Afinal, o que comiam os patriarcas?

Por: Breno Lerner

 

A única descrição bíblica de uma refeição completa desta época é a refeição improvisada que Abraão serviu aos três anjos: "Traga-se um pouco de água, e lavai os pés e recostai-vos debaixo da árvore; e trarei um bocado de pão; refazei as vossas forças, e depois passareis adiante;… Abraão apressou-se em ir ter com Sara na tenda e disse-lhe: amassa depressa três medidas de flor de farinha e faz bolos. Em seguida correu ao gado, apanhou um bezerro tenro e bom e deu-o ao criado, que se apressou em prepará-lo. Então tomou queijo fresco, e leite, e o bezerro que mandara preparar, e pôs tudo diante deles,…." Esta cena descreve bem como vivia e comia uma família da classe dominante da época. A hospitalidade, principalmente entre os nômades, era fundamental. O anfitrião primeiro oferecia água para lavar os pés. Água era o elemento principal de sobrevivência no deserto e deveria ser oferecido logo à chegada de um visitante, não apenas para matar sua sede como também para lavar pés, mãos e rosto, dando-lhe conforto e purificando-o. O hóspede juntava-se aos demais para comer somente depois de descansar. A ordem de preparo da refeição indica que o pão, o primeiro a ser solicitado, era o item mais importante do menu e responsabilidade da mulher do anfitrião. Estudos a respeito dos povos da época e da região, indicam que o pão provavelmente era feito sem fermento, parecido com a pita árabe ou o chapatti da Índia. A referência a bolos sugere que o pão para esta refeição deveria ser diferente do pão do dia-a-dia. Servida a seguir, a carne mostra a importância do evento, pois raramente era consumida. O fato de se colocar à mesa um bezerro tenro e bom revela a importância social do anfitrião, porque o gado, de uma forma geral, era menos econômico que cabras e carneiros, além de, por seu tamanho, não poder ser consumido em uma única refeição. Assim, servir um bezerro era sinal de grande importância e riqueza. Possivelmente Abraão tenha ele mesmo abatido o bezerro porque isto envolvia um certo aspecto religioso. Em seguida, seu escravo deve ter retirado a pele e limpado o animal. Muito provavelmente terá sido grelhado inteiro, em fogo alto, sob a supervisão do dono da casa e servido acompanhado de manteiga, queijo e leite. Vegetais não eram citados . Diga-se, de passagem, que as expressões queijo, leite e manteiga provocaram muita confusão quanto ao seu real significado nas diversas traduções da Bíblia. Algumas vezes, a palavra leite é utilizada na Bíblia como um genérico de produtos lácteos, enquanto manteiga algumas vezes, descreve o leite puro (Quando Sisera pede água a Yael, ela lhe serve "manteiga de leite" numa taça de príncipes – Juízes, 5:25) É possível que se bebesse leite puro mas, se considerarmos as condições de conservação e o fato de que o leite era, logo após a ordenha, guardado em vasos de pele de animais ou madeira, ambos porosos e que carregam as bactérias responsáveis pela coagulação, é bastante provável que o que a Bíblia chama de leite, fosse coalhada ou iogurte (algumas vezes chamados de queijo mole, por traduções equivocadas a partir do grego). Além disso, é também bastante provável que o grande consumo de produtos lácteos coagulados tenha contribuído muito para a saúde de nossos patriarcas, pois a coagulação do leite destrói uma série de microrganismos existentes no leite cru, como os da tuberculose, por exemplo. Alguma forma de manteiga era também consumida nesta época. Escavações arqueológicas em Israel revelam que um utensílio especial de barro com dois furos nas laterais, possivelmente datados do período 4500 a 3200 antes da Era Comum, e comparados a utensílios semelhantes usados pelos beduínos de hoje, mostram que o utensílio era uma espécie de batedeira de manteiga cuja matéria-prima era o iogurte posto na batedeira com água. Por movimento centrífugo, o creme (zivda) era separado do iogurte. A massa resultante era filtrada, escoava por uma peneira com burgul (trigo sarraceno), pelo qual passava somente o soro e o leite coalhado, retendo na superfície as bolotas do que seria chamado de manteiga. O burgul era então espremido e guardado para posterior uso. O líquido resultante é chamado até hoje de shnina pelos árabes. Tem um sabor levemente azedo e é utilizado como refresco no verão. Como a manteiga obtida não resistia muito tempo ao calor do deserto, era colocada sob ação do calor para separar os resíduos de leite da gordura, produzindo a manteiga clarificada, também conhecida como samma entre os árabes, ghee entre os indianos, ou "manteiga de garrafa" no nordeste do Brasil. É uma manteiga muito mais resistente ao tempo e ao calor. Os patriarcas também tinham predileção por caça, como indica o texto da disputa de primogenitura entre Esaú e Jacob: "Isaac chamou Esaú….., toma pois as tuas armas, a tua aljava e o teu arco; e sai ao campo, e apanha para mim alguma caça; e faz-me um guisado saboroso, como eu gosto……, e Rebeca falou para Jacob…..,vai ao rebanho, e traz-me de lá das cabras, dois bons cabritos; e eu farei um guisado saboroso para seu pai……, e pôs o guisado saboroso e o pão que tinha preparado, na mão de Jacob……; trouxe-lhe também vinho e Isaac bebeu." Embora as traduções inglesas a partir da versão King James citem o veado como matéria-prima do guisado, na nova tradução TEB retoma-se a palavra caça, muito provavelmente uma das várias espécies de gazela que existiam no deserto. Como este guisado foi feito é um desafio permanente aos cozinheiros modernos. A Bíblia diz apenas que era uma carne saborosa ou, como sugere a palavra hebraica, uma iguaria. Muito se falou sobre como fazer este guisado, a cor laranja das lentilhas e seus possíveis temperos. Convencionou-se que a megadara, prato da cozinha sefaradi e especialidade dos judeus de Bukarah (na antiga Pérsia), seria a provável sucessora deste guisado. Novamente também o pão é citado como acompanhamento do guisado, e o vinho, que de acordo com os estudos de Gay Lussac, muito provavelmente era tomado diluído com água. Os patriarcas gostavam muito de mel, amêndoas e nozes. Eis o que diz a passagem do encontro de José com seus irmãos: "….;tomai os melhores produtos da terra nas vossas vasilhas e levai ao homem um presente: um pouco de bálsamo e um pouco de mel, tragacanto e mirra, nozes de fístico e amêndoas…." Muito provavelmente este mel não era o mesmo mel hoje conhecido. Talvez fosse um mel natural acrescido de especiarias que os egípcios muito valorizavam e as utilizavam nas mumificações, ou era uma redução feita a partir de uvas ou tâmaras, resultando num xarope muito doce utilizado como adoçante e hoje conhecido como halek. As nozes de fístico, provavelmente, seriam o pistache ou pistáceo, uma variante mais conhecida na Europa. Seguindo a história, a mudança dos judeus para o Egito vai apresentar-lhes toda uma nova culinária e novos ingredientes. A monarquia egípcia tinha um sofisticado sistema agrícola, criação de animais e de peixes, importação de ervas e cozinhas e cozinheiros especializados nos palácios. Entre outras coisas, no Egito o povo judeu vai conhecer a cebola e o alho. (Números, 11:5).

 

* Matéria Extraída da Revista "A HEBRAICA"

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