Yud Tet Kislev – A história de Yud Tet Kislev – Parte I

 

 
por A. C. Glitzenstein
 
 

Introdução

Yud Tet Kislev, o dia dezenove do mês de Kislev, é uma data histórica nos anais da Chassidut em geral, e de Chassidut Chabad em especial.

Este dia significa uma notável reviravolta no crescimento e desenvolvimento do movimento Chassídico, sendo um marco em sua mais gloriosa marcha para a vitória através da história de sua existência, até os dias atuais.

Yud Tet Kislev é o dia no qual Rabi Shneur Zalman de Liadi, o Alter Rebe, foi libertado de seu rígido cárcere em Petersburgo, no ano de 5559 (1798). Sua detenção colocou em perigo não apenas sua vida, mas também o futuro do movimento chassídico. Conseqüentemente, o dia de sua libertação foi declarado entre os chassidim como um dia de celebração, observado até os dias de hoje com exuberante júbilo por centenas de milhares de judeus no mundo inteiro.

Yud Tet Kislev também é o dia de aniversário do passamento do segundo líder do movimento chassídico, Rabi Dov Ber, o santo Maguid de Mezritch; que faleceu a dezenove de Kislev de 5533 (1772).

O grande sábio e tsadic Rabi Shneur Zalman de Liadi, fundador e criador do chassidismo Chabad, é geralmente conhecido no mundo judaico por diversos epítetos: ‘o autor do Shulchan Aruch,’ ‘o autor do Tanya,’ ‘o Rabi de Liadi,’ ‘o Maguid de Liozna,’ e, entre os seguidores do movimento Chabad, com ‘o Alter Rebe.’

O Alter Rebe nasceu em dezoito de Elul de 5505 (1745) em Liozna, uma cidadezinha na Rússia Branca, não muito distante de Vitebsk que, à época, fazia parte da Polônia. Os velhos chassidim costumavam contar que ouviram de coetâneos do Báal Shem Tov que quando o Alter Rebe tinha três anos de idade, o Báal Shem Tov comentou com seus discípulos: "Uma grande alma desceu à terra: Shenê-Or (duas luzes). Ele disseminará a luz da Torá em ambos os aspectos, revelado e místico."

Até os dez ou onze anos de idade, o jovem Shneur Zalman estudou sob a tutela de diversos grandes acadêmicos, especialmente com Rabi Yissachar Ber, o renomado Maguid de Lubavitch. Mal chegara aos doze anos quando Rabi Yissachar informou a seu pai, Rabi Baruch, que não mais poderia ensinar o rapaz, "pois é um gênio que não necessita mais de instrução."

Um ano depois, por ocasião de seu Bar-mitsvá, os maiores sábios e eruditos de Torá da região expressaram sua admiração por seu prodígio, concedendo-lhe alto título em reconhecimento a seu vasto conhecimento e erudição.

Rabi Shneur Zalman continuou seus estudos sozinho com grande concentração, e "com a idade de dezoito anos completou, com todos os comentaristas anteriores e posteriores, todo o Talmud. No ano de 5537 completou o estudo do Talmud pela décima sexta vez, e fez isto de pé!" Além de seu dedicado estudo do Talmud, estudava Cabalá profundamente; compunha o Shulchan Aruch, realizava trabalho comunitário, viagens para orientação de comunidades locais e exercia numerosas outras atividades que demandavam tempo.

Aos dezoito anos, Rabi Shneur Zalman decidiu "peregrinar a um local de Torá." Naquela época havia dois grandes luminares reluzindo no mundo judaico. Um raio de Torá emanava de Vilna, e um raio de Avodá (serviço Divino) originava-se de Mezritch, pequena cidade da região de Volin. Já sendo amplamente proficiente no conhecimento de Torá, Rabi Shneur Zalman foi atraído à luz da Avodá. Com o consentimento da esposa, partiu de Vitebsk para dirigir-se – a pé – para Mezritch.

Chegando a Mezritch, observou as maneiras do Maguid, sua forma de ensinar os caminhos da Avodá de acordo com a doutrina do chassidismo, ficando profundamente impressionado. Ficou atônito com a sabedoria e sagacidade do Maguid tanto no campo da Torá revelada quanto na parte oculta da Torá; e aprendeu a apreciar a santidade de seu grande Mestre.

Em contrapartida, o Maguid de Mezritch reconheceu as extraordinárias qualidades de seu novo discípulo, demonstrando-lhe consideração especial. Providenciou para que seu único filho, Rabi Avraham, "o Anjo," instruísse o Rebe no chassidismo, enquanto esse instruía Rabi Avraham em assuntos talmúdicos e haláchicos.

Rabi Shneur Zalman tornou-se fervoroso adepto dos ensinamentos chassídicos do Maguid e do Báal Shem Tov. Após longa estadia em Mezritch, voltou a Vitebsk. À caminho de casa, parou em todas as comunidades e assentamentos judaicos pelos quais passou, a fim de contar acerca dos profundos conhecimentos do Maguid, e sobre seus caminhos da Avodá.

Certa vez, Rabi Yossef Yitschac de Lubavitch relatou o seguinte episódio acerca do relacionamento do Maguid com o Alter Rebe:

"Meu avô, Rabi de Avrutch, contou a meu pai algo que ouvira do avô de sua esposa, Rabi Motele de Chernobyl. ‘Meu pai,’ disse Rabi Motele, ‘disse-me que o Maguid considerava o Rav como se fosse seu próprio filho. O Maguid dissera certa vez a seu discípulo Rabi Zussia: escreva a nosso Gaon, Rabi Zalmenyu Litvak, para que venha para cá.

‘Desde então, o círculo de discípulos costumava chamá-lo de ‘Rav’; e quando o ‘Anjo’ contou a seu pai a respeito, esse respondeu que os discípulos acertaram em cheio na verdade. Há uma indicação disso, pois a decisão haláchica estará de acordo com o Rav, e o Shulchan Aruch do Rav será aceito como autoridade máxima por todo o povo judeu.

