Yud Tet Kislev – A história de Yud Tet Kislev – Parte IV

 

 

Soltura e libertação

Conforme acima mencionado, os oficiais do governo interrogaram o Rebe minuciosamente, e este respondeu livremente a todas as questões. As perguntas e respostas foram enviadas ao Senado para serem examinadas. As deliberações terminaram favoravelmente, conquanto as respostas do Rebe atestavam sem sombra de dúvida sua extraordinária sabedoria e sinceridade, bem como sua lealdade a D’us e ao governante do país.

Tudo isso tornou-se conhecido entre os chassidim, pois Rabi Mordechai era muito respeitado pelos oficiais do governo, e informaram-lhe de todos os detalhes. Na sexta-feira, véspera de Shabat de 15 de Kislev, os chassidim descobriram que o Senado já terminara todas as deliberações, e que as conclusões viriam a público quatro dias mais tarde. Estava claro que o Alter Rebe sairia vitorioso e seria libertado da prisão. O júbilo espalhou-se e aumentou progressivamente, e a salvação era aguardada com grande antecipação.

Finalmente chegara o dia. Na terça-feira, dezenove de Kislev de 5559 (1799) o veredicto do julgamento do Rebe foi promulgado, declarando-o inocente e ordenando sua libertação imediata da prisão.

Ao perguntarem ao Rebe aonde queria ser levado, mencionou a casa de Rabi Mordechai Liepler.

Na mesma casa, no piso térreo, vivia um dos líderes mitnagdim que participara da calúnia. O Alter Rebe fora levado para seu apartamento por engano. Quando o mitnagued viu o Rebe em sua casa, homem livre, ficou mudo e aterrorizado. Convidou-o a sentar e mandou a empregada fazer chá, enquanto ele mesmo lavava os copos. Juntou-se ao Rebe e disse-lhe:

"Você pensa que já terminou. Deixe-me dizer-lhe que agora que caiu em minhas mãos não sairá daqui até que me dê seu consentimento por escrito para anular os novos textos dos livros de orações, e todas as suas outras inovações. Nossos ancestrais eram sábios tão grandes quanto você, e não viram necessidade de substituir a oração de Naaritsach por Kêter."

O mitnagued também criticou os chassidim por escolherem título tão pretensioso para si (chassidim – "homens pios"). A isso o Rebe refutou:

"Os chassidim acreditam numa Providência Divina específica, como ensinou o Báal Shem Tov. Chassidim não tomam nada para si, nem escolheram o nome ‘chassidim.’ Este nome lhes foi dado pelos mitnagdim. Na verdade, deveriam chamar os chassidim de ‘mitnagdim’. A Divina Providência, porém, inspirou os mitnagdim com um senso de verdade com o qual chamaram os chassidim de ‘chassidim’, e a si mesmos de ‘mitnagdim’."

Nesse meio tempo, os chassidim aguardavam impacientes a chegada do Rebe no apartamento de Rabi Mordechai. Percebendo o adiantado da hora, e que o Rebe não aparecia, ficaram ansiosos. Decidiram ir ver o mitnagued no andar de baixo- certamente saberia se acontecera algo de novo. Rabi Mordechai, junto com um dos chassidim poloneses desceram e ouviram a voz do mitnagued berrando atrás da porta trancada: "De Naaritsach você não gosta, apenas de algum texto novo como Kêter!" Compreendeu imediatamente que o Rebe fora erroneamente levado para a casa do mitnagued. Bateram à porta com insistência, até que abriram-na. Ao entrarem retrocederam ante a visão que se lhes oferecia: o Rebe sentado à mesa, cabeça entre as mãos, profundamente imerso em pensamentos e ansiedade, forçado a escutar os insultos que atiravam em sua direção. O mitnagued acovardou-se com a chegada dos dois chassidim, silenciando de repente, e num tom adulador, observou: "Qual o problema? Calma! Por que fazer tamanho tumulto? Eis aqui seu Rebe!"

Um Rabi Mordechai irado adiantou-se para esmurrar o homem, mas o Rebe o impediu. "Venha, Rebe, vamos embora," disse Rabi Mordechai, "retiremo-nos do local de moradia de pessoas assim."

