Questionando D’us

 

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Por Riva Pomerantz

Aish.com

Ontem recebemos a má notícia. Uma grande amiga de nossa família está novamente lutando contra o câncer, pela terceira vez em dez anos. Sentei-me sozinha no sofá – rezando, meditando.
Por que, D’us, por quê?

Além de um bom abraço e um pranto reconfortante, o que posso fazer para ordenar meus pensamentos? Pensamentos que rasgam a cortina da fé, que gritam perguntas sobre as trevas de uma doença mortal.

Às vezes quando você faz uma pergunta a D’us, Ele dá uma resposta. Tive minha resposta algumas horas depois. Uma professora minha contou uma incrível história real que abordou diretamente o meu conflito.

questionando

Um Talit em Auschwitz

Rabi Meisels era um bastião de fé e força no tormento dos campos de concentração nazistas. Quando ele foi convocado para o transporte a Auschwitz, levou consigo apenas um objeto: seu xale de oração. Este talit específico tinha sido herdado e possuía grande valor sentimental e espiritual para ele. Apegou-se ao talit como um símbolo da proteção Divina durante a guerra, e decidiu nunca deixar que os nazistas o levassem.

Quando ele e sua família chegaram a Auschwitz, foram despojados de todas as suas posses terrenas. O talit foi arrancado dele para se tornar parte do tesouro nazista. Porém Rabi Meisels não entregaria seu precioso talit com muita facilidade.

Ele pediu para ser designado ao trabalho nos depósitos, separando os bens confiscados. Logo, enquanto arrumava as pilhas de objetos, deparou-se com o seu xale especial de prece. Agora ele precisava encontrar uma maneira de contrabandeá-lo para fora do depósito. Um item grande como aquele não seria fácil de esconder.

Ele precisou de muito planejamento e um bocado de ousadia, mas finalmente, Rabi Meisels conseguiu cortar o enorme xale e transformá-lo em dois tsitsits [franjas usadas sobre uma roupa de quatro cantos], que ele poderia vestir por baixo de seu uniforme de prisioneiro. Passou a usar seus tsitsits fielmente todos os dias, apesar da ameaça de morte certa se fosse descoberto.

Num dia fatídico, seu maior temor se concretizou.

Depois que os prisioneiros tinham tomado banho de chuveiro, um kapo russo que trabalhava sob as ordens dos nazistas percebeu que o uniforme de Rabi Meisels parecia mais volumoso que de costume. Ele puxou a camisa do indefeso rabino e descobriu o contrabando – os tsitsits! Enfurecido, começou a espancar e amaldiçoar o judeu, exigindo saber o que era aquilo que o prisioneiro estava vestindo.

Rabi Meisels conseguiu gaguejar: "Um Gutt-kleid – uma veste sagrada."

Esta admissão levou o kapo a uma fúria ainda maior. Ele arrastou o judeu ao seu bunker e começou a espancá-lo incansavelmente.

"Seu porco!" gritava ele. "Tem a audácia de dizer-me que está usando uma roupa sagrada? Onde está o seu D’us neste mundo? O que Ele tem feito por você, deixando-o à mercê da morte e da destruição? Como ousa me dizer que existe um D’us!"

O kapo ficou em silêncio por alguns instantes, e então fez ao judeu a seguinte oferta: "Vou lhe dar uma chance. Se puder me provar que D’us existe, apesar desse inferno que estamos vivendo, eu o deixarei ir. Mas caso contrário, acabo com você aqui e agora mesmo."

Rabi Meisels não encontrava palavras. Como poderia responder?

Rezou em silêncio pedindo orientação Divina, e então disse: "Vou lhe contar uma parábola. Houve certa vez um mestre cirurgião que fazia operações miraculosas, curando pessoas das doenças mais difíceis. Um dia, foi procurado por uma mulher com uma doença temível, e ele concordou em operá-la. Na sala de operações com o cirurgião estava um sapateiro, que observava cada movimento do médico. O sapateiro olhava à medida que o cirurgião fazia incisões na pele de aparência completamente sadia, infligindo – em sua mente – terrível dano à paciente. "É absurdo cortar assim o tecido saudável!" pensou ele. "Eu corto apenas o couro estragado quando preciso consertar um sapato! Que cirurgião tolo, incompetente!" foi a conclusão do sapateiro.

"Neste mundo, somos como aquele sapateiro tolo", concluiu Rabi Meisels. "Não temos a menor pista sobre as maneiras pelas quais D’us governa o mundo. Às vezes nós O vemos cortando ‘tecido sadio’, por assim dizer, e ficamos abalados. Porém Ele é um Mestre, e sabe infinitamente mais do que poderíamos saber."

Buscando todas as respostas

roda

"Meu bisavô", continuou Rabi Meisels, "viveu até uma idade muito avançada. Quando lhe perguntavam como tinha merecido uma vida tão longa, ele simplesmente respondia que durante toda a sua vida, nunca questionara D’us. Mesmo quando as coisas pareciam difíceis de entender, ele jamais questionava D’us no seu coração ou na sua mente.

