Maimônides: O Rambam – Parte I

"De Moshê a Moshê, nunca houve alguém como Moshê."
                        1135-1204 (4895-4965)
 
 

Vida

No decorrer da história, houve alguns pensadores cuja influência sobre as gerações que os sucederam continua evidente até os dias de hoje. 

Rabi Moshê ben Maimon (Maimônides) ou simplesmente Rambam como é mais conhecido, foi uma destas figuras. 

Maimônides nasceu em 1135, na cidade de Córdoba, na Espanha, então sob domínio muçulmano. A cidade era um grande centro cultural, onde muçulmanos, judeus e cristãos conviviam e participavam ativamente da vida pública. 

Em 1148, no entanto, foi tomada pelos Almohads, que pregavam a restauração da fé pura Islâmica. Os judeus que não se converteram foram expulsos. Rabi Maimon, pai de Maimônides e líder da comunidade judaica de Córdova, levou sua família de cidade em cidade no sul da Espanha durante a próxima década, à medida que os Almorávidas gradualmente varriam o país. Os comentários de Maimônides sobre os dois Talmud, o de Jerusalém e o da Babilônia, bem como seus primeiros tratados, foram compostos durante aqueles anos de perseguição. 

Em 1159 chegaram a Fez, Marrocos, onde permaneceram por cinco anos. Maimônides estudou medicina e Torá durante este período, onde também compilou a maior parte de seu trabalho para o comentário da Mishná. Trabalhando às vezes sob condições difíceis, ele era com freqüência forçado a trabalhar de memória, condensando e esclarecendo as longas explicações talmúdicas da Mishná, sem ter o texto à sua frente.

Em 1164, a perseguição religiosa forçou a família a sair também de Fez. Após passarem pela Terra Santa, Rabi Maimon e sua família chegaram a Fostad, no Egito (antigo Cairo) em 1166, o ano do falecimento de Rabi Maimon. Durante os cinco anos que se seguiram, a família foi sustentada pelo irmão de Maimônides, David, permitindo que Maimônides começasse a trabalhar em sua obra Mishnê Torá. Em 1171, no entanto, David morreu num naufrágio, e Maimônides passou a exercer a medicina como forma de sustentar a família. Foi nesta conjuntura que ele deu início àquilo que mais tarde se tornaria uma carreira de sucesso como médico, chegando a servir como médico pessoal do Grande Vizir Alfadhil e do Sultão Saladin. 

Por volta de 1177, as obras eruditas de Maimônides tinham se tornado tão respeitadas que foi convidado a ser Rabino Chefe do Cairo, uma comunidade judaica grande e influente. Apesar dessas responsabilidades, ele completou a Mishnê Torá logo depois e, dez anos mais tarde, seu Guia para os Perplexos.

Maimônides faleceu em 1204, em Fostat, e foi enterrado em Tiberíades, Israel.

Datas e Eventos

  • 1135 (4895 após a criação do Mundo) – 14 de Nissan, nasce Moshê ben Maimon em Córdova, Espanha.
  • 1148- (4908) – Os almohávidas, seita muçulmana fanática da África do Norte, captura Córdova. A família Maimon foge e começa um período de onze anos de andanças pelo sul da Espanha e norte da África.
  • 1158/61 (4918-4921) – O Rambam começa a escrever o seu "Comentário Sobre a Mishná".
  • 1159 (4919) – A família Maimon se estabelece em Fez, capital do Marrocos.
  • 1162/63 (4922-4923) – O Rambam compõe e propaga a "Igueret Hashmad" (Epístola sobre a Apostasia).
  • 1164-65 (4924/4925) – A família Maimon deixa Fez e percorre a Terra Santa.
  • 1165-68 (4925-4928) – O Rambam completa seu "Comentário sobre a Mishná".
  • 1166 (4926) – A família Maimon deixa a Terra Santa e se estabelece em Alexandria, no Egito
  • 1166 (4926) – Falece Rabi Maimon, pai do Rambam.
  • 1167/70 (4927-4930) – O Rambam começa a escrever o "Sefer HaMitsvot" e o "Mishnê Torá".
  • 1169 (4929) – O Rambam escreve e envia a "Igueret Teiman" aos judeus do Iêmen.
  • 1171 (4931) – Rabi David, irmão do Rambam, morre afogado num naufrágio.
  • 1171 (4931) – O Rambam se estabelece em Fostad, Egito, onde vive pelo resto da sua vida.
  • 1171/74 (4931-4934) – Fim do califado de Fatimide. Saladino torna-se Rei do Egito.
  • 1177 (4937) – O Rambam é nomeado Rabino-Mor pela comunidade judaica do Cairo.
  • 1177/80 (4037-4940) – O Rambam termina de escrever o Mishnê Torá.
  • 1186 (4946) – 28 de Sivan, nasce o filho do Rambam, Rabi Avraham.
  • 1186/90 (4946-4950) – O Rambam termina o "More Nevuchim" – o "Guia dos Perplexos".
  • 13 de dezembro de 1204 – 20 de Tevêt de 4965 – O Rambam falece e é sepultado na Cidade Santa de Tiberíades, em Israel.

