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Israel – A história contada em selos

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O Campeonato Mundial de Selos, realizado em Tel Aviv, é prova de que, mesmo na era da Internet, os selos não perderam relevância. Muito pelo contrário, são uma ferramenta educativa que traz inúmeras informações, inclusive sobre a história judaica e sionista.


Mesmo nos dias de hoje, na era da comunicação instantânea e das vídeo-conferências, colecionar selos ainda é um hobby que atrai adeptos no mundo todo. O sucesso de público e de participantes no Campeonato Mundial de Selos (World Stamp Championship) realizado em Tel Aviv (Israel), em maio de 2008, comprova que esses pequenos e valiosos pedaços de papel ainda despertam a imaginação de pessoas de diferentes gerações e testemunham fatos marcantes na história da humanidade.

O evento, incluído no calendário oficial que marcou a comemoração dos 60 anos do Estado de Israel, contou com a presença de colecionadores israelenses e estrangeiros. Organizada pela Federação Filatélica de Israel e pelo Serviço de Filatelia da Companhia de Correios de Tel Aviv, a cada dez anos realiza-se em Israel uma grande exposição internacional de selos e, a cada dois, a edição nacional.

O que torna uma coleção de selos realmente especial? Vários fatores garantem a singularidade dos selos, entre os quais, a raridade, a temática e seu potencial educativo. Difícil imaginar quanta informação pode ser transmitida em um pedaço tão pequeno de papel, seja através da ilustração ou texto do selo, ou em função do evento comemorativo que registra. Tanto em Israel quanto em outros países, é tradição lançar selos alusivos a importantes datas ou personalidades. Além disso, nas exposições filatélicas internacionais, como o recente evento, em Israel, são expostos, além de selos, cartas, cartões postais e envelopes com nomes, endereços e datas históricas. Todas essas informações ajudam a contar a história e, não raro, de uma maneira pela qual nunca tinha sido escrita.

O Campeonato Mundial de Selos, de Tel Aviv, foi dividido em diferentes categorias. As exibições foram classificadas por tema. Por exemplo, a exibição denominada "Marry Me" (Case-se comigo), exibiu uma coleção de selos relacionados a casamento, que a Baronesa de Luxemburgo passou a colecionar após o casamento do príncipe Charles com Diana. Outra exibição temática mostrou a evolução dos correios e exibiu um selo que passou por vários processos de desinfecção para evitar a possibilidade de contaminar quem o manuseasse. Naturalmente, não faltou a categoria tradicional – com selos de determinados períodos ou locais de relevância histórica.

Foi um colecionador francês quem exibiu o primeiro selo emitido pelo Estado de Israel. O selo revela que os preparativos para a criação do Estado incluíram a impressão de selos. Mas como o nome do Estado judeu ainda não havia sido decidido, David Remez, então ministro de Transportes do governo judaico provisório, decidiu que seriam impressas no selo as palavras Doar Ivri, ou seja, Correio Hebraico. O primeiro selo foi desenhado pelo artista gráfico polonês Otte Wallish, que fizera aliá da então Checoslováquia, em 1935. Além de ilustrar 54 dos primeiros 81 selos emitidos pelo Estado de Israel, Wallish foi responsável também pelo design da Declaração de Independência e de algumas moedas e papel-moeda do Estado de Israel.

Mas a história filatélica na Terra de Israel é mais antiga que a do próprio Estado judeu. A exibição de Zvi Alexander sobre "O correio turco na Terra Santa", cobrindo o período de 1841 a 1918, revela que a primeira agência de correios da então Palestina foi instalada na cidade de Acco (Acre) em 1865; antes disso, todo o serviço postal para a Terra Santa passava por Beirute.

Outra coleção revela que uma das formas pelas quais as potências européias tentavam marcar presença na Terra de Israel era abrindo agências de correio. O primeiro país a montar uma agência estrangeira de correio na Terra Santa foi a Áustria, em 1852, seguida pela França, no mesmo ano. A Rússia fez o mesmo em 1856 e, os alemães, em 1898, pouco antes da famosa visita do kaiser Guilherme II a Jerusalém. A Itália apenas o fez em 1908.

Era bastante intensa a concorrência entre as diferentes agências de correios europeus na Terra de Israel. Para conquistar clientes judeus, alguns países abriram agências em assentamentos de pioneiros, como Rishon Letzion. Havia também agências em Jerusalém, Tel Aviv e Haifa. Em 1909, a Áustria promoveu uma pequena revolução no mundo filatélico ao lançar o primeiro selo em hebraico, no qual estava escrito Petach Tikva, em caracteres hebraicos. O selo, que custava 14 paras (moeda utilizada na época pelo Império Otomano), poderia ser utilizado exclusivamente para o correio local. Porém, tudo isso chegou ao fim, com a eclosão da 1a Guerra Mundial. No dia 30 de setembro de 1914, o Império Otomano, prestes a se aliar à Alemanha, fechou todas as agências estrangeiras de correios na Terra Santa.

Outras coleções expostas no Campeonato Mundial de Selos de Tel Aviv abordaram o tema do Mandato Britânico na Terra de Israel. A medida adotada pelos ingleses, no início de 1948, como parte dos preparativos para abrir mão de seu mandato, foi interromper os serviços de correio local e internacional na então Palestina. Para evitar que estes serviços permanecessem inoperantes até o estabelecimento do Estado de Israel, a Agência Judaica assumiu essa responsabilidade, e imprimiu a palavra Doar – correio, em hebraico – sobre os selos emitidos. Esta medida manteve-se em vigor até 15 de maio de 1948.

Contar um pouco da história de Israel foi o principal objetivo da exibição de selos do colecionador Lawrence Fisher. Profundamente interessado no conflito árabe-israelense, Fisher, que serviu nas forças armadas israelenses, fez deste tema o ponto central de sua coleção. Possui mais de mil selos cujos principais temas são o conflito entre árabes e israelenses e o uso de selos como propaganda de guerra contra o Estado judeu.

A coleção exposta por Fisher inicia-se demonstrando o desespero dos judeus no Holocausto, através de cartões postais enviados dos campos de concentração e uma carta que os judeus de Varsóvia enviaram para membros da comunidade judaica em Xangai, pedindo alimentos. Através da correspondência trocada por imigrantes clandestinos judeus, aprisionados em campos de detenção britânicos, Fisher retrata os confrontos entre judeus e ingleses acerca da imigração judaica para a então Palestina. A coleção inclui, ainda, uma carta enviada de Latrun para o Campo Gilgil para deportados, no Quênia, cujo selo foi retirado pelos britânicos, sob a suspeita de ocultar uma mensagem cifrada.

As preciosidades deste colecionador prosseguem narrando a criação do Estado de Israel e suas guerras, e finalizam com os selos utilizados como propaganda contra o país pelo Irã, Jordânia, Iêmen, Tunísia, Marrocos e Iraque. Lawrence Fisher conseguiu retratar, de forma brilhante, através da grande coleção de selos que acumulou durante muitos anos, a complexa história de Israel.

Filatelista brasileiro ganha Medalha de Ouro em Israel

O colecionador brasileiro, Marcos Chusyd, participou do Campeonato Mundial de Selos (World Stamp Championship) realizado em Tel Aviv de 14 a 21 de maio, com a coleção "Casa da Moeda 1881-1888", recebendo a Medalha de Ouro.

O grande prêmio da exposição em Israel foi para Luis Alemany, da Espanha, com a coleção "Olhos de Boi", do Brasil.

Não é a primeira vez que Chusyd participa desta mostra – em 1998, quando Israel comemorou 50 anos de independência, ele se fez presente com a coleção "D. Pedro II", ocasião em que também recebeu Medalha de Ouro.

Colecionador de selos desde os 10 anos de idade, Chusyd é um nome respeitado no universo filatélico há quase três décadas, com ampla participação em eventos no Brasil e no exterior. No primeiro semestre deste ano, organizou uma exposição em homenagem aos 60 anos de Israel, na sede do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro. A exibição permaneceu aberta ao público durante dois meses e mostrou a formação do Estado judeu, através da filatelia, durante a época em que a Palestina estava sob domínio do Império Turco, no século 19, durante o Mandato Britânico, além da formação das agências postais da Áustria, Alemanha, Rússia, Itália e França e nos primeiros anos de Israel.

Apesar de colecionar selos sobre temas ligados a Israel há anos, foi a primeira vez que o material foi exposto. A mostra no AHJB incluiu, ainda, o documento original da Partilha da Palestina, aprovada pelas Nações Unidas, em 1947; uma carta original assinada por Theodor Herzl; selos de países árabes que trazem desenhos contra Israel; e quatro em homenagem a Oswaldo Aranha, que presidiu a célebre sessão das Nações Unidas, em 29 de novembro de 1947. Há, também, muitos materiais sobre a Guerra dos Seis Dias, de 1967, e selos recentes, de 2008, comemorativos dos 60 anos de Israel.

Embora reconhecido internacionalmente pelas séries com temática brasileira, como "Inteiros postais do Brasil no século 19", "Casa da Moeda 1881-1888" e "O Carimbo Francês no Brasil", Chusyd confessa que as que mais o emocionam são "Israel", "Judaica" e "História Postal de Israel".

Segundo o filatelista, "há diversas maneiras de se entender a história, mas a evolução filatélica é uma forma bastante particular de se compreender as transformações históricas e geopolíticas de uma nação. Além de uma rica fonte de estudo, o selo é uma expressão artística e um canal de comunicação pelo qual um país deixa registrado interna e externamente todo um conjunto de valores, códigos e mensagens.

A filatelia não acaba, pois sua finalidade não é somente postal, mas apresenta cultura, arte, história, conhecimento de cada país e permite o intercâmbio entre pessoas de varias nacionalidades, religião e cultura".

Ele esteve presente, também, em uma importante exposição nacional, realizada em junho último em Florianópolis, através da Federação dos Filatelistas do Brasil. O evento contou com a presença de colecionadores de todo o País.

 

 

Fonte: Revista Morashá - Edição 63 – dezembro de 2008- http://www.morasha.com.br/

HISTÓRIA DAS COMUNIDADES – Salônica, a Sefarad

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Antiga capital da Macedônia, Salônica tem uma história que se estende por 2.500 anos. Desde sua fundação, havia judeus vivendo na cidade. A partir do final do século 15, tornou-se abrigo para milhares de judeus ibéricos, que transformaram a cidade na mais importante e populosa de todas as comunidades sefaraditas do mundo.

Localizada no nordeste do Golfo de Salônica, a cidade foi construída em 316 a.E.C, por Cassandro, rei da Macedônia, general de Alexandre Magno, que lhe deu o nome de sua esposa, Tessalônica, meia-irmã de Alexandre. Os primeiros judeus chegam a Saloníki – como era chamada a cidade em koine, o grego coloquial – trazidos de Alexandria por Cassandro. Helenizados e falando grego, eram artesãos e navegadores experientes, principalmente na área do comércio marítimo.

Em 168 a.E.C., Roma pôs fim à independência da Macedônia e, 20 anos mais tarde, com a Grécia definitivamente subjugada, torna-a uma província romana, com Tessalônica como a capital. Sob os romanos, tornou-se um importante centro comercial, no qual a comunidade judaica desfrutou de um período de tranqüilidade e autonomia.

De acordo com o historiador grego Strabo, desde o século 1 a.E.C. havia comunidades judaicas na maioria das cidades gregas, sendo a de Salônica numerosa e influente. Sua importância é confirmada pelas tentativas de proselitismo feitas pelos primeiros cristãos. O apóstolo Paulo a visitou no ano 52, pregando os ensinamentos do cristianismo na sinagoga Etz ha-Haim, que datava da Antigüidade. Nos séculos 1 e 2, a comunidade judaica de Salônica registra crescimento devido ao fluxo de judeus vindo de Eretz Israel, após as revoltas judaicas contra Roma.

Período bizantino

No final do século 4, quando ocorre a divisão do império Romano, Salônica passa a ser parte do chamado Império Bizantino. Por praticamente 11 séculos, até ser conquistada no século 15 pelos otomanos, a cidade integrou o estado bizantino, então chamado de România, cujos habitantes eram conhecidos como romioi, ou seja, um povo grego-cristão com cidadania romana. E os judeus, que desde a Antigüidade viviam na Grécia ou na região dos Bálcãs, passam a ser chamados de romaniot.

Apesar de convulsionado internamente por questões políticas e religiosas, o Império Bizantino sobreviveu às incursões dos godos e dos hunos, nos séculos 5 e 6, firmando-se como a única unidade política que logrou obter o controle do Mediterrâneo.

Durante o período romano e o início do bizantino, o judaísmo era "religião lícita" e, portanto, seu culto era permitido e a vida da população judaica não diferia muito da não judaica; todos compartilhavam a mesma língua, o grego, e as mesmas ocupações. A vida dos judeus começa a mudar a partir de Justiniano I (527-565), quando se vêem objeto de uma legislação que, entre outros, proíbe-os de erguer sinagogas e exercer determinadas atividades econômicas. Torna-se também obrigatório que a leitura da Torá, nas sinagogas, seja feita em grego. Isto deu origem a um dos traços distintos do min’hag România, que tem parte da liturgia realizada em grego.

