Porção Semanal: Parashá Toledot – (29/11)

 

Toledot

Bereshit 25:19 – 28:9
 
Genesis 25:19-28:9
 

 

Toldot inicia-se com Yitschac (Isaac) e Rivca (Rebeca) rezando a D’us por um filho. Finalmente Rivca concebe, e após uma gravidez difícil dá à luz gêmeos – Essav (Esaú) e Yaacov (Jacó). Suas diferenças de personalidade logo se tornam aparentes, quando Essav se volta às caçadas, enquanto Yaacov é puro e ingênuo, passando o tempo no estudo de Torá.

Voltando de uma expedição de caça, exausto e faminto, Essav encontra Yaacov preparando uma panela de sopa de lentilhas. Yaacov concorda em dar ao irmão mais velho uma porção do pote de sopa, em troca de seu direito à primogenitura, e o acordo é completado.

Em face a uma terrível escassez, D’us diz a Yitschac para permanecer na Terra de Israel, ao invés de descer ao Egito como seu pai Avraham o fizera anos antes, por isso Yitschac e sua família se estabelecem em G’rar, (a terra dos filisteus, que fica dentro das fronteiras de Israel). D’us reafirma a Yitschac que seus descendentes irão tornar-se uma grande nação, tão numerosa quanto as estrelas do céu.

Após conseguir incrível sucesso financeiro, Yitschac entra em contínuo desentendimento com o rei Avimelech sobre os poços que Yitschac cavara novamente. Entretanto, finalmente chegam a um acordo, e o tratado que foi assinado entre Avimelech e Avraham é reconfirmado.

Muitos anos mais tarde, Yitschac decide abençoar Essav como primogênito. A uma ordem de Rivca, Yaacov se disfarça como se fosse seu irmão mais velho e recebe a bênção do primogênito (que por direito lhe pertence). A porção termina com Yaacov fugindo da ira de Essav por "roubar" sua bênção e escapa para Charan para ficar com o irmão de sua mãe, Lavan, onde encontrará uma esposa.

Mensagem da Parashá

Talvez não haja figura mais enigmática em toda a Torá que nosso antepassado Yitschac. Além da Porção desta semana, quase nada aprendemos sobre o homem, seu tempo, e o que fez durante sua vida. Em vez disso, somos levados a crer que após o clímax do seu feito de esticar o pescoço para receber o golpe da lâmina do pai, esta pessoa elevada retira-se a uma vida pacífica, cavando poços.

Igualmente frustrante é o papel aparentemente passivo e sem destaque que ele desempenhou nos episódios em que aparece. É levado por seu pai para ser sacrificado a D’us; o servente de Avraham (Abraão), Eliezer, é enviado para encontrar-lhe uma esposa; sua mulher o pressiona para que envie Yaacov para encontrar uma esposa; seu filho Yaacov o manipula para receber suas bênçãos. Por que Yitschac parece ser movido como uma marionete, simples argila nas mãos daqueles que o rodeiam? Que lições podemos tirar do comportamento aparentemente fora do comum do segundo grande Patriarca de nosso povo?

Nossos Sábios ensinam que os Patriarcas eram muito mais que progenitores biológicos da nação judaica. Cada um agia como "guardião dos portões", que destrancavam os portais celestiais, permitindo-nos estabelecer um relacionamento com D’us em maneiras singularmente únicas. Pela sua incorporação dos mesmos atributos com os quais D’us age conosco, ao espelhar Suas maneiras, eles foram capazes de elevar sua constituição genética, legando aos descendentes as qualidades Divinas que foram suas conquistas durante a vida.

Avraham personifica a qualidade de Chessed, bondade, de D’us. Cada ação, cada pensamento, cada palavra que falou estava repleta de amor e preocupação pela humanidade. Yitschac é a personificação do Divino atributo de gvurá, força. Em Pirkei Avot, Ética dos Pais, nossos rabis nos ensinam: "Quem é forte? Aquele que domina suas paixões."

A força não é medida por aquilo que você faz, mas por aquilo que não faz. Auto-controle, disciplina, organização são as ferramentas do forte, daquele que não pode ser levado por emoções fugazes e pelos caprichos do instinto. A lógica ditaria que esta qualidade deveria estar presente em todos os relacionamentos de Yitschac. Certamente ninguém questionaria que foi necessária uma força imensurável para calmamente se oferecer no altar, mas e quanto ao resto de sua vida? Onde mais vemos esta atitude se destacar?

A Criação é uma manifestação da bondade de D’us. Ele não tem necessidade pessoal de trazer-nos à vida. D’us é a essência da perfeição, a própria antítese do conceito de "necessidade". Suas intenções eram apenas que Ele desejava nos conceder o maior de todos os prêmios, o dom da eternidade que vem apenas de nos conectarmos a Ele através de Seus mandamentos.

Entretanto, há um ligeiro problema, por assim dizer, com Seu amor transbordante. O desejo de dar é tão forte que se não fosse controlado, D’us derramaria Sua Divina luz em quantidades tais que mesmo o propósito da Criação seria abolido. Ao invés de dar aos seres humanos a oportunidade de atingir a perfeição, de batalhar e de aprender a lutar por si mesmo, Ele teria nos concedido a recompensa sem que precisássemos levantar um dedo. Embora pareça tentador viver uma vida de tranqüilidade, sem desafios ou obstáculos para superar, bem sabemos que isto não seria verdadeiramente satisfatório. Nos sentiríamos roubados de nossa dignidade, se nos fosse negada a chance de conseguir algo por nós mesmos. Por isso, foi necessário para D’us se restringir, ou seja, refrear Seu amor abundante, dando-nos a chance de "conseguir através de esforço".

