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Pessach na visão astral judaica

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O Sefer Yetzirá, Livro da Formação, considerado o mais antigo livro da Cabalá, tem sua autoria atribuída ao nosso primeiro patriarca, Avraham Avinu. Essa obra revela os segredos da Criação e, entre outros ensinamentos místicos, o mistério da Astrologia segundo o judaísmo.

O Sefer Yetzirá ensina que D’us canaliza para o mundo energia e vitalidade Divina através dos corpos celestiais.

De acordo com o mesmo, cada um dos doze meses do calendário judaico corresponde a um signo do zodíaco, uma cor, uma letra do alfabeto hebraico, um dos cinco sentidos, um órgão ou membro do corpo e uma das Doze Tribos de Israel. Na astrologia judaica, o mês em que a pessoa nasce exerce influência sobre sua personalidade. Seu signo indica o tipo de energia que ela poderá desenvolver e a fraqueza que deverá superar ao longo da vida. Em outras palavras, o judaísmo sustenta que a personalidade do ser humano é influenciada por seu signo.

Na Astronomia, chama-se de zodíaco o conjunto de constelações ao longo da elíptica – o caminho aparente percorrido pelo sol durante o ano. Como os planos das órbitas dos planetas em torno do Sol são quase coincidentes, além do astro-rei os planetas também são encontrados no zodíaco. Daí a importância desse conjunto de constelações.

Tradicionalmente, há doze constelações no zodíaco: Áries (Carneiro), Taurus (Touro), Gemini (Gêmeos), Câncer (Caranguejo); Leo (Leão); Virgo (Virgem); Libra (Balança); Scorpius (Escorpião); Sagittarius (Sagitário, o arqueiro); Capricornius (Capricórnio, a cabra do mar), Aquarius (Aquário, o carregador de água), Pisces (Peixes). Na Astrologia, o zodíaco é constituído pelos signos que dividem a elíptica em 12 zonas – correspondentes às 12 constelações tradicionais, todas elas com a mesma longitude celestial. Uma ressalva: a partir de 1930, quando a União Astronômica Internacional padronizou as constelações, passou-se a incluir no zodíaco uma 13a constelação, a Ophiuchus (o Serpentário).

De acordo com o Sefer Yetzirá, os 12 filhos de Jacob, que se tornaram as Doze Tribos de Israel, representam as 12 diferentes raízes de alma das quais descendem o Povo Judeu. Estas correspondem aos 12 signos tradicionais do zodíaco e aos 12 meses do calendário judaico. No que tange à existência de uma 13ª constelação no zodíaco, é interessante notar que uma das Doze tribos de Israel, a de Yossef, foi dividida em duas tribos – Menashé e Efraim; portanto, há 12 tribos de Israel, que, na realidade, são 13. Ao mesmo tempo, o calendário judaico é tradicionalmente composto por 12 meses; porém, em anos bissextos, há um 13º mês – Adar II. É provável que a divisão da tribo de Yossef, dando origem a uma 13ª tribo, e a adição de um 13o mês em anos bissextos, correspondam à 13ª constelação, Ophiuchus, adicionada ao zodíaco no século 20. Interessantemente, Ophiuchus, segue o signo de Peixes, que corresponde ao mês de Adar. Isto dá a entender que a 13ª constelação corresponde ao mês que segue Adar, a dizer, Adar II, pois não poderia ser Nissan, que é a primeira constelação (Áries). No calendário judaico, Nissan corresponde ao primeiro mês do ano.

Cada um dos 12 meses judaicos está relacionado a uma das 12 letras dentre as 22 que constituem o alfabeto hebraico. Correspondem, também, às 12 características da alma, como a visão, a fala, o pensamento, entre outros, e a um órgão do corpo humano. É importante ressaltar que a ordem desses corpos celestes está relacionada aos sete dias da semana. Em certos idiomas, essa conotação se faz evidente pelos próprios nomes atribuídos aos dias da semana. Na língua inglesa, por exemplo, Sunday significa, o dia do sol; Monday, o dia da lua; Saturday, o dia Saturno, e assim por diante. Em espanhol, essa relação é ainda mais evidente. Além do mais, cada mês judaico está ligado a um dos quatro elementos básicos – terra, fogo, ar e água. Finalmente, cada um dos 12 meses está relacionado a uma combinação específica das quatro letras que formam o impronunciável Nome Divino, o Tetragrama.

Analisaremos, a seguir, à luz do zodíaco, os três primeiros meses do calendário judaico: Nissan – signo de Áries, Iyar – signo de Touro, e Sivan – signo de Gêmeos. Estes três meses estão ligados, mais do que todos os outros, ao nascimento e à formação do Povo Judeu. Porém, antes de procedermos, é extremamente importante esclarecer o papel do zodíaco no judaísmo. O signo é apenas um instrumento utilizado pelo Criador para dirigir o mundo. O signo em si não tem qualquer poder independente. Além disso, o Povo Judeu, em virtude de ter recebido a Torá, alcançou um nível espiritual acima do zodíaco. Os signos são apenas canais através dos quais as forças espirituais vêm a terra. Quanto mais contato alguém tem com D’us e Sua Torá, isto é, com a dimensão espiritual do universo, menos suscetível essa pessoa será à influência das forças astrológicas.

O zodíaco é estudado no judaísmo para se adquirir autoconhecimento: para descobrir talentos e habilidades inatas e para ajudar a identificar a missão da pessoa no mundo. É expressamente proibido utilizar o zodíaco para tentar prever o futuro. Além de proibida, tal atividade costuma ser fútil, pois o ser humano sempre pode melhorar seu destino através da oração e da prática de boas ações, principalmente da generosidade aos outros. Quanto mais aperfeiçoamos nossa conduta e nos ligamos a D’us, mais Ele muda o curso natural dos eventos de forma a nos beneficiar. Portanto, a pessoa que verdadeiramente busca D’us e tem fascínio pelo misticismo deve saber que a Torá torna supérfluas e errôneas as previsões astrológicas. O estudo da Torá, principalmente de sua dimensão oculta, é infinitivamente mais poderoso e benéfico do que a tentativa de se prever o futuro ou tentar, quiçá, manipulá-lo através do estudo da Astrologia.

Nissan - O mês do êxodo

O primeiro mês do calendário judaico é Nissan, mês no qual se festeja Pessach, quando celebramos o Êxodo dos Filhos de Israel do Egito. O signo desse mês é Áries – o carneiro.

No antigo Egito, politeísta, o carneiro era um animal sagrado, assim como sagrado era o rio Nilo. Como eram muito escassas as chuvas no Egito, o Nilo era a fonte de vida para o povo, que subsistia da agricultura. No período das cheias, as fortes chuvas sazonais faziam o rio transbordar, encobrindo e irrigando as grandes extensões de terra que o margeavam. Esse fenômeno também servia para fertilizar o solo, ao nele depositar aluvião e matéria orgânica. O deus-guardião da nascente do rio, o deus que determinava o transbordamento do rio – representado de forma zoo-antropomórfica -tinha forma humana com cabeça de carneiro. O deus-carneiro era também símbolo de fertilidade, um deus criador, que, do barro, era capaz de moldar crianças e até outros deuses.

Os filhos de Israel foram salvos por D’us das mãos dos egípcios justamente no dia de lua cheia do mês de Nissan – no auge da atuação do signo de Áries, representado pelo carneiro.

No dia que antecedeu sua saída do Egito, 14 de Nissan, D’us ordenou aos Filhos de Israel que cada família judia sacrificasse um carneiro. No dia seguinte, eles teriam que assar esses carneiros no fogo e, em seguida, servi-los como alimento naquela primeira celebração de Pessach. Ao ordenar o primeiro Korban Pessach – o primeiro sacrifício do carneiro pascal – D’us tinha vários propósitos. À humanidade, por exemplo, Ele queria demonstrar que a salvação dos judeus se devia exclusivamente à Sua intervenção; já aos egípcios, que sua suposta divindade não tinha poder algum. Era apenas um animal que, após ser abatido e assado, serviu de alimento para os judeus. D’us queria que a humanidade visse que nenhuma força da natureza tem poder algum independente e nada no Universo faz frente à Vontade Divina. Há outros fatos interessantes. Por exemplo, o elemento básico associado ao mês de Nissan é o fogo, usado para assar o Korban Pessach. Paralelamente, no zodíaco, o planeta correspondente a esse mês é Marte, que tem uma cor avermelhada – lembrando o fogo e o sangue.

Conta o Midrash que após o Egito ser castigado pelas pragas, o Faraó consultou seus astrólogos para saber como agir em relação ao povo de Israel. Os astrólogos egípcios, cujos poderes de clarividência eram limitados, disseram ao Faraó que o povo de Israel poderia ser libertado, pois, de acordo com suas previsões, os judeus não sobreviveriam no deserto. Suas previsões se basearam no fato de que o Povo Judeu estava deixando o Egito durante o mês associado ao planeta Marte, e portanto, que haveria derramamento de sangue judeu no deserto. Não estavam totalmente errados, pois, de fato, houve derramamento de sangue judeu no deserto – antes da outorga da Torá, quando todos os homens judeus se submeteram ao Brit Milá – a circuncisão judaica.

O fato de o Êxodo ter ocorrido durante o mês de Áries tem grande significado. Este signo representa a união, pois carneiros e ovelhas costumam viver agrupados, sendo pastoreados em bando, em seus rebanhos. Além disso, o carneiro, por natureza, é caracterizado pela auto-anulação; o próprio som emitido por esse animal, seu balido, demonstra sua submissão. Quando o povo de Israel saiu do Egito, eles foram comparados a um rebanho, unidos e agrupados, seguindo à risca as instruções de seu líder, Moshé Rabenu, que o Zohar denomina de "o Pastor Fiel".

O Korban Pessach, o sacrifício pascal, também objetivava a união entre os judeus, pois a Torá exige que famílias, parentes e amigos comam juntos o animal sacrificado. Hoje em dia, devido à ausência do Templo Sagrado, não há o sacrifico de Pessach, mas a cerimônia do Seder, onde as famílias e amigos se reúnem, incorporou esse papel de reunião familiar.

O mês de Nissan, primeiro mês judaico, é governado por uma das características da alma – a fala – e corresponde à letra Hê. Para pronunciar todas as demais letras é obrigatório começar pelo som simples da letra Hê, que é o "sopro da fala". O ser humano distingue-se das outras criaturas através da fala – capacidade de comunicar seus pensamentos aos outros. Durante o Seder de Pessach, cumprimos a mais importante mitzvá da noite, transmitindo aos nossos filhos o relato da saída do Egito contido na Hagadá. Se a palavra Pessach for dividida em duas sílabas – Pe – Sach – o resultado será duas palavras que significam boca (Pê) e falante (Sach). O nome da própria festa já faz alusão ao propósito maior da noite, que é utilizar o nosso poder de fala para contar aos nossos filhos os milagres que D’us realizou em prol de nosso povo.

A tribo associada ao mês de Nissan é a de Yehudá, um dos 12 filhos de Jacob (ver p. 37). Dele, que simboliza a liderança judaica, descendem os monarcas judeus, inclusive o Rei David e o Mashiach. A força do monarca está em sua fala, pois ele reina e comanda através de sua palavra.

O órgão do corpo correspondente ao mês de Nissan é o pé direito, simbolizando o povo de Israel que, com a libertação da escravidão egípcia, iniciou sua trajetória como nação com o pé direito, atravessando o deserto para receber a Torá. É através dos pés que o ser humano avança e progride e o pé direito simboliza que a marcha ou a caminhada é feita de maneira resoluta.

Iyar – O mês da introspecção

O segundo mês do calendário judaico, Iyar, corresponde ao signo de Touro. Ao contrário do carneiro, a característica do touro é a sua individualidade. Isto se reflete na característica deste mês, que requer introspecção e um trabalho individual.

Desde o segundo dia de Pessach até o dia da outorga da Torá, Shavuot, contam-se 49 dias, os dias da Contagem do Omer. Essa contagem é feita durante parte do mês de Nissan, seguindo durante todos os dias do mês de Iyar e entrando nos cinco primeiros dias do mês de Sivan.

De acordo com a Cabalá, há sete emoções humanas básicas: Chessed – bondade, generosidade e altruísmo; Guevurá – severidade, poder e disciplina; Tiferet – bondade, harmonia e compaixão; Netzach – vitória, ambição e eternidade; Hod – esplendor, empatia e sinceridade; Yessod – fundação, alicerce e reciprocidade; Malchut – realeza, onde o potencial latente é concretizado. Cada uma dessas qualidades emocionais combina com as demais para formar a escala completa da personalidade humana. Sete vezes sete são 49 – o número exato de dias entre a saída do Egito e a outorga da Torá. Durante o período do Omer, devemos refinar nossas emoções e, a cada um dos 49 dias, aperfeiçoar uma característica de nossa personalidade. Assim procedendo, preparamo-nos para o ápice espiritual que ocorre em Shavuot, a festa que relembra a revelação inédita de D’us e o recebimento da Torá no Monte Sinai.

No entanto, durante o mês de Iyar, é importante tomar cuidado de manter vivo nosso amor e preocupação com os outros. O trabalho individual e a elevação pessoal são incumbências muito positivas, no entanto estes não têm controle sobre o egoísmo, um sentimento que tão facilmente escala para algo muito prejudicial – a falta de consideração com nossos semelhantes. Foi esse tipo de sentimento que resultou, justamente no mês de Iyar, na trágica morte de 24 mil alunos de Rabi Akiva. Todos os seus discípulos, apesar de seu alto nível de conhecimento e retidão, pelo fato de se preocuparem acima de tudo com sua própria elevação espiritual, afastaram-se dos demais. Desta forma pecaram por ter faltado o respeito aos demais colegas.