Mishnê Torá

Por volta do século XII da era comum, cerca de 700 anos depois que o Talmud da Babilônia tinha recebido seu formato final, havia se desenvolvido uma vasta população de judeus para quem seus argumentos, muitas vezes sutis, eram inacessíveis. Sem as explicações talmúdicas, era difícil entender corretamente a linguagem condensada da Mishná. 

Rabi Yitschakl Alfasi (o Rif) deu o primeiro passo para tornar as explicações mais acessíveis, selecionando opiniões autorais e a passagem legal relevante do Talmud, dispensando as discussões mais elaboradas e as seções de casos. Em seu formato final, a compilação do Rif foi uma tremenda realização – poucos eruditos tinham o conhecimento e a percepção necessária para estudar todo o material talmúdico para chegar às leis definitivas. Seguindo a mesma organização do Talmud – com suas freqüentes, às vezes abruptas mudanças de assunto – no entanto, a obra do Rif não era de fácil consulta àqueles que não eram bem versados no Talmud.

Maimônides procurou remediar esta deficiência compondo um código organizado por tópicos. 
Mishnê Torá, é composta de 14 livros que contêm 982 capítulos e milhares de leis. Dividiu sua obra em catorze livros, com cada livro dividido em capítulos e cada capítulo desmembrado em discussões de leis individuais. 

Esforçou-se para criar um código no qual o regulamento sobre um assunto específico pudesse ser prontamente localizado. Colecionando todas as legislações bíblicas, talmúdicas e pós-talmúdicas, e destacando as opiniões mais abalizadas, ele incluiu toda a gama da Lei Judaica – mesmo aquelas leis que, segundo a tradição, não serão novamente praticadas até a Era de Mashiach (tais como as referentes aos sacrifícios no Templo). Para facilitar o acesso e a leitura, Maimônides escolheu apresentar as leis em seu código sem referência a suas fontes ou explicações de seu arrazoado (ambos foram subseqüentemente fornecidos por outros comentaristas). 

Sua intenção, em resumo, foi fornecer um código de leis que, em suas palavras, permitiriam que "nenhum homem teria de recorrer a qualquer outro livro sobre qualquer assunto da Lei Judaica, mas que o compêndio conteria toda a Lei Oral". Portanto, ele decidiu chamá-la Mishnê Torá (Segundo à Torá). E de fato, a partir de sua publicação, a reação à obra foi extraordinária. 
Estudada e consultada por judeus de todas as partes, a Mishnê Torá logo foi aclamada como a obra mais notável da erudição judaica desde o Talmud. 

Escrita em linguagem clara e cuidadosamente elaborada, tornou-se um modelo de composição sucinta e concentrada. (Comentaristas posteriores se referem à redação das obras de Maimônides como "linguagem de ouro"). Única em seu escopo, sem par em sua composição, a obra tem se mantido como o alicerce para todas as codificações da Lei Judaica desde então. 

Guia para os Perplexos

No seu livro "Guia dos Perplexos", o Rambam mostra o caminho certo para o indivíduo. Apesar de sempre preocupar-se com o bem-estar da comunidade e do povo em geral, ele sabia muito bem que às vezes o indivíduo não se adapta às regras gerais. Por isso escreveu o livro como uma orientação para a vida.

Durante a vida de Maimônides, muitos judeus observantes tinham sentido atração pelas obras dos antigos filósofos gregos, uma influência que era popular dentre os eruditos árabes da época. 
Enfrentando conflitos entre as concepções aristotélica e judaica do mundo, estes judeus se tornaram perturbados e abalados em sua fé. Preocupado com essa confusão e temendo suas potenciais conseqüências, Maimônides compôs seu Guia para elucidar sistematicamente a filosofia básica e os dogmas religiosos do Judaísmo. O Guia não foi direcionado ao judeu descrente, mas explicitamente projetado para judeus eruditos e devotos. Como escreve Maimônides em sua introdução: "O objetivo desse tratado é esclarecer um homem religioso que foi treinado a acreditar na verdade de nossa sagrada Lei, que conscientemente cumpre seus deveres morais e religiosos, e ao mesmo tempo tem obtido sucesso em seus estudos filosóficos."