O Rebe replicou que a pessoa deve honrar o anfitrião. Terminou seu copo de chá e foi com Rabi Mordechai.

"Percebe, Rabi Mordechai," disse o Rebe, "que você realmente me salvou? Todo o tempo em que estive preso em Tainy Soviet não foi tão difícil para mim quanto estas três horas que fiquei sentado na casa deste mitnagued."

Os chassidim reuniram-se na casa de Rabi Mordechai para darem as boas-vindas ao Rebe com grande júbilo e alegria.

O Rebe Rabi Yossef Yitschac de Lubavitch analisou este evento:

"A redenção deu-se na hora de Minchá. Durante as três preces daquele dia, o Báal Shem Tov e o Maguid estavam com o Alter Rebe. Durante aquelas três horas que passou na casa do mitnagued e foi forçado a ouvir abusos e insultos do mitnagued contra o Báal Shem Tov, contra o Maguid de Mezritch e contra si e os chassidim, sofreu mais agonias que durante todo o tempo que esteve detido. Sendo que sua detenção e prisão foi um assunto puramente espiritual (por causa dos aspectos espirituais dos assuntos concernentes) e conforme sagrara-se vitorioso, o Rebe não estava nem um pouco preocupado com os aspectos físicos relativos a seu corpo. Porquanto estivesse lá com o Maguid, e tivesse o privilégio de ouvir o Báal Shem Tov, o Rebe não se importava em ficar na prisão por mais três horas, nem por mais um dia. Assim, quando lhe disseram que estava livre para partir, ficou um tanto quanto relutante em ir embora."

Em outra ocasião, Rabi Yossef Yitschac explicou isto mais extensamente:

"Toda a questão da prisão aconteceu com o consentimento do Alter Rebe. Não apenas o Alter Rebe, mas todo tsadic tem o poder de dominar todos os assuntos físicos. A Torá tem autoridade sobre o mundo, e todos os assuntos mundanos estão sujeitos à Torá. Assim, o que quer que deva acontecer ao tsadic só pode sê-lo com seu consentimento. Segue-se que a prisão também aconteceu com o consentimento do Alter Rebe.

"Se o Rebe não quisesse, não poderia ter sido preso. Podemos ver isto da viagem a Petersburgo, na qual, na sexta-feira sua carruagem parou e nem mesmo os quatro cavalos conseguiram mover a carroça do lugar (conforme já relatado). A história da viagem a Petersburgo nos mostra claramente que o que acontece ao tsadic em geral, e em especial a um líder de Yisrael deve ocorrer com o consentimento do sujeito. Quando o Rebe não quis mais seguir viagem, a carruagem simplesmente parou. Parou no local e na hora em que o Rebe desejou.

"Se a carruagem tivesse parado na hora de acender as velas de Shabat, não teria sido surpresa, mesmo se não houvesse qualquer intervenção consciente e voluntária por parte do Rebe. É muito conhecida a história de como o Gaon Rabi Yehoshua Zeitlin testou o Rebe com vinho ritual proibido, e foi levado a exclamar: ‘O versículo ‘nenhum mal sobrevirá aos pios’ aplica-se a ti.’ Nada disso é surpresa.

Todavia, que a carruagem tenha parado às 10:30 da manhã de sexta-feira e não saísse do lugar, isto de fato é uma surpreendente maravilha dos milagres revelados de D’us.

"Assim, é evidente que tal homem, com tamanha autoridade sobre assuntos mundanos, certamente também tinha o poder de impedir a própria prisão, e não precisava se esconder, sequer por pouco tempo. O fato dele ter ido para a prisão deve ser por algum motivo intrínseco da Avodá.

"Nosso patriarca Avraham abriu o canal do auto-sacrifício pela santificação do Nome de D’us, e o Rebe abriu o canal do auto-sacrifício do serviço a D’us de acordo com os ensinamentos da Chassidut. Disso se depreende que a idéia geral de prisão é uma expressão voluntária, sem o uso de meios sobrenaturais.