‘Quando Rav chegou, Rabi Zussia relatou-lhe como o Maguid o instruíra, dizendo: ‘escreva a nosso Gaon, para que venha’. Ao ouvir isto, Rav suspirou profundamente e desmaiou. Mesmo depois de ter sido reanimado, sentia-se fraco e teve de permanecer acamado.

‘Tudo isso aconteceu em Rovna, onde o Maguid residiu durante seus últimos anos, à época da grande convenção. Os discípulos, sabendo da profunda afeição de seu Mestre pelo Rav, não ousaram informá-lo de seu estado. Rabi Mendel de Vitebsk disse que não deveriam causar qualquer desgosto ao Maguid, e que era preciso encontrar alguma outra maneira. Porém, Rabi Levi Yitschac de Berditchev insistiu que deveriam contar ao mestre, e Rabi Mendel e Rabi Zussia apoiaram-no na decisão.

‘Ao ouvir o que aconteceu, o Maguid citou o versículo: ‘E D’us manteve isto em segredo de mim,’ (Melachim II, 4:27) e acrescentou: ‘Ele tem a sensibilidade de uma criança. Meu Mestre (o Báal Shem Tov) considerava-me como um filho, e ele (Rabi Shneur Zalman) é como um filho para mim.’

‘Nenhum dos discípulos compreendeu o que o Maguid quis dizer com essas palavras até alguns dias antes que viesse a falecer.

Contou-lhes então: ‘Rabi Zalmenyu já percebeu no verão passado o que vocês estão sentindo agora." E logo antes de falecer, pegou a mão de Rav e disse: ‘Yud Tet Kislev é nosso Yom Tov!’"

E realmente, no terceiro dia da semana da parashá de Vayêshev, a dezenove de Kislev de 5533, o Maguid faleceu. Exatamente no mesmo dia, vinte e seis anos depois, no terceiro dia da semana da parashá de Vayêshev, em dezenove de Kislev de 5559, o Alter Rebe foi libertado.

Rabi Dov Ber, o ‘Miteler Rebe’, lembrando-se daquele dia da libertação, disse certa vez que "durante a prece de Minchá, vi o Maguid de Mezritch, que me disse: ‘Seu pai acaba de ser libertado da prisão. Apesar de ainda estar sofrendo muito, mesmo agora, muito breve também será libertado desta agonia.’"

Este dia de Yud Tet Kislev foi instituído entre os chassidim de Chabad como um dia perpétuo de celebrações.

O movimento chassídico e seus ensinamentos

A história do movimento chassídico principia no dia em que seu primeiro fundador, Rabi Yisrael Báal Shem Tov, revelou-se. Isto se deu em 18 de Elul de 5494 (1734). Em pouco tempo conseguiu reforçar e ampliar esse movimento em proporções consideráveis. Esse crescimento continuou durante a segunda fase do movimento, sob a liderança do sucessor do Báal Shem tov, Rabi Dov Ber, o Maguid de Mezritch. Contudo, a maior expansão do movimento chassídico teve lugar sob a tutela dos discípulos do Maguid, que espalharam-se através de diversas cidades e países, propagando os ensinamentos e doutrinas de seus mestres. Rabi Shneur Zalman, o mais jovem dentre os discípulos do Maguid, tomou sobre si a mais árdua tarefa nesse esforço. Sua missão era "chassidizar" a Lituânia e Reissen, as duas regiões onde os principais e mais ferrenhos oponentes dos chassidim estavam concentrados.

O que é chassidismo?

O chassidismo ensina um estilo de vida singular, visando a perfeição de alma de cada indivíduo. Foi fundado a fim de oferecer uma realização pessoal e espiritual a cada um, através da ligação com D’us, entusiasmo espontâneo no serviço Divino, e uma vida santificada, imbuída de alegria.

Chassidismo é um sistema completo de pensamentos que ajudam o homem a perceber a própria insignificância, enquanto aponta seus vastos recursos de potencial para auto elevação. Demanda que o homem, e o ensina, a conhecer-se, a compreender sua natureza, a examinar sua atitude a fim de estudar e compreender a Torá; bem como seu nível de observância das mitsvot. Orienta o homem a conhecer suas deficiências, enquanto o incentiva e encoraja a corrigi-las.

O chassidismo procura por, e encontra, mostra e enfatiza a "alma interior" de tudo que há. Desenvolve e explica a realidade e vivacidade da Torá e seus mandamentos. Torna a experiência da prece significativa e relevante, refinando a qualidade dos nobres traços de caráter, e mostra o aspecto espiritual em tudo que é corpóreo e físico.

Através de argumentos tanto racionais quanto sublimes e pensamentos inspiradores, o chassidismo chama a atenção à "alma" e à vida inerentes também ao mundo aparentemente "morto", desgastado pela rotina, que parece ser governado por uma natureza monótona, eternamente estática, onde tudo parece ter sido fixado a seu próprio lugar e função; um dia não sendo diferente do anterior ou do seguinte. O chassidismo veio para ensinar que há vida em tudo, que há uma Providência Onisciente e operante no mundo, que orienta cada detalhe, até mesmo o crescimento e movimento de uma folha que cai. Veio para despertar a fé, pura em sua simplicidade, e equipada com uma sincera crença no Todo Poderoso, aquecendo, assim, o coração, afiando a mente, e abrindo os olhos para a experiência real, quase visual, de Divindade. Chama a atenção para o "D’us que está oculto" na vida cotidiana e suas ocupações, proclamando ardentemente: "em todos os Seus caminhos, deve-se conhecê-Lo" (Mishlê 3:6).

O chassidismo revela-nos uma vida com alma, e ao mesmo tempo, esclarece a essência e objetivo primordial de todos os seres, a raison d’être do homem, seu propósito na vida – uma vida significativa e iluminada, profunda e solidamente baseada na Torá, mesmo num mundo de sombras e escuridão.

Oposição e calúnia – a prisão

O chassidismo, cuja meta é "serviço Divino através da alegria," despertou enorme interesse pelo mundo afora, e conseguiu arregimentar seguidores em massa. Numerosas comunidades judaicas, em vários países, aceitaram as diretrizes do espírito desse movimento. Contudo, conforme o movimento chassídico crescia e se difundia, surgiu um contra-movimento, que se opunha à própria existência do chassidismo, a seus ensinamentos e práticas.