Isso de modo algum diminui o amor, pelo contrário, aumenta-o, tornando-o mais real. Isso é similar ao modo como os pais se sentem quando observam os filhos lutando contra a adversidade. Como desejamos aparar os golpes para eles, protegê-los da humilhação e da dor da derrota. Mesmo assim, sabemos que fazê-lo destruiria seu próprio ego, seus sentimentos de competência e segurança interior.

Esta é a aplicação dos atributos de bondade e força de D’us. Sua bondade deseja derramar sobre nós o maior bem imaginável. O atributo da força, restrição, impede que Sua bondade nos sobrepuje, nos sufoque. Poderíamos dizer que é a qualidade de força que possibilita que o atributo da bondade se torne significativo e eficaz, dando-nos o espaço necessário para criar nossa própria eternidade.

Yitschac personifica a força. É sua missão facilitar a bondade de Avraham. Como pode fazer isso? Ele "sai" do contexto; retrai-se e permite que a memória e o legado de seu pai sejam perpetuados. Poderia ter criado seus próprios seguidores, ter uma "plataforma de partido" de acordo com sua vontade, mesmo assim escolheu a negação de sua identidade para que o mundo recebesse uma dose adicional da bondade de Avraham. Nossos Sábios nos dizem que Yitschac era uma cópia exata do pai. Não é uma coincidência. Era seu trabalho ser seu pai.

Qual a diferença entre um poço e uma fonte? Um poço retira a água de uma reserva específica e contém uma quantidade finita de água. Por outro lado, uma fonte é viva, tem vitalidade própria. Yitschac cavava poços, mas não simplesmente poços, abria os poços que seu pai havia cavado e lhes atribuia os mesmos nomes que seu pai. Não está vivo por seu próprio direito, está conectado à fonte de seu pai.

Em cada relacionamento do qual participou, Yitschac desempenha o papel passivo. Não é tolo ou incompetente. Pelo contrário!

Dominou a habilidade de se ocultar nos bastidores, de fazer crer que não está ali. Mesmo assim permanece, sutilmente trazendo à tona o melhor aqueles à sua volta, deixando que se sintam importantes, deixando-os sentir que conquistam, enquanto realizam ações para ele. Esta é de fato um grande sinal de força!

Nós, como pais, devemos extrair a lição daquele pai que nossos Sábios dizem ser "o verdadeiro pai", aprendendo a soltar nossos filhos, a não dominar cada decisão que eles tomam. Como uma sombra, devemos adejar cuidadosamente, tocando e não tocando, para que eles possam vir a descobrir sua própria identidade por si mesmos. Esta é a verdadeira bondade, aquela que imita a bondade Divina.

Seleções do Midrash

Os gêmeos diferentes

Ter um filho! Um filho a quem eles pudessem ensinar e educar para se tornar um verdadeiro servo de D’us! Este era o maior anseio e a prece de Yitschac e Rivca durante muitos longos anos.

Rivca estava casada com Yitschac há vinte anos, porém ainda não tinham filhos. Visitaram, então, o monte de Moriyá, o mesmo local onde Avraham elevou Yitschac sobre o altar.

Ambos, Yitschac e Rivca, oraram. Yitschac rezou: "D’us, faça com que os filhos que me darás nasçam desta virtuosa mulher!". Rivca rezou: "D’us, faça com que os filhos que me concederás sejam deste tsadic!". A oração de Yitschac foi aceita, e Rivca engravidou.

Agora, finalmente, Rivca teria um filho.

Durante a gravidez, Rivca tinha dores de tal intensidade que pensava que certamente iria morrer. Sentia como se duas forças travassem batalha em seu útero, tentando matar uma a outra. Ao passar por uma casa de estudos ou de orações, sentia movimentos internos naquela direção. Ao passar por um templo de idolatria, havia outro movimento, desta vez nesta direção.

(Apesar de Yaacov e Essav estarem no útero de Rivca, e ainda não possuírem mentes próprias, suas inclinações naturais já se manifestavam, mesmo antes do nascimento).

Confusa, Rivca perguntou à outras mulheres: "Vocês já sentiram algo parecido quando estavam grávidas?"

"Não", retrucaram.

Por isso, foi consultar Shem, filho de Nôach, um profeta de D’us e lhe perguntou: "Podes me dizer por que sofro dores tão fortes?"

O profeta respondeu em nome de D’us:

"Não temas!," explicou ele. "Estás carregando gêmeos em teu ventre. Eles lutam entre si. Um dia, o mais velho servirá ao mais novo, mas não quer servi-lo. Por isso, brigam dentro de ti."

Quando os gêmeos nasceram, eram completamente diferentes. A cabeça e o corpo do gêmeo mais velho eram tão peludos que parecia vestir um casaco. Sua pele também tinha uma forte coloração avermelhada.

Chamaram-no Essav, significando "o pronto", pois nascera com cabelos e pelagem completamente desenvolvidos, como de um adulto. (O nome Essav deriva de ‘assui’, feito).

O bebê mais novo, porém, tinha a pele lisa. Foi chamado de Yaacov. Yaacov vem da palavra ‘ekev’, calcanhar. Assim que Essav nasceu, tentou evitar que Yaacov viesse ao mundo, destruindo o útero de sua mãe. Yaacov, porém, segurou firmemente nos calcanhares de Essav, surgindo depois dele.

Essav recebeu seu nome dos pais, mas Yaacov ganhou este nome diretamente de D’us.

Quando completaram oito dias, seu pai, Yitschac, fez a milá (circuncisão) em Yaacov, mas teve medo de fazê-la em Essav.

