PARASHAT TOLEDOT- Comentário da leitura semanal da Torá

 

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Quatro Explicações

A Parashá dessa semana se inicia com as palavras: “E estas são as gerações de Isaac, filho de Avraham – Avraham gerou a Isaac”. Os comentaristas fazem a seguinte pergunta: por que esse verso se repete ao informar que Avraham gerou a Isaac?

Várias respostas são dadas:

i. O Talmud explica que os cínicos da época questionavam se Avraham era o pai legítimo de Isaac. Pois Sarah, que não conseguia ter filhos durante tanto anos, engravidou apenas após ter sido tomada à força por Avimelech. Sabemos, pois a Torá nos conta, que D’us não permitiu que Avimelech tocasse em Sarah; mas os cínicos da época levantaram a suspeita de que era ele, e não Avraham, o pai de Isaac. Para refutar tal alegação, D’us fez com que os traços faciais de Isaac fossem praticamente idênticos aos de Avraham. Explica o Talmud que a repetição do verso alude a esse fato.

ii. O Midrash oferece outra explicação. Comenta que, “Isaac foi coroado com Avraham, e Avraham foi coroado com Isaac”. Em outras palavras, o filho tinha orgulho do pai, e o pai, orgulho do filho.

iii. A explicação oferecida pela Chassidut é que Avraham foi o modelo, o paradigma, do amor a D’us, enquanto Isaac personificava o temor a D’us. Essas duas formas de serviço Divino, através de amor e temor, contêm dois níveis. Há o temor inferior, que é o medo do castigo e do sofrimento que resulta do pecado, e há o temor superior, que é o sentimento de reverência perante a majestade de D’us. Quando há temor superior, não se peca simples e unicamente para não violar a Vontade Divina. Há também dois níveis de amor a D’us. O amor inferior é a ligação com D’us que é feita por motivo de recompensa, seja ela material ou espiritual. Neste nível, cumpre-se a Vontade Divina por se almejar algo em troca. Já o amor superior está isento de interesse próprio: a pessoa cumpre a Vontade Divina apenas para atender aos desejos do Criador.

A Chassidut ensina que o primeiro verso da Parashá, aparentemente redundante, nos ensina algo sobre essas quatro formas de serviço Divino. A ordem dos nomes – Isaac, Avraham, Avraham, Isaac – revela que o serviço Divino começa com o nível inferior de temor (Isaac), passa para o nível inferior de amor (Avraham), ascende ao nível superior de amor (Avraham) e, finalmente, culmina com o nível superior de temor (Isaac). O inferior precede e gera o superior, pois, inicialmente, serve-se a D’us por motivos de interesse próprio, até que, eventualmente, desempenha-se o serviço Divino apenas para atender à Vontade de D’us. Isto se aplica a todos os judeus. Todos nós devemos servir a D’us com amor e temor, pois Avraham e Isaac são chamados de “Pais” do povo judeu, o que significa que todos seus descendentes herdaram suas capacidades espirituais e a obrigação de empregá-las.

iv. O Zohar explica a aparente redundância do verso da seguinte forma: Avraham representa a alma, e Sarah, o corpo. Pois ao relatar que “Sarah faleceu”, a Torá está se referindo ao corpo, que é mortal. Já sobre o primeiro Patriarca, a Torá escreve, “E Avraham levantou-se de diante de sua falecida”. Este verso faz alusão à alma, que transcende a morte. O filho de Avraham, Isaac, cujo nome significa “rirá” ou “regozijará”, simboliza os prazeres que a alma terá no Mundo Vindouro. O Zohar, portanto, traduz o verso sobre Avraham tendo gerado a Isaac da seguinte forma: “O prazer (Isaac) será a recompensa da alma (Avraham)” no Mundo Vindouro se “a alma (Avraham) gerar prazer (Isaac)” através do serviço Divino nesse mundo.

A Unicidade da Torá
Há o princípio de que quando diferentes explicações são oferecidas para um mesmo verso da Torá, todas elas estão relacionadas, mesmo que superficialmente não aparenta haver qualquer ligação.

