Personalidade: Báal Shem Tov: o Mestre do Bom Nome

 

5458 – 5520 (1698 – 1760)

O fundador do Chassidismo, que tem dois séculos e meio de idade, Rabi Yisrael Báal Shem Tov ("Mestre do Bom Nome"), nasceu na pequena cidade de Acop, nos Montes Cárpatos da Polônia, em 18 de Elul de 5458 (1698). Seu nascimento ocorreu exatamente cinquenta anos após os pogroms que dizimaram as comunidades judaicas na Ucrânia, Podólia, Volhínia e Polônia.

Grupos inteiros foram arrasados e os judeus remanescentes mergulharam no desespero. Os efeitos dessa terrível catástrofe estavam ainda aparentes quando o Báal Shem Tov nasceu, e a maior parte de sua vida foi dedicada a aliviar esta sensação de desespero.

Com cinco anos, o Báal Shem Tov ficou órfão e seu pai deixou-lhe este legado: "Meu filho, não temas ninguém além de D’us. Ama a todos os judeus com todo o teu coração e a tua alma."

O jovem órfão tornou-se o protegido da comunidade e recebeu a mesma educação de todos os meninos judeus daquela época. Gostava de passar seu tempo livre apreciando a natureza onde sua alma sensível podia refletir sobre a grandeza do Criador.

Aos catorze anos, o Báal Shem Tov filiou-se a um grupo de Tsadikim Nistarim (justos ocultos), seguidores de Rabi Adam Báal Shem de Ropshits, e que eram eruditos do Talmud e da Cabalá, e viajaram incógnitos num esforço de ressucitar a vida judaica da Europa Ocidental que ainda curava suas feridas após os trágicos pogroms. Sua missão era perambular de cidade em cidade, dialogando com rabinos, eruditos, trabalhadores pobres e ricos comerciantes, encorajando e dando esperanças onde antes havia apenas pessimismo.

Sidur

          Sidur do Báal Shem Tov

Quatro anos mais tarde, por sugestão do Báal Shem Tov, os Nistarim assumiram a responsabilidade pela educação religiosa dessas comunidades. Organizaram escolas adequadas e providenciaram mestres devotos e qualificados, os quais davam atenção especial às necessidades dos pobres.

Após o falecimento do Rabi Adam, o Báal Shem Tov foi eleito líder dos Nistarim. Dirigiu o estabelecimento de Chadarim (escolas primárias de Torá) para jovens e Yeshivot para rapazes mais velhos em centenas de comunidades judaicas.

Com o aparato religioso-educacional firmemente estabelecido, o caminho estava livre para servir a D’us e cumprir o mandamento de Ahavat Israel, amor ao próximo. Como segundo objetivo, os Nistarim concentraram sua atenção em elevar as massas da confusão da ignorância às alturas da Torá.

Durante este período de sua vida, Báal Shem Tov obteve a posse de diversos manuscritos que pertenceram ao Rabi Adam Báal Shem, os quais revelaram muitos segredos e davam instruções cabalísticas que ele estudava avidamente.

Durante algum tempo estabeleceu-se em Brodi onde casou-se com a irmã de um renomado erudito, Rabi Guershon Kutover. Tiveram um menino que se tornou Rabi Tsvi e uma menina chamada Adel.

Durante dez anos, a partir de 5484 (1724), Báal Shem Tov viveu de maneira reclusa, dedicando-se ao estudo intensivo da Torá. Está registrado que durante aquela época ele recebia instruções de Achiyá de Shilo, o antigo profeta dos tempos do Rei David, que lhe aparecia regularmente e lhe ensinava os segredos da Torá.

Aos trinta e seis anos mudou-se para a cidade de Mezibush onde começou a ensinar publicamente as doutrinas da Chassidut. Devemos lembrar que, naquele tempo, apenas a erudição da Torá era o caminho do judaísmo, os analfabetos e ignorantes eram vistos como judeus de "segunda categoria".

O Báal Shem Tov ensinou que o judaísmo e a Torá são propriedades de todos os judeus; que cada judeu, não importa qual sua posição, antecedentes ou dons naturais, é perfeitamente capaz de servir a D’us, e que Ahavat Israel deve englobar a disposição de sacrificar-se pelo bem de outro judeu. "A devoção," enfatizava ele, "é vital para uma vida plena e seu potencial é incalculável."