"A pele de Essav está muito vermelha," preocupou-se Yitschac. "Esperarei até ficar mais velho e o sangue sair da superfície da pele. Talvez seja perigoso fazer a milá nele agora."

Essav cresceu, mas sua pele continuou vermelha. Yitschac então compreendeu que essa era a cor natural de Essav. Decidiu pois, fazer-lhe a milá no dia do Bar-mitsvá. Mas quando Essav completou treze anos, recusou-se e disse:

"Não permitirei que ninguém me faça a milá."

Os gêmeos crescem

Até completarem treze anos, a diferença entre Yaacov e Essav não era aparente.

Ambos foram ensinados pelo pai, Yitschac, e seu avô Avraham. Quando cresceram, o pai também mandou-os estudar na yeshivá de Shem e Ever. Essa yeshivá havia sido fundada pelo tsadik Shem, filho de Nôach. Junto com seu bisneto Ever, transmitia aos alunos o conhecimento de Torá que Adam aprendeu com o anjo de D’us no Jardim do Eden.

Ao atingirem a idade de treze anos, tornou-se evidente que tinham estabelecido diferentes objetivos na vida.

Os arbustos de murta e espinhos crescem lado a lado. Enquanto ainda não se desenvolveram e são tenros, parecem ser de espécies idênticas. Mas uma vez que crescem e amadurecem, a diferença entre eles torna-se patente. Um produz ramos que exalam um doce aroma, o outro, espinhos.

O gêmeo menor, Yaacov, desfrutava do estudo da Torá. Passava o dia todo dedicado aos estudos e esforçava-se para cumprir os ensinamentos de seus pais e mestres.

Essav, no entanto, não estava interessado em aprender. Quando ficou mais velho, escapava da yeshivá, perambulando pelos campos e florestas e caçando animais.

Ele não apenas capturava animais, mas também enganava as pessoas com sua língua afiada e loquaz.

Essav fazia acreditar que cumpria as mitsvot, quando, na realidade, era perverso e se comportava como tal.

Ele tomava, porém, bastante cuidado em esconder do pai, Yitschac, quem realmente era. Quando seu pai lhe perguntava, "Onde esteve hoje?". Ele simplesmente mentia: "Estudei Torá no Bet Hamidrash (Casa de Estudos)," era sua resposta desonesta.

Uma das artimanhas de Essav era perguntar ao seu pai questões muito detalhadas acerca da observância das mitsvot.

"Pai, tenho um problema," declarava.

"Qual é?" perguntava-lhe Yitschac.

"Como separa-se o dízimo do sal ou da palha?"

Com esta pergunta, Essav queria demonstrar falsamente que cumpria as mitsvot num nível muito mais elevado do que o exigido, pois não é necessário separar o dízimo de sal ou palha.

Muitas vezes, quando um hóspede deixava a casa de Avraham e Yitschac, Essav o seguia. Quando se encontrava a sós com o hóspede nas montanhas ou nos bosques, matava-o e roubava seu dinheiro.

Havia uma só mitsvá que Essav observava cuidadosamente: honrar seu pai. Todos os dias, quando ia para o campo caçar, trazia para casa carnes deliciosas para seu pai, Yitschac.

O próprio Essav sempre servia pessoalmente a carne a seu pai. Antes de entrar no quarto do pai, tirava as roupas de caça e vestia suas melhores roupas, como se fosse servir a um rei.

Há uma coisa boa que podemos aprender do perverso Essav: o quanto devemos honrar nossos pais!

Por que Yitschac amava Essav?

Yitschac foi mal conduzido até certo ponto pelas pretensões e simulacros de Essav, e também porque Essav oferecia a seu pai a saborosa carne dos animais que caçava. Não obstante, Yitschac percebeu que os feitos de Essav ficavam além dos padrões requeridos. Ainda assim, demonstrava-lhe amor. Quais eram seus motivos para ser tão afeiçoado a Essav?

Yitschac temia ser duro com ele, pensando: "Se seus atos não são como deveriam ser, apesar de ter-lhe devotado afeição, quão piores e mais depravados seriam se eu o tivesse totalmente rejeitado e demonstrado-lhe ódio!" Assim, com amor e carinho, Yitschac esperava atrair Essav para o serviço a D’us.

Ademais, Yitschac previu que Essav teria um descendente honrado, o profeta Ovadyá (que era um edomita convertido), e portanto, amou-o, em função do futuro.

Rivca, por outro lado, amava apenas Yaacov, porque conhecia a profecia que Shem lhe transmitira antes do nascimento dos gêmeos; que apenas o mais jovem seria digno e valoroso.

Essav vende seus direitos de primogênito para Yaacov

Todos souberam da triste notícia. Avraham havia falecido.

Yitschac sentou-se enlutado por seu pai. Yaacov foi pessoalmente à cozinha para preparar lentilhas, uma vez que costuma-se servir lentilhas aos enlutados.

Havia apenas uma pessoa na casa que não fora afetada pela tragédia daquele dia: Essav, que desaparecera pelos campos, como de costume.

Neste dia, Essav cometera o pecado de tomar uma moça que estava comprometida a outra pessoa. Também matou Nimrod. Aconteceu como se segue:

Essav estava caçando no campo, quando, à distância, percebeu os soldados do rei Nimrod rodeando-o. Nimrod vestia os preciosos trajes que D’us fez para Adam. Essav desejou imediatamente essas vestimentas. Aguardou até que os soldados de Nimrod deixaram o rei, protegido por apenas dois homens. Aproximou-se sorrateiramente de Nimrod, atacando-o pelas costas e decapitando-o. Os dois guardas retaliaram, porém Essav também os matou. Essav roubou os preciosos trajes de Nimrod e voltou para casa, exausto por causa da matança. Estava preocupado com os descendentes de Nimrod, que poderiam vingar a morte do pai e assassiná-lo.

