O Toque do Shofar e seus simbolismos – Parte I

Ocupados com nosso cotidiano, tendemos a ficar indiferentes aos verdadeiros objetivos de nossa vida, como que imersos em sono profundo. Eis que, repentinamente, um som penetrante se eleva da terra e reverbera, em sua magnitude, pelos céus. É o chamado do shofar, um dos instrumentos mais capazes de nos despertar, motivar ao arrependimento e fazer lembrar que nunca é tarde para recomeçar.

O som do shofar é uma prece sem palavras cuja eloqüência expressão alguma seria capaz de transmitir, trazendo consigo uma mensagem de redenção e arrependimento para todo o Povo de Israel.

Talvez seja esta a razão de um dos momentos mais emocionantes da celebração das Grandes Festas ser o toque do shofar. É este som que, com seu clamor, desperta nossas almas para um compromisso renovado e mais profundo com nossos atos e missão de vida. É como um alerta a nos lembrar que estes são os dias do Julgamento Celestial e que é preciso nos conscientizarmos da presença do Criador.

Segundo Maimônides, o som do shofar parece dizer: "Acordai de vosso sono e ponderai sobre os vossos feitos; lembrai-vos do Criador e voltai a Ele em penitência. Não sejais daqueles que perdem a realidade de vista ao perseguir sombras ou esbanjam anos buscando coisas vãs que não lhes trarão proveito. Olhai bem para dentro de vossas almas e considerai vossos atos; abandonai os caminhos errados e os maus pensamentos e voltai a D’us, para que Ele tenha misericórdia convosco!"

Um instrumento milenar

O shofar é um dos mais antigos instrumentos de sopro utilizados pelo homem. Ao longo da história da humanidade, inventaram-se outros, mais novos, e os antigos foram sendo abandonados.

Entretanto, o shofar que hoje utilizamos é feito da mesma maneira que há milhares de anos. Na Torá, é mencionado pela primeira vez na passagem da Revelação Divina, no Monte Sinai, quando, no terceiro dia depois de Moisés ter descido: "houve uma nuvem pesada sobre o monte, e o som do shofar por demais forte, … fez estremecer todo o povo do acampamento". E continua o relato bíblico, mais à frente:… "o som do shofar foi caminhando e aumentando muito; e Moisés falava e D’us lhe respondia através do som".

Foi também ao som do shofar que caíram as muralhas de Jericó, a primeira cidade conquistada pelos Filhos de Israel depois de 40 anos no deserto. Na Antiga Israel, costumava-se tocar o shofar em várias ocasiões. Era usado para proclamar notícias alegres de paz, assim como para alertar sobre perigos iminentes ou conclamar à guerra. Durante as batalhas, o som da Teruá vinha forte a simbolizar o triunfo.

Num primeiro momento, os soldados de Israel tocavam este som de forma quebrada para intimidar o inimigo e, em seguida, tocavam-no com força, anunciando a vitória.

Tocavam-no, também, quando se ofereciam sacrifícios no Templo Sagrado; assim como para anunciar o início do mês, Rosh Chodesh; os dias de jejum e festas; as ocasiões solenes, como a aproximação da Arca Sagrada; o advento do Ano Sabático e do Jubileu; na coroação de Profetas e Reis, desempenhando destacada função tanto em assuntos públicos quanto religiosos.

De acordo com o Midrash, o shofar precisa ser curvo, indicando que devemos curvar nossos corações perante D’us. E, como sua finalidade é inspirar-nos humildade e sentimentos de arrependimento, é fácil entender porque não é ricamente ornado, como outros objetos de culto. Permitem-se apenas alguns entalhes no próprio material, não podendo haver qualquer pintura em sua haste. Se porventura, houver algum ornamento, deve ficar apenas do lado externo, sem perfurar as paredes. Isto indica a importância da simplicidade e humildade. Assim como o shofar se torna inadequado se qualquer adorno de ouro ou prata perfurar o osso que o compõe, também o ser humano deve manter intacto o seu interior e não deixar que algo material se aposse de sua mente e de sua alma.

Pode ser confeccionado com o chifre de qualquer animal casher, à exceção dos animais bovinos. A razão nos remete ao pecado do bezerro de ouro cometido no deserto pelos Filhos de Israel, pois, ao implorar pela Misericórdia Divina, não havemos de querer que D’us se recorde de tão desastroso evento. Por isso, dá-se preferência ao chifre de um carneiro, que nos remete à Akeidá, quando foi sacrificado um carneiro em lugar de nosso patriarca, Itzhak.

Na porção da Torá que se lê no segundo dia de Rosh Hashaná, sobre esse sacrifício, no momento em que parecia certa a sua morte, um anjo de D’us chama, dos Céus, dizendo a Abrahão: "Não estendas tua mão contra o rapaz, pois agora sei que és um homem temente a D’us".