Rezar não deveria ser um ato somente de implorar a D’us para que conceda um pedido, embora este também seja um dos objetivos da oração, mas aderir principalmente ao sentimento de união e unicidade com D’us. Entusiasmo e alegria no atendimento aos desejos de D’us, calor e afeto no relacionamento com os outros, essas se tornaram as marcas de identificação do Chassidismo.

O Báal Shem Tov foi um estudante de Cabalá de Rabi Yitschac Luria, o Arizal. Muito daquilo que foi ensinado pelo Báal Shem Tov pode ser rastreado até as idéias do Arizal, especialmente como apresentadas no clássico Shnê Luchot Habrit.

Sinagoga

Sinagoga do Báal Shem Tov

Estas obras foram extremamente populares naqueles dias. O que o Báal Shem Tov adicionou foi o tipo de salto de intelecto que exemplifica o gênio supremo – o gênio que despreza convenções aceitas e conceitos normativos mundanos.

Existiram outros místicos antes dele que lidaram com o povo simples. Mas para eles, a vida era uma dicotomia: seu estudo das obras místicas foi de um mundo, seus envolvimentos com o povo simples de outro – um mundo afetado por seu misticismo, mas muito distante dele.

O Báal Shem Tov veio e disse: "Estes não são dois mundos. Estão intimamente conectados. A Cabalá do Arizal tem tanto a ver com o santo asceta como tem a ver com o simples estalajadeiro ou fazendeiro que servem a D’us de todo o coração. Na verdade, simplesmente, a suprema simplicidade da Infinita Luz brilha mais."

Os líderes do Chassidismo não se preocupavam apenas com o nível espiritual de seu povo. Juntamente com sua grande influência no campo espiritual, dedicavam sua atenção para as condições gerais da comunidade judaica, sendo motivados pelo seu ilimitado amor ao próximo que é uma das molas mestras do sistema. Assim, o trabalho do Báal Shem Tov tinha um propósito duplo: melhorar as condições materiais do povo assim como seu padrão espiritual.

Muitas pessoas afluíram a Mezibush e tornaram-se ardentes seguidores de Báal Shem Tov; milhares de discípulos entre eruditos rabinos e doutores talmúdicos. Um dos maiores, Rabi Dov Ber de Mezritsh, tornou-se o seu sucessor e foi mestre do célebre Rabi Shneor Zalman de Liadi, primeiro Rebe de Chabad. Estes eminentes eruditos e rabinos ajudaram a disseminar os ensinamentos do Báal Shem Tov em suas comunidades, e em pouco tempo o novo movimento chassídico espalhou-se pela Polônia e províncias vizinhas.

Oposição

A primeira oposição aberta ao Báal Shem Tov e à Chassidut surgiu em 5515 (1755), cerca de vinte anos depois que ele começara seu trabalho público. Mas essa objeção não conseguiu impedir o ímpeto do movimento chassídico, que adquiria cada vez mais adeptos, tanto em meio às massas, como entre os estudiosos.

Nos anos finais de sua vida, Báal Shem Tov testemunhou a luta que depois, por algum tempo, dividiu o povo judeu em duas áreas, os Chassidim e os Mitnagdim. Mas ele podia também visualizar a eventual vitória de seus ensinamentos e a sua aceitação final por todo o povo judeu, em qualquer lugar. Quando isto vier a acontecer, ensinou o Báal Shem Tov, o terreno estará totalmente preparado para a vinda de Mashiach.

Rabi Yisrael Báal Shem Tov faleceu no primeiro dia de Shavuot (6 de Sivan) de 5520 (1760) aos sessenta e dois anos. Não legou trabalhos escritos, mas seus ensinamentos e doutrinas foram registrados por seus discípulos e publicados em trabalhos e coletâneas especiais, contidos na extensa literatura Chabad, em particular nos escritos de Rabi Shneor Zalman, fundador do movimento Chabad-Lubavitch.

A influência de longo alcance de Báal Shem Tov continuou com crescente impulso, mesmo após a sua morte. A cisão entre Chassidim e Mitnagdim começou a cicatrizar. Em cinquenta anos, metade da população judaica da Europa Oriental pertencia ao movimento chassídico.