Entre os círculos acadêmicos da Lituânia, havia forte oposição às doutrinas que o Alter Rebe apresentara e iniciara. Travou-se feroz batalha contra os chassidim. Esta batalha, apesar de veemente e eivada de insultos, calúnias e banimentos, permaneceu, por um tempo, uma disputa interna entre as fileiras das partes concernentes, sem envolver as autoridades da época.

Em dezenove de Kislev de 5533 o grande Maguid de Mezritch faleceu. Desde então, a batalha dos oponentes ao chassidismo tornou-se ainda mais intensa, com retaliações cada vez mais ásperas, banimentos e verdadeiras perseguições. Esta situação causou grande preocupação, e Rabi Mendel de Vitebsk, antigo discípulo do Maguid, e seu colega mais jovem, Rabi Shneur Zalman de Liadi empreenderam uma viagem a Vilna. Juntos, partiram para encontrar-se com o Gaon de Vilna, o líder dos mitnagdim (oponentes do chassidismo), com a intenção de explicar-lhe as doutrinas e ensinamentos do chassidismo. Todavia, esta missão de paz provou ser vã, pois o Gaon foi inflexível em sua recusa a recebê-los. Nem mesmo os apelos dos líderes comunitários de Vilna, que intervieram junto ao Gaon para que recebesse os dois emissários e colocasse, desta forma, um fim à disputa, conseguiram demovê-lo; foi tudo em vão, e o conflito continuou com total intensidade.

Rabi Mendel de Vitebsk e vários de seus colegas, especialmente os da Lituânia, como Rabi Yisrael de Polotsk, e Rabi Avraham de Kalisk, não conseguiam mais suportar as perseguições, e mudaram-se para a Terra Santa. Juntaram-se a eles algumas poucas centenas de famílias de chassidim.

O Alter Rebe também reuniu sua família, e junto com seus três irmãos e familiares, juntaram-se ao grupo, a fim de subirem à Terra Santa. No meio da jornada, ao chegarem a Mohilev-Podolsk, o Alter Rebe mudou de idéia. Após longas deliberações e profunda busca d’alma, decidiu voltar para a Lituânia, e recebeu sobre si a tarefa de expor e disseminar os ensinamentos do Báal Shem Tov e do Maguid.

Ao voltar de Mohilev-Podolsk, o Rebe foi bem recebido em todas as comunidades, com grande entusiasmo e arrebatamento. Sua proficiência no Talmud for aclamada até mesmo por eruditos oponentes do chassidismo. Onde quer que fosse, realizava dissertações nas quais discorria entusiasticamente acerca do mundo da Torá. Chegando a Liozna, deu início sua filosofia extraordinária, conhecida como a escola Chabad de chassidismo. Ao mesmo tempo, fundou uma yeshivá, onde juntou muitos jovens talentosos, introduzindo-os aos ensinamentos do chassidismo, à luz de seus comentários e explanações originais.

Os oponentes do chassidismo renovaram sua batalha. Porém, face ao desenvolvimento diário da comunidade chassídica, e a expansão mais intensa dos ensinamentos e práticas chassídicas em todas as comunidades, grandes e pequenas da Lituânia judaica, a oposição perdeu muito de sua força. Passou-se um período de vinte anos, durante os quais o chassidismo de Chabad fez excelentes progressos, ao mesmo tempo em que os banimentos e perseguições amainaram. Este status quo continuou até o falecimento do Gaon de Vilna, a mais forte personalidade do movimento oponente.

Em 5558 (1798-9) o fogo da discórdia irrompeu novamente com ímpeto maior que o anterior, desta vez levando abertamente a calúnias e difamações. As flechas mais afiadas da oposição estavam apontadas em direção ao Alter Rebe, que se tornou o alvo principal de todas as acusações. Isto devido à posição do Rebe como indivíduo excepcional do mundo chassídico de sua época e que, graças às suas extraordinárias habilidades de organização, obteve êxito em levantar a importância e representatividade de seu movimento a níveis muito elevados. Contudo, é preciso que se registre, também havia uma causa mais específica para que o Rebe se destacasse, a saber, a publicação e disseminação de sua obra magna, o Tanya.

Rabi Shneur Zalman escreveu muitas obras, das quais as mais famosas são:

a) Shulchan Aruch, uma revisão do Código Judaico de Leis, atualizando-as.

b) Torá Or, discursos e comentários sobre os livros de Bereshit, Shemot e Ester.

c) Licutê Torá, discursos e comentários acerca dos livros de Vayicrá, Bamidbar, Devarim e Shir Hashirim.

d) Beurê Hazôhar, discursos e comentários sobre o Zôhar.

O mais proeminente e importante de seus livros filosóficos, contudo, é o Licutê Amarim, também conhecido como Sêfer Shel Benonim (Livro dos Intermediários), popularmente chamado pelo nome de Tanya. Esta obra contém os fundamentos dos ensinamentos do chassidismo. Prima por seu sistema metodológico e composição únicos, seu estilo lúcido, claro, e atraente; e a concisão que indica quão cuidadosamente cada palavra e letra foram criteriosamente ponderadas e escolhidas. O livro, em sua presente edição, está dividido em cinco partes:

1. "Licutê Amarim" (Ensaios Seletos), volume um, contendo 53 capítulos; que de acordo com a tradição chassídica, correspondem às 53 parshiyot da Torá.

2. "Licutê Amarim" (Ensaios Seletos), volume dois, mais conhecido como "Portal da Unicidade e da Fé," contendo prefácio e doze capítulos.

3. "Igueret Hateshuvá" (Epístola do Retorno), contendo doze capítulos.

4. "Igueret Hacodesh" (Epístola Sagrada), com trinta e duas seções.

5. "Cuntrês Acharon" (Apêndice).

