História dos judeus no Brasil – Capitulo VII

DOMÍNIO HOLANDÊS (1630 – 1654)

Fases da comunidade judaica sob a ocupação holandesa

A esperança dos judeus no Brasil de que sua sorte melhoraria graças a alguma forma de intervenção holandesa não falhou. Finalizando uma série de tentativas frustradas com que visavam tornar a conquistar a Bahia no decorrer do ano de 1627, os holandeses, após verificarem que a façanha seria mais exeqüível em Pernambuco – ponto pior defendido e mais fácil de ser depois fortificado – atacaram em 15 de fevereiro de 1630 com uma poderosa esquadra de 70 navios, tripulada e guarnecida por 7.000 homens, iniciando assim a ocupação do Nordeste brasileiro, a qual iria durar até 1654, centralizada na próspera capitania de Pernambuco.

Esse período singular da vida judaica no Brasil é de ser considerado em inteira conexão com a ocupação holandesa, com ela tendo começado e também tido fim, quase abruptamente.

Mas, o que impressiona não é simplesmente essa coincidência, senão a rapidez com que os judeus lograram constituir no Nordeste do Brasil uma comunidade das mais florescentes do mundo de então. De fato, cabe descontar a tumultuada fase de 1630 a 1635, em que se processou a consolidação da conquista e que foi assinalada por lutas incessantes, que a resistência tenaz dos pernambucanos tornou inevitáveis; outrossim se deve deduzir a fase de decadência do domínio holandês, a qual se estendeu de 1645 a 1654; resta, assim, o período de 1635 a 1644, que abrangeu o governo liberal e progressista do Conde Maurício de Nassau, espaço esse de apenas 10 anos, o qual, entretanto, bastou aos judeus para alçarem a um nível excepcional a sua vida econômica, social e cultural, dentro do arcabouço de uma organização coletiva.

Aspectos da atividade econômica dos judeus

A ocupação holandesa do Nordeste do Brasil introduziu profundas modificações na vida econômica dos judeus, alargando o seu âmbito, diversificando os seus ramos ocupacionais e erguendo a sua potencialidade a um grau singular.
Antes da conquista holandesa, os judeus exerciam, em larga escala, as atividades de plantadores de açúcar, mas os donos de engenho representavam apenas uma percentagem razoável, e os magnatas não passavam de uma escassa minoria. No mais, a colônia judaica era constituída de pequenos comerciantes e de profissionais manuais mal remunerados.

Com o advento dos holandeses e a decorrente implantação de uma grande tolerância religiosa, o panorama foi se alterando. Levas ininterruptas de judeus afluíam a Pernambuco de vários países, especialmente da Holanda, trazendo cabedais, experiência comercial e um prodigioso espírito de realização.

Esses judeus vindos da Holanda – e que em grande parte eram ex-refugiados de Portugal, Espanha e França – tinham a vantagem de falar vários idiomas: espanhol, francês, ladino e holandês, afora o mais importante – português, que era a língua falada no Brasil; era-lhes fácil assim servir de intérpretes para os 7.000 homens do exército e da marinha holandeses, constituídos de mercenários – holandeses, ingleses, franceses, alemães, polacos e outros – que não falavam o português.

De simples intérpretes, foram rapidamente passando a cambiadores e comerciantes, de um modo geral a intermediários, profissão que se tornou quase monopólio dos judeus, com os quais não podiam competir os pequenos negociantes e operários brasileiros e flamengos.
Por volta de 1638, aproveitando-se do confisco dos engenhos pertencentes aos portugueses, feito pelos governantes holandeses, que puseram essas propriedades em hasta pública, os judeus fizeram grandes aquisições por preços irrisórios.

Não tardou assim que os judeus se tornassem grandes proprietários urbanos e rurais, controlando a vida econômica da Nova Holanda; merece lembrar, como testemunho disso, que a principal rua do Recife era conhecida como "rua dos Judeus" (depois de 1654 – "rua da Cruz") e o porto era chamado "cais dos judeus".
Um documento da época, vazado em linguagem pitoresca, ainda que algo exagerada, dá um retrato expressivo da rapidez com que se efetuou a ascensão econômica dos judeus no Brasil Holandês:
"Haviam vindo com os holandeses, quando tomaram a Pernambuco, alguns judeus, os quais, não trazendo mais do que um vestidinho roto sobre si, em breve se fizeram ricos com seus tratos e mofatras, o que sabido por seus parentes, que viviam em Holanda, começaram a vir tantos, e de outras partes do Norte, cada um com suas baforinhas, que em quatro dias se fizeram ricos e abundantes, porque, como os mais deles eram portugueses de nação e haviam fugido de Portugal por temor da Santa Inquisição, e juntamente sabiam falar a língua flamenga, serviam de línguas entre os holandeses e portugueses e por esta via grangeavam dinheiro, e como os portugueses não entendiam os flamengos, nem eles aos portugueses, e não podiam negociar nas compras e vendas, aqui metiam os judeus a mão comprando as fazendas por baixo preço e, logo, sem risco nem perigo, as tornavam a revender aos portugueses com o ganho certo, sem trabalho algum".