Então, ao erguer seus olhos, Abrahão vê um carneiro preso pelos chifres, num galho próximo. Toma-o e, em seguida, oferece-o como sacrifício em lugar de seu filho". O Talmud nos ensina que D’us considera como se Itzhak tivesse sido sacrificado, pois, aos olhos do Eterno, a intenção sincera e honesta equivale a uma ação.

Em Rosh Hashaná, quando cada um de nós está sendo julgado por D’us, tocamos o shofar para invocar os méritos de Itzhak, como fonte de bênção e proteção para nós, seus descendentes. Pois o Eterno nos disse: "Façam soar para Mim um shofar feito de chifre de carneiro e Eu me lembrarei do sacrifício de Itzhak, em seu favor, e pensarei em vocês como se também estivessem prontos a oferecer suas vidas a Mim".

O ato de ouvir o shofar e de rogar pela Misericórdia Divina sempre estiveram intrinsecamente enraizados na alma judaica. Mesmo em épocas de perseguições, os judeus buscavam formas de ouvir os toques sagrados. Na época da Inquisição Espanhola, por exemplo, os conversos costumavam procurar os campos, colinas e cavernas para tocar o shofar, apesar de saber que se fossem apanhados nesse ato seriam queimados vivos. Mesmo em certos países árabes houve épocas em que os governantes proibiam aos judeus tocar o shofar pois isso os assustava, fazendo-os pensar que era o anúncio da chegada do Mashiach, que soprava o shofar da Redenção.

Os diferentes sons do shofar

Tocar o shofar não é tão simples quanto tocar uma trombeta ou outro instrumento de sopro. O homem encarregado de tocá-lo, o Baal Tokêa, precisa comprimir os lábios de uma tal maneira que é difícil até para os mais experientes. É comum fazerem-se várias tentativas antes de conseguir o som correto. Antes de tocar, o Baal Tokêa recita as bênçãos em nome de todos os presentes. É importante que a congregação escute o som do próprio shofar e não o seu eco, pois se apenas ouvir o eco, não terá cumprido a mitsvá do shofar. Este som não deve apenas ser ouvido, mas também compreendida e cumprida a sua mensagem. Por esta razão, ao seu toque devemos permanecer em silêncio, compenetrados.

Sobre o poder do toque do shofar, ensina o Baal Shem Tov: "No palácio real há muitos cômodos, cada um com uma chave própria. Há uma chave, no entanto, um único instrumento, que abre todas as portas – é o machado. O shofar é um machado. Quando uma pessoa, arrebatada pela paixão, desmonta seu coração diante do Todo Poderoso, ela consegue pôr abaixo qualquer dos portões do palácio do Rei dos Reis, Melech ha-Melachim, o Santo, Bendito é Ele".

Três sons característicos compõem os toques do shofar: Tekiyá, Shevarim e Teruá. O primeiro, Tekiyá, é um som contínuo, como um longo suspiro, e simboliza o amor do Eterno por Israel. Anuncia também a coroação de D’us como Rei do Universo. Em Rosh Hashaná celebra-se a criação de Adão, que imediatamente proclamou D’us como o Rei do Universo e, a cada novo ano, o som do shofar proclama que Ele é nosso Rei. O segundo tipo de toques, chamados de Shevarim, são três sons interrompidos, como soluços.

A Cabalá ensina que são como lamentos, o grito soluçante de um coração judeu desejoso de se conectar a D’us. Por último ouvimos o som da Teruá, composto por nove ou mais sons curtíssimos, como suspiros entrecortados em meio ao pranto, a nos despertar de nosso sono espiritual. Ensinam nossos sábios que assim como o som da Teruá abre o coração do pecador, também apazigua a ira Divina.

Os sons entrecortados do shofar – Shevarim e Teruá – lembram suspiros e gemidos abafados que penetram no coração e servem para despertar a pessoa para o arrependimento e o retorno. Além de evocar e expressar sentimentos de profundo pesar pelas más ações que cometemos no passado, seus toques são uma conclamação às armas, como um tambor de guerra que confunde nosso inimigo interno e nos estimula a não desistir de nossa batalha espiritual.

Segundo Rashi, ao tocar o shofar, o povo judeu consegue apaziguar D’us, pois quando o Eterno ouve o som da Teruá e vê nosso arrependimento, Ele Se enche de compaixão por Seus filhos, levantando-Se do Trono da Justiça para Se sentar no da Misericórdia. Como a mensagem final é a do perdão Divino, o último som, a Tekiyá Guedolá, o grande toque, é bem longo. Este som não representa soluço, suspiro ou lamento, mas um grito de triunfo e alegria; pois estamos confiantes de que D’us tenha aceito o nosso arrependimento. Pode-se notar esta mesma expressão de alegria na melodia dos versos recitados logo após os toques. Enquanto os anteriores são solenes, os que os seguem falam da alegria e do alívio que brotam após um arrependimento sincero. A Tekiyá Guedolá lembra o grande dia, quando o Grande Shofar será tocado para reunir do exílio todo o povo de Israel, com a chegada do Mashiach.

Anúncios
Esse post foi publicado em CALENDÁRIO JUDAICO. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s