"Por que não questiona D’us?" perguntaram-lhe certa vez. "O motivo que deu era muito simples. Ele não queria que D’us lhe dissesse: "Você quer saber todas as respostas? Suba aos céus e tudo ficará claro para você!"

"Ele não estava interessado em deixar este mundo prematuramente apenas para encontrar algumas respostas, não importa o quanto as perguntas fossem importantes! Para ele bastava acreditar que D’us tinha as respostas, e ele ficaria contente ao descobrir os segredos ocultos após 120 anos!"

Rabi Meisels voltou-se para o kapo. "Creio que você também está esperando sair vivo dessa guerra e construir uma nova vida sem os nazistas em cima de você. Sugiro que aceite o conselho do meu bisavô e não questione D’us. Você não quer que ele o convoque antes do tempo, apenas para lhe dar as respostas que procura."

Para mim esta história é uma fonte de conforto. Não podemos responder tudo nesse mundo, mas há um Cirurgião Mestre e Ele sabe o que está fazendo. Eu não entendo, mas Ele sim.

Talvez nossa preocupação em perguntar "por quê" seja uma tentativa de adquirir controle. Se eu pudesse entender o "por quê", então talvez consiga afetar o "o quê". A falácia é que nós pensamos que somos quem controla o mundo, não D’us. O fato é que sou impotente contra o câncer da minha amiga, assim como não controlo praticamente tudo o mais no mundo. Posso fazer perguntas sobre D’us e a maneira como Ele governa o mundo de hoje e de amanhã, e continuo ainda impotente – e confusa.

Há um poder verdadeiro que D’us concedeu a toda a humanidade – o poder da prece. Pois cada experiência pela qual uma pessoa passa, D’us cria dois cenários possíveis. O primeiro caso é o que acontecerá se a prece não for feita; o segundo caso é o que acontecerá se a prece for feita. Este pensamento profundo pode ser uma grande fonte de conforto para nós à medida que navegamos pelas incertezas da vida. Embora não estejamos no controle, podemos fazer uma pequena parte para despertar a misericórdia de D’us através da prece sincera.

Willy, o Nazista

A história de Rabi Meisels e seu precioso talit não termina com a resposta inteligente que ele deu ao kapo. A segunda parte da história é ainda mais notável, e se eu não a tivesse ouvido de uma fonte muito confiável, talvez duvidasse de sua acurácia.

Com o avanço das forças aliadas. os nazistas obrigaram os prisioneiros judeus a seguirem em marchas para a morte e os deslocaram para diferentes campos. Rabi Meisels viu-se sendo levado a um vagão de gado que o transportaria a um outro campo. Quando estava para embarcar no trem, um nazista chamado Willy de repente o agarrou, revistou-o e encontrou seus preciosos tsitsits. Com grande satisfação, o nazista rasgou os tsitsits e atirou-os ao fogo, destruindo-os para sempre.

Rabi Meisels ficou totalmente devastado. Tinha olhado para os tsitsits como um lembrete da proteção Divina, e agora – tão perto de ser libertado – eles lhe foram arrancados e destruídos. O filho de Rabi Meisels, que também estava nos campos de concentração, tentou consolar o pai, sem sucesso. Os dois foram empurrados para dentro de um vagão de gado, amontoados com outros judeus, enquanto os guardas nazistas – Willy entre eles – se acomodavam no lado oposto do carro.

Dominado pela exaustão e pela tristeza, Rabi Meisels pousou a cabeça no ombro do filho para cochilar um pouco. De repente seu filho sentiu-se extremamente fraco e doente, e foi incapaz de suportar o peso da cabeça do pai.

"Desculpe", disse ele ao pai, "mas não consigo ficar com a sua cabeça sobre o meu ombro. Dói muito."

Rabi Meisels ficou chocado pela estranha relutância do filho, mas o que poderia dizer? Colocou a cabeça no ombro do homem à sua direita, enquanto seu filho repousava a cabeça sobre o ombro do homem à sua esquerda, deixando um espaço entre ele.

Naquele momento, uma enorme explosão fez-se ouvir fora do vagão de gado, e um estilhaço voou através da parede do trem. Passou direto no espaço entre a cabeça de Rabi Meisels e a do seu filho, dirigindo-se em linha reta para Willy – o guarda que tinha destruído os tsitsits – cortando fora suas duas mãos.

Rabi Meisels relata que os próprios guardas nazistas provocaram Willy, dizendo: "Então você vai destruir os tsitsits do judeu, Willy? Olhe o que aconteceu com você por causa disso!"

Às vezes os caminhos de D’us são ocultos; outras vezes eles são revelados. Porém são sempre justos e bons. Não desejo me demorar mais nesta questão. Quero me concentrar na resposta. A resposta é confiança e prece. Posso confiar que D’us é amoroso, compassivo e Todo Poderoso, e que Ele pode curar minha amiga – na verdade, trazer qualquer tipo de salvação – num piscar de olhos. Posso rezar, e lembrar a mim mesmo que minha prece tem um impacto inestimavelmente poderoso.

Eu sou o sapateiro, Ele o Cirurgião Mestre.

 

Fonte: http://www.chabad.org.br/

 

 

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