A prosperidade dos judeus na Nova Holanda não se processou todavia sem incômodos. O acréscimo do seu bem estar e o desenvolvimento extraordinário do seu poderio econômico despertaram inveja e geraram uma perigosa inimizade da concorrência cristã.

Se tais ondas de ódio coletivo não tiveram maiores conseqüências, o fato se deve à ação equilibrada de Maurício de Nassau, que, durante a sua regência de sete anos, trabalhara honestamente para fazer a união de todas as oposições religiosas na colônia, distribuindo justiça imparcial: era o primeiro a exigir reparação quando provadas infrações legais cometidas por judeus, mas também sabia defendê-los com o seu braço poderoso quando os via vítimas de atiçamento.

Aspectos sócio-culturais da vida judaica. Isaac Aboab da Fonseca

Sob o domínio holandês, criaram-se no Nordeste do Brasil todas as condições favoráveis à eclosão de uma sólida comunidade judaica com vida coletiva de características próprias: a) liberdade de culto; b) suficiência numérica e concentracional; c) continuidade imigratória; d) superioridade cultural.
a) LIBERDADE DE CULTO – Já quando de sua organização, a Companhia das Índias Ocidentais havia declarado que toda e qualquer crença seria respeitada na Nova Holanda. Ao assumir o governo o conde Maurício de Nassau, a promessa, que já vinha sendo posta em prática parcialmente, tornou-se realidade.
No dizer de Hermann Wätjen: "Aos judeus o Conde tolerante permitiu guardarem a santidade do sábado, havendo feito promulgar que os cristãos dos dois credos deveriam considerar o domingo como o dia do Senhor. No mais, o Governador tinha o ponto de vista de deixar cada um ser feliz da sua forma em Pernambuco".
Estava, assim, implantada a condição básica para que pudesse desabrochar uma comunidade judaica no Brasil holandês.
b) SUFICIÊNCIA NUMÉRICA E CONCENTRACIONAL – A tolerância religiosa, embora indispensável, não era condição bastante. Fator complementar, da maior importância, foi o crescimento numérico suficiente da população judaica e sua concentração preponderante numa área restrita, tendo a cidade do Recife como centro.
Trata-se aí, efetivamente, de duas circunstâncias essenciais para que um grupo étnico ou cultural logre conservar as características próprias, sem se deixar absorver pelo meio dominante.
E o certo é que, sob o domínio holandês, a população judaica cresceu desmesuradamente, concentrando-se em Recife, bastando dizer que, enquanto essa cidade, em 1630, apenas possuía 150 casas, já em 1639 ali existiam 2.000. Havia judeus em tamanho número que, à primeira vista, se tinha a impressão de uma cidade puramente judaica.
Esse crescimento populacional dos judeus do Brasil resultou principalmente da intensa imigração que se operou naquele período, vindos para o Brasil – qual para uma terra da Promissão – judeus de vários países, sobretudo da Holanda, de cujo porto Amsterdã partiam continuamente naus carregadas de judeus e conversos, sendo que só de uma feita, em 1642, embarcaram 600. A intensidade da emigração de judeus dos Países Baixos para o Brasil ressalta de uma nota escrita por Francisco de Souza Coutinho, embaixador de Portugal na Holanda, em 1644, ao conde de Vidigueira: "Esta terra é a mãe dos cristão-novos, e daqui vão para o Brasil".
Aos imigrantes do estrangeiro, cabe ainda acrescentar os judeus que, de outras partes do próprio Brasil, vinham para Pernambuco, em busca de liberdade religiosa.
Não se sabe exatamente o número de judeus no Brasil holandês, inclinando-se a maioria dos historiadores para a elevada cifra de 5.000.

Ainda que esse número seja exagerado2 – parecendo mais prudente adotar o de 1.500 – o certo é que, no apogeu do desenvolvimento da comunidade judaica da Nova Holanda, os judeus representavam cerca de 50% de toda a população civil, que então orçava em 3.000.