"Valeria a pena expor este assunto inteiro em detalhes, pois dele pode-se perceber o profundo amor inato do Rebe por seu povo. Seu amor não se restringia apenas aos chassidim, mas a todos os judeus, desejando vê-los viver uma vida significativa, vivificada pela Torá e Avodá, de acordo com os caminhos do chassidismo. O Rebe implantou esse amor em todos os seus sucessores. É impossível lidar com esse assunto a não ser de maneira superficial. Requer um capítulo especial, com explicações extensas e completas. Menciono isto agora resumidamente, a fim de que os chassidim saibam que não foram esquecidos, D’us não o permita. Há alguém que se preocupa com eles, pois amor assim inato é perpétuo, afetando todas as gerações até a vinda de Mashiach, quando da Ressurreição dos Mortos teremos o mérito de nos encontrarmos face a face com todos os Rebes.

"No dia do aniversário do passamento do Rebe, seus discípulos ligam-se aos aspectos mais internos de sua alma. Percebe-se que mesmo uma pessoa simples torna-se um pouco mais refinada através da prisão. Quão mais não o é com nosso grande Rebe, especialmente ao se levar em consideração que foi aprisionado por disseminar as partes internas da Torá. Com verdadeiro auto-sacrifício dedicou-se à tarefa, e – como se sabe – o falecimento de sua filha está relacionado com essas ações de disseminação. Assim, é fácil imaginar que com tal devoção e apego a D’us e a seus santos Mestres, dificilmente estava preocupado com toda essa questão da prisão. Ao se avaliar a magnitude da estadia do Rebe na fortaleza de Petrapavlovsk, sua união com o Maguid e com o Báal Shem Tov, podemos sentir a esmagadora aflição e sofrimento daquelas três horas na casa do mitnagued.

"Agora com certeza pode-se compreender porque o Rebe sofreu mais durante aquelas horas que durante sua prisão inteira."

As notícias da libertação do Rebe espalharam-se como fogo, e os chassidim de Petersburgo acorreram à casa de Rabi Mordechai para saudar seu líder. Seu júbilo e demonstrações deste nas ruas de Petersburgo eram muito entusiasmadas e expressivas. Mesmo assim, os chassidim demonstraram auto-controle, e evitaram prejudicar ou insultar algum oponente por vingança. Todos conheciam a opinião do Rebe a respeito. A despeito de todas as penas sofridas, o Rebe queria e exigia paz, e seu desejo é uma ordem para os chassidim. As palavras do Rebe confortaram e os fortaleceram, possibilitando-lhes suportar tudo.

Imediatamente após a libertação o Rebe escreveu uma carta aos chassidim. Esta carta (Tanya IV, cap. 2) ficou famosa sob o nome de Catonti (por causa de sua primeira palavra).

"Catonti – ‘Sinto-me diminuído por todas as bondades e de toda etc.’ Significa que através de cada graça e bondade que D’us concede, o homem deve sentir-se muito humilde.

‘Graça’ é a ‘Mão Direita,’ e ‘Sua Mão Direita Envolveu-me’. Este é o estado de ser de que realmente está perto de D’us, mais que antes, e aquele que está ainda mais perto de D’us de maneira extraordinária deve sentir-se proporcionalmente mais e mais inferior (isto é, humilde), conforme está escrito: ‘de longe D’us apareceu a mim.’ Pois ‘tudo que está ante Ele é considerado como nada.’ Portanto, quanto mais alguém está ‘perante Ele,’ mais deve se considerar como nada e nulo. Este é o nível de ‘Lado Direito da santidade,’ e de ‘graça (concedida) a Avraham,’ que disse: ‘sou como pó e cinzas.’

Este também é o traço de Yaacov, que por isso expressou seu temor de Essav, e não contou com a promessa de ‘e eis estou contigo, etc.’ Pois Yaacov era deveras insignificante a seus próprios olhos, por causa das múltiplas graças que lhe foram concedidas – ‘pois com meu cajado etc.’ Portanto, não se considerava merecedor de ser salvo, etc. Como os sábios explicam ‘talvez o pecado cause,’ uma vez que parecia-lhe que pecara.

"É diferente com o ‘oposto correspondente,’ isto é Yishmael, ‘graça de kelipá.’ Com ele, conforme as graças crescem, torna-se mais orgulhoso e arrogante.