O mês de Iyar é governado pela letra Vav do alfabeto hebraico. De acordo com o Zohar, obra fundamental da Cabalá, essa letra simboliza a verdade. A característica da alma correspondente a este mês é a reflexão. Como explicado anteriormente, trata-se do mês de preparação para o recebimento da Torá, que ocorre no mês seguinte, nos dias 6 e 7 de Sivan, quando se celebra Shavuot. Em Iyar é necessário refletir bastante sobre o verdadeiro objetivo da nossa existência, para se pôr em prática as boas resoluções tomadas.

O elemento básico associado a esse mês é a terra, cujas características são a dureza e a firmeza. Em Iyar, devemos firmar as decisões espirituais tomadas durante esse período de reflexão, a fim de enobrecer e elevar nossa personalidade.

Sivan – Alcançando a perfeição

Simbolizado pelo signo astrológico de Gêmeos, Sivan, o terceiro mês do calendário judaico, é considerado o mês da perfeição – o mês no qual o povo de Israel recebeu a Torá. Esse signo de dualidade evoca a imagem das duas Tábuas contendo os Dez Mandamentos e as duas facetas da Torá – a Torá Escrita, constituída pelos 24 Livros do Tanach – e a Torá Oral, que inclui a explicação e elucidação das leis, os ensinamentos morais e toda a tradição mística.

O signo de Gêmeos também simboliza Moshé e seu irmão Aharon – os dois líderes que conduziram o Povo Judeu desde o processo de libertação do Egito até praticamente a entrada dos Filhos de Israel na Terra Prometida (ver Morashá 65). Finalmente, esse signo de dualidade lembra a união entre D’us e o Povo Judeu, como se fossem um noivo e uma noiva.

Consta no Midrash que o Eterno não quis entregar a Torá logo após a saída do Egito, durante o mês de Nissan ou mesmo de Iyar, pois os signos desses dois meses são simbolizados por dois animais – Áries (Carneiro) e Touro. Os judeus, recém-libertados da escravidão no Egito, onde haviam sido imersos na idolatria egípcia, ainda não haviam alcançado o nível espiritual necessário para poder receber a Torá. Após deixar aquele país, os Filhos de Israel precisariam de 49 dias de preparo espiritual – correspondentes aos 49 níveis de elevação espiritual (o 50º e último nível só pode ser atingido após o falecimento) – para se desfazer das características animalescas, representadas por Áries e Touro, adquiridas durante sua extensa estada no Egito. Eles precisavam romper com a mentalidade de escravos neles inculcada, bem como com a cultura pagã e idólatra egípcia. Só assim o Povo Judeu atingiria um nível espiritual elevado e alcançaria o semblante de ser humano – que foi criado à imagem de D’us – e que é simbolizado pelo signo de Gêmeos, tornando-se merecedor de receber a Torá.

O mês de Sivan é governado pela letra Zayin, a sétima letra do alfabeto hebraico. Zayin significa arma. A Torá que nos foi entregue nesse mês é nossa arma contra o mal e contra todas as forças negativas que existem no Universo. A característica da alma que rege Sivan é o "movimento correto". Pois, após retificarmos nossa fala e nosso pensamento, em Nissan e Iyar, respectivamente, chegamos ao momento de progredir da forma como ordena a Torá. A partir do terceiro mês, as três faculdades humanas – pensamento, fala e ação – passam a ser utilizadas e aprimoradas para cumprir a vontade do Eterno.

O elemento básico associado ao mês de Sivan é o ar. Há vários elementos que são absolutamente necessários para a sobrevivência de um ser humano, mas nenhum deles é mais vital que o ar. Podemos passar alguns dias sem comer ou beber, mas não conseguimos sobreviver por mais de alguns minutos sem ar. Para nós, judeus, a Torá que nos foi entregue no dia 6 de Sivan, em Shavuot, é tão vital e fundamental quanto o ar que respiramos. Sem a Torá, que serve como nossa ligação a D’us, nosso povo não consegue sobreviver.

Para concluir, citamos um trecho proferido em nossas rezas diárias e que enfatiza de forma clara e óbvia nosso amor e lealdade à Torá e nosso reconhecimento de quão vital é para nós, como indivíduos e como povo.

"Com um amor eterno Tu tens amado o Teu povo, a Casa de Israel. Torá e Mitzvot (mandamentos Divinos), estatutos e leis a nós ensinaste. Por isso, Eterno, nosso D’us, ao deitarmo-nos e ao nos levantarmos, falaremos dos teus estatutos, e nos alegraremos com as palavras de Tua Torá e em Tuas Mitzvot para sempre. Pois eles são a nossa vida e a extensão de nossos dias e neles meditaremos, dia e noite. Que o Teu amor jamais se afaste de nós. Bendito és Tu, Eterno que amas Seu povo Israel".

 por: Rabino Avraham Cohen é rabino da Sinagoga Beit Yaacov, São Paulo

 

FONTE REVISTA MORASHÁ – EDIÇÃO 67- MARÇO 2010 – www.morasha.com.br

Três níveis de percepção do Divino

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A Hagadá de Pessach, recitada durante o Seder, conta a história de como o povo judeu, que começou como uma família de 70 pessoas, se tornou uma grande nação – o Povo escolhido por D’us para receber Sua Torá.

 

A Hagadá nos conta acerca de eventos que precedem e sucedem o Êxodo – a amarga escravidão sofrida por nossos antepassados, as Dez Pragas que venceram o Faraó, o Êxodo, a divisão do Mar e a outorga da Torá no Monte Sinai, entre outros. Mas, o clímax do processo de constituição dos judeus em uma nação ocorreu não em 15 de Nissan – dia do Êxodo e primeiro dia de Pessach – mas 50 dias mais tarde, quando D’us Se revelou a todos os Filhos de Israel e lhes deu a Torá – um evento que é comemorado na festa de Shavuot.

As festividades de Pessach e Shavuot são ligadas de forma indissolúvel. Começando na segunda noite de Pessach e terminando no dia antes de Shavuot, fazemos a contagem do Omer – um mandamento de grande significado místico. Durante os 49 dias dessa contagem, somos obrigados a trabalhar sobre nós mesmos e a aumentar nossa espiritualidade para que, em Shavuot, o dia cujo tema é nossa dedicação ao estudo e ao cumprimento da Torá, possamos estar em um nível espiritual mais elevado do que estávamos antes do início de Pessach. O processo do crescimento espiritual que se inicia em Pessach culmina, pois, em Shavuot.

A seguir analisaremos três marcos no processo que se iniciou quando Moshé foi enviado por D’us para libertar o Povo Judeu e que culminou com a Revelação Divina no Monte Sinai. Tais marcos são as Dez Pragas que se abateram sobre o Egito, a divisão do Mar de Juncos e o recebimento da Torá.

As Dez Pragas

Quando D’us se faz ver a Moshé e lhe atribui a missão de voltar ao Egito e libertar o Povo Judeu da escravidão, o profeta responde: "Mas eles não acreditarão em mim, nem ouvirão minha voz, pois dirão: ‘O Eterno não apareceu a ti!’" (Êxodo, 4:1). D’us então lhe diz que tome seu cajado e o atire ao chão, e, ao fazê-lo, o cajado se transforma em uma serpente. O Eterno ordena que Moshé agarre o rabo da serpente, e ele obedece. A víbora volta a ser o cajado. D’us instrui Moshé a realizar esse milagre diante dos judeus para que "… creiam que o Eterno, D’us de teus pais – o D’us de Abrahão, o D’us de Isaac e o D’us de Jacob – apareceu a ti!" (Ibid, 4:5). Mas, caso um sinal não fosse suficiente para fazê-los acreditar, D’us dá a Moshé um segundo milagre, dizendo-lhe que se mesmo realizando os dois o povo não desse atenção a suas palavras: "Tomarás das águas do Nilo e derramarás no seco; e as águas que tomarás do rio tornarse-ão sangue no seco" (Ibid, 4:9).

Essa passagem da Torá deixa claro que D’us, que é Onisciente, sabia que a maneira mais rápida de fazer com que o Povo Judeu acreditasse Nele e em Moshé seria através da realização de milagres. Os judeus – escravizados, desesperados e desesperançados – necessitavam de milagres para acreditar que o D’us de seus antepassados não os tinha renegado. E assim, quando Moshé volta ao Egito, ele e seu irmão Aharon reúnem os anciãos judeus, diante de quem Moshé realiza os milagres, segundo as instruções Divinas. Ao testemunhar os milagres, "o povo acreditou, e compreenderam que o Eterno visitara os Filhos de Israel e vira sua aflição, e curvaram-se e se prostraram". (Ibid, 4:31). Quando Moshé e Aharon, então, invadem o palácio do Faraó e exigem a libertação do Povo Judeu, eles não pedem misericórdia nem ameaçam com algum tipo de rebelião. Em vez disso, realizam milagres, exatamente como haviam feito antes perante os judeus. Pois D’us havia dito a Moshé: "E não vos escutará o Faraó, e porei Minha mão sobre o Egito, e tirarei os Meus exércitos, o Meu povo, os filhos de Israel da terra do Egito, com grandes juízos. E o Egito saberá que Eu sou o Eterno, ao estender a Minha mão sobre o Egito, e tirarei os Filhos de Israel dentre eles". (Ibid, 7:4-5). De fato, a confrontação entre o líder egípcio e Aharon e Moshé foi um duelo sobrenatural. Para provar ao Faraó que falavam em Nome de D’us, Aharon atirou o cajado de seu irmão e o transformou em serpente. Mas o Faraó chama seus sábios feiticeiros, que conseguem repetir o feito. O rei egípcio pressupõe que Moshé e Aharon são magos como os seus, e não leva a sério sua alegação de que falam em Nome do Altíssimo. É nesse ponto que o episódio das Dez Pragas se inicia.

A primeira delas transformou o Nilo em sangue. Aharon ergue o cajado e toca o Nilo, tornando suas límpidas águas sangue puro. Mas os feiticeiros egípcios conseguem replicar esse milagre, e o Faraó, assim sendo, imagina que Moshé e Aharon apenas executavam mágicas – prática comum no Egito. Os bruxos egípcios conseguem, pois, replicar a segunda praga, mas não a terceira, e dizem ao Faraó que essa última não era magia, mas "o dedo de D’us". Mas o Faraó supõe que também a terceira deveria ser algum tipo de bruxaria mais elevada e que, certamente, os dois irmãos deviam ser melhores na magia que seus magos. Somente quando a sexta praga, a sarna, na realidade, bolhas que se transformavam em úlceras, causando grande sofrimento físico, assola o Egito, seus bruxos ficam totalmente desmoralizados. Pois, apesar de serem profundos conhecedores da magia negra, eles não conseguem proteger nem a si próprios. Tornava-se cada vez mais claro aos egípcios que Moshé não era um simples mago e que as pragas eram verdadeiramente obra de D’us.

À medida que as demais pragas trazem cada vez mais destruição e miséria ao Egito, os emissários do Faraó lhe imploram: "Até quando isto será um impedimento para nós? Envia os homens, e que sirvam ao Eterno, seu D’us" Ainda não notastes que o Egito está perdido?" (Ibid, 10:7). Mas foi preciso que viesse a décima e última praga – a morte dos primogênitos – para finalmente quebrar o Faraó. Ele tinha sido alertado várias vezes por Moshé para que tivesse a chance de se arrepender, salvando a si próprio e a seu povo. Bem verdade que D’us endurecera o coração do Faraó, dificultando o seu arrependimento, sendo isto uma forma de punição por suas más ações – mas a porta do arrependimento nunca esteve totalmente fechada para ele. Mas, apesar das pragas e do sofrimento que se seguiu, o Faraó se recusou a ver a Mão de D’us. Suas racionalizações, seu desprezo pelos demais e sua teimosia levaram à sua trágica queda e à destruição de seu poderoso reino.

No que tange ao Povo Judeu, eles observaram as Dez Pragas dizimarem o Egito enquanto permaneciam a salvo. Claramente, isso não foi obra do acaso. Com cada praga que atingia o Egito, os judeus se convenciam de que o D’us de seus antepassados não os tinha abandonado. Tinha vindo resgatá-los da escravidão e do genocídio, e interferia abertamente em Seu mundo para punir aqueles que vitimavam o Seu povo. Vinha salvá-los com Sua mão poderosa e Seu braço estendido.

A divisão do Mar

No entanto, nem as Dez Pragas foram suficientes para convencer os egípcios de que foi D’us – e não Moshé e Aharon – quem viera libertar os judeus. Apenas alguns dias após permitir que o Povo Judeu deixasse o Egito, o Faraó e a totalidade de seu exército saem à caça dos fugitivos judeus para trazê-los de volta. Apesar do terror das pragas, os egípcios estavam tão confiantes na vitória que, nessa saída militar, adornam seus cavalos com ornamentos em ouro, prata e pedras preciosas.

O Povo Judeu havia deixado o Egito no dia 15 de Nissan. Em torno do dia 20, o Faraó e seu exército tinham-nos alcançado. E os judeus se vêem presos em uma armadilha: tinham atrás de si o Faraó e seus homens, e à sua frente o Mar de Juncos. Apesar de tudo o que tinham presenciado no Egito, ficaram desesperados e gritam a Moshé: "Foi porque não havia sepulcros no Egito que nos trouxeste para morrer no deserto? O que nos fizeste, ao nos tirar do Egito?"(Ibid, 14: 11). Cheios de temor, os judeus dizem a Moshé: "Deixa-nos e serviremos aos egípcios. Pois nos é melhor servir aos egípcios do que morrer no deserto!" (Ibid, 14: 12).