Quando Essav entrou, encontrou Yaacov na cozinha. Essav provocou-o: "Por que você se dá ao trabalho de preparar esse prato tão elaborado? Há uma imensa variedade de deliciosos alimentos que podem ser consumidos sem requerer tanto preparo: peixes, insetos e besouros, porco, e assim por diante!"

"Você com certeza já escutou que nosso avô Avraham faleceu, e nosso pai Yitschac está de luto." Retrucou Yaacov. "Por isso estou cozinhando lentilhas, o alimento dos enlutados, para dar a nosso pai."

"O quê? O velho Avraham já foi arrancado deste mundo excitante? Não viveu centenas de anos?" – debochou Essav. "Ele se foi para sempre, para jamais se levantar!"

"Estou morrendo de fome! Alcance-me rápido estas lentilhas para comer, quero devorar tudo isto."

"Espere," respondeu Yaacov. "Primeiro você tem que concordar em me dar algo em troca. Você é o filho mais velho e por isso tem o privilégio de servir como cohen (sacerdote) por nossa família."

Antes da Outorga da Torá, o primogênito de cada família era como um cohen. Isto significa que ele tinha o privilégio de oferecer sacrifícios pela família e era honrado como cohen. Porém, a idéia de que o perverso Essav, que cometia tantos atos de maldade, estivesse encarregado do serviço de D’us como representante da família, preocupava a Yaacov.

"Certamente, não é adequado que ele sirva como cohen", pensava Yaacov.

"Essav," chamou ele. "Quero servir como cohen em seu lugar. Venda-me seu direito de primogenitura, o direito de ser cohen, e lhe darei a comida que tanto deseja."

"Concordo," foi a resposta imediata de Essav. "Agora, despeje a comida direto na minha garganta!", exigiu Essav.

Yaacov alimentou o irmão com pão e a sopa de lentilha vermelha que estava cozinhando.

Então Yaacov disse: "Sabe por que eu queria atuar como primogênito em seu lugar? Porque você é um assassino e um malvado. Por que você não pode se sentar em paz na tenda e estudar como seu pai e seu avô. Então poderá continuar a trazer os sacrifícios, como todos os primogênitos."

"Não me interessa servir a D’us," riu Essav. "Pode ficar com o direito de primogênito, se assim deseja. A Torá que você tanto estuda e as mitsvot que cumpre com tanto cuidado, para mim não têm utilidade. Prefiro uma boa comida e boa diversão."

Essav continuou a caçoar de Yaacov. Em seguida, voltou para o campo, continuando suas más ações.

Yitschac e Rivca viajam para a terra dos pelishtim

Pouco depois, a fome assolou a terra de Canaã. A comida era escassa. Yitschac pensou em viajar para o Egito, como seu pai Avraham fizera noutra época de fome. D’us, porém, ordenou que agisse diferente.

"Nasceste aqui, nesta santa terra de Israel," disse D’us. Não a deixe, fique aqui! Vou protegê-lo e abençoá-lo."

Yitschac obedeceu. Permaneceu na cidade de Guerar, na terra de pelishtim (que fazia parte da terra Israel).

Os pelishtim repararam que Rivca era uma mulher muito bonita e perguntaram para Yitschac:

"Quem é esta mulher que está com você?"

Yitschac percebeu o motivo da pergunta: "Se eu disser a eles, ‘É minha mulher’, pensou Yitschac, os pelishtim podem me matar para ficarem com ela." Por isso respondeu: "É minha irmã."

O rei Avimêlech também ouviu falar de Rivca. Teria gostado de levá-la para o palácio, mas lembrou- se de como D’us ficara irado com o último rei Avimêlech, castigando-o por raptar Sara. Talvez Rivca fosse realmente casada com Yitschac e D’us o castigasse também por levá-la a seu palácio.

Por isso, o Rei Avimêlech observou Yitschac e Rivca por um longo tempo para descobrir se agiam como marido e mulher. Chegou a conclusão que eram, na verdade, casados, e então o Rei Avimêlech chamou Yitschac a seu palácio.

"Rivca é tua mulher!" – acusou-o ele. "Por que mentiste? Quase ordenei a meus guardas para trazê-la a meu palácio."

Yitschac explicou suas razões para Avimêlech. "Se tivesse lhe dito a verdade," disse ele, "poderia ter perdido a vida. Em seu país, as pessoas matam o marido se querem ficar com a mulher."

O rei Avimêlech prometeu: "De agora em diante, estarão sob minha proteção."

Imediatamente, foi emitida uma proclamação real: "De agora em diante todo aquele que ousar tocar em Yitschac ou sua esposa, será condenado à morte."

Agora todos compreenderam que Yitschac e Rivca eram tsadikim especiais. Que outros estrangeiros já haviam recebidos a proteção do rei?

Deste modo, D’us tornou Yitschac famoso no mundo inteiro.

Todos ouviram também falar de Yitschac porque ele se tornou fabulosamente rico na terra dos pelishtim. Como isto aconteceu?

Durante o tempo em que Yitschac viveu com os pelishtim, semeou campos. Quando chegou o tempo da colheita, colheu a safra e a mediu. Logo, separou um décimo e o destinou aos pobres. Por ter distribuído maasser (um décimo dos seus ganhos) entre os pobres, D’us recompensou-o com riquezas. Na próxima vez em que semeou, colheu cem vezes mais do que havia plantado.