No século 9, o Império vivencia uma fase de crescimento e expansão territorial; Salônica é um dos centros urbanos que mais cresce, tornando-se a segunda capital do Império. Florescem, também, a vida e a fortuna dos judeus, apesar de serem, inevitavelmente afetados pelo processo de bizantinização que as autoridades cristãs passam a impor aos povos sob seu domínio. O período de estabilidade e crescimento termina em 1071, quando os turcos seljúcidas derrotam os bizantinos, pondo fim ao seu poderio na Ásia Menor.

As informações sobre a situação dos judeus de Salônica, no século 12, são reveladas no diário de viagem do Rabi Benjamin de Tudela, que chega à cidade em 1159: "Salônica é uma cidade muito grande, com cerca de 500 judeus, incluindo o rabino-chefe Samuel e seus filhos, que são eruditos. Ele é indicado pelo rei para ser o líder dos judeus. Há, também, Rabi Sabatai, seu genro, Rabi Elijah, e Rabi Michael. Os judeus são oprimidos e vivem da tecelagem em seda. Apesar de Rabi Tudela tê-los considerado oprimidos, não podemos esquecer que o erudito vinha da Espanha, onde a condições de vida eram as melhores possíveis,sob os bizantinos os judeus viviam melhor do que em países católicos. Entre outros tinham liberdade de viver onde quisessem e de possuir bens e propriedades.

Durante os dois séculos seguintes, Salônica é saqueada pelos normandos, em 1185, e pelos integrantes da 4ª Cruzada, em 1204. Após conquistar, saquear e incendiar Constantinopla, os líderes da Cruzada dividem entre si parte do território bizantino e formam reinos católicos independentes, um dos quais era o de Tessalônica. A ocupação cruzada foi terrível e os judeus foram os primeiros a sofrer as consequências da intolerância religiosa dos conquistadores.

Salônica começa a se recuperar em 1261, quando os bizantinos restabelecem seu domínio sobre os Bálcãs. Com os cofres públicos vazios e cidades despovoadas, o governo implanta uma política de revitalização da economia e dos centros urbanos, procurando atrair judeus para seu território. As condições de relativa segurança e o crescimento da atividade econômica os levam a novamente se fixar na cidade.

Por volta de 1376, radicam-se em Salônica os primeiros judeus asquenazim, em fuga das perseguições na Hungria e na Alemanha. Nos anos seguintes, se estabelecem na cidade judeus provenientes da Provença (França), da Itália e da Sicília e, também, da Espanha após os violentos pogroms de 1391 e a instalação da Inquisição.

Os romaniot acolheram os recém-chegados de braços abertos, mas cada grupo forma sua própria comunidade vivendo ao redor de sua sinagoga. Este padrão foi seguido por todos os judeus que se assentaram na cidade, nos séculos seguintes. No início do século 15 a comunidade era próspera, sendo que grande parte estava envolvida no comércio da seda. Sua situação se deteriora no ano de 1423, quando os bizantinos vendem a cidade para Veneza e os judeus passam a sofrer inúmeras restrições e pesados impostos.

Império otomano

Inicia-se uma nova era para Salônica quando, em março de 1430, a cidade capitula perante o sultão Murad II (1401-1451). Ocorrem massacres que levam muitos habitantes a partir, deixando-a praticamente deserta. Para repovoá-la, o sultão transfere de Anatólia populações cristãs e judaicas, incentivando principalmente estes últimos a se estabelecer na cidade. Sob domínio islâmico, os judeus adquirem os mesmos direitos de qualquer outra minoria não-muçulmana. Com isso, a comunidade volta a se recuperar.

Em 1453, Constantinopla cai em mãos do sultão Mehmed II, alcunhado el-Fatih, ou "o Conquistador". Este evento marca o fim da Idade Média. Conhecido por sua tolerância religiosa, Mehmed II é recebido com entusiasmo pela comunidade judaica romaniot.

Decidido a fazer de Constantinopla, já então chamada de Istambul, a nova capital de seu império, o sultão convida os judeus a se fixarem na cidade com uma proclamação em que afirma: "Ouçam, filhos de hebreus que vivem em meus domínios… Que todos que assim o desejarem venham a Constantinopla; e possa o restante de seu povo aqui encontrar abrigo… para ascender ao lugar do Trono Imperial, para viver na melhor terra,… e sob sua figueira, com prata e com ouro, com riqueza e com animais…".

Em sua famosa carta de 1454, aos judeus da Alemanha, Rabi Isaac Zarfati os exorta a emigrar para terras otomanas e a deixar para trás a terra onde viviam, com todas as aflições que os cristãos lhes impunham. Rabi Zarfati fala sobre as boas condições e a tolerância que prevaleciam no Império Otomano. Apesar de não se saber ao certo o real impacto da missiva, ela retrata o estado de espírito judaico da época.

Atraídos pela tolerância turca, os judeus asquenazitas começam a emigrar para o Império otomano e, a partir do ano de 1478, chegam os primeiros judeus sefaraditas. Na época, eram poucos os romaniot que viviam em Salônica, já que o sultão Mehmed deslocara a maioria deles para Istambul para injetar um impulso comercial na cidade.

A chegada dos sefaradim

A terrível decisão de 1492, por parte dos reis espanhóis, de obrigar todos os judeus de seus territórios à conversão ou ao exílio, foi crucial para o futuro de Salônica. Ao tomar conhecimento do Édito de Expulsão e do apelo dos judeus espanhóis para que lhes fosse concedido asilo em terras otomanas, Elijah Kapsali, Grão-rabino de Istambul, apela ao sultão Bayazit II para que abra as portas do império aos judeus ibéricos. Para os turcos, estes eram uma talentosa minoria, sem pretensões políticas. Ciente das vantagens econômicas que a vinda dos sefaradim traria ao império, Bayazit II ordena aos governantes das cidades que os acolham bem.

Uma frota encabeçada pelo almirante Kemal Reis é enviada a Cadiz, onde mil judeus debatiam-se para deixar a Espanha. Ao chegar à cidade portuária, Kemal os toma sob sua proteção, prontamente os conduzindo ao Império Otomano. Muitos se estabelecem em Salônica.

Os sefaradim chegam a Salônica e às demais partes do Império Otomano em ondas migratórias distintas. A primeira ocorreu logo após a expulsão da Espanha, em 1492, e a conversão forçada em Portugal, em 1497. Não se sabe o número exato de judeus ibéricos que se estabeleceram em terras otomanas, calcula-se que tenha sido em torno de 40 mil, a metade dos quais em Salônica, segundo alguns historiadores. A princípio, foram bem recebidos pelos romaniot, que os ajudaram em tudo. Mas, as diferenças culturais e de idioma acabaram provocando conflitos entre as duas comunidades.

Cultos, religiosa e culturalmente orgulhosos de sua linhagem e herança, os sefaradim não adotaram o min’hag România. Em Salônica, onde estavam também em desvantagem numérica, os romaniot tiveram que se adaptar aos costumes sefaraditas, inclusive a aprender o espanhol, que se tornou o idioma do comércio e da cidade. Em pouco tempo, Salônica torna-se uma cidade completamente sefaradita, em solo otomano. A segunda leva de sefaradim chegou à cidade em meados do século 16 e, como atesta o historiador P. Riscal: "Até o fim do século 17 era muito raro que um navio atracasse no porto da cidade sem que dele desembarcassem alguns judeus". Bem mais fragmentada, esse contingente era composto por judeus e conversos vindos de toda a Europa, mas principalmente de Portugal, após 1536, quando se instala no país o Tribunal da Inquisição.

A partir de 1552, com a Inquisição tomando mais força na Europa, cresce o ódio aos judeus e conversos; e estes deixam o continente europeu. Ao chegar em terras otomanas, reassumem sua fé e voltam a praticar o judaísmo.

Graças à chegada dos sefaradim, já no início do século 16 a cidade tornou-se um importante centro econômico e principal núcleo judaico do Mediterrâneo.

Samuel Uísque, cronista judeu português, descreve, em sua obra Consolação às Tribulações de Israel (1553), a prosperidade da cidade, ressaltando ainda: "A maioria dos filhos perseguidos e banidos da Europa e de outras partes se encontrou em Salônica, onde foram bem recebidos, como se lá fosse a nossa venerável mãe, Jerusalém".

Já no século 16 a maioria de seus habitantes eram judeus e todas as atividades, inclusive o porto, cessavam no Shabat. O bairro judaico de Salônica se localizava na área do porto e estava subdivido em diferentes kehilot, comunidades centralizadas ao redor de sua sinagoga cujos nomes como Aragon, Castilla, Saragoza, entre outros, lembravam a Espanha. Cada kahal era uma entidade independente, religiosa e socialmente, com sua própria sinagoga, biblioteca e ieshivá, seus rabinos, líderes laicos e entidades assistenciais. Este modelo de organização servia principalmente para preservar as tradições, os ritos e até dialetos específicos de seus locais de origem.

No entanto, tornou-se logo necessária uma estreita colaboração entre todas as kehilot, e, no início do século 16, um comitê integrado por todos os parnassim passa a determinar a divisão, entre as várias kehilot, dos impostos a serem pagos ao governo otomano pelos judeus de Salônica. Em 1520, foi fundada uma sinagoga, no coração do bairro judaico, para abrigar toda a comunidade, a Talmud Torá ha-Gadol.

Dados de arquivos turcos da época indicam a supremacia da presença judaica em Salônica ao longo do século 16: em 1519 havia 1.375 famílias muçulmanas, 1.087 cristãs e 3.143 judias.

O século 16 foi a Idade de Ouro para a comunidade judaica de Salônica. Na cidade, que se tornara importante centro comercial e financeiro, estabeleceram-se grande número de sábios espanhóis, cuja influência se espalhou além das fronteiras do Império Otomano e cuja erudição superava a excelência nos campos da Torá e do Talmud. Entre eles havia eruditos, poetas e médicos de renome; cientistas que dominavam a matemática e as ciências náuticas.

Entre os refugiados havia também financistas e comerciantes internacionais, fabricantes de instrumentos de precisão, exímios artesãos de metais e pedras preciosas. Em Salônica, os judeus desempenhavam um papel essencial nas duas áreas mais importantes da economia da região: o comércio internacional e a indústria têxtil. As casas de comércio de Salônica tinham representantes em cada um dos mais importantes portos do Mar Adriático. E, graças às novas técnicas de tecelagem e fabricação de tecidos finos até então desconhecidas na região, trazidas por judeus da Espanha e da Sicília, a cidade se tornara um importante centro têxtil. Fabricantes judeus passam também a dominar a produção de lã na região. O período foi áureo também do ponto de vista cultural, pois a cidade se tornara um renomado centro de estudos da Torá, do Talmud e da Cabalá, com inúmeras bibliotecas abertas a estudiosos, muitas das quais haviam sido trazidas da Espanha e outras que foram instituídas por famílias abastadas. A segunda gráfica de todo o Império foi estabelecida em Salônica, em 1510.

Alunos do mundo inteiro iam a Salônica para estudar em suas ieshivot, onde ensinavam sábios famosos. Entre eles, o Rabi Yossef Caro, autor da obra Shulchan Aruch, e Rabi Salomon Alkabetz, que lá escreveu o Lechá Dodi. Tamanha era a reputação das ieshivot locais, que Rabi Isaac Abravanel enviou seu filho, Rabi Samuel, para lá aprimorar seus conhecimentos.Entre os inúmeros sábios que viveram na cidade, no século 16, pode-se mencionar, ainda, Rabi Levi ben Habib e Rabi Yossef ben Solomon Taitazak, grande cabalista e talmudista. Um dos discípulos destes dois sábios foi Rabi Samuel de Medina, o RaSHdam, uma das maiores autoridades sobre a lei judaica, a Halachá. Lá Viveram, também, o Rabi Moses Almosnino, famoso por seu grande saber nas questões rabínicas e nas ciências; Rabi Isaac Adarbi, autor de Divrei Rivot e Divrei Shalom.

A educação, principalmente a formação dos jovens, era uma prioridade, e as elites intelectuais e econômicas da cidade uniram-se na criação de uma instituição educacional do mais alto nível, o Talmud Torá ha-Gadol, construída em 1663 ao lado da sinagoga de mesmo nome. A entidade que podia atender até 10 mil alunos mantinha, também, cursos profissionalizantes e um de ensino superior, que incluía estudos seculares como latim, árabe, filosofia, astronomia, ciências e medicina. Por algum tempo, o famoso médico Amatus Lusitanus lá lecionou. Famílias de todo o Mediterrâneo mandaram seus filhos para ser educados no Talmud Torá de Salônica, que continuou a existir até os tempos modernos.

