19

Mas seu irmão mais moço será mais notável que ele.

A simplicidade íntegra de um judeu simples afeta a profunda essência simples de D’us.

Rabi Israel Báal Shem Tov

 

Quando menos significa mais

Os dois homens estavam entre os poucos privilegiados a conseguirem uma audiência com o rei. O primeiro homem chegou ao palácio na hora aprazada, mas assim que entrou na ante-sala parou, atônito. Sendo ele próprio um homem de posses, tinha condições de avaliar a opulência que via à sua frente. Lá ficou por horas, deleitando-se com as maravilhas que intoxicavam a alma de um homem rico. Lá ficou por horas, e o rei… nunca chegou a ver o rei.

O segundo homem chegou também ao mesmo salão de entrada, mas não estava acostumado a tais riquezas. Seu gosto empobrecido não conseguiu apreciar aquilo que embasbacara seu companheiro mais sofisticado. Para grande desgosto do homem abastado, o pobre encaminhou-se diretamente para a porta do rei.

Disse o Lubavitcher Rebe:

Certa vez, um grande homem falou: "Rezo com a mente de uma criança."

A percepção de D’us por uma criança, sentia ele, é de certa maneira mais verdadeira e mais pura que a elaborada e mais profunda compreensão cabalista dos atributos e manifestações Divinos.

O especialista espiritual que se aproxima de D’us com um olho na ‘experiência’ desta ou daquela nuance do Divino, pode não enxergar o propósito de tudo aquilo. Apenas ao reconhecer nosso analfabetismo espiritual básico, poderemos verdadeiramente nos relacionar com a essência totalmente transcendente de D’us.

 

 

Anúncios
Esse post foi publicado em BEIT CHABAD. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s