"Venho, portanto, tornar conhecido a todos os nossos adeptos, em relação às numerosas bondades concedidas a nós por D’us, para agarrar-se aos traços de Yaacov, ‘o que sobrou de Seu povo e o remanescente de Yisrael,’ que se diminui como se fosse realmente sobras e supérfluos, que não são de utilidade alguma. Não alcem seus corações achando-se mais que seus irmãos, etc.; não abram a boca ou assobiem para eles, D’us não o permita! Uma advertência rigorosa: Nada deve ser mencionado, subjuguem o espírito e coração perante cada homem, no espírito da ‘verdade para Yaacov,’ com humildade e ‘resposta gentil que remove a ira e com humildade’.

"Se agir assim, talvez D’us colocará no coração de seus irmãos que devem ser ‘como as águas refletem a face,’ etc."

Rabi Yossef Yitschac comentou sobre isso:

"Judeus em geral, e chassidim em particular, eram para o Alter Rebe como a menina dos olhos. Ele, em sua magna santidade, além de sua grande sagacidade, era cauteloso com cada palavra. Não apenas seus atos eram cuidadosamente pesados para estarem de acordo com a Halachá – mesmo o menor detalhe, mas também cada palavra era zelosamente ponderada, para evitar qualquer possibilidade de ser a causa de algo impróprio.

"Os traços exigidos pela Avodá são ‘bons traços,’ e quando envolvem intelecto, emerge a ‘beleza dos bons traços.’ Apesar disso, mesmo nesses casos há a possibilidade de serem usados de maneira errada.

"Quando meu pai me ensinou Tanya e Igueret Hacôdesh, explicou-me o trecho da carta ‘Catonti’ – ‘Não alcem seus corações achando-se mais que seus irmãos, e não abram a boca ou assobiem para eles, D’us não o permita! Uma advertência rigorosa: nada deve ser mencionado…’

"Nas mais profundas explanações da Avodá mostrando como um rapaz chassid deve transformar os sentimentos, meu pai explicou o conceito de ‘e seu coração ficou orgulhoso nos caminhos do Eterno,’ como a ‘alma animal’ do homem vai tão longe a ponto de alegar que esses são traços bons e louváveis. Meu pai me mostrou como alguém pode enganar-se neste assunto e descer ainda mais baixo, sequer sentindo a queda no materialismo, D’us não o permita.

"’Veja e perceba,’ disse meu pai, ‘estas palavras que o Alter Rebe disse – ‘ou assobiar para eles.’ Assobio é uma expressão de êxtase interior, brotando da santidade, e em relação a isso o Rebe disse ‘D’us não o permita!’ Ainda não satisfeito, ainda acrescentou: ‘uma advertência rigorosa: nada deve ser mencionado…’

"Quanto amor a Yisrael está imbuído nestas palavras, quanta santidade e reverência contém esta diretriz! Imagine: depois de ter passado por um oceano de sofrimento – não é necessário, e a pessoa não deve mencionar isto, contudo a pessoa deve sentir e compreender – tantas dores e sofrimento físico e pesares espirituais pelos quais passaram o Rebe e os chassidim, e depois de tudo o Rebe adverte: ‘Uma advertência rigorosa… não alcem seus corações achando-se mais que seus irmãos…’"

Em outra ocasião Rabi Yossef Yitschac disse:

"Moshê e o Rebe, sua própria natureza era ‘amor à D’us, amor à Torá, amor à Yisrael,’ e toda sua luta e anseio era unir os três juntos. Viam a alma em cada tipo de judeu, e injetavam forças nesta alma, para lhe dar o potencial de conquistar todos os aspectos físicos. Isto se pode perceber claramente através de suas ações.

"Moshê, sempre que havia insatisfação entre os judeus, queixas, ou mesmo conflitos, apelava a eles gentilmente, não se preocupando consigo e perdoando os que suspeitavam que ele agisse com más intenções. Intercedeu em seu favor e fez todos os esforços, uma e outra vez, para restaurar a paz.

"Assim também o Rebe: implora aos mitnagdim, escreve longas cartas para eliminar qualquer suspeita dos últimos em relação às doutrinas e ensinamentos do chassidismo; explica todos os assuntos dos caminhos do serviço dos chassidim, e suas palavras têm um tom de pedido e súplica. Além disso, empreende jornadas em completo auto-sacrifício, e tudo em prol da paz. Pois para os líderes de Yisrael cada judeu é tão caro quanto a menina dos olhos; e é a maneira como realmente deve ser, de acordo com a Torá."