Moshé ora a D’us e Ele lhe ordena: "Toma teu cajado e estende tua mão sobre o mar e fende-o, e que os Filhos de Israel entrem pelo meio do mar, em seco". (Ibid, 14: 16). As águas do Mar de Juncos se abrem, permitindo que os judeus atravessem. Os egípcios, que claramente não haviam aprendido a lição com as Dez Pragas, saem no seu encalço. Quando o exército do Faraó está no meio do mar, D’us começa a castigá-los. Em pânico, os egípcios exclamam: "Fugirei diante de Israel, pois o Eterno luta por eles contra o Egito!" (Ibid, 14: 25). Mas sua sorte já fora selada. Seguindo instruções Divinas, Moshé estende sua mão sobre o mar e, na manhã do 21o dia de Nissan, sétimo dia de Pessach – que, na Terra de Israel, é o último dia da festividade – as águas voltam a se unir e engolem todo o exército do Faraó.

A divisão do Mar foi o ponto culminante do Êxodo, pois mesmo depois de os judeus terem fugido do Egito, o exército desse país permaneceu intacto e a ameaça da volta à escravidão ainda existia. No mar, os judeus foram perseguidos por uma força militar extremamente poderosa, que facilmente os teria vencido e capturado. Segundo o Midrash, havia 30 egípcios para cada judeu. Somente quando o mar se dividiu e engoliu o exército egípcio foi que o êxodo judeu realmente se completou. No 15º dia de Nissan – dia em que os judeus deixaram o Egito, primeiro dia de Pessach – D’us puniu o Egito com a 10ª praga, mas os judeus deixaram o país como escravos em fuga. No 21º dia de Nissan, após a divisão do Mar, como vimos acima, os judeus se tornaram um povo verdadeiramente liberto. Contudo, há uma razão mais profunda para a divisão do mar ser mais importante do que as Dez Pragas. No Egito, os judeus presenciaram ocorrências sobrenaturais, mas quando o Mar de Juncos se abriu ao meio, todos os judeus adquiriram a condição de profetas. Está escrito no Midrash que mesmo o mais simples dos judeus "viu no Mar de Juncos o que não fora visto nem pelo profeta Ezequiel", cuja visão da Carruagem Divina é a base do estudo da Cabalá. No Mar de Juncos, os Céus se abriram; todos os judeus, mesmo as crianças, tiveram uma visão do mundo infinito. Por essa razão foi naquele momento, e não antes – nem mesmo durante as pragas que se abateram sobre o Egito – que "o povo temeu ao Eterno, e creram no Eterno e em Moshé, Seu servo". (Ibid, 14:31).

Antes dessa experiência profética, os judeus haviam testemunhado vários milagres e maravilhas. Mas sua fé em D’us e em Seu emissário não era absoluta. Como fizera o Faraó, eles também poderiam ter racionalizado sobre o que ocorrera no Egito. Talvez as Dez Pragas tivessem sido uma coincidência – muito pouco provável, certo, mas ainda assim uma coincidência. Talvez houvesse alguma explicação natural para elas terem caído sobre os egípcios e não sobre os judeus. Talvez o Faraó e seus feiticeiros estivessem certos: Moshé e Aharon eram apenas super-magos que tinham conseguido manipular a natureza para destruir o Egito, enquanto protegiam os judeus.

Resumindo, pura e simplesmente, as Dez Pragas não eram prova suficiente – nem para os judeus, que entraram em pânico diante da divisão do mar, nem para os egípcios, que foram atrás deles.

Mas, com a divisão do mar, tais dúvidas se desvaneceram. Os egípcios por fim reconheceram a verdade – infelizmente, quando já era tarde. Para os judeus, não se tratou de mais outro milagre, mas do ponto de partida para o objetivo supremo do Êxodo – o recebimento da Torá – que somente poderia ter ocorrido depois dos Filhos de Israel vivenciarem as revelações espirituais da divisão do mar. No sétimo e último dia de Pessach todos os judeus se tornaram profetas. D’us se tornou uma realidade tão palpável que, na Canção do Mar, entoada pelo Povo Judeu em louvor a D’us por sua salvação, as crianças proclamaram: "Este é meu D’us!", indicando claramente perceber a Presença Divina.

A experiência profética que ocorreu no Mar de Juncos preparou os judeus para a Revelação Divina que iria ocorrer no Monte Sinai, apenas 50 dias após o Êxodo.

A Revelação Divina no Sinai

Se o povo vivenciou a visão de D’us durante a divisão do Mar, que necessidade haveria da ocorrência da Revelação Divina no Monte Sinai?

São muitas as respostas, mas talvez a principal seja que é extraordinariamente difícil negar um evento testemunhado por milhões de pessoas. Um único indivíduo pode fabricar ou imaginar uma história, e as pessoas podem optar por acreditar ou não em suas palavras. Mas é muito difícil convencer terceiros da veracidade de um evento envolvendo milhões de pessoas se tal evento não ocorreu.

Se não tivesse ocorrido a Revelação Divina no Sinai, seria possível questionar a origem Divina do judaísmo. Poder-se-ia alegar que Moshé foi um grande líder carismático, um mago; mas jamais um verdadeiro profeta de D’us. Poder-se-ia mesmo acusá-lo de ser um impostor ou simplesmente desacreditá-lo, rotulando-o de um esquizofrênico que, no entanto, acreditava ter ouvido o chamado da Voz de D’us. Mas, quando até o mais simples dos judeus se tornou um profeta à beira do Mar de Juncos e, em especial, quando todos eles – milhões de pessoas – ouviram a Palavra de D’us aos pés do Monte Sinai, não mais havia lugar para dúvidas sobre a origem da Torá. Isto explica por que até mesmo os maiores oponentes de Moshé, como seu primo Corach, não puderam negar ser ele um verdadeiro profeta de D’us. Durante sua longa jornada de 40 anos pelo deserto, muitos judeus falsamente acusaram Moshé de crimes terríveis – nepotismo, roubo, até mesmo de adultério – mas eles nunca ousaram sugerir que ele fosse impostor, charlatão ou alucinado. Pois que eles, afinal, tinham presenciado a Revelação de D’us e quando Ele Próprio chamou Moshé para ascender ao Monte Sinai para receber a Torá. D’us Se assegurou de que seria impossível alegar que Sua Torá era um relato de ficção. E é por essa razão que mesmo os maiores inimigos do Povo Judeu, mesmo aqueles que quiseram converter todos os judeus, nunca negaram a verdade histórica do judaísmo.

Uma segunda razão para a Revelação Divina no Monte Sinai é que D’us transmitiu ao Povo Judeu os meios de se conectarem a Ele – e isto é feito através da Torá. Se Ele jamais Se tivesse revelado, as pessoas alegariam que a Torá era criação de Moshé. No Monte Sinai, D’us fez o Povo Judeu jurar que iria preservar a Torá: assim sendo, Sua Lei não poderia ser descartada com um código de leis criado pelo homem.

Através da Torá, D’us nos permitiu conectarmo-nos com Ele. Um homem pode considerar-se sábio e espiritualizado. Mas, pelo fato de ser finito, não pode compreender os Desígnios de D’us. O homem requer que D’us lhe aponte o que fazer. No Monte Sinai, D’us nos jogou uma corda que nos permite manter uma conexão com Ele. Quando estudamos a Sua Torá, absorvemos uma centelha de Sua Sabedoria Infinita. Quando realizamos Seus mandamentos, tornamo-nos instrumentos no cumprimento de Sua Vontade na Terra. E quando estendemos a mão para ajudar os outros, tornamo-nos agentes da bondade e plenitude Divinas no mundo.

Cinqüenta dias após deixarem o Egito, os judeus ouviram a Voz de D’us que lhes falava. O Mestre do Universo proclamou os Dez Mandamentos que são o núcleo dos 613 Mandamentos da Torá. Quem lê a Torá em hebraico sabe que os Dez Mandamentos foram dirigidos na 2ª pessoa do singular. No Monte Sinai, D’us não se dirigiu ao Povo Judeu como um todo. Ele falou pessoalmente a cada um de nós, pois a alma de cada um de nós esteve presente no Monte Sinai quando D’us Se revelou aos Filhos de Israel. E cada vez que abrimos a Torá, cada vez que a estudamos e praticamos o que nos ensina, estamos revivendo aquele dia tão monumental na história da humanidade.

A percepção do Divino

A Torá é eterna e é uma lição para todo judeu. Com efeito, a raiz da palavra Torá é Hora’á, que literalmente significa "instrução". Cada vez que estudamos um trecho da Torá, devemos tirar uma lição do mesmo. Quais são, portanto, as lições transmitidas por nosso estudo dos três marcos que vimos acima: as Dez Pragas, a divisão do mar, e a Revelação Divina no Sinai? Estes marcos representam três estágios na percepção que a pessoa tem de sua relação com D’us. O primeiro ocorre quando se vivencia um milagre – um evento muitíssimo improvável: uma cura milagrosa, um socorro financeiro quando mais se necessita, a salvação em momento de extrema dificuldade, uma coincidência extraordinária ou qualquer evento que nos leve a crer que o mundo não funciona por si só. Os milagres servem para nos lembrar que há Alguém que rege os acontecimentos e que nos guarda. A isso o judaísmo chama de Divina Providência.

Mas os milagres são apenas o primeiro estágio de conscientização sobre o Divino, pois dificilmente causam uma impressão duradoura. A pessoa pode ficar grata e se sentir inspirada por um milagre, e isto pode fazê-la reconhecer o envolvimento de D’us em sua vida, mas, mais cedo ou mais tarde, poderá vir a acreditar que o milagre foi apenas uma grande coincidência. Os egípcios testemunharam eventos sobrenaturais – as Dez Pragas – mas os racionalizaram como coincidências infelizes ou mágicas usadas para manipular a natureza. No que tange aos judeus, apesar dos milagres que presenciaram, foi somente no Mar de Juncos que eles finalmente "creram no Eterno e em Moshé, Seu servo".

O segundo estágio da ligação com D’us é simbolizado pelo episódio no Mar de Juncos. Como está escrito no Talmud, nós, judeus, talvez não sejamos todos profetas, mas descendemos dos profetas. Todos nós, em maior ou menor grau, possuímos um pequeno dom para a profecia. Todos tivemos experiências espirituais. Para alguns, pode ser algo simples como receber uma mensagem em um sonho que se torna realidade; para outros, pode ser um sexto sentido aguçado; e para poucos judeus privilegiados, pode ser algo tão dramático como ver almas ou vivenciar uma experiência de quase-morte, em que a pessoa tem uma visão do mundo futuro. Uma experiência genuinamente espiritual causa uma impressão bem mais acentuada do que um milagre, pelo fato de ser muito mais difícil de atribuí-la a uma coincidência. Um milagre é uma improbabilidade estatística, mas uma percepção do mundo espiritual é algo vivenciado. É um evento que transforma a vida de quem a percebe.

Contudo, podemos perguntar-nos: como podemos saber se uma experiência espiritual não é produto da imaginação ou de um alucinógeno? Como diferenciar um profeta de um esquizofrênico? No antigo Israel, quem alegava ter recebido uma mensagem profética era rigorosamente examinado por verdadeiros profetas e sábios para verificar de quem se tratava – profeta ou louco. Uma experiência espiritual tem valor quando serve de ponto de partida para se chegar a um nível mais alto de conscientização do Divino, o que é alcançado através do estudo e da prática de Sua Sabedoria e Vontade.

O fato de uma pessoa realizar milagres não significa nada; afinal, os feiticeiros idólatras egípcios eram magos de grande alcance. E mesmo as vivências espirituais genuínas, por mais fascinantes que sejam, não conseguem mudar o mundo. A pessoa pode meditar e mesmo levitar dias inteiros, mas, com isso, não fará deste um mundo mais Divino. Por outro lado, aquele que se dedica a estudar a Sabedoria Divina e a verdadeiramente cumprir a Vontade Divina, praticando atos de santidade e bondade, faz muito mais do que meramente tocar os Céus: essa pessoa traz os Céus para a Terra. O homem pode ser um milagreiro, profeta ou sábio – pode estar na mais alta das montanhas e compreender tudo o que pode ser compreendido – contudo, ele nada mais é do que um ser humano finito, com os pés no chão. Acima dele está um D’us Infinito, que é desconhecido, impalpável e que não pode ser compreendido. Como pode, então, o homem finito, por maior que seja, alcançar o Infinito? Sua própria libertação e a única libertação do mundo inteiro se dão quando o Altíssimo chega aqui embaixo e lhe diz, e diz a todos nós: "Estudem isto. Façam aquilo. E através de seu estudo de Minha Sabedoria e seu cumprimento de Minha Vontade vocês estão ligados a Mim". Quando isto acontece, o homem e D’us se unem a um tal ponto em que não mais existem o finito na Terra e o Infinito nos Céus. E passa a existir apenas UM.

 

FONTE : REVISTA MORASHÁ –  Edição 67 – março de 2010 -  http://www.morasha.com.br/

Celebrando Chanucá

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Ano
após ano, à época de Chanucá, as luzes são acesas em todos os lares
judaicos para celebrar os acontecimentos daqueles dias, com cânticos
de louvor a D’us. assim, os caminhos de Israel são iluminados pela mensagem
eterna: "a luz espiritual de Israel nunca será apagada".


