A lista de Nicholas Winton

A história incrível do herói que salvou mais de 600 crianças e guardou segredo

1- Winton, pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial e uma das crianças que salvou.

2- Nicholas Winton,um herói silencioso

 

É um personagem inesquecível. Uma daquelas pessoas que mostram como é perfeitamente possível melhorar o mundo com um gesto. Um homem que salvou a vida de centenas de crianças, mas guardou segredo sobre o que fez. O que ele disse, numa entrevista ao programa de TV Fantástico, da Rede Globo, é uma lição que serve para o todos.

O homem que ocupa uma cadeira na primeira fila de um auditório jamais teve uma surpresa tão grande. Um dia, ele salvou a vida de 669 crianças. Mas perdeu totalmente o contato com elas. As crianças viraram adultos. O dia do reencontro chegou.

A história de Nicholas Winton é feita de lances incríveis. Discreto, ele jamais quis ser visto como herói. Preferiu guardar em segredo o bem que fez. Não disse nem à mulher que tinha salvado a vida de tantas crianças.

Ao arrumar o sótão de casa, ela descobriu, por acaso, um velho álbum coberto do poeira. Lá estavam fotos de crianças, cartas, telegramas e uma lista com nomes e datas. Quando procurou saber, a mulher de Winton descobriu que aquelas eram crianças que tinham sido salvas por ele. O que teria acontecido com elas? O que esse herói silencioso teria feito?

Quanto tinha apenas 29 anos, Winton viajou para a Tchecoslováquia em companhia de um amigo nas férias de fim de ano. Lá, ficou impressionado com o clima de medo. A Tchecoslováquia já estava sob o domínio da Alemanha nazista.

Winton teve uma idéia: tentar mandar para fora da Tchecoslováquia crianças de famílias perseguidas. Começou a escrever por conta própria para vários países pedindo ajuda. Organizou uma primeira lista de nomes.

Somente a Inglaterra e a Suécia aceitaram receber aquelas crianças. Winton organizou a viagem. Era uma decisão difícil. Para escapar do horror nazista, as crianças teriam de ser mandadas para longe dos pais.

"Nunca me esqueci da angústia que pude ver no rosto dos meus pais", diz uma mulher.

As crianças que partiram para um lugar seguro – a Inglaterra – não sabiam, mas jamais veriam os pais de novo. Os pais, a maioria judeus, morreriam nos campos de concentração nazistas.

"Eu entendi que não veria os meus pais de novo. É difícil falar. Sempre acreditei que a família é o que existe de mais importante", confessa um homem, que um dia foi uma das crianças salvas por Winton.

"Guardo a carta que meus pais me mandaram dias antes de serem enviados para um campo", diz outro homem, que também foi salvo por Winton.

Se é verdade que quem salva uma vida salva a humanidade, o que dizer de quem salva 669 vidas?

Quando as crianças desembarcaram na Inglaterra, lá estava Nicholas Winton esperando por elas. Uma imagem rara registra Winton na plataforma de desembarque com uma das crianças.

Winton só lamenta que o último trem, que traria 250 crianças, não tenha conseguido sair da Tchecoslováquia. O início da guerra, no dia primeiro de setembro de 1939, tornou a viagem impossível.

Nenhuma das crianças que não conseguiram embarcar sobreviveu. Também foram mandadas para os campos de extermínio.

Winton se alistou na Força Aérea. As crianças que tiveram tempo de embarcar para a Inglaterra na caravana organizada por Winton foram encaminhadas para casas de família e abrigos.

Winton nunca falou sobre o que tinha feito. Espalhadas por vários países, as crianças cresceram sem ter notícias do bem-feitor.

O bem que Winton fez rendeu frutos. As crianças se tornaram escritores, engenheiros, biólogos, cineastas, construtores, guias turísticos, jornalistas.

As crianças salvas por Winton se tornaram adultos generosos.

"Para expressar a gratidão pelo que aconteceu comigo, tento ajudar os outros", diz Joseph Ginat.

"Adotei três crianças", completa Tom Graumann.

 "Hoje, trabalho dois dias por semana como voluntário num hospital infantil", revela Amos Bem Ron.

"Uma das melhores características do ser humano é a decência. Nicholas é uma dos seres humanos mais decentes que conheci", diz Joe Schlesinger.

Desde que a história de Winton se tornou pública, ele começou a receber todo tipo de homenagens. A rainha da Inglaterra chamou-o ao palácio para entregar uma condecoração. O governo da República Tcheca fez uma grande homenagem. O presidente dos Estados Unidos mandou uma carta de elogios e agradecimentos.

Mas o agradecimento mais comovente veio daqueles que Winton um dia salvou da morte certa. Um programa de TV inglês encheu o auditório de sobreviventes que foram salvos por ele quando eram crianças, mas nunca o tinham encontrado.