Quando o Alter Rebe deixou a cada do mitnagued e viu o enorme júbilo dos chassidim, que os levou a dar cambalhotas pelas ruas de Petersburgo, teve medo. Seu temor não era por causa do caso em si; afinal fora plenamente vitorioso e libertado, sua ansiedade, porém, era por causa da intensa propagação da vitória. Cedo, na manhã seguinte (quarta-feira, pois 19 de Kislev daquele ano foi uma terça-feira), depois das preces o Rebe disse:

"A respeito do quarto dia, está escrito: ‘que haja luzes.’ A palavra ‘luzes’ (Meorot, mem, alef, resh, vav, tav) está escrita defectivamente, sem vav (i.e., mem, alef, resh, tav).

Explicou, de acordo com o comentário de Nachmânides, que ‘a luz criada no primeiro dia serviu por três dias’ – três gerações: o Báal Shem Tov, o Maguid," e parou por um momento. Então continuou: "No quarto dia as luzes foram removidas (Nitlu – nun, tet, lamed, vav), mas também no mesmo dia foram penduradas (Nitlu – nun, tav, lamed, vav) no firmamento, (o Báal Shem Tov faleceu numa quarta-feira). Doravante, tudo depende de vocês, chassidim!"

Naquele dia, as notícias sobre a libertação correram toda Petersburgo, e perto da noite enorme massa de pessoas juntou-se. O Rebe disse que não faria um discurso. Com isso, dois homens abriram caminho através da multidão, chegaram perto do Rebe e disseram:

"Moramos muito longe, nos confins da Rússia, mas D’us é nossa testemunha de que O servimos e observamos tudo o que conhecemos do que está escrito na sagrada Torá. Rebe, ensine Torá e fortaleça nossos corações no serviço do Bendito Criador!"

Pouco depois o Rebe entrou no pátio e dissertou, começando com as palavras "Camayim Hapanim el Panim." Apesar de haver forte geada no momento, os corações dos presentes estavam acesos e aquecidos até os ossos. Antes de começar, o Rebe disse:

"Está escrito: ‘esta é a geração daqueles que O procuram, dos que buscam Sua Face – Yaacov, Sela.’ É uma geração na qual os que O procuram, os Líderes e Mantenedores da geração são os que procuram Sua Face; a ilimitada essência de ‘Yaacov Sela’. Para o judeu simples que está no nível de ‘Yaacov’ (yud, êkev), está sempre e em todo lugar no nível de Sela, i.e., força na vitalidade e eternidade do Infinito.

"’E um homem lutou com ele,’ fizeram a poeira levantar até o Trono de Glória… Há uma espécie de guerra cuja origem encontra-se apenas no pó, como uma disputa causada por instigadores que derivam sua essência do pó."

Em seguida, fez o discurso "Camayim Hapanim el Panim."

Ao deixar a prisão, o Alter Rebe escreveu três cartas: uma para Rabi Levi Yitschac de Berditchev, uma para Rabi Baruch de Mezibush, e uma para todos os chassidim. Nesta, informa-os sobre a libertação. Eis o texto da carta a Rabi Levi Yitschac:

"Conquanto fui tirado de lá por D’us, que me elevou para informar a humildade e retidão de coração das jubilosas notícias – regozijem-se, ó pios, no Eterno e louvem o nome de seu D’us, que agiu miraculosamente com vocês em grau infinito. Devo contar e relatar que o que desafia descrições – como D’us agiu maravilhosamente e magnificentemente na terra, tornou maravilhoso e engrandeceu Seu grande e santo Nome, que foi santificado e enaltecido publicamente, especialmente aos olhos de todos os oficiais e pessoas das províncias do rei. Também a seus olhos esse assunto é considerado tão excepcionalmente miraculoso que reagiram e disseram: ‘isto deve ser de D’us, pois é miraculoso a nossos olhos.’ É um sinal de que o Eterno está conosco e não há outro além Dele."