Início da turbulência

Em 1665 chega a Salônica Shabetai Zvi. Esse pseudo-cabalista dividiu o mundo judeu, convencendo a muitos de que era o Messias. No ano seguinte, confrontado com a pena de morte, o falso messias converteu-se ao islamismo, estraçalhando os anseios de tantos e deixando os judeus de Salônica, assim como o resto mundo judaico, profundamente consternados.

No final do século 17, chega ao fim a época de prosperidade. A descoberta de novas rotas marítimas e o envolvimento em dispendiosas campanhas militares resultaram no declínio econômico do Império Otomano. À medida que declinava o império, aumentavam os impostos cobrados pelo governo à comunidade judaica. A comunidade entra, então, em um processo de estagnação que se estendeu por quase dois séculos. As difíceis condições econômicas em que viviam muitos dos judeus da cidade eram mitigadas pela ação dos membros mais abastados que, entre outros, ajudavam a manter mais de 60 ieshivot.

Entre 1720 e 1730, a cidade recebe uma nova leva de sefaradim, os chamados "Francos", ou franj. Originários na Itália, particularmente em Livorno, se estabelecem em cidades portuárias, entre as quais Salônica, onde atuavam como intermediários entre os judeus locais e a Europa.

Modernização

Em meados do século 19, inicia-se em Salônica um período de renascimento econômico, modernização e ocidentalização. Os incêndios de 1890, 1896 e 1898 aceleraram a urbanização da cidade, inclusive com a implantação de infra-estrutura para eletricidade e água corrente. E, em 1889, foi construído um novo porto, que ajudou a desenvolver ainda mais o comércio. Muitos desses projetos foram financiados por empresários judeus, como Hirsch, Rothschild, Allatinis e outros.

No final do século, a cidade volta a ser um próspero centro de comércio, com os judeus locais participando ativamente dos negócios com a Europa. Das 56 maiores companhias existentes, 38 estavam em mãos judaicas. Esta predominância se estendia também ao setor bancário, financeiro e industrial. E foram empresários judeus os que mais investiram na modernização da indústria local, sendo que sete das 10 maiores indústrias pertenciam a membros da comunidade.

O período também vive um renascimento cultural, tanto religioso e laico. Os estreitos contatos com a Europa trouxeram novas idéias e os sinais desta ocidentalização se tornam aparentes entre os judeus. As classes mais abastadas adotam a língua e cultura francesa, e passam a usar roupas ao gosto europeu.

Se o crescimento econômico criou as bases para a modernização da sociedade, os meios para isso foram uma educação secular e européia. Em 1873, a Alliance Israélite Universelle funda sua primeira escola na cidade e, até 1912, já havia nove outras, com 2 500 alunos e mais de 6 mil ex-alunos. O novo sistema educacional acabou criando uma nova geração de profissionais. A literatura e o jornalismo floresceram e, em 1864, Judá Nehama lançou El Lunar, o primeiro jornal judeu-espanhol de Salônica, o La Época, foi fundado em 1875 e circulou até 1912.

Século 20

Na virada do século 20, Salônica e os judeus locais se encontravam na interseção de duas épocas e duas civilizações. No entanto, apesar de ser a cidade mais ocidentalizada de todo o Império Otomano, Salônica mantinha seu caráter predominantemente judaico. Em 1908, o golpe de estado dos "Jovens Turcos", que derrubou o sultão Abdul Hamit II, foi recebido entusiasticamente pelos judeus de Salônica. O novo governo demonstra simpatia em relação a esta importante parcela da população, permitindo a atuação aberta do movimento sionista. Politizados, os trabalhadores judeus fundaram sua federação, à qual deram o nome de Federación, aliando-se a outros grupos gregos de esquerda.

Ao se tornarem cidadãos com plenos direitos, os judeus ficam sujeitos à lei de alistamento obrigatório, tendo que servir no exército turco. Oito mil jovens preferem deixar o país a lutar nas guerras dos Bálcãs. Mesmo assim, ainda era uma comunidade pujante, econômica e socialmente, com seu próprio hospital, orfanatos e escolas profissionalizantes. Era uma comunidade que cuidava de seus membros mais necessitados.

Sob domínio grego

Em outubro de 1912, a Liga Balcânica – Sérvia, Bulgária, Montenegro e Grécia – declara guerra ao Império Otomano, pondo em marcha, assim, a 1ª Guerra Balcânica. As tropas gregas apoderaram-se de Salônica, no início de novembro, incorporando a cidade ao estado grego.

Os judeus viam com temor a chegada dos gregos, cuja entrada na cidade veio acompanhada por uma série de incidentes anti-semitas. Mas o rei George I garantiu aos líderes comunitários que não havia o que temer pois a liberdade religiosa era aprovada na constituição. O governo reconheceu, entre outros, o direito judaico de realizar casamentos segundo suas leis, de fechar as lojas no Shabat, abrindo-as aos domingos.

No entanto, o novo governo estava determinado a transformar Salônica, que ainda guardava forte sabor judaico, numa cidade grega. Algo não tão simples, pois, segundo o censo de 1913, dos 200 mil habitantes da cidade, 62 mil eram judeus. O ladino ainda era a língua usada no comércio e, na sexta-feira à tarde, o porto, o comércio e, as indústrias paravam, assim permanecendo até o dia seguinte, ao término do Shabat. Salônica era uma ilha sefaradita num mar agitado pelo nacionalismo.

O governo então deu início a uma intensa política de helenização, obrigando judeus, que só falavam o ladino, seguido pelo turco, a aprender e usar o idioma grego.O francês, porém, continuou sendo a língua das elites, que enviavam os filhos às escolas estrangeiras.

Quatro anos depois da anexação de Salônica, uma tragédia de proporções imensas atinge a comunidade. Em agosto de 1917, um grande incêndio, que durou três dias, destruiu praticamente todo o centro da cidade. Mais de 2 mil edifícios pertencentes a judeus foram destruídos, inclusive a sede do Rabinato, 32 das 34 sinagogas e o prédio da Alliance Israélite, assim como quase todas as escolas, clubes, bibliotecas e sedes de instituições culturais e filantrópicas. Das 73 mil vítimas que perderam tudo, 52 mil eram judeus, que passaram a viver em tendas improvisadas, na periferia da cidade. Milhares deles deixaram a Grécia em direção à França, Itália, Alexandria e Eretz Israel.

Dando continuidade à política de helenização, uma lei declarou o domingo como o dia de descanso obrigatório, o que tornou, do ponto de vista econômico, a vida de inúmeros judeus insustentável, pois não tinham condições de fechar seus negócios durante dois dias seguidos.

Como agravante, o crescente nacionalismo que se instalara na Grécia provocou um forte sentimento anti-semita, estimulado pelo governo do primeiro ministro Venizelos, que lançou o slogan "Grécia para os gregos", sem levar em conta que os judeus lá viviam há mais de 2 mil anos.

No ano de 1931, atiçados pelo discurso anti-semita, 2 mil gregos entraram em um bairro judaico, onde 300 famílias viviam desde o incêndio de 1917, e queimaram todas as casas. Os culpados foram absolvidos no ano seguinte. O pogrom foi organizado por membros do Ethnike Enoisis Hella (União da Nação grega), organização fascista fundada na década de 1920, que, na época, contava com 7 mil membros, 3 mil dos quais, em Salônica.

Entre 1932 e 1933, mais de 20 mil judeus abandonaram a cidade. Dos 90 mil habitantes judeus que viviam em Salônica em 1900, restavam, às vésperas da 2a Guerra Mundial, uns 56 mil. Ainda eram, contudo, uma comunidade próspera e culta, a maior dos Bálcãs, e uma das mais organizadas da Europa. De março a de maio 1943, os nazistas enviaram cerca de 43 mil judeus de Salônica para Auschwitz; destes, somente 1.300 sobreviveram.

No ano seguinte, em setembro, os alemães deixaram a Grécia, derrotados; mas, para comunidade judaica, já era tarde. Dos 47 mil judeus que havia em Salônica em 1943, pouco mais de 2 mil sobreviveram à guerra. A "cidade mãe fora de Israel", a "Jerusalém dos Bálcãs", deixara de existir.

 

Bibliografia:

Stavroulakis, Nicholas P, The Jews of Greece,

An essay, Talos Press, Athens.

Messinas, Elias V., Synagogues of Salonika and Veroia

 

Fonte: Revista Morashá – Edição 63 – dezembro de 2008 – http://www.morasha.com.br/

 

A COMUNIDADE JUDAICA DA BAHIA

Padrão

 

A memória e história dos imigrantes, antes mergulhadas na apatia e desinteresse, estão sendo resgatadas por novos estudos. Personagens que numa vinda temerária atravessaram um oceano, deixando para trás sua língua, seus hábitos, seu cotidiano e até a própria família.

Essa mudança, por vezes traumática, sua acomodação nem sempre suave, devem ser objeto de estudos e de uma historiografia compatível com a procura das raízes das minorias brasileiras e da diversidade dos grupos que formaram o que chamamos, de forma ampla, o povo brasileiro.

Sabe-se de cristãos-novos que viveram na Bahia em diversos períodos: entre os degredados e colonos durante as Capitanias e Governo Geral. Anita Novinsky escreve que constituíam 10% a 20% da população branca na capital colonial, Salvador (Cristãos Novos na Bahia, p 67). Judeus vieram para o litoral do nordeste, durante o domínio dos flamengos, na Bahia (1624-25) e Pernambuco (1630-54), quando constituíram um comunidade com atividade intensa em diversos setores, tendo fundado a primeira sinagoga das Américas em Recife, em 1641. (* Judeus no domínio holandês, p. 10 Esther R. Largman) Depois da derrota dos holandeses, a maioria preferiu sair do Brasil, retornando para Amsterdã ou migrando para a Guiana, Antilhas ou Nova Amsterdam (hoje Nova York).

Os réus dos tribunais da Inquisição são testemunhos preciosos. Quando a Carta de Lei, de 25/05/1773 do Marquês de Pombal decretou a distinção entre cristãos-novos e velhos, no reinado de D. José II, os remanescentes já haviam esquecido suas origens – pois haviam-se tornado bons católicos.

O levantamento da presença judaica no Brasil e particularmente na Bahia, depois da Independência, ainda está para ser realizado.

Em 1821, nas Cortes Portuguesas, o deputado pela Bahia, Carvalho de Melo, defendeu a liberdade para os judeus, alegando que ela já existia em Roma e na França. Nesse mesmo ano, Alexandre Gomes Ferrão, também representando a Bahia, apresentou um projeto de plena restituição aos judeus e mouros expulsos de Portugal em 1497.1

Proclamada a Independência, a Constituição de 1824 consignou princípios da liberdade religiosa.

Em 1838, dois irmãos da nação hebraica, Arão e Isaac Sabag, fundaram um empório em Feira de Santana.² A presença de alguns judeus, ainda no século XIX, é na maioria de origem sefardita e foram estudados pelos Wolff: José Abraham e Aron Saback foram registrados como viajantes em 1837, assim como Jountal Serfaty. Joseph Alkaim foi dispensado da função de gerente na Companhia de Minas de Assuruhá em 1887. A figura mais importante foi, sem dúvida, o rabino Isaac Amzalak que, chegando em 1829, criou um círculo de relações em sua casa, freqüentado “pela melhor gente do tempo”, inclusive pelo poeta Castro Alves que dedicou alguns poemas às suas filhas, em quem se inspirou.3

No início do século XX, encontramos pela imprensa sobrenomes com clara origem judaica mas já aculturados e absorvidos pela sociedade baiana: José Abrão Cohim, criador de gado e senador; juiz Antonio Bensabat, coronel José David Fuchs.4

A Primeira Grande Guerra foi uma explosão que dilacerou a comunidade dos países europeus. Os heimatlossen ou apátridas e as minorias, como corolários às guerras civis e migrações, perderam os direitos antes inalienáveis, isto é, os Direitos do Homem. Os efeitos da guerra, a fome e a penúria subseqüente, a mudança da carta política da Europa, o desemprego e a inflação, foram causas substanciais para a retomada do fluxo migratório para fora do Velho Mundo.5

A vida para muitos judeus na Europa, após a Primeira Guerra Mundial, tornou-se incompatível com suas perspectivas de vida e ideário humanos. Pressionados econômica, política e moralmente, desnacionalizados, sem perspectivas, puseram-se a abandonar o velho continente. Entretanto, a maioria procurava, desde o século XIX, emigrar para os Estados Unidos. Este grande pólo de atração, contudo, ofereceu dificuldades, quando a votação da lei em 1921, fixou o número dos imigrantes: 3% de cada nacionalidade que habitava em 1910.6 Restavam assim, no Novo Mundo, o Canadá, a Argentina e o remoto e pouco conhecido Brasil. Aqui vigoravam, a partir da Lei de Imigração de 1919, os tipos de visto de estada permanente, o que possibilitava uma ocupação e subsistência em pouco tempo.

O foco desta pesquisa é a presença de judeus com vida comunitária, identidade cultural e religiosa próprias – diferente do contexto maior.