O Tanya, assim chamado por causa da primeira palavra do texto, surgiu primeiro, anonimamente, em 5557. Desde então, foi publicado em centenas de edições e traduzido para vários idiomas. Muitas dezenas de milhares de exemplares encontram seu caminho para lares judaicos, inspirando incontáveis leitores. Este clássico é a fonte básica a partir da qual as publicações Chabad brotam. Sua tremenda influência penetrou profundamente na fortaleza do movimento oponente, atraindo ao chassidismo grande número de famosos acadêmicos de Torá. Desta forma, sua obra prima tornou-se uma flamejante tocha que disseminou os pensamentos e idéias do chassidismo a todos as classes de judeus.

Em 5558 o Gaon de Vilna faleceu. O falecimento deste grande e renomado sábio foi triste e sinceramente lamentado em todos os círculos eruditos, independentemente de sua orientação, chassídica ou não. Infelizmente, porém, indivíduos de mente perversa tiraram proveito desta triste ocasião, utilizando o falecimento do Gaon como pretexto para renovar a batalha contra os chassidim. Formaram um comitê especial para liderar a contenda.

Os membros deste comitê perceberam por experiências passadas que os métodos de calúnia e difamação seriam ineficazes, conquanto os chassidim já eram conhecidos como judeus honestos e pios, de disposição sincera e caridosa. Por conseguinte, decidiu-se utilizar uma tática mais promissora de calúnias junto às autoridades, não apenas com o conselho local em várias cidades da Lituânia, mas também, e principalmente, com o governo central em Petersburgo, a capital da Rússia Czarista. Conseguiram isto distorcendo os ensinamentos e atividades chassídicas.

Já anos antes, o Alter Rebe fizera com que fosse obrigação de cada chassid ajudar a sustentar as várias famílias que haviam se mudado para a Terra Santa, onde se dedicavam à Torá e Avodá. Com esse objetivo, fundou o Colel Chabad, uma instituição para distribuir as somas recebidas aos necessitados na Terra Santa. Como a Terra Santa estava então sob controle da Turquia, que à época mantinha relações hostis com a Rússia, os mitnagdim acusaram o Rebe de traição à pátria, pois despendia fundos num país inimigo. Simultaneamente, acrescentaram que em seus discursos públicos o Rebe declarava que o conceito de Malchut – "soberania", não representava nada por si só; o atributo de Malchut (reinado) é o último e menos importante das Sefirot; em resumo, o conceito mais inferior.

Este era o cerne das acusações, apesar de também haver algumas acusações e denúncias menos graves. Ao mesmo tempo, aconselharam o governo a lidar com o assunto de maneira pessoal e direta, desconsiderando qualquer possível intervenção das autoridades locais; e deter e transferir o Rebe para Petersburgo. Os denunciantes presumiram que através desses métodos conseguiriam finalmente se livrar do líder chassídico, e com ele, pouco a pouco também de todo o movimento chassídico.

Em Rosh Hashaná do ano 5559, os chassidim, observando o Rebe durante os serviços, pressentiram uma profunda tristeza no ar. Perceberam o mesmo em Simchat Torá seguinte, particularmente durante as Hacafot, na hora da leitura da Torá – (em geral, o próprio Rebe era o ledor), e no conteúdo do discurso que o Rebe proferira naquele dia. Escolhera como texto o versículo "Assim foi demonstrado, a fim de que se saiba que o Eterno é D’us!" e interpretou-o dessa forma: "Tu, Que és a Verdadeira Essência, o Infinito (En Sof) – mostraste como a pessoa deve se quebrar, a fim de que todos vejam que o Eterno é D’us, e que não há outro senão Ele."

Rabi Menachem Mendel, autor do Tsemach Tsêdec, disse certa vez a seu filho e sucessor, Rabi Shemuel: "Fui criado e passei minha infância na casa de meu avô, o Rebe. O Rebe me colocava sob seu talit para ouvir o toque do shofar (até os nove anos de idade), e para a bênção dos cohanim (até meu casamento). Naquele ano de 5559, à hora do toque do shofar, vi que enorme perigo ameaçava o Rebe no ano vindouro, porém, não pude enxergar sua libertação. Talvez assim fosse pois a salvação não fora completa."

As falsas acusações renderam frutos. Durante Chol Hamoed (dias intermediários) de Sucot (do mesmo ano), um oficial acompanhado de um grupo de soldados armados chegou a Liozna, com ordens de prender o Alter Rebe e levá-lo a Petersburgo. O Rebe quis ponderar a situação sem interferência, e deixou a casa pela porta dos fundos a fim de meditar no campo. O oficial, em contrapartida, considerando as circunstâncias, não quis perturbar a alegria da Festa. Por isso, saiu da cidade, deixando, contudo, alguns agentes no local.

Nesse ínterim, o Rebe decidira sobre uma linha de ação, caso os soldados voltassem para prendê-lo. Revelou sua decisão a seus íntimos, isto é: receber sobre si o que viesse a acontecer. (Rabi Yossef Yitschac disse certa vez que o Rebe discutiu o assunto primeiro com o distinto chassid Rabi Shemuel Munkes, e só então decidiu se entregar, quando necessário).

As Festas de Shemini Atsêret e Simchat Torá findaram. Os chassidim estavam, compreensivelmente amargurados e agitados. Em Isru Chag, o dia imediatamente seguinte às Festas (que naquele ano caiu numa quinta-feira), as notícias do ocorrido já haviam se espalhado, e eram conhecidas nas comunidades próximas de Vitebsk, Rudnia, Kalisk, Liadi, Yanovitch, Dubrovna e outras.

O Rebe, uma pessoa estritamente ordeira e organizador excepcional, levantou-se cedo naquele dia de Isru Chag, para redigir uma Epístola Comunitária a todos os chassidim de Chabad, exortando-os a serem fortes em sua fé e confiança em D’us e no mérito de seus santos mestres, enquanto tomava sobre si todo o sofrimento que estivesse por sobrevir. Continuou, dizendo que finalmente compreendera as alusões que lhe foram dadas por seu mestre, o Maguid de Mezritch, de que iria sofrer e passar por tempos difíceis. Advertiu ainda mais rígida e severamente seus chassidim para que permanecessem calmos, e se comportassem de maneira tolerante com os mitnagdim, a despeito do desenrolar dos fatos. O Rebe ordenou aos chassidim mais velhos que zelassem cuidadosamente pelos mais jovens; e aos jovens, para que obedecessem os mais velhos.