Os servos do Rei Avimêlech enchem os poços que Yitschac escava

Quando os servos do Rei Avimêlech viram como Yitschac ficara rico, sentiram inveja.

Maldosamente, entupiram todos os poços que pertenciam a Yitschac. Estes poços haviam sido cavados pelo pai de Yitschac, Avraham. Yitschac ordenou aos servos: "Limpem meus poços de toda terra e sujeira com que os servos de Avimêlech os encheram."

O Rei Avimêlech se deu conta que a inveja de seus servos poderia lhe trazer problemas. "Vá embora," ordenou ele a Yitschac. "Você ficou muito mais rico que nós."

Yitschac obedeceu, saindo da vizinhança da corte do rei, apesar de permanecer na terra dos pelishtim.

Assim que havia se estabelecido, ordenou aos servos:

"Cavem a terra. Talvez achemos novos poços de água."

Os servos cavaram fundo e encontraram um manancial. Assim que souberam disso, os servos de Avimêlech afirmaram:

"Na realidade, este poço pertence a nós, porque Yitschac achou-o em nossa terra."

Eles expulsaram os servos de Yitschac para longe do poço e o tomaram para si.

Mas algo estranho aconteceu!

Quando os servos do Rei Avimêlech tentaram extrair água do poço, não saía água. O poço havia secado.

Então, os servos de Avimêlech devolveram o poço aos servos de Yitschac. Assim que Yitschac recuperou a posse, este novamente se encheu de água.

Yitschac chamou este poço de Essec, que significa "luta", referindo-se ao fato de os servos de Avimêlech terem lutado por este poço.

Yitschac ordenou aos servos:

"Cavem novamente". Desta vez, acharam um segundo poço e novamente os servos de Avimêlech o tiraram dos servos de Yitschac. Mais uma vez D’us os puniu e, quando tentaram tirar água do poço, este permaneceu seco. Quando os servos de Avimêlech viram isso, devolveram o controle do poço a Yitschac.

Yitschac chamou este poço de Sitna. Sitna quer dizer "distúrbio", porque os servos de Avimêlech o haviam perturbado, tirando-lhe a posse do poço.

Yitschac então ordenou aos servos que voltassem a cavar e estes encontraram um terceiro poço. Desta vez, os servos de Avimêlech não tentaram tirar-lhe o poço. Haviam aprendido a lição!

Yitschac chamou este poço de Rechovot, que significa "espaço amplo" ou "alívio", pois, desta vez, os servos de Avimêlech pararam de discutir com ele; finalmente, encontrou paz e alívio das contendas.

O que simbolizam os três poços

Tudo o que aconteceu aos nossos antepassados, Avraham, Yitschac e Yaacov, foi um sinal de que algo similar aconteceria mais tarde a seus filhos, o povo judeu.

Cada poço que Yitschac cavava simbolizava um Bet Hamicdash, Templo Sagrado, (pois, assim como a água de um poço dá vida, a Shechiná, Divindade no Bet Hamicdash deu vida para o mundo).

1. O primeiro poço, Essec, representa o primeiro Bet Hamicdash, que as nações atacaram e finalmente destruíram.

2. O segundo poço, Sitna, simboliza o segundo Bet Hamicdash. Durante a época do segundo Bet Hamicdash, as nações não-judias tinham ódio dos judeus. Este sentimento os levou a destruir o Bet Hamicdash.

3. O terceiro poço, Rechovot, simboliza o terceiro Bet Hamicdash. Quando D’us nos enviar Mashiach, haverá paz no mundo e então Ele construirá o terceiro Bet Hamicdash.

A bênção do primogênito

Em sua velhice, Yitschac ficou cego.

Por que D’us fez com que o tsadic Yitschac ficasse cego? Uma razão é que D’us não concordou com o plano de Yitschac de dar a bênção do primogênito a seu filho mais velho Essav. Portanto, D’us fez com que Yitschac ficasse cego, para que Yaacov pudesse entrar sem ser reconhecido pelo pai. Ele então receberia a bênção de primogênito que merecia.

Yitschac temia estar próximo da morte. Chamou o filho mais velho, Essav, e lhe disse:

"Desejo abençoá-lo antes de morrer.

"Vá aos campos e cace um animal. Mate-o como ordena a Torá. Prepare-me uma boa refeição. Então merecerás a bênção por ter honrado seu pai."

Rivca ouviu as palavras de Yitschac. Chamou seu filho mais novo, Yaacov, e lhe disse:

"Seu pai quer abençoar seu irmão mais velho, Essav. Mas sei por uma profecia que a bênção cabe a você, porque Essav não a merece.

"Agora, vá até seu pai e obtenha a bênção antes que seu irmão volte. Prepararei a carne de dois cabritinhos novos (esta carne tem um sabor igual a de animal de caça). Seu pai está cego. Pensará que você é Essav e irá abençoá-lo."

Yaacov estava com medo.

"O que acontecerá se meu pai tocar minha pele?" – perguntou à mãe. "Sentirá que minha pele é lisa, e não cabeluda como a de Essav. Sei que Essav é mau e não merece a bênção, mas não quero que meu pai me amaldiçoe quando descobrir que o enganei."

Rivca respondeu: "Ordeno que você me ouça porque sei através de profecia, que nenhum mal lhe acontecerá. Cobrirei seu corpo com pêlo de cabra para que pareça cabeludo."

Yaacov começou a chorar. Rivca tentou acalmá-lo, dizendo:

"Yaacov, deves ir e obter a bênção, mesmo que te seja difícil. Um dia, serás o patriarca de uma nação sagrada, o povo judeu. Vai por consideração a eles, para que eles sejam abençoados."