Um anúncio, em 1912, da joalheria de Jacob Grunfeld, talvez um dos primeiros, confirma a crônica oral,7 e a informação da Enciclopédia Judaica, assinala este como o ano da chegada dos primeiros imigrantes, estimando em vinte, as famílias residentes em 1914, ano em que se organiza a primeira entidade, a Tiferet Sion, de caráter cultural. Um antigo imigrante, que chegou a Salvador em 1914, conta que já encontrou judeus, além dos polacos (ligados ao meretrício estrangeiro), com os quais não se misturavam e, por isso, a população os chamava de russos.8 Em 1916, no jornal O Democrata, encontramos divulgação de três negociantes, no ramo de mobiliários e quadros. Nessa mesma época, ambulantes começaram a percorrer os bairros mais afastados de Salvador e eram confundidos com os árabes e turcos que migraram em maior número. A revista Columna, fundada pelo professor David J.Perez, em 1917 registrou a importância de 117$(réis), enviada para as vítimas da guerra, e os cumprimentos recíprocos entre residentes de Salvador e Rio de Janeiro.9

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, Salvador possuía em 1917 duzentos e setenta e um mil e quatrocentos habitantes. Levine estima que, em 1917, havia no Brasil em torno de sete mil judeus. As restrições da Constituição de 1934 à imigração, reduziram drásticamente as cotas de judeus que fugiam do nazismo.10 A Constituição de 37 confirma as instruções anteriores.

Após o término da Primeira Grande Guerra a imigração se intensifica. A carência de cifras não impede de examinar, à luz de relatos, entrevistas, depoimentos e pesquisa em jornais, como começou a pulsar essa pequena comunidade. Através de levantamento nominal, chegamos a um número estimado de famílias judias que residiram no Estado da Bahia, entre 1912 e 1945: ashquenazitas: 315, sefarditas 24.

O maior número concentrava-se em Salvador; os judeus do interior estavam dispersos em vários municípios: Ilhéus, Itabuna, Cahoeira, Juazeiro, Feira de Santana, Bonfim e Alagoinhas eram os principais. No semanário Dos idishe vochenblat (03/02/26), o sr. L.Cenker relata uma assembléia para discutir compra de terreno destinado ao cemitério comunal, pois a colônia contava com quinhentas pessoas. Em novembro de 1929, o Diário de Notícias comenta a visita do sr. J. A. Ettinger, dirigente do Jewish National Fund, que informava: “As colônias maiores são do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. Pernambuco tem trezentas famílias e aqui temos umas cento e vinte”. É necessário notar, contudo, que a mobilidade dessa comunidade é permanente, fazendo com que sua população tenha dados extremamente flutuantes. Em 1921, o sr. Leão Bloch já se despedia pela imprensa, indo para o sul.

O censo de 01/09/1940, realizado pelo I.B.G.E., oferece-nos dados oficiais: observamos a presença de judeus no Estado da Bahia, em 39 (trinta e nove) municípios, num total de 956 (novecentos e cinqüenta e seis) pessoas.11 Havia uma forte concentração urbana, sobretudo na capital Salvador, seguida de Ilhéus e Itabuna. Como comparação temos 1920 judeus no Rio de Janeiro e 19.743 no antigo Distrito Federal.

Resultado das entrevistas
Homens: 23 – Mulheres: 13 – Total: 36

Avaliação qualitativa:
Quanto à origem, a maioria provinha da Bessarábia (18), depois vinham os da Ucrânia (8), Polônia (6), Turquia (1), Hungria (1), Síria (1) e Israel (1).

Causas da emigração: Resposta quase unânime: pressão econômica (20) Outras: fuga ao anti-semitismo (9), ao serviço militar (2), falta de perspectiva (5) .

Impactos iniciais: Como alguns davam mais de um dado, apenas tomamos nota dos principais: a presença dos negros (16); o carnaval (7); atraso cultural (9); bondade do povo (6); as procissões (5); as igrejas (6) e, por fim, também quase uma unanimidade: a natureza tropical.

Dificuldades iniciais: língua (8) ; alimentação diferente (6); clima e topografia (8); saudades (6) e um último dado surpresa: nenhuma (8).

A alimentacão era baseada em batatas, massas caseiras, peixe, galinha e saladas. Muitos comiam pão com banana, ao longo do dia e, na volta do trabalho, faziam uma refeição perto do estilo europeu. Os ingredientes especiais vinham por navio, próximo dos grandes feriados, quando os judeus eram abastecidos de kashe (trigo mourisco), arenques, pão preto, salame típico e a matzá (biscoito e farinha de trigo especial) para a Páscoa. Entretanto os jovens acostumaram-se com rapidez à cozinha afro-brasileira.

Formação religiosa – declararam-se: Tradicionais (28), Ortodoxos (8)
A primeira sinagoga, Beit Israel, funcionava numa residência e passou a existir plenamente na sede da Sociedade Beneficente Israelita, que teve diferentes endereços.

Nível de escolaridade – completaram o curso primário: 14; o ginásio: 10; rudimentos de leitura: 5; segundo grau (humanidades): 4 e superior: 3.

Em 1924 é fundada a escola primária bilíngüe e também um jardim de infância, talvez o primeiro do Estado.

Não obstante as várias origens, conseqüentemente pluralidade de cores, a adaptação tornou-se condição irrevogável na aquisição da nova cidadania. A Bahia funcionava como um microcosmo, refletindo a comunidade maior.

O novo cotidiano requer do imigrante mecanismos de ajustamento, para conhecer os meios de prover sua subsistência. Jorge Amado em Suor descreve um imigrante: o velho Isaac carregando a mala de bugigangas, cujas correias lhe deixam marcas nos ombros.

Como ocupação obtivemos os seguintes dados: – Homens: mascate (15); movelaria (2); estudante (2); importador (1); escritório (2).

– Mulheres: donas de casa (8); balconista (2); escritório (1); professora (1); mascate (1)

Os artigos mais vendidos no sistema de vendas a prestações eram: tecidos, calçados, guarda-chuvas, quadros de santos, quinquilharias. O cliente alvo pertencia à classe média: funcionários públicos, bancários, artesãos, profissionais liberais, comerciantes, pequenos fazendeiros. Atingiam também os mais pobres, com artigos de menor qualidade, possibilitando a estes entrar no mercado consumidor.

O controle do dinheiro era rigoroso, frente às despesas certas. O bairro preferido de moradia era Nazaré, descrito por Jorge Amado e Darwin Brandão como pequeno-burguês.12 Abrigava, além de prédios e logradouros históricos, a Sociedade Israelita Brasileira, com organizações internas e beneficentes básicas. Anos mais tarde seria considerada um baluarte na luta contra o nazismo. Nazaré ficava próximo à Baixa dos Sapateiros, como era mais conhecia a rua J.J. Seabra, onde instalava-se o comércio popular dos sírios, turcos, libaneses e italianos; os espanhóis detinham o controle das panificadoras e os portugueses estavam mais dissolvidos no comércio geral. O contato dos judeus dava-se mais no nível popular e estudantil. No que tange ao item pesquisado sobre casamentos mistos, a primeira geração, nascida no Estado, duplicou em relação ao número ocorrido com os imigrantes, apesar da preocupação constante em resguardar a identidade da comunidade, pela manutenção dos costumes e ritos, da cultura e preservação da língua ídiche. Constatamos a presença de vinte e sete filiados à Maçonaria sendo que um deles atingiu o grau 33, de grão-mestre.

O grupo dos sefarditas era pequeno; comemoravam as grandes festas numa sala alugada da SIB. Com alto índice de casamentos endogâmicos, dificilmente ocorriam uniões com ashquenazitas. Apesar de toda a comunidade parecer unida, havia rivalidades internas, dissensões entre progressistas e sionistas, preconceitos internos tácitos e recíprocos. Era nas atividades, sobretudo as sócio-culturais, que o grupo se sobressaía. Eis as principais organizações fundadas:

1914 – Tiferet Sion – cultural
1915 – Achiezer – beneficente
1920 – S.I.B. – congregando: escola, biblioteca, sinagoga, coro, teatro amador e sede de festas, casamentos, eventos culturais.
1923 – Hilf – para dar apoio aos imigrantes
1928 – Yugend Farein – agremiação dos estudantes israelitas
Lai-SparKasse – uma espécie de Caixa de Auxílio Financeiro
Ezra – auxílio aos doentes
Chevra Kadisha – mantenedora do cemitério comunal
Diversas organizações juvenis

Ascensão sócio-econômica e cultural

A etiologia na crise de ajustamento e crescimento é similar à das demais comunidades estrangeiras. A esperança de melhorar as condições de vida ou mesmo de enriquecer, remunerava a solidão e separação dos familiares nos primeiros anos. Nos anos 20 e 30, a maioria ainda exerce a ocupação de mascate, mas alguns conseguem abrir seu próprio negócio. Sem dúvida, ao final de uma década, já pode usufruir de um padrão de vida menos austero, com certo conforto. Ao final dos anos 40, meia dúzia de famílias possuíam automóvel e moravam afastados de Nazaré, em bairros mais aristocráticos.

A integração da nova geração é gradativa, à medida em que se inserem, através da profissão, no tecido da sociedade baiana. Oriundo do ginásio público, o estudante judeu entra na Universidade, também pública, nos diversos ramos profissionais, com maior índice em engenharia, medicina, odontologia, magistério, advocacia e música.

A comunidade aparecia na imprensa em raros anúncios; registros; proclamas, casamentos, naturalizações; queixas apresentadas na polícia; comentários sobre os cáftens, mais como russos; notas sobre reuniões da S.I.B. No final da década de trinta já surgem artigos anti-semitas ou em defesa do judeu. Em 1937 realiza-se a primeira assembléia da Liga Internacional contra o Racismo e Anti-semitismo.

O final da Segunda Guerra Mundial registra o auge da vitalidade da comunidade e, ao mesmo tempo, o processo lento e contínuo da evasão de grande número de jovens em busca de novos horizontes no sul. O grupo atrofia-se, entra em fase de fossilizacão, seus membros compondo o melting-pot do Estado da Bahia.

 

Esther Regina Largman
Historiadora

Notas:

1

RODRIGUES, José Honório – Independência: Revolução e Contra-Revolução – Vol. 2, pgs. 101 e 181

2

POPPINO, Rollie E. – Feira de Santana – Editora Itapuã, 1969, Salvador, pg.76

3

WOLFF, Egon E FRIEDA – Judeus nos Primórdios do Brasil República – ed. Biblioteca H. Bialik, Rio, 1980 pgs 244,268
PINHO, Wanderley – Salões e Damas do Segundo Reinado – Livraria Martins Editora, São Paulo, 4ª Edição, pg.47

4

PANG, Eul Soo – O Coronelismo e Oligarquias (1885-1934) Civilização Brasileira 1979, pg.150

5

ARENDT, Hanna – O imperialismo – A Expansão do Poder- capítulo 5, Editora Documentário- R.J. 1967, pg. 199

6

CROUZET, Maurice – História Geral das Civilizações, vol XV, DIFEL, São Paulo, 1961,pg. 62

7

SAPOLNIK, Jaime – Crônica do judaismo baiano, in Herança Judaica nº 43, São Paulo, 1980, pg. 55

8

PINSKY, Jaime – Os judeus no Brasil – in SHALOM, Ano XIII, 1977,nº 146, São Paulo, pg. 6

9

A COLUMNA – número de setembro a dezembro de 1917, revista fundada por David J. Perez

10

LEVINE, Robert M.- Brazil Jew’s During the Vargas Era and After, in Luso-Brazilian Review, vol I, nº 1, June 1968, pg. 47

11

CENSO DEMOGRÁFICO – I.B.G.E. – Recenseamento Geral do Brasil – 1º/09/1940 Pg.66

JORNAIS:
A Imprensa, A Tarde, Diário de Bahia, Diário de Notícias, Estado da Bahia,O Commercio-Ilhéus, O Democrata, O Imparcial.
Dos Idishe Vochenblat e Dos Idishe Folkstzeitung (Semanário Judaico e o Jornal do Povo Judeu)

 

 Fonte: Revista Morashá – Edição 36 – Março de 2002- http://www.morasha.com.br/

Por que os judeus não creêm em Jesus

Padrão

 

Por: Shraga Simmons

Por séculos os judeus foram perseguidos por sua fé e prática religiosa. Muitos tentaram impor suas idéias e aniquilar o Judaísmo. Nem as cruzadas, nem a Inquisição implacável, nem os pogroms conseguiram manipular nossas almas cumprindo seu intento.
O Judaísmo mantém sua chama sempre viva.
A história comprova: os judeus continuam rejeitando o Cristianismo. Por quê? Porque somos simplesmente judeus, nascemos e vivemos o Judaísmo e temos nossas próprias convicções. Mas quando judeus são seguidamente questionados sobre esta questão e não-judeus freqüentemente perguntam: "Por que os judeus não acreditam em Jesus?" Preparamos alguns argumentos com o objetivo, não de depreciar outras religiões, pois respeitamos a todos e por esta razão não fazemos proselitismo, mas sim apenas para esclarecer a posição judaica.
Por que os judeus não acreditam em Jesus?
Porque:

1. Jesus não preencheu as profecias messiânicas
O que o Messias deveria atingir? A Torá diz que ele: a – Construirá o terceiro Templo Sagrado (Yechezkel 37:26-28); b – Levará todos os judeus de volta à Terra de Israel (Yeshayáhu 43:5-6); c – Introduzirá uma era de paz mundial, e terminará com o ódio, opressão, sofrimento e doenças. Como está escrito: "Nação não erguerá a espada contra nação, nem o homem aprenderá a guerra”.(Yeshayáhu 2:4); d – Divulgará o conhecimento universal sobre o D-us de Israel – unificando toda a raça humana como uma só. Como está escrito: "D-us reinará sobre todo o mundo – naquele dia, D-us será Um e seu nome será Um" (Zecharyá 14:9). O fato histórico é que Jesus não preencheu nenhuma destas profecias messiânicas.