Qual a relação entre as quatro explicações oferecidas?

Todas as histórias da Torá têm uma implicação moral que diz respeito à vida de todo judeu. A explicação chassídica é evidente: todo judeu deve servir a D’us com pólos opostos de suas emoções – amor e temor. Também é clara a explicação do Zohar: que o serviço Divino desempenhado por um judeu neste mundo criará prazeres espirituais que lhe serão revelados no Mundo Vindouro. Esta conscientização deve servir como inspiração para que se cumpra a Vontade Divina com mais dedicação e afinco.

Mas qual a relevância para nós das interpretações do Talmud e do Midrash?

A ligação entre ambas é que elas tratam de eventos que transcenderam a natureza. De acordo com as leis da natureza, Avraham não poderia ter tido um filho. Ele e sua esposa, Sarah, eram idosos e estéreis. De fato, quando D’us informou a Avraham que ele teria um filho, a Torá relata que “Ele (D’us) trouxe-o (Avraham) para fora”. O Talmud traduz esse verso da seguinte forma: D’us disse a Avraham: “Retire-se de especulações astrológicas”, pois Avraham havia previsto, através da astrologia, que ele nunca teria filhos.

O nascimento de Isaac transcendeu não apenas as leis naturais, mas as espirituais também. Pois há o conceito de que a geração posterior é sempre espiritualmente inferior à anterior. Como ensinaram nossos Sábios: “Se os judeus das gerações passadas eram anjos, nós somos meros seres humanos”. De acordo com as leis espirituais, Avraham não deveria ter sido “coroado com Isaac”, pois o filho deveria ter sido espiritualmente inferior ao pai. De acordo com as leis “naturais” do mundo espiritual, Isaac se orgulharia de seu pai, mas Avraham não se orgulharia de seu filho. Porém, a Torá nos conta que Avraham foi corado com seu filho. Foi Isaac quem completou e complemento o serviço espiritual de seu pai. Em resumo, o nascimento de Isaac foi um milagre por si só; mas, além disso, houve um segundo milagre, que foi o fato de ele não ter sido espiritualmente inferior a Avraham.

As explicações do Talmud e Midrash transmitem uma realidade profunda – a de que um judeu pode transcender as leis do mundo, sejam elas materiais ou espirituais. Inegavelmente, Avraham havia gerado “filhos espirituais” antes de ele ter gerado a Isaac, pois “os filhos dos Justos são suas boas ações”. Mas o nascimento de Isaac provou que Avraham era capaz de realizar milagres mesmo no âmbito físico: a natureza estava a serviço dele.

Essa habilidade de se sobrepor às leis do mundo foi a verdadeira refutação aos cínicos daquela geração. Pois a interpretação mais profunda da acusação contra Avraham – de que ele não era o pai legítimo de Isaac – era que um judeu pode transcender apenas os limites do âmbito espiritual, mas que a realidade terrestre é regida por governantes laicos, como Avimelech. Em outras palavras, os cínicos afirmavam que o mundo físico (simbolizado pela geração de Isaac) está limitado às leis da natureza, e que quem reina sobre o domínio terrestre são governantes laicos como Avimelech, e não pessoas como Avraham.

Ao fazer com que os traços faciais de Isaac se assemelhassem aos de Avraham, D’us ensinou que o caminho para o poder físico é Avraham (que simboliza a alma, como explica o Zohar) e não Avimelech (que simboliza o governante laico). De fato, para a alma não há impedimentos – nem internos, nem externos. Quando a alma deseja, ela pode utilizar sua devoção, que é algo espiritual, para realizar boas ações, no mundo físico.