Para certificar-se de que Yitschac ficaria convencido de que se tratava de Essav, Rivca deu a Yaacov um dos trajes de Essav que guardava para ele. "Vista esta roupa. Ela tem o cheiro do campo" disse para Yaacov. "Seu pai então acreditará que você é Essav."

O maravilhoso traje de caça de Essav

A roupa que Rivca deu a Yaacov era extraordinária e maravilhosa.

Era feita de pele de cobra. Sobre ela, estavam pintados todos os animais do mundo de forma tão realista que estes pareciam vivos. Quando este traje era usado por um caçador, os animais sentiam-se atraídos pelo seu correspondente animal pintado na roupa. Inevitavelmente, os animais se aproximavam das figuras até chegarem bem perto da pessoa que usava a roupa, e se mostravam tão mansos que esta podia facilmente capturá-los.

Este maravilhoso traje de caça havia sido foi feito por D’us para Adam. Mais tarde, caiu nas mãos do rei Nimrod. Essav matou Nimrod e ficou com a roupa para si.

Essav somente vestia esta roupa quando ia para os campos caçar, mas quando não a estava usando, deixava-a aos cuidados de sua mãe, Rivca. Neste dia, Essav não vestiu este traje porque seu pai havia lhe ordenado que fosse caçar com suas armas, e não com a roupa.

Yaacov é abençoado pelo pai

Rivca cobriu também o pescoço liso de Yaacov com pele de cabra para que parecesse tão cabeludo quanto Essav. Deu a Yaacov os dois cabritos que havia preparado e Yaacov entrou no aposento do pai tremendo e assustado.

"Quem é você, meu filho?" – perguntou-lhe Yitschac. Como era cego, não tinha certeza sobre quem havia entrado no aposento.

"Sou Essav, seu primogênito," respondeu Yaacov.

Yitschac ficou confuso. A voz soava como a de Yaacov e não como a de Essav. Além disso, este filho falava cortesmente e usava o nome de D’us, enquanto Essav usava linguagem rude. Como então podia ser Essav?

"Chegue mais perto. Aproxime-se, quero tocá-lo!" ordenou Yitschac.

Yitschac tocou a pele de Yaacov. Era cabeluda como a de Essav, pois estava coberta com o pelo do cabrito que a mãe havia posto.

Isto convenceu Yitschac de que era realmente Essav que estava diante dele. Comeu a comida que Yaacov trouxera e logo em seguida o abençoou.

Yitschac abençoou Yaacov com as seguintes palavras:

"Que D’us te dê o melhor orvalho que cai do céu e as melhores fontes da terra para regar teus campos. Que te dê muito cereal e vinho."

"As outras nações te servirão e serás o senhor sobre teus irmãos. Quem te amaldiçoar, será amaldiçoado e quem te abençoar, será abençoado."

Essav regressou

Yaacov estava pronto para deixar o aposento quando percebeu Essav se aproximando.

Essav não devia encontrá-lo! Rapidamente, Yaacov se escondeu atrás da porta; quando Essav entrou, ele saiu.

"Aqui estou com o animal que cacei para ti," anunciou Essav para o pai.

"Como pode ser?" perguntou Yitschac tremendo. "Alguém esteve aqui, serviu-me comida e o abençoei. Certamente, D’us é que fez com que isso acontecesse, e esta pessoa deve ser aquela que realmente merece a bênção."

Essav começou a vociferar, desapontado.

"Foi Yaacov, tenho certeza," exclamou. "ele enganou-me duas vezes! Primeiro, apoderou-se da minha primogenitura e agora ficou com minha bênção."

Yitschac respondeu: "Se você concordou em dar a Yaacov o direito de primogênito, a bênção, então, pertence realmente a ele, Yaacov."

Essav suplicou ao pai para abençoá-lo também. Yitschac respondeu: "Abençoar-te-ei também, mas não posso fazer-te senhor de seu irmão. Já dei a Yaacov esta bênção."

Por isso, Yitschac abençoou Essav assim: "Você terá sucesso quando for para a guerra, mas não poderá vencer seu irmão. Só se os descendentes de seu irmão Yaacov transgredirem a Torá, seus descendentes poderão governar sobre eles."

Yaacov parte rumo a Charan

Essav odiava Yaacov com toda a alma por ter tirado "sua" bênção. Estava determinado a matar o irmão. Rivca, preveniu-o: "Não fique aqui! Vá embora até que a raiva de Essav passe."

Os pais de Yaacov ordenaram-lhe:

"Viaje para a cidade de Charan, até Lavan (irmão de Rivca, tio de Yaacov). Procure uma boa esposa das filhas de Lavan."

Rivca pensou: "Quando Yaacov voltar com a esposa, Essav se reconciliará novamente com ele."

Vocês acham que ela estava certa?

Comentário

 

Poços profundos

Esta porção nos conta sobre Yitschac cavando poços, que significa extrair águas que existem no interior da terra. O chão e as pedras que as ocultam só precisam ser retirados para revelar a riqueza lá contida.

Quando as águas eram finalmente alcançadas, os inimigos fechavam os poços ou então os tomavam para si. Apesar de tantos contratempos, Yitschac não desanimava e continuava cavando. Essa história demonstra seu modo de vida espiritual.

Cavar poços denota a elevação do objeto a um nível mais alto. Assim era Yitschac: elevava o mundo para o Divino, uma Divindade intrínseca em cada aspecto da vida material que apenas deve ser descoberto.