2. O Cristianismo contradiz a teologia judaica

a – D-us em três? A idéia cristã da trindade quebra D-us em três seres separados: o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Mateus 28:19). Compare isto com o Shemá, a base da crença judaica: "Ouve, ó Israel, o Eterno nosso D-us, o Senhor é UM" (Devarim 6:4). Os judeus declaram a unicidade de D-us todos os dias, escrevendo-a sobre os batentes das portas (Mezuzá), e atando-a à mão e cabeça (Tefilin – filactérios). Esta declaração da unicidade de D-us são as primeiras palavras que uma criança judia aprende a falar, e as últimas palavras pronunciadas antes de morrer. Na Lei Judaica, adorar um deus em três partes é considerado idolatria – um dos três pecados cardeais, que o judeu prefere desistir da vida a transgredir. Isto explica porque durante as Inquisições e através da História, os judeus desistiram da vida para não se converterem. b – Um homem como deus? Os cristãos acreditam que D-us veio à terra em forma humana, como disse Jesus: "Eu e o Pai somos um" (João 10:30). Maimônides devota a maior parte do "Guia dos Perplexos" a idéia fundamental que D-us é incorpóreo, significando que Ele não assume forma física. D-us é eterno, acima do tempo. É infinito, além do espaço. Não pode nascer, e não pode morrer. Dizer que D-us assume forma humana torna D-us pequeno, diminuindo tanto Sua Unidade como Sua Divindade. Como diz a Torá: "D-us não é um mortal" (Bamidbar 23:19). O Judaísmo diz que Messias nascerá de pais humanos, com atributos físicos normais, como qualquer outra pessoa. Não será um semideus, e não possuirá qualidades sobrenaturais. De fato, em cada geração vive um indivíduo com a capacidade de tornar-se o Messias. (veja Maimônides – Leis dos Reis 11:3). c – Um intermediário para a oração? É uma idéia básica na crença cristã que a prece deve ser dirigida através de um intermediário – i.e., confessando-se os pecados a um padre. O próprio Jesus é um intermediário, pois disse: "Nenhum homem chega ao Pai a não ser através de mim”. No Judaísmo, a prece é assunto totalmente particular, entre cada pessoa e D-us. A Torá diz: "D-us está perto de todos que clamam por Ele" (Tehilim 145:18). Além disso, os Dez Mandamentos declaram: "Não terá outros deuses DIANTE DE MIM”, significando que é proibido colocar um mediador entre D-us e o homem. (veja Maimônides – Leis da Idolatria cap.1). d – Envolvimento no mundo físico. O Cristianismo freqüentemente trata o mundo físico como um mal a ser evitado. Maria, a mais sagrada mulher cristã, é retratada como uma virgem. Padres e freiras são celibatários. E os mosteiros estão em locais remotos e segregados. Em contraste, o Judaísmo acredita que D-us criou o mundo físico não para nos frustrar, mas para nosso prazer. A espiritualidade judaica vem através do envolvimento no mundo físico de maneira tal que ascenda e eleve. O sexo no contexto apropriado é um dos atos mais sagrados que podemos realizar. O Talmud diz que se uma pessoa tem a oportunidade de saborear uma nova fruta e recusa-se a fazê-lo, terá de prestar contas por isso no Mundo Vindouro. As escolas rabínicas ensinam como viver entre o alvoroço da atividade comercial. Os judeus não se afastam da vida, elevam-na.

3. Jesus não personifica as qualificações pessoais do Messias

a – Messias como profeta. Jesus não foi um profeta. A profecia apenas pode existir em Israel quando a terra for habitada por uma maioridade de judeus. Durante o tempo de Ezra (cerca de 300 a.E.C), a maioria dos judeus recusou-se a mudar da Babilônia para Israel, e assim a profecia terminou com a morte dos três últimos profetas – Chagai, Zecharyá e Malachi. Jesus apareceu em cena aproximadamente 350 anos após a profecia ter terminado. b – Descendente de David. O Messias deve ser descendente do Rei David pelo lado paterno (veja Bereshit 49:10 e Yeshayáhu 11:1). Segundo a reivindicação cristã que Jesus era filho de uma virgem, não tinha pai – e dessa maneira não poderia ter cumprido o requerimento messiânico de ser descendente do Rei David pelo lado paterno! c – Observância da Torá. O Messias levará o povo judeu à completa observância da Torá. A Torá declara que todas as mitsvot (preceitos) permanecem para sempre, e quem quer que altere a Torá é imediatamente identificado como um falso profeta. (Devarim 13:1-4). No decorrer de todo o Novo Testamento, Jesus contradiz a Torá e declara que seus mandamentos não se aplicam mais. (veja João 1:45 e 9:16, Atos 3:22 e 7:37).

4. Versículos bíblicos "referindo-se" a Jesus são traduções incorretas
Os versículos bíblicos apenas podem ser entendidos estudando-se o texto original em hebraico – que revela muitas discrepâncias na tradução cristã. a – Nascimento virgem. A idéia cristã de um nascimento virgem é extraído de um versículo em Yeshayáhu descrevendo uma "alma" que dá à luz. A palavra "alma" sempre significou uma mulher jovem, mas os teólogos cristãos séculos mais tarde traduziram-na como "virgem". Isto relaciona o nascimento de Jesus com a idéia pagã do primeiro século, de mortais sendo impregnados por deuses. b – Crucificação. O versículo em Tehilim (salmos) 22:17 afirma: "Como um leão, eles estão em minhas mãos e pés”.A palavra hebraica ka’ari (como um leão) é gramaticalmente semelhante às palavras "ferir muito". Dessa maneira o Cristianismo lê o versículo como uma referência à crucificação: "Eles furaram minhas mãos e pés”. c – Servo sofredor. Os cristãos afirmam que Yeshayáhu (Isaías) 53 refere-se a Jesus. Na verdade, Yeshayáhu 53 segue diretamente o tema do capítulo 52, descrevendo o exílio e a redenção do povo judeu. As profecias são escritas na forma singular porque os judeus (Israel) são considerados como sendo uma unidade. A Torá está repleta de exemplos de referências à nação judaica com um pronome singular. Ironicamente, as profecias de perseguição de Yeshayáhu referem-se em parte ao século 11, quando os judeus foram torturados e mortos pelas Cruzadas, que agiram em nome de Jesus. De onde provêm estas traduções erradas? S. Gregório, Bispo de Nanianzus no século IV, escreveu: "Um certo jargão é necessário para se impor ao povo. Quantos menos compreenderem, mais admirarão”.

5. A crença judaica é baseada na revelação nacional

Das 15.000 religiões na História Humana, apenas o Judaísmo baseia sua crença na revelação nacional – i.e., D-us falando à toda a nação. Se D-us está para iniciar uma religião, faz sentido que Ele falará à todos, não apenas a uma pessoa. O Judaísmo é a única entre todas as grandes religiões do mundo que não confia em "reivindicações de milagres" como base para estabelecer uma religião. De fato, a Torá afirma que D-us às vezes concede o poder de "milagres" a charlatões, para testar a lealdade judaica à Torá (Devarim 13:4). Maimônides declara (Fundações da Torá, cap. 8): "Os Judeus não creram em Moshê (Moisés), nosso mestre, por causa dos milagres que realizou. Sempre que a crença de alguém se baseia na contemplação de milagres, tem dúvidas remanescentes, porque é possível que os milagres tenham sido realizados através de mágica ou feitiçaria. Todos os milagres realizados por Moshê no deserto aconteceram porque eram necessários, e não como prova de sua profecia”. Qual era então a base da crença judaica? A revelação no Monte Sinai, que vimos com nossos próprios olhos e ouvimos com nossos ouvidos, não dependendo do testemunho de outros… como está escrito: ‘Face a face, D-us falou com vocês…’ A Torá também declara: ‘D-us não fez esta aliança com nossos pais, mas conosco – que hoje estamos todos aqui, vivos.’ (Devarim 5:3).”O Judaísmo não são os milagres. É o testemunho da experiência pessoal de todo homem, mulher e criança”.

6. Judeus e gentios
O Judaísmo não exige que todos se convertam à religião. A Torá de Moshê é uma verdade para toda a Humanidade, seja judia ou não. O Rei Salomão pediu a D-us para considerar as preces de não-judeus que vão ao Templo Sagrado (Reis I, 8:41-43). O profeta Yeshayáhu refere-se ao Templo Sagrado como uma "Casa para todas as nações”. O serviço no Templo durante Sucot realizava 70 oferendas de touros, correspondendo às 70 nações do mundo. De fato, o Talmud diz que se os romanos tivessem percebido quantos benefícios estavam conseguindo do Templo, jamais o teriam destruído. Os judeus nunca buscaram ativamente converter as pessoas ao Judaísmo, porque a Torá prescreve um caminho correto para que os gentios o sigam, conhecido como "As Sete Leis de Nôach”. Maimônides explica que qualquer ser humano que observe fielmente estas leis morais básicas recebe um lugar apropriado no céu. 1. Creia em D-us – não adore ídolos. 2. Respeite D-us e ame-O. Não blasfeme Seu nome. 3. Respeite a vida humana – não mate. 4. Respeite a família – não cometa atos sexuais imorais. 5. Respeite os direitos e a propriedade dos outros – não roube. 6. Estabeleça tribunais para a manutenção da justiça. 7. Respeite todas as criaturas – não coma a carne de um animal enquanto ele ainda está vivo.

7. Trazendo o Messias
De fato, o mundo está desesperadamente necessitado da Redenção Messiânica. A guerra e a poluição ameaçam nosso planeta; o ego e a confusão estão erodindo a vida familiar. Na mesma extensão em que estamos conscientes dos problemas da sociedade, é a extensão em que ansiamos pela Redenção. Como declara o Talmud, uma das primeiras perguntas que um judeu recebe no Dia do Julgamento é: "Você ansiou pela vinda do Messias?" Como podemos apressar a vinda de Mashiach (Messias)? A melhor maneira é amar generosamente toda a humanidade, cumprir as mitsvot da Torá (da melhor maneira que pudermos) e encorajar outros para que as cumpram também. O Mashiach pode chegar a qualquer momento e tudo depende de nossas ações. D-us estará pronto quando estivermos. Pois, como disse o Rei David: "A Redenção chegará hoje – se derem atenção à Sua voz”.

* Shraga Simmons é rabino nos Estados Unidos e escreveu este artigo para o Aish.com
(www.aish.com).