Para se ter uma idéia da importância de que, naquele tempo, se revestia um núcleo israelita de 1.500 almas, basta lembrar que a própria comunidade judaica de Amsterdã, no seu pleno fastígio, não era mais numerosa.
c) CONTINUIDADE IMIGRATÓRIA – Trata-se de um fator supletivo, de grande ação anti-assimilatória. E o que se verificou, durante mais de dois decênios de domínio holandês, foi justamente – em vez de um restrito número de imigrações maciças – uma ininterrupta entrada de judeus, refrescando permanentemente o espírito de grupo dos judeus já aqui residentes.

d) SUPERIORIDADE CULTURAL – Igualmente, constitui fator contra-aculturativo a superioridade cultural do grupo considerado, em relação ao meio dominante. E, no caso em foco, não resta dúvida de que os judeus imigrados – especialmente os oriundos da Holanda – eram elementos de expressão cultural bastante superior à existente no Brasil naquela época.

Em face das condições favoráveis acima apontadas, é compreensível que fosse evoluindo a passo rápido a vida social dos judeus em Pernambuco, até assumir a forma de uma coletividade organizada.
Nesta altura, havia duas sinagogas – uma no Recife, a outra em Santo Antônio – e um cemitério próprio, na Boa Vista. Possuíam os judeus pernambucanos uma comunidade sagrada – Cahal Kadosh2 – chefiada por uma diretoria, sendo conhecidos os componentes de uma delas: David Senior Coronel, Dr. Abraham de Mercado, Jacob Mucate e Isaac Castanho.

Havia ainda a Congregação Zur Israel do Recife, que mantinha um Pinkes (livro de atas) e baixava hascamot (regulamentos). Assim, os "regulamentos" revistos em 1648 estabeleciam que todos os judeus residentes no "Estado do Brasil" e todos os futuros imigrantes tornavam-se automaticamente membros da Comunidade Judaica e deviam inscrever os seus nomes no Pinkes como demonstração de que aceitavam os regulamentos.
Também na ilha de Itamaracá formou-se uma comunidade presidida por um rabino próprio, Jacob Lagarto, que foi, aliás, o primeiro escritor talmúdico na América do Sul.

Em tal ambiente de segurança e de organização coletiva, a consciência de grupo avultou, chegando as festas judaicas a serem celebradas publicamente com procissão nas ruas.

O auge desse desenvolvimento sócio-cultural – de fundo predominantemente religioso – foi atingido pelos judeus de Pernambuco em 1642, quando providenciaram a vinda da Holanda de um insigne líder espiritual, Isaac Aboab da Fonseca, que veio acompanhado do hazan Moisés Rafael de Aguiar.

Era Isaac Aboab originário de Portugal, de onde emigrara para Amsterdã aos 7 anos. Nesta cidade, por suas qualidades excepcionais, fez brilhante carreira alcançando altas posições, inclusive a de membro do rabinato.
Quando se tratou de enviar um chefe espiritual para o Brasil, foi ele o escolhido pelo presidente da comunidade holandesa, o que, aliás, serve para corroborar a importância que então se atribuía à coletividade israelita do Nordeste brasileiro.

Ao chegar ao Brasil, já encontrou Aboab uma vida judaica florescente, um campo amplo para aplicar a sua experiência e o seu alto saber.

Desdobrou-se ele em várias atividades, destacando-se os seus admiráveis discursos sobre leis e costumes judaicos, cujo êxito era devido não só aos seus vastos conhecimentos, senão ainda à sua extraordinária eloqüência e ao fato de dominar a língua portuguesa.

Ao lado das suas atividades rabínicas, continuou Isaac Aboab, no Brasil, os seus trabalhos literários, tendo escrito, em colaboração com o rabino Moisés Rafael de Aguiar, a obra "Miimei Iehuda", que trata da vida cultural dos judeus brasileiros.

Permaneceu Isaac Aboab fielmente à testa da comunidade brasileira até a sua "débâcle" em 1654.

Decadência e "débâcle"

Em 1645, começa a entrar em declínio a vida judaica no Brasil. A bem dizer, já a data de 6 de maio de 1644 – em que Maurício de Nassau, após uma série de desinteligências com a Companhia das Índias Ocidentais, deixa o governo – marca o início simbólico dessa fase que iria terminar um decênio mais tarde com a melancólica liquidação da pujante comunidade que se havia implantado – aparentemente com tanta solidez – no Nordeste do Brasil.