A epístola foi imediatamente copiada, e mensageiros especiais enviados para entregá-la a todos os chassidim de Chabad nas cidades próximas e longínquas.

Tarde, naquela noite, ouviu-se que os soldados haviam voltado a Liozna para prender o Rebe. O oficial comandante ordenou que o Rebe fosse levado pelo "Black Mary," uma carruagem negra que era sempre usada para os acusados de traição. Sob rígida guarda de soldados fortemente armados, a carruagem partiu para Petersburgo, a caminho de Vitebsk e Nevel. A atitude calma do Rebe era extraordinária. De fato, pode-se aprender com isso a verdadeira resolução sobre-humana e abnegada deste responsável líder e guia, com o intento de pavimentar o caminho para os sagrados princípios do chassidismo, tornando-o uma senda acessível a todos.

Na manhã seguinte, uma sexta-feira, seis horas antes do acender das velas de Shabat, o Rebe pediu ao oficial encarregado para parar e repousar até o final do Dia de Descanso. Quando o oficial recusou-se a interromper a jornada, os eixos da carruagem quebraram. Foram trazidas pessoas da aldeia próxima para ajudar a consertar os eixos. Mas então, assim que a carruagem estava consertada, um dos cavalos sucumbiu de repente. Trouxeram outro cavalo, mas, estranhamente, os animais agora não conseguiam mover a carruagem. Isto foi o suficiente para o oficial compreender que estava enfrentando um assunto extraordinário. Aproximou-se do Rebe e propôs que viajassem pelo menos até a aldeia mais próxima, porém o Rebe recusou-se a seguir viagem, porém concordou em dirigir-se ao campo adjacente à estrada. Lá, passou o Shabat.

Tudo isso aconteceu a cerca de duas milhas do assentamento de Seliba-Rudnia, perto da cidade de Nevel, na província de Vitebsk. Os chassidim de Nevel sabiam qual era o local exato onde o Rebe passara o Shabat.

O idoso chassid Rabi Michael de Nevel costumava contar que conhecia pessoalmente chassidim que poderiam indicar o local, e foi vê-lo com os próprios olhos. Descreveu como, ao longo do caminho inteiro dos dois lados da estrada, jaziam árvores velhas e mortas. Contudo, no local onde estacionaram a carruagem e o Rebe guardara o Shabat, havia uma maravilhosa árvore alta, ereta e adornada com galhos em profusão.

Sempre que Rabi Michael descrevia esta cena em detalhes, envolvia-se completamente pelo seu relato, e o fazia com espírito emocionado, revelando sua própria grandeza e inspiração. A inspiração da visão do local, e mais tarde da lembrança da árvore, era obviamente mais intensa que a inspiração que muitos possuem, mesmo em assuntos de Avodá.

Preparativos e atividades dos chassidim

Na mesma noite em que o Rebe foi retido, um grupo de chassidim ativos e dedicados, estudantes seniores da yeshivá do Rebe, reuniram-se em conselho para elaborarem um plano, a fim de lidarem com a grave situação. Decidiram que cada um deles, e algumas poucas pessoas cujo nome citaram especificamente, deixariam todos os seus afazeres particulares e familiares a fim de dedicar-se completamente, de corpo, alma e posses à causa da salvação do Rebe e do movimento chassídico.

Formou-se um comitê especial para dirigir todas as atividades concernentes ao resgate de seu mestre, e à proteção e encorajamento dos chassidim. Todos os chassidim, jovens e velhos igualmente, eram obrigados a obedecer as ordens do comitê sem questioná-lo. Quem quer que se rebelasse seria expulso da comunidade chassídica. Resolveu-se então expedir a seguinte ordem assinada a todos os chassidim:

"A vigorar durante toda a duração da prisão do Rebe –

a) Todos devem jejuar às segundas e quintas-feiras (à exceção dos que não podem fazê-lo, e que são normalmente isentos pela determinação haláchica).

b) Durante os dias úteis, deve-se comer apenas pão e água fervida. No Shabat, tanto à noite quanto de dia, não se deve servir mais de um prato cozido em cada refeição.

c) Não se deve planejar casamentos nem noivados enquanto durar a detenção do Rebe. Casamentos previamente marcados devem realizar-se conforme o combinado, embora sem música. Apenas dez pessoas podem comparecer, e uma refeição de prato único, que não contenha carne será servida.

d) Cada professor reunirá seus alunos, e juntos recitarão Salmos todos os dias. Antes de recitar Salmos, o professor deve explicar os eventos e fatos; como o Tsadic Hador (o justo da geração) foi traído e sujeito a falsas acusações, e está na prisão devido ao mal daquela geração.

e) Cada um dos chassidim deve contar e explicar os acontecimentos à esposa e filhos, e a todos em seu lar. Deve discorrer sobre os enormes sofrimentos da prisão, a gravidade do pecado dos que a causaram, e a grandeza da recompensa de todos os que compartilham a agonia de um sábio e tsadic.

f) Cada chassid deve contribuir com o sustento da casa do Rebe, e com o fundo para os pobres na Terra Santa.

g) Cada chassid deve fazer uma lista detalhada de todos os objetos de ouro e prata, assim como de todas as jóias em sua posse.

h) Cada comunidade chassídica deve escolher um depositário para supervisionar a execução de todos os detalhes acima mencionados, e a ele serão dadas as contribuições mencionadas no item (f), e das listas mencionadas no item (g).

i) Se, durante todo esse tempo, D’us não o permita, ocorrer uma morte entre os chassidim, a comunidade inteira deve reunir-se, purificar-se e, após preparar o falecido para o funeral, obrigá-lo através de juramento a ser emissário. Isto para que sua alma ascenda aos portais do Maguid e do Báal Shem Tov, e os informe que o Alter Rebe está na prisão, e que os ensinamentos do chassidismo estão em perigo. Deve ser encarregado desta missão, repetindo o juramento três vezes: depois dos preparativos, no cemitério e antes de cobrirem o túmulo com terra. A congregação inteira deverá jejuar neste dia."