Hoje, após mais de duzentos anos de seu falecimento, o movimento chassídico constitui uma das mais criativas, vigorosas e dinâmicas formas do judaísmo ortodoxo.

A verdade sobre o Báal Shem Tov

Eis aqui a verdadeira história que passou de tsadic (justo) para tsadic até nos ser contada por Rabi Yossef Yitschac de Lubavitch, o Sexto Rebe, o que verdadeiramente se pode chamar de fonte confiável. Ele a contou nas palavras do Báal Shem Tov:

"Em meu décimo-sexto aniversário, 18 de Elul de 5474, estava numa pequena aldeia. O estalajadeiro era um judeu de total simplicidade. Ele conhecia as preces com dificuldade, e não sabia o significado das palavras. Porém sentia grande reverência pelo Divino e para tudo que lhe acontecesse, tendo o costume de dizer: ‘Bendito seja Ele, e que Ele seja louvado para todo o sempre.’ A esposa e sócia do estalajadeiro usava uma frase diferente: ‘Bendito seja Seu Santo Nome.’

"Naquele dia, saí para meditar no isolamento dos campos, como me havia sido ensinado pelos sábios antes de nós, que no seu dia de aniversário deve-se meditar sozinho por um certo tempo. Em minhas meditações, recitei os Salmos e concentrei-me no yichudim dos nomes Divinos (Yichudim são uma forma de meditação cabalística baseados em permutas e combinações dos nomes Divinos e atributos de D’us).

"Concentrado nisso, perdi a consciência do que me rodeava. Subitamente, contemplei o Profeta Eliyáhu – e um sorriso pairava em seus lábios. Fiquei muito surpreso por merecer uma revelação do Profeta Eliyáhu enquanto estava sozinho. Quando estive com o tsadic Rabi Meir, e também com outros tsadikim ocultos, tive a felicidade de ver o Profeta Eliyáhu. Mas merecer este privilégio enquanto sozinho – esta era a primeira vez e fiquei muito impressionado.

"Compreensivelmente, fui incapaz de interpretar o sorriso na face de Eliyáhu.

"Eis o que ele me disse: ‘Veja, você está fazendo um grande esforço para concentrar sua mente nos nomes Divinos, que vão desde os versículos dos Salmos que David, Rei de Israel, compôs. Mas Aaron Shlomo, o estalajadeiro, e Zlota, a esposa, são ignorantes dos yichudim dos nomes Divinos desde ‘Bendito seja Ele, e Bendito seja Ele para todo o sempre’ que o estalajadeiro recita, e ‘Bendito seja Seu Santo Nome’ que ela recita – mesmo assim esses yichudim provocam mais tempestade em todos estes mundos do que os yichudim dos Nomes Divinos que os grandes tsadikim possam criar.’

"Então, o Profeta Eliyáhu contou-me sobre o prazer que D’us sente, por assim dizer, com o louvor e o agradecimento dos homens, mulheres e crianças que O louvam – principalmente quando a prece e o agradecimento vêm de pessoas simples, e ainda mais quando são contínuos – pois então eles ficam perpetuamente ligados a D’us com fé pura e sinceridade.

"Desde aquele tempo tomei um caminho no serviço de D’us a fim de trazer homens, mulheres e crianças para que dissessem palavras de louvor ao Criador. Eu costumava perguntar-lhes pela sua saúde, pela dos filhos, pelo seu bem-estar material – e eles me respondiam com palavras diferentes de louvor pelo Altíssimo, cada um à sua própria maneira.

"Por muitos anos fiz isso por mim mesmo, e em uma das reuniões dos tsadikim ocultos todos eles aceitaram este caminho…"

Aquilo que Einstein foi para a Física e Beethoven para a música, muito mais foi o Báal Shem Tov para a alma humana.

Após achar o caminho místico nas mais simples das pessoas, o Báal Shem Tov prosseguiu para encontrar as mais divinas centelhas no mundo, a essência do D’us Único em todo o lugar e em cada acontecimento.

 

 

 

Assinatura

Assinatura do Báal Shem Tov
 
 
 
 
 
 
 
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