Yitschac, um dos Patriarcas e construtores da nação judaica, nos ensina que devemos nos devotar mesmo àqueles que não demonstram potencialidades externas de santidade, que parecem ser apenas poeira e pedras; precisamos nos esforçar para remover os obstáculos que ocultam fontes de águas naturais.

Uma panela de grãos

por Rabi Shlomo Freundlich

 

Na porção da Torá desta semana, lemos a respeito do nascimento de Yaacov e Esaú, e das diferentes naturezas e interesses caracterizando cada um dos rapazes. Yaacov é o diligente estudante de Torá, ao passo que Esaú é fascinado pelo ar livre, demonstrando grande talento para a caça e para fazer armadilhas para animais. Entretanto, com o desenvolvimento dos rapazes, Esaú desvia-se completamente do caminho moral e não vê restrições em sua ânsia para satisfazer seus desejos.

O Midrash nos diz que no mesmo dia em que Avraham morreu, Esaú cometeu alguns dos crimes mais abjetos, incluindo o pecado capital de assassinato e estupro, voltando para casa naquela noite completamente exausto, à beira de um colapso. Isso é o que a Torá quer dizer quando nos conta que Esaú chegou cansado do campo (Bereshit 25:29). O faminto Esaú percebe seu irmão Yaacov preparando um delicioso cozido de lentilhas (que seria servido a Yitschac durante o seudá havra’ah, a primeira refeição servida aos enlutados assim que voltam do cemitério). Com seus modos tipicamente rudes, Esaú implora a Yaacov que lhe dê uma porção do saboroso cozido.
Yaacov, percebendo que está em vantagem sobre Esaú, oferece-lhe a comida em troca do bechorá, o direito espiritual de primogenitura reservado ao primogênito. Esaú reflete sobre o oferecimento cinicamente: "De qualquer forma vou morrer algum dia, então de que me serve o direito de primogenitura?"(ibid. 25:32). Incrivelmente, Esaú dispensa a eternidade e a distinção espiritual por uma panela de grãos! Uma panela de grãos! Está louco?

Melhor do que lidar com Esaú e seu distorcido senso de valores, olhemos interiormente e analisemos se nós também não desperdiçamos oportunidades de adquirir a eternidade por nossa própria versão de "uma panela de grãos". Nossos rabis nos falam sobre o imenso mérito que a pessoa recebe por responder com a frase "Y’hei sh’mei rabba m’vorach – Bendito seja Seu santo nome" durante o recital da prece de kadish. Tal resposta tem o poder de anular toda uma vida de severos decretos ordenados contra nós.

Mas quantos de nós conversamos bobagens com nossos amigos, ao invés de nos atermos ao poderoso momento espiritual? Quando confrontados com a escolha de ir à sinagoga ou permanecer na cama prolongando nosso sono, qual escolha fazemos?

Quando o rabi estuda uma breve halachá entre os serviços de Minchá e Ma’ariv, corremos para escutar as lições, ou saímos para escutar as novidades?

Não estaremos também jogando fora as chances da eternidade, em troca de nossa "panela de grãos?"

Esaú pode ter sido insano, mas também podemos encontrar um pouco de Esaú dentro de nós, que devemos fazer de tudo para eliminá-lo.

Que D’us nos conceda a sabedoria para servi-Lo fielmente e fazendo a escolha certa.

Aprendendo a rir

Por Yanki Tauber- baseado nos ensinamentos do Lubavitcher Rebe

Se não gosta de generalizações, pule este artigo. O que vem a seguir é uma versão simplificada e condensada da história da vida de um homem típico.

Começamos uma rebelião, esticando a correia, buscando uma luta com aquilo que chamamos vida. "Este é o mundo para o qual me trouxeram?" bradamos aos mais velhos. "É o melhor que puderam fazer? Nós mudaremos isso, superaremos aquilo, destruiremos o mal, esperem só para ver!"

Então saímos e atacamos, e por dez, vinte anos, temos força total. Sofremos, labutamos, sofremos em agonia, rejubilamo-nos com as vitórias, gritando de alegria, de volta à batalha. Mas tudo isso, é claro, depois de um tempo começa a cansar. Passamos a perceber como nossas vitórias são fúteis, como nossas agonias são superficiais. "Vá devagar," começamos a nos dizer mais e mais vezes. "Relaxe."

Aprendemos a saborear os pequenos prazeres da vida. Ei, nos dizemos (e à geração mais nova, que não nos dá ouvidos), a vida é isso. Encontre seu cantinho, pague suas contas, convivemos com os outros, escutamos música, relaxamos.

Por uns dez, talvez vinte anos, relaxamos. E então, um belo dia, percebemos o que está faltando: não estamos mais nos divertindo! E passamos a refletir: é só isso? Se o caso todo é apenas alguma paz e sossego, então não ter nascido de uma vez teria sido bem pacífico e sossegado, não?

O que vem depois? Podemos ficar encravados aí, na rotina de uma crise de meia-idade que se estende pela vida afora. Ou podemos redescobrir a exuberância da vida – embora num lugar mais profundo e intrínseco que em nossa juventude caçadora de dragões.

Na Torá, estes dois estados do ser estão incorporados em duas personalidades: Nôach e Yitschac.

Nôach (Noé) foi um sobrevivente. Em um mundo assolado pela corrupção, ele permaneceu verdadeiro. Quando o Grande Dilúvio engolfou a terra, Nôach encontrou abrigo na Arca, dentro de cujas paredes prevalecia um idílio quase messiânico. O leão vivia sob o mesmo teto que o cordeiro, e a violência que rugia lá fora era mantida à distância.