Fonte:www.visaojudaica.com.br/

 

Judaísmo e cristianismo: reflexões históricas

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Por: Sergio Feldman

Jesus era judeu. Nasceu em Belém (Beit Lechem) na Judéia (Iehudá), de pai e mãe judeus, viveu entre a Judéia e a Galiléia (Galil). Cresceu em Nazaré (Natzeret) e pregou na Galiléia, no lago Tiberíades (Kineret ou mar da Galiléia) e no vale do Rio Jordão (Iarden). Viveu e pensou como um judeu de sua época: falava frases retiradas do livro de Isaías e do Pentateuco (Torá). Algumas de sua celebres frases, podem ser repensadas. Costuma-se atribuir a célebre frase, “Amarás ao próximo como a ti mesmo” a Jesus. Alguns judeus a atribuem a Hilel, sábio renomado do período do Segundo Templo, mas anterior a Jesus. Porém, há um versículo (passuk) no código da Santidade (Levítico ou Vaikrá, cap. 19, v. 18) que cita esta famosa frase, muitos séculos antes de Hilel e Jesus. Por que foi atribuída a Jesus? Por que sintetiza os ideais e as idéias principais da religião judaica: amar a D-us e amar ao próximo. Jesus praticava e acreditava nestes valores, pois era judeu.
Já repararam que todas as pessoas neste país celebram a circuncisão (Brit Milá) de Jesus, sem se dar conta que nasceu no dia 25 de dezembro e foi circuncidado no dia 1º de janeiro, exatamente oito dias, como manda a tradição judaica!!! Nada mais nada menos do que a antiga denominação da festa: circuncisão universal. Depois foi renomeada como confraternização universal. Se o Judaísmo tem como pilares a circuncisão, o estudo da Lei ou Pentateuco (Torá), e a prática dos preceitos (mitzvot), o que nos diz disso Jesus? Seria contra a Torá? E os argumentos e pontos de vista dos profetas hebreus tão importantes no Judaísmo, teriam apoio ou seriam negados por Jesus? O trecho do apóstolo Mateus traz luz a esta questão (cap. 5, v. 17). Diz: “Não pensem que vim para destruir a Lei e os Profetas; não vim para destruir, mas sim para fazê-los cumprir”. Como pode ser percebido, Jesus não nega a Torá e os Profetas, mas defendê-os. Tratava-se de um judeu cumpridor das miztvot e das práticas judaicas. Nunca se declarou contra e nem se opôs à sua prática.
A última ceia que foi a motivação da “Ceia do Senhor” e posteriormente da eucaristia (e da hóstia) era uma ceia (seder) da Páscoa Judaica (Pessach). A origem da hóstia é o pão ázimo (matzá). Eu conheci um padre, muito amigo dos judeus, que sempre vinha comprar caixas de matzot na sinagoga, para usá-las nas missas, num dos locais aonde trabalhei, aqui no Brasil. Dizia que se tratava da verdadeira hóstia, pois se assemelhava àquela de Jesus.
Jesus guardava o Sábado (Shabat), freqüentava o Templo (Beit Hamikdash), celebrava as festas do calendário judaico (chaguim), e compartilhava seu saber e sua bondade com seus irmãos oprimidos. E quem os oprimia? Quem seriam os adversários de Jesus? Há uma diversidade de opiniões e de interpretações. Permitam-me direcionar a reflexão, para uma destas vertentes interpretativas. O maior inimigo dos judeus neste período era o Império Romano, que ocupara toda a Ásia Ocidental e se tornara a potência dominante. Para dominar, adotava políticas de ocupação diferentes em cada região, mas geralmente buscava alianças de grupos determinados, para neutralizar oposições locais. Quem seriam os aliados de Roma, na Judéia? Um destes era Herodes, o idumeu (edomita), cuja família fora convertida ao Judaísmo. Político habilidoso e grande construtor, porém dotado de uma paranóia que o levava a ver inimigos em todos os lugares. Apoiava os romanos por achar que não havia chances de sobreviver senão apoiando o domínio romano. Havia grupos que entendiam isto, mesmo não gostando dos romanos. Um destes grupos eram os saduceus (tzedukim). Tinham sua ideologia centrada nos rituais de sacrifícios no Templo. Eram, na sua maioria, membros da classe dominante: nobres, parentes da família real, descendentes do clã sacerdotal (cohanim), grandes comerciantes e latifundiários. Não vendo como sobreviver diante do Império,
optaram por aceitá-lo e submeter-se ao mesmo.
Na oposição ao Império temos diversas posições. Alguns eram moderados e não aceitando, optaram por não se revoltar de armas na mão, por não ver chances de vencer. Um destes grupos eram os fariseus (prushim), que optaram pela Lei, seu estudo e sua prática, mais do que o ritualismo do Templo que servia para fortalecer os interesses dos saduceus. Opunham-se criticando e acreditando que um dia D-us enviaria o seu Ungido ou Messias, para libertar seu povo, através de uma nova era. Vencendo os romanos, estabeleceria o reino de D-us na Terra. Um tempo messiânico, sem guerras e sem injustiça social, sem violência e sem opressão ao gênero humano. Os cristãos seriam um grupo dissidente, dentro do Judaísmo, que acreditou que o Messias já viera e que Jesus, seria o ungido enviado por D-us. Eram judeus e sonhavam com um ideal judaico. Outros grupos messiânicos surgiram neste período. Tratava-se de uma era de profunda religiosidade, de uma enorme expectativa messiânica. Não apoiavam o domínio imperial, mas trataram de não se chocar com o poder de Roma. Diziam: “Daí a César o que é de César, e daí a D-us o que é de D-us”.
Isso pode dar espaço a algumas leituras e interpretações: aceitar Roma até a hora que D-us derrubasse o Império. Não criticar abertamente Roma, mas entender que os impérios são passageiros e acabam caindo um dia. Só D-us é Eterno. Uma maneira de pensar, muito judaica. Os primitivos cristãos não eram simpatizantes do Império e eram críticos dos saduceus. Então quem matou Jesus? Sem dúvida os romanos, já que foi crucificado (pena de morte romana) e não apedrejado (pena de morte judaica). O tribunal judaico não tinha permissão romana para deliberar sobre pena de morte. Isso competia a Roma: só inimigos de Roma podiam ser condenados à morte. A participação e o apoio dos saduceus é visível: mas não houve um apoio generalizado do povo judeu que vivia na Judéia, neste período. Jesus não representava uma ameaça aos fariseus; no máximo uma voz crítica e discordante como muitas outras. Aos saduceus e a Roma, Jesus oferecia uma severa crítica: por sinal, bastante inserida nas palavras de Isaías e outros profetas que lhe serviam de inspiração. Estes poderiam estar interessados em puni-lo e condená-lo a morte.
Roma continuou a perseguir os cristãos por mais de duzentos e cinqüenta anos. Foram inúmeras perseguições, mas computamos cerca de dez grandes perseguições aos cristãos. Uma média de uma grande perseguição a cada 25 anos. O primeiro imperador que os perseguiu foi Nero já nos anos sessenta do primeiro século. Os cristãos foram jogados aos leões no Circo Romano. Isso prosseguiu até o Imperador Diocleciano, próximo ao ano 300. O ódio e a perseguição aos cristãos era uma constante: só cessou quando o Imperador Constantino fez a opção de proteger e tolerar a religião cristã por razões estratégicas. O cristianismo passa então de religião oprimida e perseguida, a tolerada. Não demora a se tornar religião protegida e por fim religião dominante e opressora. E passa a perseguir os cristãos dissidentes (denominados hereges), e a restringir os direitos judaicos no Baixo Império.
E como o Cristianismo se separou do Judaísmo? Originalmente se tratava de uma seita judaica que acreditava que o Messias já viera e era Jesus. Após sua morte os apóstolos saíram a pregar sua nova fé e seus valores e ideais a outros judeus. Pregavam nas sinagogas da Síria, Ásia Menor, Egito e Grécia. Eram judeus pregando a seus irmãos. Contudo havia semi-prosélitos ou metuentes, que freqüentavam as sinagogas. Eram não-judeus atraídos pelo judaísmo e que não se tornavam judeus por causa de certas exigências. A conversão ao Judaísmo exigia certas atitudes: o prosélito devia celebrar a circuncisão, estudar a Lei (Torá) e praticar os preceitos. Diante disso alguns dos apóstolos pensaram em evangelizá-los: convertê-los à nova seita judaico-cristã. Mas a dificuldade e as exigências deveriam ser superadas. Um concílio reunido em Jerusalém em meados do primeiro século abriu a porta aos não-judeus, retirando as exigências de Circuncisão, Torá e preceitos e colocando em seu lugar o batismo e a fé em Jesus como Salvador. O mentor desta mudança foi Paulo de Tarso. Neste momento se iniciou a separação dos judeus e dos cristãos. Não pode haver Judaísmo rabínico sem circuncisão, Torá e preceitos. O distanciamento aumentou quando os cristãos optaram por não apoiar a revolta contra Roma (66-70 d.C.). Deste momento em diante se tornam inimigos e a reaproximação só acontece após quase 2 mil anos, com o Concílio Vaticano II convocado pelo Papa João XXIII.
Com a reviravolta de Constantino e a aliança do Império com a Igreja, ambos trataram de esquecer dois séculos e meio de perseguições e de confronto. Roma deixa de ser a grande inimiga e passa a ser aliada.
Os judeus passam a ser os concorrentes da herança da Revelação da Lei e da herança do Pacto de D-us. Assim sendo, para existir, a Cristandade teve de persegui-los, humilhá-los e sempre provar que o novo pacto havia substituído o pacto de Abraão, Isaac, Jacob e Moisés. Por séculos a Igreja irá construir uma ideologia, na qual a culpa e o erro judaico teriam um papel central. Não exterminar os judeus, mas provar sua culpa (mesmo que de maneira forjada) e seu erro ao não aceitar Cristo. E acreditar que o retorno de Jesus só se daria, se e quando os judeus se convertessem, pelo menos parcialmente ao Cristianismo.
Isso deu início a séculos de perseguições, confrontos teológicos e preconceito antijudaico, em nome de Jesus.
Jesus que era um judeu, deixou de “sê-lo”. “Esqueceram-se” de suas raízes e de suas origens. Seu povo passou a ser o povo de Judas, o traidor. O povo de Jesus foi exorcizado e demonizado por séculos: os judeus foram comparados ao demônio e considerados filhos do Mal.
Este artigo é dedicado a alguns de meus amigos que ao final do debate de Iom Haatzmaut (dia da Independência de Israel) me solicitaram uma continuidade do tema e um fundamento para os temas levantados pelo debate.

 

*Sergio Feldman é professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná e doutorando em História pela UFPR.

 

Sobrenomes judeus — de que raízes se originam?

