ESTRANGEIROS EM ARACAJU – Parte 2

 
 
Carlos Loeser, filho de Guilherme Bernhard Frederico Loeser e de Augusta Luiza Amália Dorotéa, nascido em Enfeaf, na Alemanha, em 7 de agosto de 1864, veio ainda jovem para Sergipe, fixando-se em Aracaju onde desenvolveu múltiplas atividades, algumas delas próximas ao movimento do Porto, que parecia ser permanente atrativo para os estrangeiros. Casado com Alma Loeser, inicia-se na Maçonaria em 15 de agosto de 1898, abrindo caminho para muitos outros estrangeiros que aqui organizaram negócios, fundaram estabelecimentos comerciais e foram, aos poucos, sendo incorporados pela dinâmica da cidade e se transformaram em cidadãos conhecidos e influentes.

 

Carlos Loeser parece ter tido a preocupação de atualizar as suas atividades comerciais, de modo a atender aos interesses dos consumidores e usuários dos diversos serviços que representava, e as demandas de uma cidade que crescia vertiginosamente, cheia de exigências. Nos primeiros anos do século XX aparece como Agente da Companhia de vapores alemães Horn, correspondente do “Banco Française” e “Italienne pour l’Amerique du Sud” e do “Brazilianische Bank fur Deutsch”, exportador de açúcar, algodão, borracha e cereais, importador de taboado, gêneros de estiva, louça, papel, ferragens grossas como arame liso e farpado, ferro em barra e em chapas e outros

Carlos Loeser

produtos. Estabelecido na rua de João Pessoa 75, antes que fosse criada a firma Loeser  Cia, à avenida Rio Branco, 67, formada por Rodolfo von Doehn e pela sua irmã Elhermann Loeser, de Exportação, Importação, Representações e Conta Própria, agentes das Companhias Internacional de Seguros e Internacional de Capitalização, e, ainda, com a representação do Sindicato CONDOR, acompanha a trajetória do seu filho Walter Loeser, também além de comerciante era Despachante, e que  estava destinado a levar adiante os negócios iniciados por Carlos Loeser.

 

No dia 21 de maio de 1932, na sua chácara da Chica Chaves (Bairro Industrial) o conceituado comerciante Carlos Loeser, sócio destacado da Associação Comercial de Sergipe, morria aos 67 anos de idade, de hemorragia interna, deixando viúva Alma Loeser e três filhos: Walter, Alice e Emmy. Walter Loeser continuou atuante no comércio, casa-se com Bernardete Vieira Loeser, tendo muitos filhos, dentre eles Siegfried, que tocou os negócios e ainda hoje atua no mercado de Aracaju, com representações, contando com a participação da filha Cristiane Loeser Faro, o que representa a quarta geração dessa família alemã. Os demais filhos de Siegfried – Ilma e Cláudia – advogados, Siegfried, médico no Rio de Janeiro, seguem suas carreiras fora do escritório comercial que mantém contínua a contribuição de Carlos Loeser.

 

Guilherme Schwel, nascido também na Alemanha em 5 de março de 1865, chegou em Sergipe com menos de 30 anos e fixou-se, como comerciante, em Maruim, à época uma das mais importantes praças sergipanas, com serviços consulares, movimento de importação de tudo o que o Estado precisava e de exportação do açúcar produzido na região da Cotinguiba. Em 19 de agosto de 1900 Schwel ingressava na Loja Cotinguiba. Outros, como o holandês Hans Meyn, nascido em 4 de outubro de 1847 e o russo S. Minischul, nascido em Riga, em 22 de fevereiro de 1857, ambos marítimos, entraram na Maçonaria, seguindo a tendência que desde 1872 ligava a Loja e seus ritos aos estrangeiros que chegavam a Sergipe. Hans Meyn foi iniciado em 23 de novembro de 1901 e Minischul em 21 de novembro de 1904.

 

Nicola Mandarino

É nesta quadra que chega a Sergipe Nicola Mandarino, nascido em Vibonati, Sardenha, na Itália, em 19 de junho de 1883. Foi quase sempre um comerciante estabelecido, principalmente, em Aracaju e em Itaporanga. Na capital teve uma grande madeireira mecânica, na esquina das avenidas João Ribeiro e Coelho e Campos, que preparava forros, assoalhos, rodapés, cornijas, portas, janelas, tudo enfim necessário às construções. Tinha, também, Armazém de Tecidos, Fábrica de Sabão, dentre outros empreendimentos comerciais.  Nos primeiros anos que estava em Sergipe recebeu a concessão, por 50 anos, do Governo do Estado para procurar ouro no território sergipano. Por conta disso atribui-se a Clodomir Silva e a Sindulfo Barreto (o pai) a invenção do Tesouro do Jaboatão, estória difundida através da imprensa, ilustrada com pequenas placas de metal supostamente indicando o local onde o tal Tesouro seria achado e as chaves para o acesso à riqueza que teria sido reunida por missionários religiosos, dentre eles os jesuítas.

No imaginário popular existem túneis, entre as igrejas de Laranjeiras, de Japoatã, e de outros locais, que guardam ouro, prata, alfaias, deixados pelos padres quando foram expulsos do Brasil e tiveram que abandonar, às pressas, seus bens. Nicola Mandarino adquiriu em Itaporanga, justamente, a propriedade que serviu de residência e de colégio dos padres da Companhia de Jesus, a Fazenda Iolanda, no povoado Colégio. A brincadeira do Tesouro sugere a busca do ouro, tanto a formalizada na concessão governamental, quanto a partir de aquisição da residência dos jesuítas. A propriedade continuou com a família, através do filho Humberto Napoleone Mandarino, e agora da nora Ruth Fonseca Mandarino e dos netos César, Victor, Guilherme e Clarisse Mandarino.

 

Nicola Mandarino, que chegou a editar um jornal diário em Aracaju, enfrentou o revés de ser suspeito de fornecer informações ao comandante do submarino alemão que torpedeou navios mercantes na costa sergipana, deixando um rastro de mortes nas praias de Aracaju, Itaporanga e Estância. Tanto a Fazenda, como a sua casa em Aracaju, na praça Olímpio Campos, esquina com a rua de Santa Luzia, onde hoje está a Cúria Metropolitana,  foram depredadas, seus móveis, livros, objetos pessoais queimados, no ímpeto furioso dos sergipanos agredidos pela guerra. Desde o episódio dos torpedeamentos que Nicola Mandarino enfrentou restrições em suas atividades. Na Maçonaria, onde tinha iniciado em 10 de agosto de 1912, quando ainda era solteiro, foi eliminado em 13 de outubro de 1948, sob a alegação de “falta de pagamento.” Anos depois, quando morava com sua filha Milena, assistiu a tragédia da invasão da residência, à rua Campos 496, que resultou no assassinato do seu genro, o médico e ex-prefeito de Aracaju Carlos Firpo, em 29 de abril de 1958. O caso, um dos mais rumorosos de Sergipe, jamais foi completamente esclarecido. Nicola Mandarino morreu octogenário no Rio de Janeiro, onde vivia.

 

 

 

 

 

Por  Luiz Antônio Barreto- Jornalista, historiador e diretor do Instituto Tobias Barreto e ex- secretário de estado da Cultura. Escreve para o Portal Infonet: http://www.infonet.com.br/luisantoniobarreto/

institutotobiasbarreto@infonet.com.br

 

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