Atentem, quem sou eu para que D’us me leve tão longe, que através de tão inferior uma pessoa como eu, o Nome do Céu foi engrandecido e santificado! Certamente, porque a principal batalha foi que empreenderam luta contra os ensinamentos do Báal Shem Tov, seus discípulos e discípulos desses. E foi Vontade de D’us fazer-nos o Bem e favorecer-nos, em mérito da Terra Santa e seus habitantes – isto foi o que nos amparou e nos protegerá em qualquer momento de necessidade, para nos trazer liberdade e salvação, para ampliar o que está estreito e livrar-nos da agonia, e elevar nossa honra na Glória de D’us, o Eterno que para sempre Se senta Nas Alturas e Se regozija com Sua Criação, se assim Lhe aprouver.

Deve se mencionar que este dia em que D’us estava conosco é o dia em que está escrito duas vezes ‘é bom.’ Dezenove de Kislev, o grande aniversário do passamento de nosso santo mestre, de abençoada memória; e conforme lemos nos Salmos o versículo ‘minha alma foi libertada em paz,’ antes mesmo que comece o próximo versículo – Saí em paz, e portanto concluo com paz do D’us da Paz."

Estas são as palavras de seu amado amigo, que reza por seu bem-estar constantemente.

Shneur Zalman, filho de Rebe baruch, de abençoada memória."

O texto da carta enviada a Rabi Baruch era bastante similar:

"Conquanto fui tirado de lá por D’us para informar os humildes – regozijem-se, ó, pios em D’us, e sejam alegres todos os elevados de espírito e coração por causa da magnitude das graças do Eterno e Suas maravilhas, que Ele realizou conosco e com vocês. Pois este caso não foi apenas contra mim, mas contra o Báal Shem Tov, seus discípulos e discípulos desses, e quem sou, baixo e insignificante, que fui levado tão longe que o Nome do Santo, Bendito Seja, foi enaltecido e santificado por meu intermédio entre as nações, pois todos os confins da terra viram a ajuda de nosso D’us! É o mérito da Terra Santa, Terra da Vida, que nos, e a nossos ancestrais, etc.

Contudo, deve-se mencionar que no dia do aniversário do passamento de nosso grande mestre, o Maguid, naquele mesmo dia fui libertado. Como li nos Salmos, no versículo ‘minha alma foi libertada em paz,’ parti em paz, e por conseguinte assino em paz."

Na carta aos chassidim o Rebe escreve:

"A gravidade das querelas e ódio infundado é conhecida. Assim, é adequado que todos aqueles movidos por temor a D’us em seus corações, e que estão em reverência perante Sua palavra devem ser extremamente cuidadosos para não serem causa – direta ou indireta – de injúria, D’us não o permita! Muito cuidado – pois já estou cansado de suportar isto. ‘É impossível expressar numa carta a verdadeira preocupação em meu coração em despertar nos corações de todos os nossos bons amigos um amor também àqueles nossos irmãos que não são nossos seguidores totalmente, junto com o amor a todos os judeus, conforme somos ordenados. Por isso, já há um ano, após o falecimento do venerável Gaon de Vilna, de abençoada memória, expedi uma rígida advertência a todos os nossos bons amigos para que não falassem sequer o menor mal ou insulto sobre o falecido sábio; pois para isso não há qualquer desculpa no mundo. Agora, todavia, depois desses tempos turbulentos pelos quais recém-passamos, há motivos para temer que poderia haver alguma leniência, D’us não o permita, por causa das muitas pessoas que confiavam no falecido venerável e pio Gaon, de abençoada memória. Portanto, estou novamente expedindo uma advertência, dupla e múltipla, a todos os nossos bons amigos – próximos bem como os que estão longe, onde quer que estejam, de que não há desculpa, qualquer que seja, para que alguém abra a boca e solte a língua contra a honra da Torá, o venerável e pio Gaon, de abençoada memória. Pois sabemos com certeza que este mal – bem como outros – não proveio dele, D’us não o permita. O mesmo se aplica a seus sábios e acadêmicos de Torá – que o Todo Poderoso abençoe os pequenos junto com os grandes, apesar de não serem nossos seguidores. Ninguém deve prejudicá-los de maneira alguma, D’us não o permita; nem verbalmente nem através de grandes ou pequenas ações, D’us não o permita.