A festa de Chanucá inicia-se no dia 25 de Kislev, este ano em 11 de
dezembro, à noite, e o acendimento das velas vai até 1o de Tevet – 18
de dezembro, à noite. Desde a histórica vitória dos macabeus sobre os
assírios, ocorrida em 165 a.E.C., os judeus celebram Chanucá durante
oito dias. A festividade comemora a preservação do espírito de Israel.
Assim sendo, celebra-se Chanucá apenas espiritualmente, não havendo
outros mandamentos a respeito. Além disso, durante os oito dias da festa,
é proibido qualquer forma de luto público ou jejum, podendo-se, no entanto,
trabalhar.

A chanuquiá – candelabro de oito braços especial da festividade – deve
ser acesa diariamente após o aparecimento das estrelas, com exceção
da véspera do Shabat, quando deve ser acesa antes do pôr-do-sol. Qualquer
material incandescente pode ser usado para acendê-la, mas deve-se preferir
a luz intensa do azeite ou de velas de cera ou parafina, grandes o bastante
para permanecer ardendo no mínimo por meia hora. Por isso, se uma vela
apagar durante esse tempo – com exceção da noite de Shabat, recomenda-se
reacendê-la. Num lugar de destaque, no candelabro, há uma outra vela
auxiliar, de preferência de cera, chamada shamash. Algumas comunidades
usam o shamash para acender as demais velas; outras, uma vela adicional.

Na sexta-feira à noite, véspera do Shabat, as velas devem ser acesas
antes do pôr-do-sol e antes das velas de Shabat. Nesse dia devem ser
usadas velas maiores, para que ardam até meia-hora após o início do
Shabat. Na noite seguinte, as velas de Chanucá só podem ser preparadas
e acesas após o término do Shabat e da Havdalá.

Na primeira noite, acende-se a vela da extrema direita e, em cada noite
subseqüente, acrescenta-se uma nova do lado esquerdo à primeira e, assim,
sucessivamente. A 1ª vela a ser acesa é sempre a nova, procedendo-se
da esquerda para a direita.

Na segunda noite, por exemplo, acendem-se duas. A primeira vela deve
ser colocada do lado direito da chanuquiá e a segunda é adicionada à
esquerda da primeira. Durante os oito dias, uma nova luz é adicionada,
noite após noite, até completar as oito. Por ter um propósito sagrado,
a luz da chanuquiá não poderá ser usada para nenhum outro fim, como
trabalho ou leitura. Todos os membros da família devem estar presentes
na hora do acendimento das velas. Desde que possam segurar as velas
com segurança, as crianças têm o mérito de participar, acendendo-as
após ter sido acesa a primeira vela da noite.

As mulheres têm a mesma obrigação; portanto, em um lugar onde só haja
mulheres ou se o marido estiver viajando ou chegar tarde demais, cabe
a elas acender as velas e pronunciar as bênçãos.

Nossos sábios enfatizavam a importância da participação feminina na
cerimônia, pois grande parte da milagrosa vitória militar dos judeus
sobre seus inimigos se deve a Yehudit. Rabi Yehoshua Ben-Levi diz: "As
mulheres são obrigadas a cumprir a mitzvá de Chanucá, pois elas também
são parte do milagre". Quando o povo de Israel não vivia disperso, as
luzes eram acesas na parte externa das casas, à esquerda de quem entra,
ou seja, em frente à mezuzá.

Atualmente, há vários costumes sobre onde colocar a chanuquiá. Alguns
a colocam sobre uma mesa, na janela que dá para a via pública, ou no
lado esquerdo da porta de entrada, em frente à mezuzá. Outros a colocam
em lugar especial, na sala. Deve ser colocada em uma altura entre três
e dez palmos do chão, porém não a mais de 9,6 metros, em lugar especial,
isolado e de destaque.

Nas sinagogas, onde também se acendem as velas para disseminar as lições
do milagre, a chanuquiá deve estar na mesma posição do candelabro do
Templo de Jerusalém. Mas o acender das velas na Casa de Orações não
nos exime da obrigação de acendê-las em casa.

Todas as noites, acende-se primeiro o shamash, depois pronunciam-se
as seguintes bênçãos: 

Baruch Atá A-do-nai, E-lo-hê-nu Mêlech
haolam, asher kideshánu bemitsvotav, vetsivánu lehadlic
ner Chanucá.




Bendito sejas Tu, A-do-nai, nosso D"us, Rei do Universo,
que nos santificaste com Teus mandamentos, e nos ordenaste
acender a vela de Chanucá.


Baruch Atá A-do-nai, E-lo-hê-nu Mêlech
haolam, sheassá nissim laavotênu, bayamim hahêm,
bazeman hazê.




Bendito sejas Tu, A-do-nai, nosso D"us, Rei do Universo,
que fizeste milagres para nossos antepassados, naqueles dias,
nesta época.


Na primeira noite, depois de recitar as duas bençãos
recita-se o shehecheyánu:


Baruch Atá A-do-nai, E-lo-hê-nu Mêlech
haolam, shehecheyánu vekiyemánu vehiguiyánu
lazeman hazê.




Bendito sejas Tu, A-do-nai, nosso D"us, Rei do Universo,
que nos deste vida, nos mantiveste e nos fizeste chegar até
a presente época.


Na segunda noite e em todas as outras subseqüentes
recita-se:


Baruch Atá A-do-nai, E-lo-hê-nu Mêlech
haolam, asher kideshánu bemitsvotav, vetsivánu
lehadlic ner Chanucá.




Bendito sejas Tu, A-do-nai, nosso D"us, Rei do Universo,
que nos santificaste com Teus mandamentos, e nos ordenaste
acender a vela de Chanucá.


Baruch Atá A-do-nai, E-lo-hê-nu Mêlech
haolam, sheassá nissim laavotênu, bayamim hahêm,
bazeman hazê.




Bendito sejas Tu, A-do-nai, nosso D"us, Rei do Universo,
que fizeste milagres para nossos antepassados, naqueles dias,
nesta época.


Em seguida, acendem-se as velas da chanuquiá
com o shamash.



Após acender as velas, coloca-se o shamash à
esquerda da chanuquiá, de modo que fique mais alto
do que as chamas da chanuquiá, e recita-se:


Hanerot halálu ánu madlikim al hanissim
veal hapurkan veal haguevurot veal hateshuot, veal haniflaot,
sheassíta laavotênu, bayamim hahêm, baeman
hazê, al yedê cohanêcha hakedoshim. Vechol
shemonat yemê Chanucá, hanerot halálu
côdesh hem, veen lánu reshut lehishtamesh bahen
êla lir otan bilvad, kedê lehodot lishmecha,
al nissêcha, veal nifleotêcha, veal yeshuotêcha.




Acendemos estas luzes em virtude das redenções,
milagres e feitos maravilhosos que realizaste para nossos
antepassados, naqueles dias, nesta época, por intermédio
de Teus sagrados sacerdotes. Durante todos os oito dias de
Chanucá, estas luzes são sagradas, não
nos sendo permitido fazer qualquer uso delas, apenas mirá-las,
a fim de que possamos agradecer e louvar Teu grande nome,
por Teus milagres, Teus feitos maravilhosos e Tuas salvações.


Perguntas e respostas sobre : As Luzes de Chanucá





A que horas devemos acender as velas de Chanucá?


As luzes devem ser acesas após anoitecer. Algumas autoridades
aconselham acendê-las logo do pôr do sol. Outras, de
13 a 40 minutos mais tarde. Entretanto, se alguém não
tem a possibilidade de acendê-las depois do anoitecer, pode
fazê-lo antes, com a condição de que as velas
fiquem acesas durante pelo menos meia hora depois da saída
das estrelas.


Onde devemos colocar a chanuquiá?

O Talmud ensina que a chanuquiá deve ser colocada ao lado
da porta de entrada, de tal forma que fique do lado esquerdo da
pessoa que estiver entrando na casa. A mezuzá fica do lado
direito.


Atualmente, costuma-se colocar a chanuquiá dentro de casa,
sobre uma mesa, em lugar especial. Em certas comunidades a mesa,
é colocada perto de uma janela, de frente para a rua, para
cumprir com o mandamento de propagar o milagre . Em
outras, no lado esquerdo da porta de entrada, frente à mezuzá.
Ou, ainda, há quem coloque a chanuquiá em uma mesa
baixa para que as crianças alcancem as velas.


Há alguma lei que determine que a mulher ou o homem
deva acender a luz de Chanucá?


Todas as pessoas devem cumprir o preceito de acender as velas, portanto
mulheres e homens são igualmente obrigados a acender as luzes
de Chanucá.


Podemos ler aproveitando a luz da chanuquiá?

Não. As velas da chanuquiá não podem ser usadas
para nenhum outro propósito, senão o de propagar o
milagre de Chanucá. Assim, não podemos, por exemplo,
jantar aproveitando a luz da chanuquiá.


É verdade que não se pode trabalhar enquanto
as luzes estiverem ardendo?


Nossa atenção deve estar centrada na luz durante a
meia hora em que ardem as velas. Por isso, as mulheres costumam
não fazer tarefas domésticas durante o tempo obrigatório
do acendimento das velas.


Podemos acender as demais luzes com uma das luzes da chanuquiá?

É proibido usar uma luz que representa uma noite de Chanucá
para acender as demais ou para qualquer outro propósito.
Para isto, utiliza-se o shamash.


O que fazer se uma das luzes da chanuquiá se apagar
?


Depende do local onde a chanuquiá estiver e se é shabat.
Se o lugar onde colocamos a chanuquiá é o adequado,
já que a mitzvá é o ato de acender as velas,
e uma delas se apagar depois da bênção, não
há necessidade de reacendê-la. Mas se o lugar onde
foi colocada a chanuquiá não é um local adequado,
somos obrigados a reacendê-la. No shabat não podemos
reacendê-la.


O que fazer se a luz do shamash se apagar?

Se não for shabat, poderá ser reacesa usando fósforos
ou outra vela, mas nunca uma das luzes da chanuquiá.


Podemos apagar as luzes da chanuquiá?

Sim, após estas ficarem acesas o tempo mínimo,ou seja,
meia hora após a saída das estrelas. Só no
shabat é proibido apagá-las.


Na sexta-feira, quando temos que acender as velas?

Na sexta-feira à tarde, logo antes de acender as velas de
shabat. Como precisamos acendê-las 18 minutos antes do início
do shabat, é melhor usar naquele dia velas maiores para a
chanuquiá, para que durem pelo menos meia hora após
a saída das estrelas.


E no sábado? Acende-se antes ou depois da Havdalá?


A maioria das autoridades rabínicas recomenda acender a chanuquiá
após a Havdalá, já que esta é o término
do Shabat. Em cada lar, deve-se acender a chanuquiá depois
da Havdalá. Somente na sinagoga a chanuquiá pode ser
acesa antes da Havdalá.



http://www.morasha.com.br/Edição
66 – dezembro de 2009

TRADIÇÕES MÁGICAS DOS JUDEUS OTOMANOS

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Coroa de noiva com pedras azuis e vermelhas

O artigo mostra alguns hábitos e superstições dos judeus otomanos. Estas crenças fazem parte de uma “tradição mágica” comum às comunidades judaicas do Império Otomano. Este estudo não reflete todos os aspectos destas crenças e muitas estão fadadas ao desaparecimento.

Para evitar o mau-olhado

Pendurar na entrada da casa ou de uma loja uma ferradura na qual se amarra um dente de alho e pedras de cor azul.
Amarrar uma corda azul para balançar o berço de um bebê.
Colocar em evidência pedras de cor azul ou vermelha no chapéu ou vestido de uma pessoa.
Dizer “alho para teus olhos” porque se acredita que o alho tem um poder mágico.
Dizer mashalá, expressão turca que significa “que D’us guarde”.
Cuspir ou simular que se está cuspindo.
Colocar um prego no bolso.

O casamento

Durante a cerimônia de casamento o noivo coloca seu pé sobre o da noiva para expressar a submissão da mulher. Se, por sua vez, a noiva se apressar e colocar seu pé sobre o de seu marido, caberá a ela o controle do lar.
Quando uma moça sem recursos se casava, emprestavam-lhe jóias antes dela ir para a mikvé. A noiva, então, usava estas jóias durante oito dias depois do casamento.
Na visita que se costumava fazer no primeiro Shabat, presenteava-se os recém-casados com pequenos objetos de prata. O recém-casado colocava as peças em um prato e passeava com este ao redor da sala. Isto significa que se for escrito que um dia o recém-casado vai precisar pedir tsedaká, seu destino mudará já que ele cumpriu este ato.
Era costume os noivos não saírem de casa por uma semana após o casamento. Durante o dia rece-biam visitas, conforme a crença de que se os recém-casados ficassem sempre sozinhos poderiam ser atingidos por forças negativas.
No oitavo dia, o recém-casado saía de casa pela primeira vez e comprava peixes vivos que eram colocados numa panela grande cheia de água no meio do quarto. Nesta ocasião, trazia um presente para a noiva. Esta, por sua vez, vestia um de seus melhores vestidos e pulava três vezes sobre a panela. A cada vez que pulava pronunciava as seguintes bênçãos: “Que sejas abençoada com muitos filhos, assim como os peixes do mar, e que vivas muitos anos com teu marido e filhos até a velhice e o fim da vida (shivá)”. Este dia era chamado de “Dia dos Peixes”.