Na Torá, um nome é tudo: decifre o nome de uma pessoa ou de um objeto, e descobrirá sua essência. Nôach em hebraico significa "sossego" e "tranqüilidade." Conhece alguns aposentados felizes? São "Nôachs", cada um deles.

Yitschac (Isac) – em hebraico significa "riso". No caso de Yitschac, a conexão com a história de sua vida não é aparente de imediato. Em vista disso, ele dificilmente poderia ser considerado a figura exuberante que o nome sugere. Na verdade, ele é quase invisível; embora seja dos três o Patriarca que mais viveu, a Torá quase nada nos conta sobre ele. Há um capítulo sobre como seu pai preparou-se para sacrificá-lo, um capítulo sobre como um servo encontrou uma esposa para ele, e um capítulo sobre como sua mulher e filho enganaram-no. Mas o que Yitschac faz?

Bem, sabemos que ele trabalhava no cultivo da terra – o único dos três Patriarcas a fazê-lo (Avraham e Yaacov eram pastores). E há uma narrativa detalhada dos poços que ele cavou.

Yitschac nos ensina que, em última análise, o riso da vida vem – paradoxalmente – do trabalho que se auto-anula. Se deseja que escrevam biografias a seu respeito, torne-se um guerreiro. Se está procurando tranqüilidade, torne-se pastor. Mas se é o júbilo que busca, seja fazendeiro e cavador de poços. Are e semeie, quebrando o barro de seu mundo para persuadir a vida e fazer brotar o seu solo. Cave, mais e mais profundamente, sob a superfície de sua existência, para extrair suas fontes de deleite.

A tranqüilidade é ótima, mas não é uma razão para viver. O júbilo vem da conquista; das expedições de caça ao dragão da juventude, mas em última análise vem da auto-conquista que é a mais ardente e mais silenciosa batalha da vida. Conhece trabalhadores despretensiosos, calmos, brilhando de alegria interior? Estes são os Yitschacs do mundo.

Há uma palavra hebraica multi-facetada, toldot, que significa "broto," "produto," "conquistas" e "história de vida." O Lubavitcher Rebe enfatiza que há duas Parashiyot (porções da Torá) que se iniciam com as palavras: "Estes são os toldot da…" Há a Parashá que começa: "Estes são os toldot de Nôach" (Bereshit 6:9), e a Parashá que começa: "Estes são os toldot de Yitschac" (Bereshit 25:19). A primeira Parashá, que narra a história da vida de Nôach, é chamada de Nôach. A segunda, que é a única centralizada na personalidade de Yitschac, é chamada simplesmente de Toldot.

Sendo os nomes tão importantes, o que a Torá está nos dizendo? Que a história da vida de Nôach é a história de Nôach; mas a história de Yitschac é a história da própria vida. O homem pode começar como um potro selvagem e amadurecer até chegar a ser um Nôach, mas ao final deve descobrir seu Yitschac interior.

E quanto à mulher? Com as mulheres ocorre o mesmo – só que não lhes demora tanto perceber isso. Mulheres riem naturalmente.

É só um disfarce

por Yanki Tauber

Você vem sempre aqui?"

"Não. Quero dizer, venho todo dia…"

"Por que disse ‘não’?"

"Porque detesto vir aqui. Sinto-me como um impostor… Não é isso que sou."

"Então por que o faz?"

"Minha mãe mandou."

Imagine como Yaacov deve ter se sentido vestido com as roupas de Essav (Essú), esgueirando-se no quarto do pai e fingindo, para receber as bênçãos que pertenciam a seu irmão. O puro, sensível Yaacov, que passara toda sua vida encerrado nas "tendas de estudo," vestindo roupas de caça e pondo cabelo falso nos braços e atrás do pescoço para procurar "o orvalho do céu e a melhor parte da terra." Para que, afinal, Yaacov precisava do "orvalho do céu e da melhor parte"?

Na verdade, Yitschac planejava dividir o mundo entre seus dois filhos. Essav, o empreendedor "homem do mundo" receberia seus recursos materiais, e o venerável Yaacov herdaria o legado espiritual de Avraham. Yaacov presidiria as tendas de estudo, onde se ensina e se aprende a Divina sabedoria, e onde uma placa na parede daria a Essav os créditos por suas generosas contribuições para apoiar estes esforços virtuosos.

Mas Rivca interveio. Não, disse ela, o mundo material não pode ser entregue aos materialistas. São os Yaacovs do mundo – os espirituais que desdenham a busca pelo poder e pela fortuna – que devem exercer o poder e controlar a riqueza. "Venha cá," disse ela ao filho. "Vista as roupas de seu irmão e entre no quarto de seu pai – não podemos permitir que Essav receba as bênçãos."

"Mas o que farei com as propriedades? Não sou homem de negócios."

"Graças a D’us! Imagine como seria o mundo se os assuntos comerciais fossem geridos por homens de negócios!"

Passaram-se muitos anos. Alguns dos descendentes de Yaacov tornaram-se eruditos, místicos e homens e mulheres de espírito. Outros vestiram ternos de executivos, aventais de laboratório, ou macacões de artesãos. A princípio, os últimos sentiram-se desconfortáveis em suas roupas estranhas. Mas conforme as gerações se sucediam, estes de certa forma tornaram-se mais à vontade com as vestes.

Então, cada uma das gerações tratou de contar aos filhos a história do judeu nas roupas de caçador. Lembrem-se, disseram, não é isso que somos. Isso é uma fantasia, um disfarce. Estamos fazendo isso somente porque nossa mãe assim nos ordenou.

Fonte: http://www.chabad.org.br/

 

 

 

 

 

 

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