Apesar de, às vezes, algum deles possa abrir a boca dizendo algo que não me agrada, tampouco que agrada nossos seguidores e bons amigos. Isto é, soltarão a língua contra os sublimes tsadikim, o Báal Shem Tov, de abençoada memória, e seus santificados discípulos, cujas almas estão no Eden, – mesmo então, aquele que ouvir isto deve proceder a auto-exame, e ficar verdadeiramente contrito por causa de seus atos, palavras e pensamentos que não foram expressos em prol de D’us; pois causaram a injustiça de que o mal fora dito contra os servos de D’us, cujos seguidores nós nos consideramos ser, e em cujos passos andamos. Portanto sofrem por nossa causa.

Ao lembrar-se disso, o coração derreterá pelo que se escutou, e não se levantará para soltar a língua e a boca contra os abusados, pois ‘todos agem inadvertidamente,’ e que o Todo Poderoso os perdoe.

Uma coisa mais desejo, e imploro-lhes: que treinem seus corações para amarem seus irmãos, os filhos de Yisrael, mesmo se não são de nossa fraternidade, e a julgá-los favoravelmente. Pois, de fato, todos os judeus são verdadeiros irmãos, e sobre isto está escrito: ‘filhos são vocês do Eterno seu D’us’ – e ‘quer seja desta ou de outra forma, ainda são chamados de filhos.’ É certo que se qualquer um abriga ódio em seu coração está desagradando a seu Pai no Céu. Portanto, todo aquele que tem consciência do temor a D’us em seu coração deve observar o que está escrito, a saber, ‘ninguém deve pensar mal em seu coração sobre o próximo,’ e ‘como as águas refletem a face,’ assim também deles serão removidos a inveja e o rancor de seus corações. E o Todo Poderoso despertará paz, fraternidade e amizade nos corações de todos os judeus, e cada qual chegará a seu destino em paz. Nosso Pai no Céu é minha testemunha de que estas palavras estão sendo ditas com a mais profunda sinceridade, e não por mera aparência – por causa de medo, D’us não o permita, pois realmente, nossa integridade veio à tona em plena luz, e nossa justiça é clara como o dia.

Estou certo de que nossos verdadeiros bons amigos aceitarão estas minhas breves palavras, e que nenhuma de minhas palavras será em vão, D’us não o permita. Todavia, uma vez que os hipócritas que fingem ser nossos bons amigos multiplicaram-se, e pensam que fazem parte de nosso movimento por falarem mal contra os tementes a D’us que não são nossos seguidores, ou contra quaisquer outros,- portanto, eu os imbuo com severo juramento, todos os nossos bons amigos, que quem quer que ouça qualquer mal sendo dito contra um dos estudados ou tementes a D’us daqueles que não são nossos seguidores, mesmo se feito de através de humor ou maneira jocosa, – será obrigado a me informar disto através de carta, de modo que estarei apto a declarar como lidar com ele, a manter distância dele, e a mim não virá. Porém, aqueles que obedecerem, a eles o bem sobrevirá, e boas bênçãos serão seu quinhão."

Quando o Alter Rebe chegou de Petersburgo, disse que a razão de sua prisão foi um "kitrug" (julgamento celestial), pois não havia explicado os ensinamentos do chassidismo em termos tão explícitos que fossem compreendidos por todos. Porquanto o chassidismo não é apenas para uns poucos escolhidos. Além disso, sua obra "Licutê Amarim" (Tanya), apesar de todos poderem entendê-la, é muito profunda, e as massas compreendem o conteúdo apenas superficialmente.

Por conseguinte, decidiu fazer suas dissertações apenas perante cinco ou seis pessoas – seus três filhos e dois ou três de seus discípulos mais velhos, em termos técnicos, com explanações, parábolas e exemplos, a fim de tornar cada conceito claramente compreensível a toda pessoa intelectual.

A detenção do Rebe causou grande indignação em todos os países onde a triste notícia se espalhou. Seus amigos, os discípulos do Maguid, e todos os seus chassidim, onde quer que estivessem, compartilhavam o sofrimento dos chassidim Chabad. Tudo isso, em acréscimo aos esforços dos emissários que foram enviados às diversas comunidades (conforme relatado anteriormente), ocasionou que os chassidim, e os próximos aos chassidim, proliferados em grande número, e vários sábios dentre os mitnagdim perceberam que foram mal direcionados, e portanto, retrocederam. As mentiras e falsidades produzidas pelos querelantes tornaram-se aparentes, e a retidão do Alter Rebe foi reconhecida mundo afora.