Para ajudar o amor matrimonial

Se um marido se desinteressava da esposa, ela pegava a camisa dele, molhava nas ondas do mar e a preparava para que ele a vestisse.
A esposa escrevia o nome do marido sobre três folhas de mirta, misturando-as, em seguida, ao vinho de Shabat e lhe dava para beber. (Este procedimento era usado também quando a esposa não amava seu marido).
A mulher pegava o leite de uma mulher que estava amamentando uma menina e misturava com o leite que seu marido iria beber.
Se o marido não gostava de ficar em casa, a esposa colocava pregos ao lado de sua cama.
Se a mulher não queria que o marido desconfiasse dela, colocava sua camisa sobre um burro e depois a dava para que ele a vestisse.

Para ajudar a engravidar

A mulher pegava um ovo de uma galinha, cozinhava-o em uma panela nova, cortava-o em dois com um fio de cabelo, comia a metade e jogava fora a outra.
Uma mulher que não conseguia engravidar encostava sua barriga na barriga de uma mulher grávida.
Dizia-se que ajudava engravidar se a mulher comesse um etrog, mais especificamente engolir a parte saliente do etrog.
A esposa deveria dar a seu marido três ovos ralados para comer.

Segundo uma crença popular, acreditava-se que as árvores se abraçavam e se uniam em Tu Bishvat. Assim, nesta ocasião, pendurava-se uma roupa, molhada em água do poço com açúcar e água de rosas, entre as árvores. De manhã dava-se essa água para a mulher beber. O casal deveria ir em seguida às ruínas das muralhas antigas da cidade. O marido passava seu braço direito sobre o braço esquerdo da esposa e juntos passavam por sete portas dessas ruínas. Uma senhora idosa os acompanhava, cantando bênçãos a cada vez que passavam por uma porta. Depois deveriam ir à fonte pública beber água, porque era considerada benéfica para quem queria engravidar. Este hábito, que se repetia duas vezes, era considerado como um passeio do qual participavam membros da família, levando inclusive alimentos para a ocasião.

Sobre o sexo de um futuro bebê

O marido colocava um pouco de sal na cabeça da mulher durante o rela-cionamento sexual sem que ela percebesse. O gênero (feminino ou masculino) da primeira palavra que a mulher diria, prenunciaria o sexo do bebê.
Para ter um menino, a mulher grávida deveria repetir todas as sextas-feiras, durante nove meses, o nome que daria se tivesse um filho homem.

Sobre uma mulher grávida

Se uma mulher grávida não conseguisse fazer uma visita a uma amiga que acabara de ter um bebê, deviam mandar-lhe todos os quitutes que haviam oferecido aos que haviam visitado a partu-riente.
Quando a mulher engravidava, costumava-se abrir portas, armários e caixas de sua casa.
Para saber se já estava na hora do parto, colocava-se uma rosa molhada no umbigo da grávida; se a rosa se abrisse, era sinal que a hora do parto tinha chegado.

Para facilitar o parto

Se após completar os nove meses uma mulher não conseguia dar à luz, na sexta-feira se abriam três torneiras, uma após a outra, deixando-as abertas; outra pessoa devia fechá-las.
Levava-se azeite de oliva para a sinagoga, o qual era chamado de “azeite para Eliahu Hanavi”.
Colocava-se um anel de diamante sobre o ventre de mulher e se dizia: “Assim como este anel brilha, que o parto brilhe também”.

Para ajudar a nova mãe a ter leite

Alguém pergunta à parturiente: “O que estás comendo?” e ela responde, “leite e mel”. A pessoa diz “leite para o bebê, que o faça crescer com abundância”. Depois disto, abrem-se as torneiras e deixa-se o local.
Amarram-se as espinhas de um peixe com um fio, jogando-as ao mar e dizendo: “leite, leite”.
Dá-se à nova mãe uma bebida preparada com amêndoas e açúcar.

Para trazer fartura

Se você pegasse um ovo cru emprestado, devia devolvê-lo, porque o ovo era considerado como um objeto vivo e representava barake (abundância).
Nas semanas que antecediam Rosh Hashaná, não se podia dar a ninguém farinha ou ovos pela mesma razão.

Sobre as crianças

Se alguém passasse sobre uma criança, acreditava-se que esta criança não cresceria mais. Assim, se deveria passar de volta para que isto não ocorresse.
Se uma criança demorasse para andar, amarravam-se os seus pés e a levavam para a sinagoga, onde diziam: “Dá-lhe pés para que possa caminhar” ou “Como eu caminhei, você caminhará”. Se ainda assim a criança não caminhasse, levavam-na ao lugar no qual nasceu e jogavam sobre ela um cântaro de água, dizendo: “Aqui estou cortando teu espanto”.
Se uma criança era gulosa, colocavam-na perto do forno e se dizia: “Da mesma forma que este forno é farto, que o seja também teu estômago”.
Acreditava-se que os dentes de uma criança não cresceriam se ela se olhava num espelho.
Se uma criança estava demorando a ter dentes, levavam-na para a rua à noite, com um pedaço de pão escondido em sua roupa.
Quando o primeiro dente de uma criança começava a aparecer, sua mãe ou um parente colocava um grão de trigo em sua mão, dizendo: “Como este trigo se abre, que teus dentes saiam”.
Quando nascia o primeiro dente festejava-se comendo aveia, pois a aveia se abre quando é cozida.
A pessoa que notava pela primeira vez o dente, deveria dar um presente à criança.

Para reforçar a amizade e evitar brigas

Não se deve sentar no lugar do qual alguém se levantou, até que o lugar esfrie.
Não se passa um sabão diretamente de mão em mão; deve-se primeiro colocar o sabão na palma da mão ou apoiá-lo em algum lugar.
Não se deixa uma tesoura aberta.
Não se deve brincar com chaves.
Não se deve passar de mão em mão sabão, tesoura e colher. Primeiro se deve colocar em outro lugar, mas se isso acontecer deve-se dizer “pu, pu”, como se estivesse cuspindo.
Não se deve deixar sapatos virados para baixo.
Deve-se colocar os chinelos lado a lado, de maneira correta, senão sai briga.

Dinheiro

Se a mão direita estiver coçando, vai-se fazer um pagamento.
Se a mão esquerda estiver coçando, vai-se receber dinheiro.
Se aparecer um círculo desenhado no fundo de uma xícara de café turco que se acabou de tomar, vai-se receber dinheiro.

Avisos de boas novas

Uma borboleta voando à noite, ao redor de uma lâmpada.
Se se espirra três vezes no dia de Shabat, à tarde.

Prenúncio de visita

Quando se amassa a farinha, se um gomo empedra significa que esse pão será comido por uma visita.
Se estiver coçando a sobrancelha, significa que se vai conhecer alguém.

Para que se retorne para casa

Se deseja-se que um membro da família que vive fora retorne para casa, enviam-se flores de sua horta ou jardim para que ele as sinta.

Rosh Hashaná

Costuma-se usar algo novo em Rosh Hashaná, mas não devem ser sapatos ou chinelos, porque deve-se começar usando algo novo pela cabeça e não pelos pés.

Kipur

Na noite de Yom Kipur se coloca azeite em uma vasilha ao lado de uma luz, antes de ir à sinagoga. Se a pessoa se enxerga em um espelho, isto é um sinal bom, de que tudo será leve e claro durante o ano.

Pessach

No oitavo dia de Pessach, jogam-se ervas verdes pela casa e se diz: “Ano verde, que não seque”.

Bibliografia
Los Muestros 45, 46

Fonte: Revista Morashá – Edição 37 – Junho de 2002- http://www.morasha.com.br/

Cashrut – Parte 2

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Massas
Ao assar pão, deve ser cumprida a Mitsvá de Hafrashat Chalá (a separação de parte da massa). Hafrashat Chalá evoca a época em que parte da massa era dada aos Cohanim, descendentes de Aharon, responsáveis pelos serviços realizados no Bet Hamicdash.

Antes de assar massa de pão, bolo, biscoitos, etc., (feita com farinha de trigo, cevada, centeio, aveia e espelta ou a mistura de qualquer um desses), separa-se dela um kezáyit (28,8 g), queimando-o num recipiente separado daquele utilizado normalmente para os alimentos.

A bênção só deve ser recitada (no ato de separar o pedaço da massa) se a massa total tiver mais de 1,666 kg de farinha. Entre 1,200 e 1,666 kg, separa-se e queima-se o pedaço da massa sem recitar a bênção; com menos de 1,200 kg não é necessário separar parte da massa; porém há quem costume recitar a bênção já a partir de 1,250 kg.

Pode-se juntar vários tipos de massas para fazer a separação da chalá. Em massa líquida, o pedaço é separado após assá-la. O mesmo se aplica quando se esquece de separar a massa antes de assá-la.

Antes de comer o pão é necessário lavar as mãos ritualmente, recitando a bênção de AI Netilat Yadáyim e, em seguida, de Hamotsi. Depois de comer pão, ou uma refeição que inclua pão, concluímos com o Bírcat Hamazon (a Bênção de Graças).

Macarrão
Deve ser liberado para consumo sem selo ou com sistema de lote (com selo) por um rabino ortodoxo. Ao ficar guardado deve ser verificado antes do cozimento em busca de pontos pretos. É aconselhável guardá-lo na geladeira mesmo cru.
Mesmo que bem examinado, se for constatado após cozido que o alimento contém pelo menos três vermes, todo ele deve ser jogado fora. A panela, no entanto, continua casher.

Vinho
O vinho e o suco de uva, mais do que qualquer outra bebida, representam a santidade do povo judeu. São usados para a santificação do Shabat e Festas Judaicas.

No Templo Sagrado o vinho era derramado sobre o Altar, juntamente com o sacrifício. Entretanto, uma vez que o vinho era e ainda é usado em muitas formas de culto idólatra, ele ocupa uma posição única na Lei Judaica, que impõe restrições especiais a sua produção e manipulação.

Qualquer subproduto que contenha vinho ou suco de uva, como vinagre de vinho, bala, geléia ou refrigerante de uva, conhaque e outras bebidas que possam ser destiladas ou misturadas com vinho, só poderão ser ingeridos quando possuírem supervisão rabínica confiável.

Vinho feito por um judeu, que após seu preparo tenha sido fervido, não apresenta mais problemas de cashrut. Um suco de uva ou vinho de passas cujas uvas ou passas foram cozidas antes de extrair o suco é considerado vinho cozido.
Atualmente, a maioria dos vinhos casher comercializados costuma vir fervida já da vinícola. Para se ter certeza, basta verificar a etiqueta ou o invólucro se consta a palavra mevushal (fervido). No entanto, muitos vinhos finos casher, principalmente os franceses, não vêm fervidos, o que presume que deve-se tomar redobrados e rigorosos cuidados em sua manipulação e na forma como deverá ser servido. Há leis muito específicas relativas ao vinho e um rabino ortodoxo deverá ser consultado.

Outras bebidas
A maioria das cervejas, vodkas e uísques puros não costumam apresentar problemas. É necessário consultar sempre um rabino ortodoxo ou verificar a existência de selo confiável de cashrut antes do consumo destes produtos. Atualmente, há problemas com as vodkas já que há mistura de sabores na fabricação de novas bebidas que misturam a vodka pura com corantes além de outros ingredientes não-casher.

Outras bebidas alcoólicas como licores de frutas e brandies podem conter ingredientes problemáticos como leite, aditivos à base de vinho, etc e devem ter supervisão rabínica, com ou sem selo.
Bebidas alcoólicas tais como o conhaque e outras aguardentes de frutas são feitas a base de vinho. Licores e "blended whiskys" são muitas vezes misturados com vinho. Todas essas bebidas requerem supervisão de Cashrut, assim como o arenque com molho de vinho.

Ingredientes de uvas em alimentos processados
Todos os líquidos produzidos a partir de uvas frescas ou secas, sejam alcoólicos ou não-alcoólicos, tais como suco de uva e vinagre de vinho, são considerados como vinho de acordo com a Lei judaica. Portanto, alimentos com aditivos ou aromatizantes de uva devem sempre ter um selo de cashrut confiável. Exemplos típicos são as geléias, refrigerantes, picolés, balas, sucos artificiais, ponches de trutas e limonadas.

Vinagre
Molhos e temperos que contenham vinagre devem possuir supervisão rabínica para constatar sua procedência casher. O mesmo diz respeito ao vinagre de álcool ou maçã que só podem ser adquiridos se supervisionados anteriormente por um rabino, pois podem conter uma proporção mínima de vinagre de vinho e outros ingredientes não casher.
Muitas conservas contém vinagre, mesmo mantidas em salmoura; se vendidas a granel, como por exemplo, azeitonas e alcaparras, podem conter vinho ou vinagre, necessitando de supervisão.
Vários produtos que contém tártaro ou ácido tartárico e o próprio creme tártaro que é feito com borra de vinho requerem supervisão rabínica rigorosa; de outra forma, não é Casher.

Adoçantes naturais
Todos os tipos de açúcar existentes no mercado (refinado, cristal, demerara, mascavo, confeiteiro, etc) são casher. Quanto a adoçantes artificiais requerem verificação confiável ou selo de cashrut

Produtos industrializados
Seguem a mesma regra básica: é imprescindível ter uma Supervisão Rabínica. Todos os alimentos processados requerem supervisão rabínica confiável que atestem que podem ser consumidos em acordo a lei judaica. Isto se aplica a todo produto que passa por processo de fabricação: legumes congelados, bebidas, balas, biscoitos, etc.

Há problemas de cashrut em muitos aromas e corantes que constam em código na embalagem. Às vezes, o produto não-casher está em quantidade mínima, não aparecendo nos ingredientes e, mesmo assim, transforma o produto em não-casher. Por isso, não basta apenas olhar os ingredientes de um produto, tornando-se imprescindível a supervisão rabínica competente.