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Por que me chamo Moisés? Por que levo o nome do meu bisavô, que morreu antes de eu nascer? Os judeus ashkenazim dão a seus filhos os nomes dos ascendentes falecidos. Isso tem a ver com a crença no restabelecimento da alma e com a honra e recordação do morto. Se pudesse seguir sua árvore genealógica, alguém que se chame Moisés encontraria tataravôs chamados Moisés a cada três gerações.
Os judeus sefaradim dão a seus filhos o nome dos avós, que geralmente estão vivos. Assim, numa árvore genealógica sefaradí vão encontrar o mesmo nome uma geração em média. Se alguém ler a história da Espanha não saberá às vezes quem morreu, e quem continua vivo. Será o avô, ou o neto? Outras vezes encontram o filho com o mesmo nome que o pai, mas é um costume cristão que se encontra entre os judeus sefaradim depois que deixaram a Espanha, por causa da inquisição.
Diferentemente dos aristocratas e das pessoas ricas, os judeus não tinham sobrenomes na Europa Oriental até os anos napoleônicos, nos princípios do século 19. A maior parte dos judeus dos países conquistados por Napoleão, Rússia, Polônia, e Alemanha receberam a determinação de adotar sobrenomes para cobrança de impostos. Após a derrota de Napoleão, muitos judeus retiraram estes nomes e voltaram ao " filho de", surgindo então nomes como: Mendelsohn, Jacobson, Levinson, etc.
Durante a chamada Emancipação, os judeus mais uma vez receberam a ordem de adotar sobrenomes. Na Áustria e na Galícia, o imperador José fez os judeus tomar sobrenomes em 1788. As "listas de sobrenomes" do Império Austro-Húngaro, em geral, usavam palavras em alemão, muito parecidas com iídiche. A Polônia ordenou os sobrenomes em 1821 e a Rússia em 1844. É provável que algumas das famílias judias já tivessem recebido seus sobrenomes nos últimos 175 anos ou menos.
Na França e nos países anglo-saxônicos os sobrenomes voltaram no século 16. Também os judeus sefaradim recuperaram seus sobrenomes após longos séculos. A Espanha antes de Fernando e Isabel foi uma época de ouro para os judeus. Eles foram expulsos por Isabel no mesmo ano em que Colombo partiu para a América. Os primeiros judeus americanos eram sefaradim.
Significado dos sobrenomes
Há dezenas de milhares de sobrenomes judeus utilizando a combinação das cores, dos elementos da natureza, dos ofícios, cidades e características físicas.
Um pequeno exercício é perguntar: Quantos sobrenomes judaicos podemos reconhecer com a raiz das seguintes palavras?
Cores: Roit, Roth (vermelho); Grun, Grin (verde); Wais, Weis, Weiss (branco); Schwartz, Swarty (escuro, negro); Gelb, Gel (amarelo).
Panoramas: Berg (montanha); Tal, Thal (vale); Wasser (água); Feld (campo); Stein (pedra); Stern (estrela); Hamburguer (morador da vila).
Metais, pedras preciosas, mercadorias: Gold (ouro), Silver (prata), Kupfer (cobre), Eisen (ferro), Diamant, Diamante (diamante), Rubin (rubi), Perl (pérola), Glass, (vidro), Wein (vinho).
Vegetação: Baum, Boim (árvore); Blat (folha); Blum (flor); Rose (rosa); Holz (Madeira).
Características físicas: Shein, Shen (bonito); Hoch (alto); Lang (comprido); Gross, Grois (grande), Klein (pequeno), Kurtz(curto); Adam (homem).
Ofícios: Beker (padeiro); Schneider (alfaiate); Schreiber (escriturário); Singer (cantor).
Holtzkocker (cortador de madeira), Geltschimidt (ourives), Kreigsman, Krigsman, Krieger, Kriger (guerreiro, soldado), Eisener (ferreiro), Fischer (peixeiro, pescador), Gleizer (vidreiro).
Utilizaram-se as palavras de forma simples, combinadas e com a agregação de sílabas como son, filho; man, homem; er: que designa lugar, agregando-se preferencialmente após o final do nome da cidade.
Em muitos países adaptaram-se as terminações dos sobrenomes ao uso do idioma do país como o sufixo "ski", "sky" ou "ska" para o caso de mulher, "as", "iak", "shvili" , "wicz" ou "vich".
Então, com a mesma raiz, temos por exemplo: Gold, que deriva em Goldman, Goldrossen, Goldanski, Goldanska, Goldas, Goldiak, Goldwicz, etc.
A terminação indica que idioma falava-se no país de onde é o sobrenome.
Sobrenomes espanhóis: Entre os sobrenomes judaicos espanhóis é fácil reconhecer ofícios, designados em árabe, ou em hebraico, como: Amzalag (joalheiro); Saban (saboneiro); Nagar (carpinteiro); Haddad (ferreiro); Hakim (médico).
Profissões relacionadas com a sinagoga como: Hazan (cantor); Melamed (maestro); Dayan (juiz). Cohen (rabino). Levy, Levi (auxiliar do templo).
Títulos honoríficos: Navon (sábio); Moreno (nosso mestre) e Gabay (oficial).
O sobrenome popular Peres, muitas vezes escrito Perez, com a terminação idiomática espanhola, não é, no entanto, sobrenome de origem espanhola, mas uma palavra hebraica que designa os capítulos nos quais a Torá (os cinco livros do Pentateuco), se divide para sua leitura semanal, de forma a completar em um ano a leitura da Torá.
Muitos sobrenomes espanhóis adquiriram pronuncia ashkenazi na Polônia, como exemplo, Castelanksi, Luski (que vem da cidade de Huesca, na Espanha). Ou tomaram como sobrenome Spanier (espanhol), Fremder (estranho) ou Auslander (estrangeiro). Na Itália a Inquisição se instalou depois que na Espanha, de modo que houve também judeus italianos que emigraram para a Polônia. Aparece o sobrenome Italiener e Welsch ou Bloch, porque a Itália é também chamada de Wloche em alemão.
Nomes de cidade ou país de residência: Exemplos: Berlin, Berliner, Frankfurter, Danziger, Oppenheimer, Deutsch ou Deutscher (alemão), Pollack (polonês), Breslau, Mannheim, Cracóvia, Warshaw, (Varsóvia).
Nomes comprados: Exemplos: Gluck (sorte), Rosen (rosas), Rosenblatt (papel ou folha de rosas), Rosenberg (montanha de rosas), Rothman (homem vermelho), Koenig (rei), Koenigsberg (a montanha do rei), Spielman (homem que joga ou toca), Lieber (amante), Berg (montanha), Wasserman (morador da água), Kershenblatt (papel de igreja), Kramer (que tenta passar como não judeu).
Nomes designados (normalmente indesejáveis): Exemplos: Plotz (morrer), Klutz (desajeitado), Billig (barato).
Sobrenomes oriundos da Bíblia: Uma boa quantidade de sobrenomes judeus deriva dos nomes bíblicos, ou de cidades européias da Ásia Menor. Isto muitas vezes fez os judeus levarem consigo as pegadas dos lugares em que se originaram. Tomemos como exemplo de "raiz de sobrenome" o nome de Abraham (Abrahão). Filho de Abraham se diz diferentemente em cada idioma. Abramson, Abraams, Abramchik em alemão, ou holandês. Abramov ou Abramoff em russo. Abramovici, Abramescu em rumeno. Abramski, Abramovski nas línguas eslavas. Abramino em espanhol, Abramelo em italiano. Abramian en armênio, Abrami, Ben Abram em hebraico. Bar Abram em aramaico e Abramzadek ou Abrampur em persa. Abramshvili em georgiano, Barhum ou Barhuni em árabe.
Os judeus de países árabes também usaram o prefixo ibn. Os cristãos também passaram a usar seus sobrenomes com agregados que significam "filho de". Os espanhóis usam o sufixo "ez", os suecos o sufixo "sen" e os escoceses põem "Mac" no início do sobrenome. Os sobrenomes judaicos não tomaram a terminação sueca nem o prefixo escocês.
Pode-se constatar essas variações olhando em catálogos telefônicos quantos sobrenomes há derivados de Abraham, Isaac e Jacob. Há também sobrenomes judeus que seguem o nome de mulheres, mas é menos comum. As vezes isto acontecia porque as mulheres eram viúvas, ou por alguma razão eram figuras dominantes na família. Goldin vem de Golda. Hanin de Hana. Perl, ou Perles de Rivka. Um fato curioso apresenta o sobrenome Ginich. A filha do Gaon de Vilna se chamava Gine, e se casou com um rabino vindo da Espanha. Seus filhos e netos ficaram conhecidos como os descendentes de Gine e tomaram o sobrenome Ginich.
Também há sobrenomes derivados de iniciais hebraicas, como Katz ou Kac, que em polonês se pronuncia Katz. São duas letras em hebraico, K e Z iniciais das palavras Kohen Zedek, que significa "sacerdote justo".
Sobrenomes adquiridos em viagens: Nos sobrenomes que derivam de cidades a origem é clara em Romano, Toledano, Minski, Kracoviac, Warshawiak (de Varsóvia). Outras vezes o sobrenome mostra o caminho que os judeus tomaram na diáspora. Por exemplo, encontramos na Polônia sobrenomes como Pedro, que é um nome ibérico. O que indica? Foram judeus que escaparam da Inquisição espanhola no século XV.
Em sua origem, possivelmente eram sefaradim, mas se mesclaram e adaptaram ao meio azkenazi. Muitas avós polonesas se chamam Sprintze. De onde vem esse nome? O que significa? Lembrem-se que em hebraico não se escrevem as vogais, assim que é um nome que se escreve em letras hebraicas Sprinz, que em polonês se lê Sprintze, mas como leríamos esse nome se colocássemos as vogais? Em español, seria Esperanza, e em português Esperança, que escrito em hebraico e lido em polonês resulta Sprintze.
Mudança de sobrenomes: Existem muitas histórias nas mudanças dos sobrenomes. Durante as conversões forçadas na Espanha e em Portugal, muitos judeus se converteram adotando novos sobrenomes, que as paróquias escolhiam para os "cristãos novos" como Salvador ou Santa Cruz. Outros receberam o sobrenome de seus padrinhos cristãos.
Mais tarde, ao fugir para a Holanda, América ou ao Império turco, voltaram à religião judaica, sem perder seu novo sobrenome. Assim apareceram sobrenomes como Diaz ou Dias, Errera ou Herrera, Rocas ou Rocha, Marias ou Maria, Fernandez ou Fernandes, Silva, Gallero ou Galheiro, Mendes, Lopez ou Lopes, Fonseca, Ramalho, Pereira e toda uma série de denominações de árvores frutíferas (Macieira, Laranjeira, Amoreira, Oliveira e Pinheiro). Ou ainda de animais como Carneiro, Bezerra, Lobo, Leão, Gato, Coelho, Pinto e Pombo.
Outra mudança de sobrenomes foi causada pelas guerras. As pessoas pederam, ou quiseram perder seus documentos, e se "conseguia" um passaporte com sobrenome que não denunciava sua origem, para cruzar a salvo uma fronteira, ou escapar do serviço militar.
Nos fins do século XIX o Czar da Rússia, exigia 25 anos de serviço militar obrigatório, especialmente dos judeus. Quantos imigrantes fugiram da Rússia e da Ucrânia com passaportes mudados para evitar uma vida dedicada ao exército do Czar? Outra questão é que somos filhos de imigrantes, e muitos sobrenomes se desfiguraram com a mudança de país e de idioma. As vezes eram os funcionários da Alfândega ou da Imigração, outras o próprio imigrante que não sabia espanhol, ou escrevia mal. Por isso, muitos integrantes da mesma família têm sobrenomes similares em som, mas escritos com grafia diferente.
Além disso, na Polônia a mulher tinha um sobrenome diferente do masculino, terminava em "ska", no lugar de "ski", pois indicava o gênero. Esses, são só alguns dos milhares de sobrenomes judeus existentes. E assim a história continua…

Fonte: http://www.visaojudaica.com.br/

Uma lição de empatia e perdão

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Há pessoas tão dotadas, espiritualmente, que sentem uma conexão tão forte com D’us que não podem sequer entender como alguém pode, voluntariamente, transgredir a Vontade Divina. Tais pessoas são conhecidas como Tzadikim.

No entanto um verdadeiro líder de Israel – um homem como Moshé e Aaron – é aquele que comunga intensamente com toda alma judia, chegando a sentir suas lutas e suas dores, erros e arrependimentos. Um desses líderes foi um homem que levava em seu nome o nome de seu povo: Rabi Israel, o Baal Shem Tov. Cabalista e milagreiro do mais alto nível, ele amava e defendia qualquer judeu. Revolucionou o pensamento judaico ensinando seus discípulos – Tzadikim e místicos eles próprios e, posteriormente, os mestres espirituais do judaísmo europeu – que a função de um líder judeu é ajudar, empatizar e defender; jamais castigar e condenar.

A história que segue reflete o espírito do Baal Shem Tov.

Um de seus discípulos era Rabi Yechiel Michal de Zlotchov. Ele era conhecido como um Tzadik Gamur – um Justo, no sentido amplo e completo da palavra – que possuía Ruach Hakodesh – o espírito da santidade. Este nível de percepção divina, quase beirando o da profecia, era característico de sua família há dez gerações.

Ocorreu, certa vez, que um cocheiro que vivia na mesma aldeia que o Rabi Michal violou o Shabat, arrependendo-se depois do pecado. Foi, então, ao rabino da aldeia para ver o que podia ser feito para expiar sua transgressão. O rabino, vendo que o homem estava sinceramente arrependido, disse-lhe que deveria doar velas para a sinagoga e que, com esse gesto, seu pecado seria perdoado. Quando o Rabi Michal de Zlotchov tomou conhecimento daquilo, não o aprovou. Como poderiam simples velas expiar uma violação do Shabat? E foi assim que numa tarde de sexta-feira, quando o cocheiro levou as velas de Shabat para a sinagoga, surge subitamente um cão, rosna diante das velas e as come antes de serem acesas.

Vendo o acontecido, o cocheiro ficou desolado; voltou ao rabino e contou que o incidente fora um sinal dos Céus de que o Eterno não havia aceitado sua oferenda pela expiação. O rabino lhe assegurou que tinha sido apenas uma infeliz coincidência e que, se ele levasse velas no Shabat seguinte, sua falta grave seria perdoada. Mas, na semana seguinte, outra ocorrência infeliz envolve as velas. E assim continuou a ocorrer até que, por fim, o rabino admitiu que havia algo errado. Aconselhou o cocheiro a visitar o famoso místico, Baal Shem Tov, que tinha formas de ajudá-lo na tentativa de expiar seu pecado.

Quando o homem chegou ao Baal Shem Tov, o grande cabalista percebeu, com seu Ruach Hakodesh, que seu discípulo, o Rabi Michal, tinha parte no que estava acontecendo. Diz, então, ao cocheiro que ele devia ofertar velas de Shabat à sinagoga ainda outra vez, podendo confiar de que dessa vez tudo daria certo.

Na sexta-feira seguinte, o Baal Shem Tov convocou o Rabi Michal para passar o Shabat em sua companhia. Metzibush, sua cidade natal, não era longe de onde vivia o Rabi. Mas, apesar da viagem entre os dois pontos ser curta, Rabi Michal teve uma série de imprevistos no caminho: os cavalos que puxavam a carruagem se perderam na floresta, depois um dos eixos se quebrou e, assim, sucediam-se os problemas que causaram um grande atraso naquela que devia ter sido uma rápida viagem. Quando o Rabi finalmente entra em Metzibush, a tarde de sexta-feira ia avançada e o sol já se punha, o que fez com que o grande Tzadik temesse estar violando o Shabat por viajar no dia santificado.

Quando chegou diante do Baal Shem Tov, amargurado e com o espírito derrotado, seu Mestre o recebeu aos brados: "Venha cá, pecador! Até hoje, você desconhecia os sentimentos de um judeu pecador, desconhecia sua tristeza. Agora você perceberá que as velas são suficientes!"

Na verdade, o Rabi Michal não violara o Shabat. O Baal Shem Tov jamais usaria seus poderes para causar problemas a quem quer que fosse, o que dizer, então de levar um Tzadik a transgredir a Vontade do Criador. Mas o fundador do Movimento Chassídico queria ensinar uma lição de empatia e perdão a seu grande discípulo.

O Baal Shem Tov ensinava que para que a Teshuvá fosse eficaz, bastava que um judeu realmente se arrependesse de seu erro e oferecesse algo de si para retificar o mal cometido. Ele defendia aqueles que se viam intimidados e levados a acreditar que sofreriam por seus pecados. Um dos grande temas da Revolução Chassídica foi que a pessoa ascende espiritualmente quando zela e empatiza com seu próximo, julgando-o favoravelmente e servindo com júbilo Áquele cujo amor e misericórdia são Infinitos.