Rabi Shneur Zalman permaneceu em Vitebsk por alguns dias. Ao chegar a Liozna, era esperado por centenas de judeus de todas as cidades vizinhas, e soube-se que grande número de outros estavam a caminho para vir dar as boas-vindas ao Rebe.

Meguilat Yud Tet Kislev

Os chassidim quiseram escrever uma "Meguilat Yud Tet Kislev" – "Rolo de 19 de Kislev," de certa forma semelhante à "Meguilat Ester". Vários chassidim, que já haviam preparado diversos textos para tal rolo foram selecionados, e concordaram em encontrar-se em Liozna para pedir a opinião do Rebe. A reunião foi marcada para se realizar entre Pêssach e Shavuot. O plano inteiro foi mantido em segredo. Ao chegarem a Liozna e apresentarem sua proposta, o Rebe negou a permissão, e disse – de acordo com uma versão, conforme transmitida pelo chassid Rabi Aba Person, em nome de seu avô Rabi Zeev Vilenker:

"Este dia será instituído como um festival perpétuo, no qual Seu Grande Nome será santificado e engrandecido, e milhares de corações judaicos serão inspirados para teshuvá e Avodá do coração. Porquanto o evento está inscrito no coração de Yisrael acima, e escrito sobre o coração de Yisrael abaixo."

De acordo com uma segunda versão – registrada pelo chassid Rabi David Tsevi Chen, conforme ouvira de seu pai, o chassid Rabi Perets, e de outros chassidim mais idosos, declarou o Rebe:

"Este dia será instituído como perpetuamente festivo em Yisrael, no qual Seu Grande Nome será engrandecido e santificado, e milhares de corações judaicos serão inspirados para teshuvá e Avodá do coração. Pois porquanto o evento – quando será inscrito no coração de ‘Yisrael Saba’ (os acadêmicos da Torá e profundos pensadores são chamados de saba, ancião) então, será escrito sobre os corações de Yisrael embaixo (ou seja, de todos judeus)."

Rabi Nachum (filho do Miteler Rebe, e neto do Alter Rebe), estava acostumado a narrar a história inteira de Yud Tet Kislev todos os anos, do começo ao fim.

Costumava começar sua história dizendo: "Meu avô foi discípulo do Maguid de Mezritch durante dez anos. Por cinco anos liderou a ‘Chevraya Cadishá’ (a Sagrada Assembléia dos Discípulos), e tornou-se conhecido como o Maguid de Liozna. Por vinte e três anos labutou para fundar os famosos três Chadarim (seções da Yeshivá) e para dirigir os chassidim, enquanto se ocupava com a propagação e exposição dos ensinamentos de seus mestres, o Báal Shem Tov e o Maguid. Tomou sobre si a mais difícil tarefa da obra deles, apresentar a maneira de cultuar, de acordo com os ensinamentos do Báal Shem Tov e do Maguid. O local de sua residência tinha importante papel nisso, pois o Rebe era o mais próximo da Lituânia. As brochuras contendo seus ensinamentos se disseminaram, e o número de chassidim aumentou para muitos milhares, dentre os quais havia numerosos rabinos verdadeiramente eruditos, que passaram julgamentos rabínicos de acordo com as diretrizes do Alter Rebe em matéria de micvê, chalafim (facas de abate ritual), e outras similares. Junto com esses desenvolvimentos, também veio a calúnia contra o Rebe."

Rabi Nachum costumava contar a história em todos os detalhes, em sentenças sucintas, porém claras. Ao mencionar a prisão, sua voz assumia um tom quieto e triste. Mas ao chegar à parte da libertação, elevava a voz, com uma entonação de júbilo. Relatava a história como a Meguilá (Rolo de Ester) – primeiro à noite, e depois na manhã seguinte. Se algumas visitas chegassem um pouco depois de ter começado, recomeçava do princípio.

 

Fonte: http://www.chabad.org.br/

 

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