O Guia é dividido em três partes. A primeira é dedicada a discussões dos equívocos que podem surgir diretamente do texto da Torá – aparentes contradições escriturais, antropomorfismos de D’us, e similares. O segundo ataca problemas que brotam das incompatibilidades entre as abordagens "científica" (Aristotélica) e bíblica a D’us e ao mundo, e analisa extensivamente a legitimidade de aplicar o raciocínio aristotélico a questões de religião e da Torá. A seção final do Guia está voltada a temas mais gerais, fundamentalmente religiosos: a natureza do bem e do mal, o propósito do mundo, o significado por trás dos Mandamentos, o caráter da pura devoção. Infelizmente, a linguagem filosófica na qual o Guia é composto tem levado a um mau entendimento das intenções de Maimônides. Perfeitamente cônscio dessas dificuldades em potencial, Maimônides deixa claro em sua introdução que o Guia deve ser lido com muito cuidado:

"Aquilo que escrevi nesta obra não foi a sugestão do momento; é o resultado de profundo estudo e grande aplicação… Não o leia superficialmente, para não me ofender, e não extraia benefício para si mesmo. Você deve estudar extensivamente e ler sempre."

Alguns dos mais notáveis comentaristas rabínicos clássicos na verdade indicaram que muitos dos conceitos que Maimônides discute estão baseados em profundas opiniões do Zôhar, o texto básico do misticismo judaico. Deve-se enfatizar que embora muito filosófico e científico, o Guia permanece profundamente enraizado na Torá. Maimônides via a ciência e a filosofia como auxílios ao entendimento das Leis de D’us, em vez de um fim em si mesmas.

Apesar desses mal entendidos que se seguiram à publicação e ao fato de ter uma platéia específica, a influência do Guia foi profunda, tanto no círculo judaico quanto no não-judaico. Indiscutivelmente o mais comentado dos tratados filosóficos de todos os tempos, possui mais de trinta comentários em hebraico cujos autores são conhecidos e grande número de outros comentários escrito por autores cujos nomes se perdeu.

Traduzido em praticamente todos os idiomas europeus, é citado extensivamente nas obras de Aquino, Bacon e outros. O mais significativo, porém, é que o Guia foi responsável por abrir uma nova era de investigação judaica em questões de filosofia, servindo tanto como pedra fundamental quanto como um catalisador para obras subseqüentes em seu gênero.

Os Treze Princípios de Fé

O Rambam faz parte da vida dos sábios e dos eruditos, quando todos os dias se elevam ao mergulhar na profundidade de seus livros. Mesmo as pessoas menos instruídas são influenciadas pelo Rambam, através dos 13 Princípios da Fé, formulados por ele.

Esses princípios da fé judaica versam sobre as virtudes, a fidelidade e a fé na eternidade da Torá e na breve vinda de Mashiach – todos estes valores tiveram e têm um papel importante na complementação espiritual de nosso povo. Esta prece representa a grandeza da obra do Rambam, pois ele conseguiu penetrar no intelecto e no coração de todos os judeus; do mais erudito ao mais afastado dos conhecimentos da Torá.

Cada um dos 613 preceitos da Torá serve para:

  1. Transmitir atitudes apropriadas
  2. Remover concepções errôneas
  3. Estabelecer legislação
  4. Eliminar a perversidade e a injustiça
  5. Imbuir no indivíduo virtudes exemplares
  6. Deter a pessoa perante as más inclinações.

Os Treze Princípios da Fé – segundo Maimônides "Ani Maamin" – Creio plenamente:

  1. Creio plenamente que D’us é o Criador e guia de todos os seres, ou seja, que só Ele fez, faz e fará tudo.
  2. Creio plenamente que o Criador é um e único; que não existe unidade de qualquer forma igual à d’Ele; e que somente Ele é nosso D’us, foi e será.
  3. Creio plenamente que o Criador é incorpóreo e que está isento de qualquer propriedade antropomórfica.
  4. Creio plenamente que o Criador foi o primeiro (nada existiu antes d’Ele) e que será o último (nada existirá depois d’Ele).
  5. Creio plenamente que o Criador é o único a quem é apropriado rezar, e que é proibido dirigir preces a qualquer outra entidade.
  6. Creio plenamente que todas as palavras dos profetas são verdadeiras.
  7. Creio plenamente que a profecia de Moshê Rabeinu é verídica, e que ele foi o pai dos profetas, tanto dos que o precederam como dos que o sucederam.
  8. Creio plenamente que toda a Torá que agora possuímos foi dada pelo Criador a Moshê Rabênu.
  9. Creio plenamente que esta Torá não será modificada e nem haverá outra ortorgada pelo Criador.
  10. Creio plenamente que o Criador conhece todos os atos e pensamentos dos seres humanos, eis que está escrito: "Ele forma os corações de todos e percebe todas as suas ações" (Tehilim 33:15).
  11. Creio plenamente que o Criador recompensa aqueles que cumprem os Seus mandamentos, e pune os que transgridem Suas leis.
  12. Creio plenamente na vinda do Mashiach e, embora ele possa demorar, aguardo todos os dias a sua chegada.
  13. Creio plenamente que haverá a ressurreição dos mortos quando for a vontade do Criador.

    

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