Primeiro, a apresentadora avisou a Winton que a mulher sentada ao lado tinha sido uma das crianças que ele salvou. A apresentadora pediu: "Quem, na platéia, teve a vida salva por Nicholas Winton, fique de pé, por favor". O agradecimento veio em forma de aplausos demorados e lágrimas. Tanto tempo depois, só havia uma palavra a dizer a ele: "obrigado".

O que o herói discreto tem a dizer sobre o que fez? Aos 98 anos de idade, Nicholas Winton deu uma entrevista ao Fantástico em casa, no final de 2007, longe da agitação das grandes cidades, no interior da Inglaterra. Tudo o que quer é cuidar do jardim. Usa o tempo livre para ajudar um asilo.

O silêncio

Fantástico: Por que o senhor guardou segredo?

Nicholas Winton: Não é que eu tenha ficado em silêncio. O que aconteceu é que eu não tinha o que dizer sobre o que fiz.

F: O senhor se considera um herói?

NW: Não me vejo como um herói. Para ser herói, alguém precisa fazer algo de perigoso. Não fiz. O que fiz foi algo que os outros achavam impossível. Mas eu tinha de tentar, para ver se era possível ou não.

F: Mas fazer algo que todos consideravam impossível não é um ato heróico?

NW: Não é um ato heróico. Meu lema é: se  algo não é obviamente impossível, então, deve haver uma maneira de fazer.

F: Se o senhor tivesse a chance de se dirigir às pessoas que salvou, o que diria a elas hoje? O senhor acha que fez do mundo um lugar melhor para viver?

NW: É preciso mais do que um Nicholas Winton para fazer do mundo um lugar melhor. Mas tudo é uma questão de visão. Quase todas as crianças que salvei estão envolvidas hoje em trabalhos de caridade, estão fazendo o bem. O importante não é chegar em casa de noite e dizer passivamente: "Hoje eu não fiz nada de mau". O importante é chegar em casa e dizer: "Eu hoje fiz o bem". Circula na República Tcheca um abaixo-assinado pedindo que o Prêmio Nobel da Paz seja dado a Nicholas Winton. O principal projeto de Nicholas Winton para 2008 é comemorar, no dia 19 de maio, junto com seus filhos e netos, 99 anos de vida.

 

Cineasta que filmou a história busca sobreviventes na América do Sul

O diretor de cinema eslovaco Matej Minac, que levou para as telas a história do corretor de bolsa britânico Nicholas Winton, que salvou 669 crianças judias da extinta Tchecoslováquia da perseguição nazista em 1939, agora procura na América do Sul sobreviventes do Holocausto.

O diretor de "The power of good: Nicholas Winton" (ainda sem título em português), premiado com o Emmy Internacional de melhor documentário em 2002, afirmou hoje que "é muito provável que quatrocentas daquelas crianças tenham ido parar no Brasil, no Chile e na Argentina", pois "a política de vistos nos EUA, Canadá e Austrália era mais severa".

"Essas crianças voltaram à Tchecoslováquia depois da Segunda Guerra Mundial à procura de seus pais e, em fevereiro de 1948 (começo do regime comunista), se transformaram em inimigos do Estado. O Governo considerava que essas pessoas eram traidores, por terem estado em um país capitalista", disse o cineasta.

"Tentaremos exibir o documentário no Brasil, na ‘TV Globo’", disse Minac, que agora trabalha em um segundo documentário intitulado "English Rhapsody" (ainda sem título em português), sobre a influência que este êxodo teve sobre a geração seguinte.

Das 669 crianças evacuadas em oito trens com destino a Londres, entre janeiro e agosto de 1939, que partiram da Estação Principal de Praga, só se tem notícia do paradeiro de 229, e seus descendentes são hoje cerca de 5 mil.

Em 2003, Nicholas Winton (Berkshire, 1910), que organizou esta fuga, e é considerado o "Oscar Schindler britânico", foi nomeado cavaleiro pela rainha da Inglaterra, Elizabeth II.

O jornal londrino Daily Mirror foi, em 1988, o primeiro a publicar informações sobre o ato humanitário, que Winton manteve em segredo por quase 50 anos, até revelar a história à sua esposa.

Minac, cujo longa-metragem "All my loved ones" (ainda sem título em português) também aborda esta temática, conheceu 60 destas vítimas da perseguição nazista em território tchecoslovaco ocorrida após a anexação de parte do país pelo Governo de Adolf Hitler, em 1938.

"Ele salvou a maior parte das crianças judias da minha geração na Tchecoslováquia. Poucos de nós reencontramos nossos pais. Muitos morreram nos campos de concentração. Se não tivéssemos sido separados, teríamos morrido com eles", afirmou Vera Gissing, que foi salva por Winton, e é responsável pelo roteiro do filme.

A procura "das crianças de Winton" foi objeto de um projeto da Escola de Relações Públicas e Internacionais de Praga, que "pretende juntar as partes do mosaico de seu passado". (EFE).

 

 

 Fonte:  Jornal VISÃO JUDAICA

• fevereiro de 2008 • Adar I / Adar II • 5768 – http://www.visaojudaica.com.br/

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