A Liberdade e o Poder da Alma
O que foi explicado acima elucida as seguintes palavras do Rebe Anterior (o sexto Lubavitcher Rebe):
“Todos os povos na face da Terra devem saber o seguinte: que apenas nossos corpos foram exilados e subjugados a governantes estrangeiros. Mas nossas almas nunca foram exiladas ou escravizadas. Devemos declarar abertamente, perante todos, que em assuntos relacionados à nossa religião – à Torá, aos mandamentos (as mitzvot) e aos costumes do povo de Israel – não há ninguém que possa ditar nada aos judeus, e nenhum pressão pode ser exercida sobre nós”.

Essa afirmação do Rebe Anterior é aparentemente paradoxal, pois de que adianta a alma ser livre se o corpo está em exílio? A alma precisa cumprir a Vontade Divina através do corpo.

Mas, na realidade, tamanha é a força da alma: ao ser despertada, ela pode livrar o corpo até de limitações físicas. E isto deve ser feito de forma aberta e pública, para que “todos os povos na face da Terra” (inclusive os “cínicos da geração”) possam se conscientizar de que Avimelech (o poder terrestre) não tem domínio sobre o corpo ou a alma de um judeu.

A ligação entre as quatro interpretações
Agora a ligação entre as quatro interpretações torna-se clara.
O Talmud pertence à parte “revelada” da Torá. Portanto sua explicação trata de assuntos revelados que estão relacionados ao mundo físico, terrestre. A explicação do Talmud, que trata dos cínicos da geração, ensina que mesmo no plano material um judeu não está sujeito às limitações da natureza.

O Midrash é uma ligação entre a parte revelada e a parte oculta da Torá. Sua abordagem do assunto é, portanto, parecida com a do Talmud, mas ela também oferece uma explicação mais profunda: ensina que um judeu está acima até das leis espirituais. A explicação do Midrash é que o nascimento de Isaac se sobrepôs à lei espiritual de que a geração posterior é sempre espiritualmente inferior à anterior. Avraham orgulhava-se do filho, pois Isaac foi, espiritualmente, tão extraordinário quanto seu pai.

A Chassidut, que ensina o caminho a ser tomado no serviço a D’us, lida com a dimensão mística da Torá. A lição chassídica desse verso é que todo judeu deve servir a D’us simultaneamente com amor e temor. Geralmente essas emoções são conflitantes – o amor aproxima, o temor distancia. Mas em seu serviço Divino, um judeu transcende a natureza, inclusive a sua própria, e consegue fundir duas emoções opostas de forma integral e simultânea. Quando um judeu faz isso, D’us permite que ele viva acima da natureza, seja no âmbito físico (como na interpretação do Talmud), seja no âmbito espiritual (como na interpretação do Midrash).

O Zohar (o livro fundamental da Cabalá), que expressa a dimensão esotérica da Torá, trata do Mundo Vindouro, e explica que quando um judeu se esforça para que sua alma transcenda os limites da existência física, ele será recompensado com prazeres espirituais em sua vida futura.

A Mitzvá é a própria recompensa
Nossos Sábios ensinam que “a recompensa de uma mitzvá (o mandamento Divino) é a própria mitzvá”. Isto significa que a recompensa se encontra no próprio cumprimento da mitzvá. Pois no Mundo Vindouro é revelada a verdadeira essência dos mandamentos Divinos. De fato, enquanto a alma está dentro do corpo, não se percebe a realidade espiritual inerente ao cumprimento da Vontade Divina. Porém, no Mundo Vindouro, ocorre essa realização: a recompensa de se ter o prazer de apreciar o valor das boas ações que foram cumpridas na Terra.

Em resumo, as primeiras três explicações do primeiro verso da Parashá tratam do ato de se cumprir uma mitzvá.

Já o Zohar trata da recompensa. E como a recompensa e a mitzvá são, em sua essência, a mesma coisa, há unicidade nas quatro explicações oferecidas, respectivamente, pelo Talmud, Midrash, Chassidut e Zohar.

Rabi Menachem Mendel Schneerson, o Rebe de Lubavitch
Likutei Sichot, Vol. III pgs. 780-787

 

Fonte:  Revista Morashá N.62/setembro 2008 – http://www.morasha.com.br/

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