O comitê decidiu então formar três grupos de ação:

1. Um grupo compreendendo aqueles que se preocupariam em salvar o Rebe;

2. Um grupo compreendido dos que se ocupariam em levantar fundos para libertar o Rebe; para manter a casa do Rebe e para os necessitados na Terra Santa;

3. Um grupo que compreendia os que se ocupavam com a defesa do chassidismo e o encorajamento do chassidim.

Membros foram designados para cada um dos grupos, e cada pessoa tornou-se responsável por uma esfera específica de atividade. O primeiro grupo, dos diretamente ligados à salvação do Rebe, foi subdividido em três partes:

1. Aqueles que ficariam em Petersburgo, a fim de seguir e observar os procedimentos locais, e fazer tudo o que fosse necessário;

2. Os que ficariam em Vilna como agentes secretos disfarçados, a fim de espionar os procedimentos dos mitnagdim.

3. Os que ficariam em Shklov, com o mesmo objetivo dos que estavam em Vilna.

Essas três unidades entrariam em contato uma com a outra através de mensageiros especiais, e não pelo correio. Todas as suas atividades seriam classificadas como ultra-secretas. O segundo grupo viajaria pelo país inteiro, para angariar os fundos necessários para cobrir as despesas dos agentes em Petersburgo, Vilna e Shklov; e para a manutenção da casa do Rebe e os pobres na Terra Santa. Todas as coletas seriam verificados pelo depositário local e por dois chassidim locais idosos, e seriam fundamentadas no cálculo de:

a) dinheiro vivo;

b) a lista de valores depositados com os fiduciários. Esses últimos deveriam verificar se tudo estaria disponível. Os proprietários dos bens devem expedir notas promissórias de suas posses, e serem notificados se, D’us não o permita, a prisão se prolongar por mais tempo, para depositarem tudo com o fiduciário, a fim de assegurar a disponibilidade de fundos, quando for necessário.

c) Deve-se fazer uma lista de todo dinheiro de dote em posse dos mais jovens, que também devem assinar promissórias autorizando o fiduciário a obter o dinheiro depositado dos dotes.

d) Todas as listas e notas serão confiadas aos fiduciários, e cópias enviadas ao comitê central.

O terceiro grupo, ocupado com a defesa geral do chassidismo e com a manutenção do moral dos chassidim, viajaria a todas as cidades, vilas, aldeias e assentamentos para promulgar os ensinamentos dos chassidim, e torná-los conhecidos das massas; familiarizando assim o máximo possível de correligionários com a filosofia e estilo de vida do Alter Rebe; enquanto também atraíam novos adeptos. Cada grupo de dois ou três visitaria diferentes regiões específicas. Foram aconselhados a, ao completarem cada missão, um elemento do grupo deveria prolongar sua estadia por certo tempo, a fim de concretizar quaisquer resoluções. Essas missões deveriam ser enviadas mesmo para locais sabidamente hostis.

Exatamente antes de o Rebe ter sido levado, seu cunhado, Rabi Yisrael Kosik aproximou-se e pediu-lhe instruções.

"Você," disse-lhe o Rebe, "vá imediatamente, e quero dizer imediatamente, a Petersburgo. Vá, assim como está agora, sem hesitar. Outra pessoa deve ir a Berditchev para informar Rabi Levi Yitschac, para que ele interceda e reze."

A ordem do Rebe foi cumprida. Sem perder tempo, Rabi Yisrael Kosik partiu para Petersburgo, com as mesmas as roupas que usava no momento. A fim de levar a cabo a ordem do Rebe e partir apressadamente, não voltou à sua terra natal (Babinovitch) para conseguir passaporte, mas sim, pediu emprestado um que pertencia a um amigo.

Outra pessoa foi a Berditchev, mas em meio a toda a agitação e pressa, o homem esqueceu-se de anotar o nome da mãe do Alter Rebe, essencial no caso de Pidyon Nêfesh (bênção). Chegando a Berditchev, informou Rabi Levi Yitschac de tudo o que sobreviera ao Rebe. Ao ouvir o relato dos acontecimentos, o Rabi caiu no chão em agonia, e chorou amargamente. Perguntou então ao emissário se o Alter Rebe estava transtornado. Ao receber resposta afirmativa, inquiriu mais, se estava profundamente perturbado, ou apenas superficialmente.

"Parecia que estava apenas superficialmente transtornado," replicou o emissário. "Percebi que esqueceu-se de levar seus chinelos, porém não se esqueceu do talit e tefilin."

Rabi Levi Yitschac ficou profundamente impressionado com esta resposta, e elogiou o poder de observação do homem. Perguntou então qual era o nome da mãe do Rebe, apenas para ouvir o consternado emissário confessar sua ignorância sobre esta informação. Havia se lembrado de que não sabia o nome, mas então já estava longe em seu caminho, e temia voltar, pois a necessidade de presteza fora bastante enfatizada.

À mesa, no aposento de Rabi Levi Yitschac, havia um chumash. O Rabi abriu-o, e o primeiro versículo que viu foi: "E Yaacov viu que havia ‘shever’ (comida) no Egito." Disse Rabi Levi Yitschac: "A palavra shever é um acróstico de Shneur ben Rivca."

E assim era, realmente. O próprio Rebe, às vezes, assinava o nome como "Shneur ben Rivca."

O Rebe na prisão

Ao ser levado a Petersburgo, o Rebe foi encarcerado numa das celas secretas da Fortaleza de Petropavlovsk. Durante sete semanas, exatamente cinqüenta e dois dias, ficou detido lá. Nas primeiras três semanas, foi mantido numa cela estritamente vigiada, destinada a traidores. Isto estava de acordo com uma das principais acusações contra ele; a saber, traição ao Império Russo, por enviar fundos – como alegado – ao sultão da Turquia (ou seja, os fundos enviados aos judeus na Terra Santa, que, à época, estava sob domínio turco.) Depois, foi transferido para um lugar mais confortável na mesma fortaleza.