Remédios e vitaminas
A Torá considera de vital importância cuidar da saúde, prevenir e curar doenças. Mas vitaminas e remédios devem ser questões relevantes, devendo ser casher ou ter seu uso autorizado por um rabino ortodoxo.
Muitas vitaminas em cápsulas são feitas de gelatina animal e muitos comprimidos são revestidos com ceras e resinas de origem também animal. Suplementos e remédios naturais e/ou vegetarianos podem incluir cápsulas de fígado não-casher, cálcio derivado de ostras, aromatizantes ou corantes de uva.
Muitos xaropes para a tosse são feitos com álcool e um produto químico, muitas vezes, derivado de fontes animais, a fenilalanina.

Bishul Acum
Todo alimento deve ser preparado através de uma chama cujo fogo foi acesso por um judeu observante do Shabat, o que significa que ele é temente a D-us, segue os preceitos da Torá e procurará cumprir as leis de cashrut em todos os seus detalhes e com o máximo rigor.
Para um alimento ser casher é necessário que todo o processo, desde o início até estar apto ao consumo final, seja acompanhado por um judeu observante destas leis.

Restaurantes, hotéis e afins
Todo restaurante, hotel, etc, para ser casher necessita de supervisão rabínica em sua cozinha, o que inclui a presença de pessoas, shomer Shabat, observantes do Shabat, que irão acender o fogo, orientar e fiscalizar a confecção de todos os ingredientes e sua preparação, até o consumo final.

Jamais hesite: consulte sempre um rabino.

Como dar início a uma casa casher
Se você está entrando num novo lar e deseja fazê-lo desde o início casher, ensinamos aqui como proceder. Um dos preceitos da cozinha casher é não misturar carne com leite. Deve haver utensílios separados para carne e leite.
Armários: Os utensílios de carne e leite devem ser guardados em armários ou compartimentos separados para não haver confusão.
Pratos e talheres: Deve-se ter pratos, talheres, etc., com cores ou formas diferentes para leite e carne.
Panelas: Panelas e outros utensílios de cozinha devem ser separados para leite e carne. Caso tenha cozido no utensílio errado, além do alimento não poder ser ingerido, as panelas também ficam impróprias para uso, devendo ser casherizadas. Um rabino competente deve ser consultado.
Pia: Deve-se ter pia com duas cubas separadas, uma para leite e outra para carne. O balcão da pia deve ser dividido entre leite e carne, com um anteparo um pouco alto. Se não for possível ter duas cubas, deve-se evitar colocar utensílios de leite e carne diretamente dentro da cuba. Deve-se ter uma bacia de leite e outra de carne para lavar estes utensílios dentro da pia. Não se pode jogar alimento quente, nem de leite nem de carne, dentro desta pia, bem como não se deve lavar a louça com água quente, pois esta cuba não é considerada casher.
Fogão: Se possível deve-se ter dois fogões, um para leite e outro para carne. Se não for possível, pode-se usar o mesmo fogão, contanto que tenha boca e grelha separadas. Mesmo assim, não se deve cozinhar ao mesmo tempo leite e carne, pois pode espirrar de uma panela para outra, causando problema ao alimento e ao utensílio. É aconselhável colocar um anteparo entre as panelas de leite e carne. Deve-se tomar cuidado maior ao fritar alimentos, pois a fritura espalha gordura muito mais alto e longe.
Forno: Deve-se ter dois fornos, sendo proibido assar carne num forno onde já foram assados alimentos de leite e vice-versa. Se não for possível, deve-se usar o forno apenas para um destes dois tipos de alimentos. Isto vale para qualquer forno, inclusive de microondas.
Geladeira: Pode-se colocar na mesma geladeira alimentos de leite e carne, em recipientes fechados para não esparramarem ou pingarem. Se possível, deve-se colocar os alimentos de leite um pouco afastados dos de carne. O mesmo se aplica ao freezer.
Máquina de lavar pratos: Deve-se ter uma para leite e outra para carne. É proibido lavar louça de carne em máquina de leite e vice-versa. Se só tiver uma em casa, deve fixar seu uso exclusivo para leite ou carne, devendo o outro tipo ser lavado à mão.
Eletrodomésticos: Deve-se ter liqüidificadores, batedeiras, processadores separados para leite e carne. O motor pode ser o mesmo, bastando comprar o copo e as pás separadas. Neste caso, deve-se limpar bem o motor após o uso, para não respingar de um tipo de alimento para o outro.
Toalhas: Deve-se ter toalhas de mesa separadas para leite e carne. O mesmo é válido para panos de prato, bucha, sabão em pedra (com supervisão casher), palha de aço, secadores de pratos, etc.
Leis de libun ("incandescência") e hag’alá ("esterilização")

Todo e qualquer utensílio, previamente usado com alimento não-casher, necessita de casherização. Essa lei se aplica tanto ao utensílio empregado de forma contínua (se as leis de cashrut não eram mantidas anteriormente) ou se os utensílios usados foram comprados ou alugados de um não-judeu; também se o utensílio era casher e foi utilizado uma vez com alimento não-casher, ou se era para leite e foi usado com carne (ou vice-versa), e ainda se nele foi cozido alimento por um não-judeu, denominado bishul acum.

Também é necessário casherização dos utensílios usados durante o ano, para Pêssach.

Todo e qualquer utensílio que precise ser casherizado não deve ser usado antes da casherização, nem mesmo para alimentos frios. Nunca se deve deixá-lo junto a algum utensílio casher, para evitar confusão. É necessário casherizá-lo de imediato ou separá-lo. O mesmo deve ser feito com utensílios de funcionários não-judeus que, por ventura, possuam em casa.

Há algumas diferenças entre a casherização de utensílios que se tornaram impróprios por mistura de carne e leite e os que se tornaram não-casher devido a outros tipos de alimentos (como carne ou vinho não-casher). Por ser muito detalhada, a casherização deve ser realizada na presença de quem conheça as leis a fundo.

A seguir, algumas leis de casherização de utensílios (previamente usados com alimento não-casher) para serem usados durante o ano todo (para Pêssach rigores maiores são exigidos):
Utensílio de porcelana, cerâmica ou esmaltado não pode ser casherizado. Caso acarrete grande perda, um rabino competente deve ser consultado. Utensílio delicado que se estraga em contato com água quente não deve ser casherizado.

Utensílio de metal usado diretamente no fogo (espeto, fôrma de bolo, etc.) deve ser casherizado diretamente no fogo até ficar vermelho (libun ou "incandescência"). Outros utensílios, usados diretamente no fogo, como assadeiras refratárias ou de plástico (este último para uso de microondas) não podem ser casherizados.
Utensílio lavado com água quente ou usado para cozer alimento com líquido ou molho deve ser casherizado imergido em água em ebulição (hag’alá ou "esterilização").

Utensílio de vidro (com exceção do refratário) pode ser casherizado, por meio de hag’alá, para uso durante o ano todo (menos em Pêssach).

A casherização de uma sopeira ou travessa grande (não usada diretamente sobre o fogo), utilizada com alimento quente, se dá com irui, i.e., vertendo-se água fervente e passando em seguida um ferro ou pedra incandescente para a água borbulhar sobre o utensílio.

Antes da hag’alá, o utensílio deve estar completamente limpo, isento de qualquer ferrugem ou sujeira e não usado durante 24 horas. Antes do libun esta restrição não se aplica.

Utensílio de metal que pode ser casherizado por hag’alá (ou irui), certamente pode ser casherizado com libun cal, i.e., aquecido até o ponto de um fio de tecido ou pedaço de papel que o tocar ficar chamuscado.

Utensílio com frestas ou orifícios, de limpeza impossível, deve-se fazer libun cal no local da sujeira e, em seguida, hag’alá.
Durante todo o processo da hag’alá, a água deve permanecer borbulhando. Por isso, depois de imergir o utensílio, o que pára momentaneamente a fervura, deve-se esperar até que grandes bolhas aflorem.

Durante a hag’alá, o utensílio deve estar completamente imerso em água fervente. Caso não caiba na panela de casherização de uma só vez, mergulha-se por partes.

Para casherizar vários utensílios juntos, a panela deve ser chacoalhada algumas vezes para que todos sejam envolvidos pela água e ainda reste espaço entre eles.

O utensílio que está sendo casherizado deve ser imerso na água fervente por alguns segundos para expelir as impurezas, e retirado enquanto a água ainda ferve. Em seguida deve ser enxaguado com água fria.
Para a hag’alá feita durante o ano (não a de Pêssach) pode-se usar uma panela casher, não necessitando de casherização posterior.

Forno e microondas – É permitido usar o mesmo forno ou microondas para carne e leite?
Devemos ter em casa utensílios separados para leite e carne, inclusive forno. Se não for possível ter dois fornos, deve-se usar o único apenas para carne ou para leite. Num forno de carne, não pode ser assado nenhum alimento que contenha leite e vice-versa. Se isto ocorrer (se algo de leite foi assado dentro das 24 horas seguintes em que se assou carne), o alimento não mais está casher e o forno deverá ser casherizado. Se já se passaram 24 horas do uso da carne antes do leite e o forno está limpo, isento de sujeira ou gordura de carne, o alimento está casher, mas o forno deve ser casherizado antes de usado da próxima vez.

Um alimento neutro, como pão ou bolo, assado em forno usado para carne nas últimas 24 horas não pode ser ingerido com leite (porém, não há necessidade de se esperar seis horas antes de beber leite, podendo fazê-lo logo em seguida; entretanto, é proibido ingeri-los juntos); e vice-versa, se foi assado em forno de leite dentro das 24 horas do uso do leite, não pode ser ingerido com carne.

Se já se passaram as 24 horas, o alimento neutro nele assado pode ser ingerido posteriormente junto com leite, porém a pessoa não deve assá-lo com esta intenção. Se deseja ingeri-lo com leite, deve antes deixar o forno esquentar no máximo após 24 horas sem uso, por aproximadamente uma hora para depois usá-lo com o alimento neutro.

O uso do forno de microondas segue as leis do forno normal. Quando uma carne é assada ou aquecida, seu gosto impregna as paredes do micro através do vapor. Se dentro de 24 horas após ter sido usado com carne for usado para leite, o alimento nele preparado deixa de ser casher por ter absorvido o gosto da carne que estava impregnado no forno e o microondas deixa de ser casher. Mesmo após 24 horas sem uso, é proibido usar leite porque este vai impregnar as paredes.

Caso alguém esqueceu e usou, depois de 24 horas, leite num forno de carne completamente isento de gordura ou sujeira (detalhe muito importante), o alimento continua casher, mas o forno não o é, e precisa ser casherizado, pois suas paredes têm carne e leite imbuídos. Assim, não se pode usar forno de microondas de leite para carne e vice-versa.
Se alguém tem um só microondas e quer usá-lo para leite e para carne, qual a solução? Tem de cuidar para que o vapor não saia da carne e não saia do leite. Como? Envolvendo os alimentos. Se a pessoa assa uma carne totalmente envolvida no forno fechado e o microondas está completamente limpo, sem sujeira anterior de leite, o microondas não ficou de carne; no dia seguinte pode ser usado para leite, desde que o alimento esteja completamente coberto, em recipiente fechado ou envolto em filme plástico próprio para este forno.

Neste caso também é aconselhável colocar sob a carne ou o leite embrulhado um pirex de carne para carne, de leite para leite, para se, no caso de transbordar, não chegue a passar o gosto para o forno. Isto tudo vale quando estiver completamente tampado. É fundamental o fechamento completo dos alimentos ao serem assados.

Descongelamento
Não se deve nem mesmo descongelar carne num microondas de leite e vice-versa com o recipiente aberto, pois se o descongelamento esquentar a carne ou o leite superficialmente a 45º C, mesmo se dentro continua congelado, pode tornar o alimento e o forno não-casher.

De carne para leite:
Entre os ashkenazitas há um decreto que não se casheriza nenhum utensílio de carne para leite ou vice-versa. Esta proibição foi instituída para que a pessoa não se atrapalhe com a alternância. Assim, um forno já usado para carne não pode ser casherizado para ser usado para leite. O mesmo se aplica ao microondas.

Se a pessoa tem um microondas de carne onde, sem querer, foi colocado leite ou se o microondas era neutro e, de repente, ficou de leite ou de carne e quer transformá-lo de novo em neutro, o que deve fazer?
Deve deixar o forno completamente limpo, isento de gorduras, sem usar por 24 horas. Jogar água fervendo sobre o prato giratório ou fixo do microondas. Colocar no micro um copo cheio d’água deixando ferver; assim o vapor é espalhado por todo o forno, casherizando-o.

Casherização sobre utensílios
Detalhes da casherização na cozinha e na sala de jantar.
É possível casherizar utensílios usados para que se tornem casher, sem a necessidade de adquirir outros novos. Seguem os procedimentos necessários:
Fôrmas para bolo e assadeiras: devem ser casherizadas pelo processo de libun, ou seja, queimadas no fogo até a incandescência. Normalmente, estes utensílios não suportam o libun, portanto, não devem ser casherizados.
Fogão: se possível, as grelhas devem ser trocadas. Caso contrário devem ser aquecidas até a incandescência (libun). A mesa do fogão deve ser bem limpa e casherizada posteriormente com irui, i.e., derramando água fervente e passando uma pedra ou ferro em brasa para que a água continue a ferver. As bocas devem ser bem limpas e o fogo aceso no máximo, para eliminar resíduos de alimentos. Os botões de gás devem ser retirados e limpos.
Fogão elétrico: deve ser aceso na temperatura máxima até a chapa se avermelhar. Sobre a mesa restante é feito o irui, jogando água fervente e passando sobre a água, pedra ou ferro incandescente.