A saída de Nassau – esse espírito culto e apaixonado pelos supremos ideais políticos, que se afeiçoara ao Brasil, onde, não obstante as violências da guerra, tentara introduzir adiantados processos administrativos e instituições liberais – favoreceu sobremodo o nascimento da insurreição pernambucana, pois, em substituição àquele notável estadista que havia grangeado as simpatias gerais da população, ficara a administração do domínio holandês entregue ao Supremo Conselho do Recife, composto do negociante Hamel, do ourives Bass e do carpinteiro van Bollestraten, indivíduos completamente incapazes para a missão.

Inutilmente, Nassau, no seu testamento político, havia apontado a tolerância como uma das diretrizes mais importantes do Governo. O triunviriato que o sucedeu implantou um regime opressor e tirânico, inclusive passando a tratar os católicos como infiéis, dificultando aos seus sacerdotes a celebração de missas e expulsando os frades do país, por suspeitá-los beleguins do Governador da Bahia.

Os judeus de Pernambuco cedo deram-se conta do que a nova situação viria representar para eles. Previram facilmente que, sem a política tolerante e apaziguadora do príncipe de Nassau, seria inevitável o enfraquecimento e a queda do domínio holandês, ficando eles irremediavelmente expostos à sanha dos insurrectos pernambucanos.
Em vista disso, iniciaram o processo de retorno à Holanda, tendo emigrado em alguns anos cerca de metade da população judaica, sobretudo os negociantes mais ricos. O comércio começou então a decair, o dinheiro passou a escassear e as tropas já se recusavam a combater; ainda mais – mediante suborno, os soldados holandeses desertavam com freqüência para o exército português, que, em verdadeira antítese, possuía moral elevadíssima.

Para agravar a situação, a Holanda, que então se achava em guerra com a Inglaterra, não podia prestar a necessária ajuda à colônia decadente e os reforços, que todavia lhe mandava, eram insuficientes e extemporâneos.
Embora a conjuntura se apresentasse nitidamente desfavorável aos holandeses, os judeus que permaneceram em Recife – cerca de 700 – resignaram-se a aguardar até o último instante o desfecho da luta, ficando fielmente ao lado dos holandeses e com eles compartilhando de todos os horrores do longo cerco da cidade.

O que os sitiados tiveram de suportar nesse período foi descrito de modo comovente pelo chefe da comunidade israelita, rabino Isaac Aboab da Fonseca, que assistiu, do início ao fim, ao combate desesperado:
"Livros não seriam capazes de descrever os nossos sofrimentos. O inimigo espalhava-se nos campos e no mato, espreitando aqui despojos e ali vidas. Muitos de nós morreram de espada na mão, outros por carência de víveres. Jazem agora na terra fria. Nós, que sobramos, estávamos expostos a morrer de qualquer maneira. Os que antes estavam habituados a iguarias, sentiam-se felizes quando conseguiam pão seco o mofado para acalmar a fome".
Sobre a atitude de inteira fidelidade aos holandeses, assumida pelos judeus remanescentes de Recife, não faltam pronunciamentos desfavoráveis. Há, com efeito, quem a considere uma espécie de deslealdade ou ingratidão ao Brasil. É um erro que cabe corrigir.

Merece notar desde logo que o Brasil não estava propriamente em jogo. Aos judeus impunha-se escolher entre dois ocupantes, entre duas potências estrangeiras: Portugal e Holanda. De um lado – o país que perseguia, expulsava e queimava vivos os judeus; do outro – a nação que agia para com os judeus, tanto na metrópole como nas colônias, com a maior tolerância religiosa. De um lado – a inquisição e os autos-de-fé; do outro – a liberdade de consciência.
Entre dois senhores – não havia outra possibilidade de escolha!

E, aliás, procedendo como procederam, os judeus guardaram uma linha de impecável coerência. Eles que, por todas as formas a seu alcance, ajudaram os holandeses a conquistar o Nordeste brasileiro, na esperança não desmentida, de obter no Brasil um lar tranqüilo, não poderiam abandonar os aliados e protetores da véspera, no momento em que a sorte começava a faltar-lhes.

Tal como souberam os judeus da Nova Holanda armar os seus sonhos – que chegaram a ver em boa parte realizados – também mostraram saber suportar a sua ruína, lutando bravamente até a queda final da sua cidadela, com o que se haveria de encerrar o ciclo mais fastigioso, embora efêmero, da vida judaica no Brasil colonial.

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