O Tanya – parte 23

Opostos

Umas das qualidades definitivas de um judeu é o fato de que duas almas residem e funcionam dentro dele. São a alma Divina e a alma animalesca. A alma animalesca é uma parte inseparável da categoria geral de coisas que não estão incluídas no âmbito da santidade. É conhecida como a sitra achra, o "outro lado", ou o oposto da santidade.

"O Todo Poderoso criou uma coisa oposta à outra" – declara o versículo em Cohêlet. Isso é verdadeiro sobre o macrocosmo, e também sobre o microcosmo. Os poderes da impureza não somente se equivalem ao reino da santidade, eles também se opõem a ele de tal maneira que sua presença é sentida como uma força negativa. A razão para isso é que o homem, com seu livre arbítrio consciente, tem a oportunidade de sobrepujar o mal. Assim a recompensa pela conduta espiritual correta, e por cumprir a missão da descida da alma a este mundo pode ser ganha, ou pode-se incorrer em castigo por não fazê-lo. Na terminologia chassídica este serviço é chamado de avodát habeirurim, literalmente a tarefa de peneirar ou refinar, ou seja, localizar e extrair as centelhas de santidade que jazem escondidas no universo como resultado do processo de criação, e elevando-as até sua Fonte pelo uso adequado do mundo material. Assim o mundo termina por se aperfeiçoar, e pode funcionar como uma "morada" para a Divina Presença.

As Coroas de Impureza

A alma animalesca possui dez faculdades, correspondendo às dez faculdades da alma Divina. Assim como na alma Divina, as faculdades da alma animalesca estão divididas em duas categorias – as faculdades intelectuais e os atributos emocionais. Além disso, a alma animalesca também se reveste nas três "roupas" de pensamento, fala e ação, assim como faz a alma Divina. Estas faculdades e vestes da alma animalesca são a antítese da santidade, e se opõem
ativamente a ela.

Ora, enquanto que as dez faculdades da alma Divina são chamadas sefirot (derivando da palavra sapir, uma pedra preciosa luminescente, a safira), as dez faculdades da alma animalesca são denominadas "as dez coroas de impureza", porque são repugnantes, sujas e profanadas.Além disso, em contraste com as faculdades da alma Divina, onde cada faculdade incorpora todas as outras, e cada qual complementa a outra, cada um dos poderes da impureza pertencendo à alma animalesca age autônoma e independentemente, como um reino em si mesma.

Enquanto estamos no assunto da natureza dessas duas almas, deveria ser destacado que as faculdades intelectuais e emocionais são expressas diferentemente em cada uma dessas almas. A alma Divina é essencialmente intelectual, e portanto é manifesta no cérebro, a base do intelecto humano. E as qualidades emocionais da alma Divina são racionais, equilibradas. Em contraste, a alma animalesca é essencialmente emocional, e portanto é manifestada no coração, base das emoções e paixões, e suas faculdades são naturalmente espontâneas, irracionais e apaixonadas.

Na alma Divina, o intelecto dá origem às emoções. Sem meditar sobre algum sagrado conceito
Divino as emoções não podem ser despertadas. Uma pessoa não pode atingir o amor e reverência a D’us sem a adequada meditação sobre a grandeza de d’Ele.

Os atributos emocionais da alma animalesca, no entanto, como o desejo natural pelos prazeres
físicos, existem como faculdades daquela alma mesmo sem meditação intelectual anterior. Isso não implica que não haja conexão alguma entre as emoções e o intelecto da alma animalesca. Ao contrário, o que se pretende afirmar é que o intelecto não desperta as emoções na alma animalesca. Mesmo assim, o intelecto pode guiar e dirigir a expressão das emoções da alma animalesca. Além disso, embora estas emoções não sejam originadas no intelecto, mesmo assim "são proporcionais com a qualidade do intelecto da pessoa", ou seja, elas se desenvolvem e amadurecem segundo a maturidade intelectual da pessoa. Portanto, "uma criança deseja e gosta de coisas insignificantes de pequeno valor, pois seu intelecto é imaturo para apreciar coisas mais valiosas", ao passo que itens mais sérios e valiosos interessam a um adulto.

A Destruição da Santidade

O sexto capítulo do Tanya nos revela uma nova perspectiva sobre assuntos relacionados à santidade e ao profano. Na categoria de "vestes impuras" estão incluídos não somente as más ações que transgridem os preceitos da Torá (como alguém poderia pensar), mas também ações cujo único defeito é que não estão na categoria de santidade. Nas palavras de Cohêlet, segundo a interpretação do Zohar: "Eu percebi que todas as ações sob o sol, todas elas, são vaidade e a ruína do espírito."

Podemos portanto concluir que num sentido geral, as "vestes" do homem podem existir em um de dois planos – ou no reino da santidade, ou no reino da profanidade. No exato momento em que a pessoa começa a envolver-se em assuntos que estão desconectados com o âmbito da santidade, ela encontra-se no "outro lado". Pois o pensamento, fala e ação que pertencem ao "outro lado" da santidade são vaidade e a ruína do espírito – destróem o espírito de santidade, e o impedem de abrir caminho até a pessoa e de ser absorvido por ela.

Este fato pode se manifestar de muitas maneiras. Mesmo alguém que se ocupa com Torá pode não ser merecedor de absorver a santidade que habita dentro dela. Ele poderia até ser um benoni como é definido pelo Tanya (i.e., alguém que jamais pecou, e jamais pecará), mas quando faz uma prece, o amor a D’us não permeia seu coração – ele sofre de timtum halev, um embotamento do coração. E a razão para isso é que em alguma ocasião no passado ele fez ou pensou coisas que não faziam parte do reino da santidade, coisas que são "vaidade e ruína do espírito", e impedem a santidade Divina de permear seu ser, embora não sejam realmente transgressões.

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