Forno: as grades devem ser aquecidas até a incandescência. O forno deve ser bem limpo utilizando-se produto removedor de gordura. Em seguida deve permAnecer aceso à temperatura máxima, por duas horas. Se possível, deve-se colocar carvão para ser aquecido, até virar brasa.

Há dois tipos de fornos auto-limpantes: o que alcança 500ºC, se autocasheriza ao ser limpo na temperatura máxima, por um ciclo completo. O que não atinge esta temperatura, deve seguir a limpeza do forno convencional.
Forno de microondas: deve ser limpo internamente com produto de limpeza e permanecer 24 horas sem uso. Em seguida, coloca-se um recipiente com água filtrada, ligando o forno até que bastante água evapore.

Pias: cubas de porcelana, cerâmica ou esmaltadas não podem ser casherizadas. Pergunte ao rabino como proceder. Cubas de metal, mármore ou granito podem ser casherizadas com irui. Para tanto, a pia não deve ser usada com alimentos quentes por 24 horas antes da casherização e deve ser meticulosamente limpa. Joga-se no ralo, produto desentupidor para destruir qualquer vestígio de alimento. Em seguida, seca-se a pia. Posteriormente é despejada água fervente, ainda borbulhante, atingindo todos os cantos da cuba, balcão, torneiras, ralos, etc. Enquanto despeja-se a água, deve-se passar sobre a pia, pedra ou ferro incandescente para fazer a água borbulhar.
Liquidificador, batedeira, multiprocessador: o motor deve ser bem limpo. Um novo copo, novas faquinhas para o multiprocessador e liquidificador e novas pás e tigelas para batedeira devem ser adquiridas ou pode-se casherizar os antigos com hag’alá.
Geladeira e freezer: devem ser descongelados e as paredes internas, prateleiras e gavetas limpas com pano úmido e produto de limpeza.
Armários: devem ser bem limpos interna e externamente.
Mesas e bancadas: se possível, deve-se jogar água fervente como na pia. A mesa de jantar, sobre a qual não se coloca nada quente diretamente devido ao perigo de ser danificada, basta limpar bem. A mesa do cadeirão de crianças também deve ser casherizada.
Toalhas de mesa e guardanapos: devem ser bem lavados e as bordas escovadas para retirar possíveis resíduos.
Todo o processo deve ser feito sob supervisão de um rabino competente, conhecedor das leis a fundo.

Uma dimensão espiritual
Nossos sábios comentaram sobre a relação entre o tipo de alimento que comemos e o estado de nosso refinamento espiritual. Isto é particularmente verdadeiro a respeito da carne; o cuidado com que devemos encarar o consumo de substâncias de origem animal se reflete nas diversas leis que se relacionam com a carne, mesmo de animais Casher.

A carne não é proibida; seu consumo é permitido desde os dias de Noach (após o Dilúvio), mas com certas limitações. As leis dietéticas e a proibição da crueldade contra os animais nos impedem de comê-la sem uma reflexão prévia e uma preparação adequada. Uma das Sete Leis de Noach, que a Torá determina para toda a humanidade, é a proibição de comer a carne de um animal vivo. De acordo com a missão judaica de ser "uma nação de sacerdotes e um povo sagrado," a Torá confia a nós um conjunto de leis ainda mais rigorosas com relação a comer carne.

Nossa adesão às leis da Cashrut não depende de nosso entendimento intelectual, mas de nosso desejo de cumprir os mandamentos de D-us. Não obstante, de acordo com o Rambam (Maimônides). "…Cabe aos homens meditarem sobre as leis de nossa sagrada Torá e conhecerem seu significado mais profundo tanto quanto lhes for possível".

De acordo com isto, nossos sábios extraíram conclusões sobre os tipos de animais que podemos comer, e aqueles que somos proibidos de comer. Os animais permitidos são, em princípio domesticados e herbívoros, enquanto somos proibidos de comer animais selvagens e aves de rapina, para que não incorporemos sua natureza feroz e violenta a nós mesmos. A carne dos animais proibidos, de acordo com o misticismo judaico, "embota o coração" ou bloqueia sua sensibilidade aos assuntos espirituais.

No que concerne aos animais permitidos, temos mais uma restrição quanto a comer o sangue do animal.
"Não comereis sangue, seja de ave ou quadrúpede." (Vayicrá VII:26).

Nossa linguagem reflete a associação do sangue com as paixões e instintos animais, como nas expressões "de sangue quente" ou ‘fazer o sangue ferver’.

Nachmânides, no comentário da Torá, explica que o alimento ingerido afeta nossa alma e que, uma vez que a carne de um animal absorve suas características, devemos ter cuidado sobre qual tipo e que parte do animal iremos comer e fará parte de nós. Outra explicação é que, uma vez que o homem é a única criatura de D-us que reconheceu seu Criador, foi-lhe permitido comer a carne de outra criatura; mas é considerado bárbaro comer sangue, pois este equivale à própria vida da criatura, pois está ligado à sua alma.

As leis sobre carne e aves Casher
A categoria "carne" inclui a própria carne, as aves e os subprodutos, tais como ossos, sopas e molhos. Qualquer alimento feito de carne ou aves ou de produtos de carne e aves, é considerado como sendo de carne (fleishig ou Bessarí). Até mesmo uma pequena quantidade de carne em um alimento torna-o Bessarí. Todas as carnes, aves e componentes da carne em qualquer produto, inclusive itens tais como pílulas hepáticas, devem estar de acordo com os seguintes requisitos para serem considerados Casher:
A carne deve ser de um animal que rumina e possui cascos fendidos. Vacas, carneiros e cabras são Casher.

As aves Casher são identificadas por uma tradição transmitida de geração para geração e é universalmente aceita. A Torá especifica as aves que são proibidas, incluindo todas as aves de rapina ou que se alimentam de carniça. Entre as aves Casher estão incluídas as espécies domésticas de frangos, patos, gansos e perus.

O animal ou ave deve ser abatido e examinado de acordo com as normas alimentares da Torá por um Shochet, uma pessoa temente a D-us e perito altamente treinado no abate Casher.

As porções permissíveis do animal e da ave devem ser adequadamente preparadas antes do cozimento. Todos os utensílios devem ser Casher.

As leis da Cashrut não são apenas uma disciplina externa; elas visam refinar a personalidade e intensificar a receptividade espiritual. A Torá é baseada na conexão entre o corpo e o espírito. O corpo não deve ser desprezado ou menosprezado, mas deve ser usado como veículo a serviço de D-us. As leis físicas detalhadas acerca da carne Casher estão, assim, diretamente relacionadas aos mais elevados conceitos espirituais.

Leis do Abate
Os requisitos para a preparação da carne Casher
As leis de cashrut devem ser permanentemente estudadas e as seguintes condutas devem ser cuidadosamente observadas:
Shechitá – o abate ritual de um animal Casher; um processo regido a cada passo por uma série de leis complexas. E executada por um Shochet, um homem temente a D-us e observante da Torá, que possui um alto grau de destreza nas leis e práticas da Shechitá. Sua rapidez e precisão, juntamente com uma lâmina perfeitamente lisa – a qual é exigida pela Lei Judaica – preservam o animal, tanto quanto possível, da dor e do sofrimento.

Bedicá - é a inspeção dos órgãos internos, à procura de doenças ou ferimentos potencialmente fatais, que desqualificariam o animal. A maior parte das anomalias que torna um animal não-Casher não são aceitas como tal perante a lei norte-americana, e quando um inspetor do governo condena um órgão, é quase sempre apenas aquela parte. Entretanto, segundo a Lei Judaica, certas moléstias ou imperfeições em qualquer parte do corpo tornam o animal inteiro impróprio para o consumo.

Nicur - implica na remoção de certas veias e sebos proibidos da carne. São extremamente predominantes nas partes traseiras e, devido à complexidade envolvida em sua remoção, estas partes do animal não são, em geral, vendidas como Casher.

Meicha - também conhecida como "casherização’ é a imersão e o salgamento da carne depois que todas as veias e gorduras proibidas foram retiradas. o processo de casherização consiste dos seguintes passos: lavagem, imersão (trinta minutos na água), salgamento (uma hora no sal) e tripla lavagem. A carne é salgada dentro do período de 72 horas após o abate. o fígado não é casherizado da maneira habitual, porém grelhado separadamente em fogo exposto. Ambos os processos servem para remover os últimos traços de sangue da carne. Todo este processo normalmente já é feito pelos próprios açougues casher.

IMPORTANTE: Sobre qualquer dúvida, maiores detalhes e estudo de leis da cashrut que são muito mais abrangentes que este artigo, um rabino ortodoxo deve ser sempre consultado.

Isto também é válido no caso em que uma pessoa precise casherizar a carne, ou para aqueles que precisam seguir uma dieta isenta de sal sobre como proceder.

Cortes de carne mais comuns da parte permitida do animal Casher
Pescoço - é a continuação do peito. As fibras são bem irrigadas de gordura. Serve para pratos que exijam bons molhos e dá ótimos resultados em ensopados, cozidos, picadinhos e carne de panela.
Acem – é o maior pedaço do dianteiro. Quando tirado de um animal novo pode ser utilizado em bifes. A carne é macia, bem marmorizada, o que possibilita um cozimento longo sem ressecamento. é usado para ensopados, picadinhos, bife de panela e carnes de panela recheadas e com molho.
Peito - por sua espessura, largura e formato é a melhor peça do dianteiro para se preparar carne recheada enrolada. A gordura superficial evita seu ressecamento durante o cozimento, prestando bom a cozidos. Pode ser formado de músculos e fibras mais duras. Usa-se ainda para sopas.
Braço (Pa ou Paleta) - mais musculoso que o acém, tem gorduras e nervos suficientes para assegurar-lhes o sabor. Divide-se em 3 partes: miolo do braço, parte central e o peixinho. Sendo uma peça saborosa não muito macia, é apropriada para moer, ensopar e fazer molhos.
Capa de Filé - de textura desigual coberta por uma espessa camada de gordura e de carne. identificada por uma grossa cartilagem que divide a peça. Indicada para pratos com molhos de cozimento mais longos, para ensopados e picadinhos.
Músculos – peça saborosa e ideal para o preparo de molhos, ensopados, carnes do panela. sopas. o músculo com osso e tutano na parte interior chama-se ossobuco. As leis do abate do animal é praticada por um shochet, um homem temente a D-us e observante da Torá, que passa anos de sua vida exercitando e estudando as leis.

Aves Casher
As leis referentes aos processos de abate e casherização de frangos e outras aves são praticamente idênticas às que se aplicam à carne. Um cuidado especial é tomado ao salgar os frangos, para assegurar que seu interior esteja bem limpo e que o sal tenha chegado bem ao fundo de todas as cavidades da galinha e entre as saliências.
Frangos inteiros, mesmo se casherizados, são muitas vezes vendidos com um saquinho de miúdos e outro com fígados dentro da cavidade do corpo. o saquinho com o fígado tem que ser removido antes do cozimento, pois o contato com o fígado cru pode tomar a galinha Taref. Se a galinha for imersa em água quente ou cozida sem a remoção do fígado, um rabino ortodoxo deverá ser consultado.

Muito embora os frangos Casher sejam cuidadosamente verificados pelas pessoas que os processam para assegurar que a ave esteja livre de doenças ou de ferimentos graves, ocasionalmente podem ocorrer descuidos. Se for notado um osso quebrado ou deslocado, sangue, pus ou uma descoloração em volta da extremidade da coxa ou ao redor de uma ferida, um rabino ortodoxo deverá ser consultado. Estes problemas podem tornar todo o frango não-Casher.
Ao comprar uma galinha pré-embalada, esta deverá possuir um selo de Cashrut confiável.

Casherização do fígado
O fígado tem sangue demais para ser removido somente pelo salgamento. Por isso deve ser salpicado com sal grosso e grelhado no fogo. Os pedaços de fígado não devem ser muito grossos para que o calor penetre. A grelha deve ser casherizada no fogo antes de ser reutilizada. Consulte um rabino ortodoxo sobre os detalhes deste procedimento.
Dúvidas mais freqüentes

O que é casher?
A palavra hebraica casher significa apropriado. Quando aplicada à comida, o termo indica que um item é apropriado para consumo, de acordo com a Lei Judaica.

Cashrut refere-se a todo assunto concernente ao alimento casher. Envolve todo o processo gastronômico, desde a triagem dos ingredientes e o cuidado no seu manuseio, higienização até o preparo dos alimentos. Em restaurantes e indústrias que fabricam produtos casher, estes cuidados estendem-se às instalações e contratação de pessoal especializado para acompanhar cada etapa do processo sob permanente supervisão rabínica.

O que é supervisão casher?
Significa que um rabino habilitado ou uma organização rabínica supervisiona a produção de um item alimentício, para assegurar-se de que o produto é casher (preparado de acordo com as leis dietéticas judaicas).
Em geral, a supervisão se concentra em duas áreas:
Ingredientes – Todos os ingredientes e sub-ingredientes usados em um produto devem ser casher.
Equipamento – Este deve ter um status casher e não pode ser utilizado para os dois tipos, casher e não-casher.

A supervisão é estabelecida fazendo-se o levantamento de dados em uma pesquisa detalhada de todos os ingredientes e processo de fabricação (planta da fábrica, fluxograma, etc) envolvidos no produto. Após todas as informações terem sido checadas e registradas com a assinatura da pessoa encarregada de fornecer todas as informações (geralmente o gerente de qualidade ou de produção) é agendada uma visita ao estabelecimento por um rabino perito no assunto.
Após aprovado, o produto é periodicamente acompanhado para certificar-se de que não sofreu nenhuma alteração em sua composição ou no processo de fabricação.