O Rebe estava curioso em saber se prisioneiros já haviam alguma vez sido libertados daquela prisão. Perguntou discretamente a um dos guardas acerca de sua posição, há quanto tempo trabalhava lá como guarda, qual era seu salário, e coisas similares. O guarda, sem suspeitar, respondeu a tudo sinceramente. O Rebe então perguntou: "Acaso já aconteceu de você ter recebido presentes de antigos prisioneiros depois de terem sido libertados?"

"Sim," respondeu o guarda, "acontece com freqüência de um prisioneiro libertado enviar-me algo."

Esta resposta esclareceu perfeitamente ao Rebe que ainda havia esperanças de ser libertado da prisão, e encontrou consolo nesta informação.

Por aquela época um alto oficial veio para registrar diversos detalhes. Este oficial, um homem estudado e familiarizado com as Escrituras, ficou deveras impressionado com a personalidade do Rebe, e lhe disse: "Tenho uma questão acerca de determinado texto bíblico, e ser-lhe-ia imensamente grato se pudesse me dar uma resposta adequada."

"Pergunte o que desejar," disse o Rebe, "e com a ajuda de D’us espero poder resolver seu problema."

Encorajado pela afirmativa, o oficial indagou: "Qual o significado do versículo ‘e D’us chamou Adam e disse: Onde estás?’, como é possível que D’us Onisciente não soubesse onde estava Adam? Estou ciente das diversas interpretações e da alegoria oferecida por Rashi. Gostaria, porém, de saber o significado simples e direto da questão de D’us ‘onde estás.’ "

"Você acredita," perguntou o Rebe, "que a Torá é atemporal e eternamente relevante, em qualquer época, para toda geração e para cada indivíduo?"

"Acredito nisto sinceramente," foi a resposta do oficial. "A Torá é eterna."

O Rebe ficou muito satisfeito ao ouvir esta afirmação de fé. Pois, de fato, este princípio é um dos importantes fundamentos dos ensinamentos do Báal Shem Tov, pelos quais estava agora sendo julgado. Se os oficiais cressem neste princípio, certamente o julgamento seria bem mais fácil.

"Se você acredita nisto," disse o Rebe, "eu lhe darei uma explicação para o versículo. Está escrito: ‘E D’us chamou ‘Haadam,’ ao homem.’ Isto significa que em todas as épocas e em todos os tempos D’us chama cada indivíduo e pergunta-lhe ‘onde estás?’, ‘onde estás neste mundo?’ D’us distribuiu a cada um determinada quantidade de dias e anos, cada um dos quais a ser utilizado para fazer o bem em relação a D’us e à humanidade. Portanto, pense e reflita: quantos anos você já viveu, e quanto bem você já fez e realizou durante este tempo. Você, por exemplo, já viveu… anos, (e aqui o Rebe mencionou a idade exata de seu inquiridor); como utilizou este tempo? Conseguiu realizar algo bom?"

O oficial estava profundamente surpreso e impressionado pelo fato de o Rebe ter "adivinhado" sua idade correta, e pousando as mãos sobre os ombros do prisioneiro, exclamou: "Bravo!" Em seguida, continuou o interrogatório formal com o Rebe, que demonstrou profunda sabedoria nas respostas exatas a cada questão. Ao lidar com assuntos que diziam respeito à fé judaica, o Rebe fazia freqüentes referências ao Talmud. Os profundos ditos dos sábios impressionaram muito o interrogador, que sinceramente comovido exclamou: "Isto é verdadeiramente Divino!"

Este oficial e os outros interrogadores tiveram oportunidade de perceberem a grande sabedoria do Rebe também em outros assuntos, não relacionados ao julgamento. Certa vez, por exemplo, o Rebe foi colocado num aposento que era tão escuro durante o dia quanto à noite. Uma pequena lâmpada era a única fonte de luz. Um dia, cerca de duas horas da tarde, disseram ao Rebe que já passava da meia-noite, e que deveria ir dormir.

"Exatamente agora," redargüiu o Rebe, "são duas e cinco da tarde."

Ao perguntarem como conseguia saber tal coisa, o Rebe explicou:

"Cada dia é iluminado pelas doze formas das letras do Nome Inefável (Tetragrama), enquanto que a noite é iluminada pelas doze formas do Nome que denota o Domínio de D’us. Ao sentir estas várias formas, sei distinguir entre o dia e a noite, e entre uma hora e outra."

O chefe de polícia elogiou o Alter Rebe perante o Czar (Paulo I), e teceu louvores sobre sua sabedoria e santidade. Acrescentou que, em sua opinião, o Rebe parecia ser inocente, e vítima de falsas acusações baseadas em inveja e ódio. Curioso por encontrar pessoa tão extraordinária, e pretendendo formar sua própria opinião, o Czar disfarçou-se de funcionário da corte e foi ver o Rebe. Contudo, assim que entrou na cela, o Rebe levantou-se e prestou-lhe honras dignas da realeza.

"Por que confere tais honras, dignas de um rei, a um simples funcionário como eu?" – perguntou-lhe o surpreso visitante disfarçado.

"Pois na verdade, você deve ser o Czar!" – respondeu o prisioneiro. "Nossos sábios ensinam que ‘o reinado na terra é similar ao reinado nos Céus.’ Da mesma forma que o temor perante D’us é grande, assim também senti uma reverência incomum quando entrou. Jamais experimentei tal sensação com qualquer dos oficiais que vieram aqui. Portanto, conclui que você só pode ser o Czar."

O Czar saiu, convencido de que este homem com certeza devia ser um santo.

O Alter Rebe foi detido na fortaleza de Petropavlovsk. Ninguém sabia onde estava, nem como. Apenas através do desencadear de eventos maravilhosos os chassidim de Petersburgo conseguiam essas informações.

