Alívio para a ansiedade – parte 7

Articulando a ansiedade

A fase final da terapia, sugerida pelo terceiro significado do verbo no versículo de Mishlê (12:25):

Se houver ansiedade no coração de um homem, deixe que ele a reprima,

E transforme-a em alegria com uma palavra boa.

é a articulação da ansiedade.

A Torá identifica o poder da fala como a expressão mais pura da humanidade do homem. Embora a habilidade de raciocinar do ser humano seja superior à de outras formas de vida, o que o define como especialmente humano é sua habilidade de articular suas idéias e sentimentos a outro ser humano. Eis porque, ainda mais que o pensamento, a fala tem o poder de revelar as profundezas ocultas da alma.

Todos já sentimos como desabafar, mesmo que seja para nós mesmos, ajuda a ordenar e solidificar nossas idéias. Em muitos casos, articular nossos pensamentos ajuda-nos a descobrir percepções mais profundas sobre o assunto em pauta.

Quando uma pessoa desnuda suas preocupações e ansiedades a um amigo ou mentor sensível e interessado, isso pode ajudar a resolver seu problema. A dialética do diálogo é a ferramenta pela qual eles, juntos, podem chegar à solução do conflito. Como diz a Torá (Mishlê 29:13) "D’us esclarece os olhos de ambos." Esse, também, é o significado da segunda metade do versículo acima "…e transforme-a em alegria com uma palavra boa."

Articulação e diálogo com um amigo ou mentor contribui com o processo de cura de três formas.

A primeira contribuição que um amigo faz com o processo da solução é sua objetividade. O próprio fato de que ele não está passando pelo mesmo problema que seu confidente capacita-o a visualizá-lo de um ponto de vista vantajoso e totalmente diferente. Às vezes o confidente nem precisa verbalizar esta perspectiva; sua simples presença é suficiente para permitir ao amigo senti-la e articulá-la por si mesmo. Se o problema da pessoa não é extremamente complexo, esta perspectiva objetiva pode bem ser tudo que é preciso para acalmá-lo o suficiente para conseguir lidar com o problema de forma a ter sucesso, por si mesmo ou com o conselho da pessoa a quem o confiou.

Nesta fase, o confidente permanece em seu próprio mundo, e é imperativo que o faça, a fim de fornecer a vantagem que seu amigo precisa para visualizar sua ansiedade objetivamente.

Naqueles casos em que isso não é suficiente, a próxima contribuição que o amigo/mentor pode fazer é demonstrar ao confidente que apesar da gravidade da situação, ainda há dentro dele um ponto mais profundo que não foi afetado por ela. Assim que o sofredor é lembrado da presença deste ponto ilibado de pureza e otimismo dentro de si, pode usá-lo para remodelar toda sua situação à uma luz mais positiva. Antes dessa conscientização, a pessoa considera-se problemática, como se sofresse de uma defeito psicológico ou de um complexo. Agora, pode começar a gradualmente identificar-se com este ponto interior saudável dentro de si, e dessa maneira reabilitar-se em sua imagem.

Neste estágio, o amigo entra no mundo do confidente. Vê o problema da perspectiva do amigo, e reconhece a existência e seriedade do objeto de sua ansiedade. Reprimi-lo e ignorá-lo pode diminuir sua enormidade, mas ele existe apesar disso, e deve ser encontrada uma maneira de lidar com isso.

A ajuda final que o amigo oferece ao confidente é capacitá-lo a visualizar a própria ansiedade à uma luz positiva. Isso torna-se possível ao considerar o elemento da Divina Providência.

É axiomático no Judaísmo que D’us supervisiona e guia os assuntos da criação. O fundador da Chassidut, Rabi Yisrael Báal Shem Tov, chegou a dizer que a Divina Providência estende-se mesmo a uma folha que cai na floresta, e determina quando e em que direção ela cairá. Hoje, diríamos que D’us direciona até a menor das partículas sub-atômicas ou forças que existem.

Aqui, também, deve-se evitar cair na armadilha do fatalismo. A Divina Providência é apenas uma face da moeda: a outra é o livre arbítrio. O homem age livremente e deve assumir inteira responsabilidade por suas ações.

Teólogos observaram e tentaram resolver a exclusividade mútua da Divina Providência e do livre arbítrio através dos tempos. A solução definitiva é que não há solução; constituem um paradoxo teológico. O modo pelo qual vivemos este paradoxo, entretanto, é claro: invocamos a Divina Providência para explicar o passado e o livre arbítrio ao enfrentar o futuro. D’us, por assim dizer, remove Sua providência a respeito das escolhas feitas pelo ser humano, mas depois que ele as fez, torna-se retroativamente revelado que elas eram parte predestinadas do grande plano Divino.

Assim, seja o que for que aconteça a uma pessoa é diretamente atribuível à Providência de D’us, e como D’us é axiomaticamente bom e misericordioso, a consequência é que mesmo se a pessoa acha-se em um estado de depressão psicológica, isso deve ser para seu bem. Seja ele afortunado o suficiente para enxergar ou não, esta nuvem, como todas as outras, tem uma pontinha rósea.

Além disso, a Chassidut nos ensina que o bem oculto numa situação aparentemente má, é na verdade de uma ordem mais elevada que aquele bem que pode ser prontamente reconhecido como tal. A razão pela qual D’us às vezes escolhe ser bom conosco em maneiras que parecem más, é que o bem que Ele deseja conceder-nos nestes casos é tão grande e intenso que poderíamos não receber ou assimilar em circunstâncias normais. Assim como algum bem de valor que foi embrulhado em material grosseiro para sua proteção, as formas mais elevadas do bem devem estar ocultas em seu oposto aparente.

Dessa maneira, ao invés de sentir que D’us a está ignorando ou abandonando, a pessoa sofrendo de ansiedade deveria aprender a considerá-la como um presente pessoal de D’us, que expressa Sua consideração especial. Este é realmente um teste de fé, e é tarefa do amigo/mentor neste estágio, ajudar o confidente a defender e aprofundar sua fé em D’us, Sua bondade infinita, e Sua Providência sobre todas as facetas da vida. Quando o consegue, o confidente terá descoberto uma dimensão mais profunda e significativa de sua personalidade, que de outra forma jamais teria conseguido. Além disso, terá renovado sua conexão com D’us, e até mesmo a aprofundado, não mais fazendo suposições sobre ela, ou limitando-a pelos parâmetros do bem ou mal como os percebemos.

Assim que o confidente consiga olhar seu problema com alguma objetividade, identificar-se com sua essência interior de bondade em vez de com sua fobia ou preocupação, e tenha aprofundado sua fé a ponto de sentir sua ansiedade como um presente de amor de D’us, ele não precisará inibir-se ao expor seja o que for que tenha de mal a seu amigo. Pode agora desnudar todos os maus pensamentos que o atormentam durante o dia ou a noite, que se intrometem em suas preces, estudo ou trabalho. Não são mais necessárias hesitações ao confrontar os mais obscuros aspectos de seu subconsciente, pois foi lançada a pedra fundamental para enfrentá-los de modo construtivo.

Na verdade, a própria admissão destes temores e ansiedades profundos enfraquecem a força deles em sobrepujar o confidente no futuro. O fato de que agora ele não teme discuti-los abertamente detona a imagem deles como dragões onipotentes e inexpugnáveis que espreitam nas águas escuras de seu subconsciente.

 

 

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