 

Fonte: http://www.morasha.com.br/ - Edição 62 – setembro de 2008

 

 

ESTRANGEIROS EM ARACAJU – Parte 5

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A Maçonaria, através da Loja Capitular Cotinguiba, ainda mantém, em sua sede da rua de Santo Amaro, no centro de Aracaju, uma Escola de Corte e Costura. Foi o que restou da “Liga Sergipense contra o Analfabetismo”, criada em 24 de setembro de 1916, uma das mais atuantes entidades sergipanas, com uma rede de escolas alternativas, populares, noturnas, dispostas estrategicamente para alfabetizar os adultos. Grandes nomes, voluntários, passaram pela Diretoria da Liga, dentre eles o almirante Amintas Jorge. A Liga contava com os sócios do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, fundado em 1912, e mais tarde com a União Espírita Sergipana, fundada em 1942. Um maçom, mais que outros, deu parcela grandiosa de colaboração a Liga Sergipense contra o analfabetismo, foi o comerciante Jamil Chadud.

 

Jamil Chadud, filho de Esber e Carmém Chadud, nasceu em 15 de março de 1908, em Safita, na Síria. Residindo na rua Pacatuba, 142, comerciando em Aracaju, participou da Diretoria da Associação dos Comerciantes Varejistas de Sergipe, como um dos fundadores, em 1932, reeleito em 1934 como 1º Secretário. Em 28 de março de 1940, declarando-se espírita, foi iniciado na Maçonaria. Era solteiro e já levava fama de grande alfabetizador, sendo responsável, em 1939, pela alfabetização de 2.510 pessoas, número elevado e que dava a Jamil Chadud a imagem que guardou enquanto permaneceu atuante no comércio sergipano. Acumulava suas funções na Liga com a de Orador da União Espírita Sergipana (1942). Em 25 de maio de 1946 casou-se com Maria Abud Chadud, mudando-se para o Rio de Janeiro onde no ano seguinte, residindo no subúrbio de Del Castilho, estabelece-se na rua da Alfândega, 325, no centro comercial carioca, na região conhecida como Sahara.

 

Jamil Chadud

Jamil Chadud morreu no Rio de Janeiro, sem voltar a Sergipe, mas deixou entre os sergipanos o exemplo de dedicação em favor da causa da alfabetização de adultos, levando a Liga Sergipense contra o Analfabetismo a atingir estatísticas grandiosas, o que servia para exaltar o papel dos seus dirigentes e das instituições que patrocinavam sua presença nos bairros de Aracaju e em alguns pontos do Estado.

 

Dos comerciantes estrangeiros, maçons, José Kipermann registrou sua loja na Junta Comercial – em 21 de julho de 1923 – e angariou simpatia com sua Alfaiataria Carioca, localizada na rua de João Pessoa, 153. José Kipermann, nascido em Studenísia, na Rússia, em 20 de março de 1892, era casado com Clara Kipermann e tinha dois filhos – Maria e Moisés -, nascidos, respectivamente, em 1927 e 1929. Tinha um irmão em Aracaju, Luiz Kipermann, casado com Ester Kipermann, e que também tinha dois filhos – Abraão, nascido em Laranjeiras em 1924, e Sara, nascida em Aracaju em 1927. Conhecido como José Olhinho, por causa de um defeito no olho direito, judeu, José Kipermann tentou duas vezes o ingresso na Loja Capitular Cotinguiba, sendo rejeitado na década de 1930, mas finalmente sendo iniciando em 25 de janeiro de 1941, para, depois de alguns anos de intensa participação, transferir-se para o Rio de Janeiro, colocando à disposição dos irmãos da Loja o endereço da rua Pedro Guedes, 75, apartamento 103.

 

José Kipermann

O Rio de Janeiro foi, durante alguns anos, destino preferencial de judeus, maçons ou não, que viviam em Aracaju e em outros municípios sergipanos. O torpedeamento dos navios mercantes, em agosto de 1942, agitou Aracaju e assustou judeus, alemães, italianos, e outros estrangeiros que há muitos anos viviam, com seus familiares, em terras sergipanas. Outros ficaram, enfrentaram a adversidade, o desconforto, a desconfiança, no período da II Guerra Mundial, resistindo. Foi o caso do engenheiro civil norte americano José Steremberg, nascido em Nova Iorque em 27 de julho de 1916. Judeu, maçom desde 13 de dezembro de 1941, atuante na área da construção, no Departamento de Estradas e Rodagens, e noutras atividades profissionais. Casado desde 24 de dezembro de 1950, o professor José Steremberg viveu em Aracaju com sua família até morrer, em 4 de novembro de 1973.

 

Dentro e fora da Maçonaria foram muitos os estrangeiros, de várias partes do mundo, além dos portugueses, que optaram por Sergipe e foram incorporados ao cotidiano sergipano. Sobrenomes fortes, como Wynne, Shramam, em Maruim, Gambardela, Fiscina, Mandarino, em Itaporanga, Jasmim, em Estância, Hagembeck, Aragonez, em Laranjeiras, Abud, Chapermann, Tancu, Schneider, Sattler, Gentile (aportuguesados para Gentil), Schuster, Gatti, Salmeron, Navarro, Loeser, em Aracaju, dentre outros, todos eles com descendência que tornam Sergipe uma espécie de consulado mundial.

 

 

 

Por  Luiz Antônio Barreto- Jornalista, historiador e diretor do Instituto Tobias Barreto e ex- secretário de estado da Cultura. Escreve para o Portal Infonet: http://www.infonet.com.br/luisantoniobarreto/

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ESTRANGEIROS EM ARACAJU – Parte 4

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A Maçonaria sempre teve suas antenas ligadas na marcha da história, apoiando ou condenando os movimentos sociais. O Integralismo dos anos de 1930 foi veementemente proscrito na Loja Cotinguiba, com a suspensão dos direitos maçônicos de brasileiros e estrangeiros que aderissem à causa liderada por Plínio Salgado. Entre os brasileiros Rosalvo Rosa Queiroz, nascido em Maruim em 12 de agosto de 1890, falecido em Aracaju, em 1º de setembro de 1971, engenheiro têxtil, casado, maçom desde 9 de agosto de 1920, e dos estrangeiros Mariano Salmeron Navarro, espanhol de Cieza, nascido em 5 de agosto de 1896, filho de Mariano Salmeron e Maria Dolores Navarro, casado com Guiomar de Barros Mesquita, falecido em Aracaju em 20 de abril de 1952, tiveram em suas Fichas maçônicas o registro das observações condenatórias ao Integralismo. Mariano Salmeron deu satisfação a Maçonaria, entregando para arquivo cópia da carta que fez ao Núcleo Integralista de Aracaju, renunciando ao movimento.

 

Era um período que exigia cautelas dos estrangeiros. Nicola Mandarino não foi o único como suspeito de colaboração com as forças do niponazifascismo. Outros sofreram constrangimentos, patrulhamentos e enfrentaram os apupos da população. Muitos, no entanto, seguiram com suas atividades na cidade, ou procuraram o interior do Estado, onde pudessem tocar seus negócios. Morreu em Aracaju, por exemplo, em 28 de maio de 1938, José Thomás Sanz, espanhol nascido em Zaragoza, em 18 de agosto de 1888. Era casado, iniciado na Maçonaria desde 19 de junho de 1930, e tinha como profissão a música. Foi professor, tinha seu curso, colaborando para a elevação cultural da capital sergipana.

 

José Tomaz Sanz

Aracaju sempre teve os ouvidos atentos para a música das bandas do 28 BC, onde surgiram grandes intérpretes, como o saxofonista Luiz Americano, da Polícia Militar, com compositores de dobrados, do Corpo de Bombeiros, para as orquestras, como a do maestro Pinduca, e a Luna, de Euler Bessa, para os cursos de Helena Abud, de teoria e piano, de Waldir Morais de Almeida Mesquita, de teoria, solfejo e piano, com as denominações de Menino Jesus e de Carlos Gomes, dentre outros. José Tomáz Sanz vivei nesse ambiente musical, como professor de música, ajudando na formação de um gosto artístico que produziu seus efeitos nas décadas seguintes, com a criação da Sociedade de Cultura Artística de Sergipe – SCAS, com a Escola, hoje Conservatório de Música, que contou com Genaro Plech e com Leozírio Guimarães, dentre outros maestros e mestres da música, e mais recentemente com a SOFISE, dirigida pela professora Maria Olga Andrade e com as tentativas oficiais, do Estado, de dotar Sergipe de uma Orquestra Sinfônica.

 

José Tomáz Sanz era uma exceção, pois a maioria dos estrangeiros estava distribuída no comércio de Aracaju. Salomão Bonomô, nascido em Smyrna, na Turquia asiática, em 16 de setembro de 1886, iniciou-se na Maçonaria em 19 de setembro de 1931. Era comerciante, tinha sua Loja Bonomô, na rua de João Pessoa, 94, depois mudou-se para o Rio de Janeiro, onde morreu em 24 de abril de 1947. Saul Kaminsky, Elias e Marcos Roitman, Maurício Lerner, todos romenos, dominavam o ramo de móveis, com fabricação própria, ou vendendo produtos do Paraná e de Santa Catarina, considerados os melhores do Brasil. Saul Kaminsky nasceu em Bessarábia, Romênia, em 16 de outubro de 1905. Casado com Lúcia Kaminsky, pai de Joel Kaminsky, nascido em Aracaju em 2 de abril de 1930, ingressou na Loja Cotinguiba em 6 de outubro de 1934.

 

Elias Roitman

Marcos Roitman nasceu na mesma Bessarábia, na Romênia, em 25 de outubro de 1898, iniciando-se na Maçonaria já casado com Paulina Roitman, em 26 de setembro de 1940. Elias Roiteman, procedente do mesmo lugar da Romênia, nascido em 8 de dezembro de 1905, entrou para a Loja Cotinguiba em 21 de outubro de 1939. Marcos Roitman era proprietário de A Mobiliadora, fábrica de móveis situada na rua de João Pessoa, 29, enquanto Elias Roiteman sucedia Isaac Udermann, a frente da Casa Colombo, nos endereços novos de rua de João Pessoa,73 e 199 (antes era na mesma rua, no número 81). Era uma fábrica movida a eletricidade, como anunciava. Maurício Lerner nasceu na Romênia em 28 de agosto de 1913, era solteiro quando iniciou-se entre os maçons, em 13 de janeiro de 1940. Comerciante, era sócio de José Chapermann na Mobiliaria Brasil, na rua Inácio Barbosa, 156, que representava em Sergipe os colchões Probel.

 

Outro romeno, comerciante de móveis em Aracaju, foi Maurício Stern, filho de Abraão Elias e Clara Stern, nascido em 17 de abril de 1896. Declarou-se de religião israelita, quando foi entrou para a Maçonaria, em 13 de setembro de 1941, época que os judeus sofriam grande perseguição dos niponazifascistas. Com Isaac Chapermann abriu a loja Mobiliaria Chic, para expor e vender móveis que fabricava, à eletricidade, à rua de João Pessoa, 119/121. A Mobiliaria Chic era anunciada como “a maior e a melhor do Estado.” Maurício Stein morreu no Rio de Janeiro (Jacarepaguá), em 2 de fevereiro de 1973. No ramo de móveis, outros comerciantes estrangeiros pontificaram, alguns maçons, outros não como é o caso de Maurício Steimann, proprietário da Mobiliaria Sergipe, sob direção técnica de Samuel Eidelman, estabelecida na rua João Pessoa, 491 (atual José do Prado Franco).

 

Aracaju não era a única cidade nordestina que abrigava estrangeiros, mas certamente chamava a atenção o grande número desses profissionais e comerciantes, aqui residentes. Salim Cabús, por exemplo, que fabricava e vendia gravatas na sua loja da rua de João Pessoa. Outros, ao que tudo indica da mesma família – Jamil Cabús em Salvador, A Cabús & filhos em Maceió, Salvador Cabús no Recife – comercializavam miudezas e gravatas. Cappell, que tinha uma fábrica de vinagre e vinho na Travessa Municipal, deveria ter parentesco com Benjamim Cappell, que na Bahia fabricava chapéu de sol, vendia chapéus e bengalas. Entre Salvador, ao sul, e Recife, ao norte, Aracaju era local preferido para estrangeiros que corriam o mundo em busca de trabalho, riqueza e paz.

 

 

 

Comentário:Sou filha de Abrahão Chapermann, portanto neta de José Chapermann e vejo que tem umas informações distorcidas, pelo tempo ou por falta de documentação, mesmo.Se eu puder ajudar pode contar comigo para outras informações.Um abraço, Miriam
Enviado por: miriam berenstein   E-mail:
miriam-b@uol.com.br

 

 

 

 

Por  Luiz Antônio Barreto- Jornalista, historiador e diretor do Instituto Tobias Barreto e ex- secretário de estado da Cultura. Escreve para o Portal Infonet: http://www.infonet.com.br/luisantoniobarreto/

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