Um dia, o oficial acima mencionado, que fora designado para cuidar do Alter Rebe, propôs-lhe a seguinte oferta: "Quero lhe fazer um favor, pelo menos um pequeno. Por favor, diga-me o que posso fazer por você."

"Agora mesmo," respondeu o Rebe, "gostaria apenas que minha família fosse informada que pela graça de D’us ainda estou vivo, e que espero, com a ajuda de D’us, sair vitorioso do julgamento."

"Como poderei fazer isto?" – perguntou o oficial. "Os que o estão caluniando também são judeus. Como poderei distinguir os chassidim de seus oponentes?"

"Ao encontrar um judeu vestido de tais e tais roupas, saberá que é meu cunhado, Yisrael Kosik. Logo antes de ser trazido para cá, mandei que partisse imediatamente para Petersburgo assim como estava naquele momento, sem trocar de roupas. Estou certo que cumpriu minha ordem."

O surpreso oficial prometeu fazer como lhe dissera o Rebe. Perambulou pelas ruas da capital até que finalmente deparou com Yisrael Kosik. Chamou-o e perguntou-lhe qual era seu nome.

Conforme já foi mencionado, Yisrael Kosik partira imediatamente para Petersburgo, porém com o passaporte de outrem. Assim, quando o oficial lhe perguntou o nome, forneceu-lhe o nome da pessoa para a qual o passaporte fora expedido. O oficial retorquiu: "você está mentindo!" e foi embora.

Yisrael Kosik ficou aturdido, e apressou-se em procurar os chassidim mais idosos, para lhes contar a aventura. Esses sentiram que isto não era apenas algum acontecimento acidental, e conjecturaram que aquele estranho fosse um mensageiro do Rebe. Consideraram isto um bom presságio, e o começo da libertação. Decidiram que no dia seguinte Yisrael Kosik deveria andar novamente pelas ruas da cidade. Talvez encontrasse o estranho de novo. Agora, porém, se lhe perguntasse o nome, deveria dizer a verdade.

No dia seguinte, quando o oficial visitou o Rebe, contou-lhe que deveras encontrara um judeu como o descrevera, porém de nome diferente. O Rebe compreendeu o que sucedera, e depois de explicar, pediu ao oficial que tentasse mais uma vez, para ver se encontrava de novo o homem.

O oficial concretizou o desejo do Rebe, e vasculhou a cidade até que encontrou novamente Yisrael Kosik. Desta vez, este lhe revelou seu verdadeiro nome. O oficial não disse mais nada, apenas continuou andando bem devagar. Yisrael o seguiu. Por fim, o oficial chegou a sua casa e entrou, enquanto Yisrael permaneceu fora. Percebeu de repente um envelope caindo da janela da casa. Compreendeu que lhe era endereçado, apanhou-o e foi ter com os chassidim. Lá, o envelope foi aberto. Encontraram um bilhete escrito com a letra do Rebe: "Ouve, ó, Yisrael, o Eterno é teu D’us, o Eterno é Um." Sabiam agora que pelo menos o Rebe estava vivo, e que ainda havia esperança, apesar do local de sua prisão ainda permanecer um mistério. Todavia, não por muito tempo. Poucos dias depois, obtiveram também esta informação.

Vários dias se passaram desde a detenção, e o Rebe não havia ingerido nada, por falta de alimentos casher. O carcereiro pensava que o Rebe agia assim como tentativa de suicídio, por medo do julgamento. Depois de ordenar-lhe diversas vezes que comesse, e ele ter-se recusado, o carcereiro instruiu os guardas a usarem de força. O Rebe fechou a boca firmemente, e não conseguiram abri-la. Isto causou grande tumulto, e o Rebe ficou extremamente angustiado. Neste exato momento, o oficial chegou. Ao ouvir o tumulto, perguntou qual o motivo, e ao tomar conhecimento, disse:

"Não fica bem forçar uma pessoa como esta a comer involuntariamente. Deve ser persuadido apenas através de palavras!" O próprio oficial entrou e perguntou ao Rebe por que não comia:

"O julgamento, que será realizado muito em breve, talvez possa libertá-lo. Porém se recusar-se a comer, certamente morrerá. Você está cometendo suicídio, perdendo, assim, sua porção no Mundo Vindouro!"

"Recuso-me a comer comida não casher, mesmo se for privado de meu quinhão no Mundo Vindouro," respondeu o Rebe.

"Se conseguir obter alimento casher," perguntou o oficial, "você confiará em mim?"

"No presente momento," respondeu o Rebe, "não tenho necessidade alguma de alimentos sólidos, pois meu estômago está muito fraco. Necessito apenas de algo para fortalecer meu estômago. Se você mesmo puder obter alguma compota de frutas de algum judeu, e ninguém, além de você, tocar nela até que chegue a mim, comerei."

Rabi Mordechai Liepler, um dos proeminentes chassidim do Rebe, vivia em Petersburgo. Era um homem rico, amplamente respeitado nos círculos governamentais por causa de sua honestidade e integridade. O oficial imediatamente o procurou para que preparasse comida casher "para um judeu." O pedido era deveras incomum, e Rabi Mordechai tinha o pressentimento de que era para o Rebe. Preparou algo, e fixou um bilhete sob a tampa da vasilha, no qual expressava curiosidade em saber a identidade e local do consumidor deste alimento. O oficial entregou pessoalmente o pote com comida ao Rebe. Ao abrir, o Rebe encontrou o bilhete. Depois de terminar a comida, pediu ao oficial mais da mesma comida. Deixou um pouco de comida na vasilha, e sob a comida um bilhete, no qual escrevera as informações requisitadas, e uma ordem para enviar um homem a Vilna sem delongas. O oficial devolveu a vasilha a Rabi Mordechai, que encontrou o bilhete. Houve júbilo e alegria entre os chassidim. Rabi Mordechai continuou a preparar comida, que era entregue pelo oficial. Um homem partiu para Vilna, apesar de ninguém entender com que finalidade. Os chassidim confiavam na ordem do Rebe, seguros de que o próprio emissário viria a perceber o objetivo de sua viagem.

 

Fonte: http://www.chabad.org.br/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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