Um rabino visita a fábrica regularmente para verificar se não foram feitas alterações que comprometeriam o status casher.
Contrário à idéia que muitos têm, o alimento casher não precisa ser "abençoado" por um rabino.

Por que é necessária a supervisão rabínica?
Não muito tempo atrás, a maioria dos produtos alimentícios era preparada na cozinha da família, ou numa pequena fábrica na comunidade. Era fácil perguntar se o produto em questão era confiavelmente casher. Se fosse requerida supervisão rabínica, era atendida pelo rabino da comunidade, conhecido por todos.

Hoje, a industrialização, transporte além-mar e produção em massa criaram uma situação onde a maioria dos alimentos que comemos são tratados, processados, cozidos, enlatados ou embalados comercialmente em parques industriais que provavelmente estão a centenas ou milhares de quilômetros de distância. Além disso, é impossível dizer apenas pelo rótulo quais ingredientes ou processos foram empregados.

Esta última conclusão baseia-se nos seguintes fatos:
A lei alimentícia nem sempre exige que conste nos rótulos de produtos industrializados a informação sobre ingredientes usados em pequenas quantidades.

O consumidor não consegue saber se os ingredientes derivam de componentes não-casher, ou se o maquinário foi anteriormente utilizado para produção de alimentos não-casher.
O nome técnico dos ingredientes no rótulo pode não ser adequado para informar o consumidor sobre o que está sendo realmente usado, e se é ou não casher.

O uso de termos gerais para ingredientes, tais como: temperos, sabores, etc., não é informação suficiente.

O que é glat casher?
Tecnicamente, o termo glat é específico para carne casher. Um shochet, especialista em abate de animais conforme a lei judaica, primeiro abate o animal de maneira rápida e precisa, conforme os ditames da Lei da Torá.
Após o animal ter sido abatido da maneira apropriada, um inspetor treinado examina os órgãos internos para verificar se há alguma anormalia fisiológica que possa tornar o animal não-casher.
Os pulmões, principalmente, devem ser examinados para certificar-se de que não há aderências, que poderiam indicar uma perfuração. Se for encontrada uma aderência, o inspetor deve examiná-la cuidadosamente para determinar seu status de cashrut.

Embora nem todas as aderências necessariamente tornem um animal não-casher, algumas comunidades judaicas ou indivíduos apenas aproveitam o animal que esteja livre delas.

"Glat", literalmente, significa "liso" indicando que a carne vem de um animal cujos pulmões foram considerados livres de toda e qualquer aderência. Mais recentemente, glat casher é mais largamente usada como uma expressão para o consumidor, significando "casher, sem dúvida".

O quê significa comida "estilo casher"?
Não existe comida "estilo casher". Casher não é uma maneira de cozinhar. Comida chinesa, por exemplo, pode ser casher, se for preparada de acordo com a Lei Judaica, e há muitos bons restaurantes chineses casher em todo o mundo. Por outro lado, cozinha judaica ashkenazita, como knishes, bagels, blintses e sopa de bolas de matsá podem não ser casher, se não foram preparadas segundo a Lei Judaica.
Quando um restaurante se autoproclama "estilo casher", geralmente significa que serve pratos judaicos tradicionais, mas na maioria das vezes a comida não é casher.

O símbolo "K" é confiável?
Um "K" numa etiqueta não quer dizer necessariamente que o produto é casher. Pode significar uma certificação casher, ou pode ter sido colocado pelo fabricante como sua própria pretensão de que o produto é casher.
Para descobrir quem ou o quê está por trás do "K" em um produto, você deve entrar em contato com um rabino ortodoxo competente.

O que significa "casher para Pêssach"?
Pêssach (festa que comemora o Êxodo do Egito) é a época do ano em que os consumidores casher são mais cuidadosos com sua alimentação, devido às estritas proibições contra a ingestão de fermento (chamêts). Isso baseia-se na referência bíblica contra ingerir ou possuir alimento fermentado durante Pêssach.

Assegurar-se que a comida é casher para Pêssach é ainda mais difícil que durante o resto do ano, devido a muitos ingredientes que são usados rotineiramente e são produzidos sob supervisão casher, não serem casher para Pêssach.
Não se pode usar nada que contenha os seguintes alimentos, considerados chamêts: cevada, trigo, centeio, aveia e espelta, exceto as matsot e farinha de matsá, que são compostos de farinha e água misturados e assados cujo tempo total empregado seja inferior a dezoito minutos, sempre sob supervisão rabínica.

Além disso, outros alimentos não devem entrar em contato com nenhum chamêts durante a produção ou preparação, ou se tornarão impróprios para Pêssach.

Alguns produtos de grãos e seus derivados, embora sejam casher durante o resto do ano, não podem ser usados em Pêssach.

Itens casher para Pêssach devem ser feitos apenas com utensílios que sejam casher para Pêssach, de acordo com a Lei Judaica.

Todos os produtos industrializados precisam conter em suas embalagens selo "casher para Pêssach" de um rabino ortodoxo.

 

Fonte: http://www.visaojudaica.com.br


 

Cashrut – Parte 1

Padrão

Introdução

A "dieta" judaica na teoria e na prática

O que é cashrut?

Muitas pessoas estão familiarizadas com os termos "casher", "kosher", "cashrut", etc. Outras nem sabem do que se trata, pois jamais ouviram falar. Casher (em hebraico) e kosher (em iídiche, dialeto judaico) querem dizer a mesma coisa: um produto apto, apropriado ao consumo, isto é, que preenche todos os requisitos da dieta judaica. Cashrut é o conjunto destas leis outorgadas por D-us ao povo judeu através do recebimento da Torá, no Monte Sinai.

Cashrut pertence à categoria das mitsvot, às quais nenhuma explicação racional é dada na Torá. Ela descreve os tipos de alimentos que a lei da Torá declara adequados à ingestão, assim como a maneira pela qual devem ser preparados.

Nossos sábios ensinam que o lar de cada judeu é como um "pequeno Santuário", um local de morada da Presença Divina; e a mesa de refeições é comparada ao altar do Templo Sagrado. O maior cuidado deveria ser tomado para que somente o que estivesse de acordo com a lei judaica fosse ofertado sobre o altar do Templo. Da mesma maneira, devemos cuidar para que somente o absolutamente correto seja trazido à nossa mesa – o altar em miniatura.

Mas o que é "cashrut"? De onde surgiu esta "linha de produção" e o que hoje isto significa para nós?

Elevando a matéria
A intenção de D-us através de Seu legado sempre foi a de assumirmos nosso compromisso firmado desde o Monte Sinai: "Nós faremos e (então) compreenderemos". Nossas ações neste mundo é o que na verdade conta. Apenas através delas somos capazes de atingir e realizar a Sua vontade e cumprirmos nossa missão: revelar através do mundo material as centelhas Divinas existentes, elevando a matéria ao nível espiritual. É exatamente o que ocorre cada vez que ingerimos um alimento.

O alimento ao ser ingerido e processado são absorvidos pelo nosso corpo e passa a fazer parte de nossa corrente sanguínea, afetando diretamente todos os aspectos do nosso ser. D-us através da Torá nos forneceu dicas de como refinar a nossa alma e o nosso corpo através da utilização da matéria e energia.

Cada um dos mandamentos, muitos dos quais envolvem objetos materiais como velas de shabat, tefilin (filactérios), mezuzá (pergaminho sagrado colocado nos umbrais das portas), serve como um canal de conexão entre D-us e o povo judeu. Cada preceito cumprido fortalece este elo. A existência física, demonstrada pelo corpo não é desprezada nem glorificada por seu próprio mérito, mas elevada e refinada a serviço da alma.

Os sinais da Torá
Nenhuma razão é fornecida para explicar, por exemplo, por que um animal que rumina e tem cascos fendidos é casher, enquanto um animal que apresenta apenas um destes sinais não o é. Não há nenhuma lógica aparente para fazer uma distinção entre um tipo de animal, ave ou peixe, e outro. Mas sabemos que eles exercem uma influência em nosso corpo e alma a partir do momento que passa a circular em nossas veias.

O sistema digestivo extrai os nutrientes, enquanto a neshamá, a alma, extrai a centelha Divina que se encontra na natureza. Estas "centelhas" provêm de uma fonte de Divindade mais elevada ainda que a alma do homem. A energia Divina em cada molécula de alimento é o que realmente nos dá vida. O alimento casher possui uma poderosa energia que confere força espiritual, intelectual e emocional.

Você não está sozinho
Amigos, familiares e conhecidos nem sempre entendem a indisposição em comer fora com eles, mas certamente nos respeitarão por mantermos nossos princípios e estaremos respeitando a nós próprios se formos fora, o que somos dentro de nossos lares.

Aliás, nós constituímos o sonho de todo nutricionista: somos acentuadamente conscientes no momento de nos alimentarmos; paramos para recitar uma bênção antes de colocar qualquer coisa em nossas bocas; aguardamos períodos prescritos entre comer alimentos de carne e derivados de leite; nossa própria noção de alimento é vinculada à idéia de limitação e autodisciplina, acrescenta-se o valor que atribuímos à vida e à saúde e tem-se o candidato perfeito para o incremento da saúde através da modificação dietética.

Temos acesso à informação médica e nutricionista avançada, tecnologia moderna e produtores prontos a atender o consumidor casher, conscientizados com a saúde. A cada dia que passa, novas descobertas médicas revelam a sabedoria dos conceitos que têm sido parte de nossa herança por milhares de anos.

Mas você não está sozinho neste empreendimento (investimento)! Existem milhares de indivíduos e famílias que alteram seu estilo de vida para se integrarem no mundo da cashrut. Seja através da procura de um selo casher no supermercado ou em um restaurante casher perto de sua casa, ou numa cidade distante ao viajar pelo mundo (descoberto graças ao seu "equipamento de sobrevivência", entre eles, um Jewish Guide).

A cashrut é um importante lembrete de nossa profunda ligação com os judeus de todas as nacionalidades e especialmente um elo eterno com o Criador.

Por que comer casher?
Nosso raciocínio mudou até o ponto em que não mais sabemos por que o Judaísmo coloca tanta ênfase em comer e beber, necessidades básicas compartilhadas não apenas pelo restante da humanidade como também pelos animais.
Sem uma explicação satisfatória para a cashrut e sem a fé simples baseada nos valores da Torá que caracterizaram as gerações anteriores, muitos judeus concluem que manter-se casher está simplesmente obsoleto – está baseado em antigas precauções sanitárias que não mais se aplicam à vida moderna.

Portanto, oferecemos alguns dos pontos de vista sobre a mitsvá da cashrut fornecidos pela tradição judaica. Estas introspecções satisfazem nossa necessidade de compreensão e nos motivam a cumprir as mitsvot da Torá face aos valores opostos da cultura contemporânea. Apesar disso, deve-se entender que os mandamentos são de origem Divina e jamais poderão ser totalmente compreendidos pelo intelecto humano. Mantemos as mitsvot porque são um legado de D-us ao povo judeu.

"Religião", como todos sabem, trata de prece, meditação, caridade, ética e às vezes, formas variadas de auto-negação. O Judaísmo, entretanto, envolve todos os aspectos da vida. Nossas atividades cotidianas mais comuns tornam-se imbuídas de santidade quando seguimos a diretiva da Torá: "Conheça-O em todos teus caminhos" (Mishlê 3:6).

Para um judeu, toda comida não-casher diminui a sensibilidade espiritual, reduzindo a habilidade de absorver conceitos da Torá e mitsvot. Tanto a mente quanto o coração são afetados.

A Cashrut representa o encontro do corpo e da alma. A Torá nos diz para não rejeitarmos o físico, e sim santificá-lo. Comida casher é a dieta da nutrição espiritual para a neshamá, a alma judaica. Isso é designado para trazer refinamento e purificação ao povo judeu.

O que isso significa?
A moderna ciência nutricional reconhece que o Judaísmo sempre ensinou que de forma geral somos aquilo que comemos. Sabemos que os alimentos que ingerimos são absorvidos por nossa carne e sangue. Alimentos proibidos são mencionados na Torá como abominações à alma Divina, elementos que aviltam nossa sensibilidade espiritual. Abutres e animais carnívoros, tendo o poder de influenciar quem deles se alimenta com atributos agressivos, estão entre os alimentos proibidos.

Para um judeu, toda comida não-casher diminui a sensibilidade espiritual, reduzindo a habilidade de absorver conceitos da Torá e mitsvot. Tanto a mente quanto o coração são afetados.

É fácil entender por que a cashrut é freqüentemente considerada a mitsvá de mais longo alcance. A história demonstra que quando a observância de cashrut é forte, a identidade judaica permanece forte.

Para explicar o poder dos alimentos casher, devemo-nos voltar aos ensinamentos chassídicos baseados no misticismo do grande cabalista Ari Zal (Rabi Yitschac Luria). O Ari Zal deu uma interpretação literal ao versículo "O homem não vive somente de pão, mas da palavra de D-us" (Devarim 8;3). Ele explicou que não é o alimento em si que dá a vida, mas sim a centelha de Divindade – a "palavra de D-us" – que está presente no alimento. Toda matéria tem dentro de si algum aspecto das "Centelhas de Divindade" que dão vida e existência ao mundo. Quando comemos, o sistema digestivo extrai os nutrientes, enquanto a neshamá extrai a centelha de Divindade encontrada na natureza.

A energia Divina no alimento é, portanto, a verdadeira fonte de sua capacidade de sustentar e nutrir o corpo. Comida casher tem uma poderosa energia que dá força espiritual, intelectual e emocional à neshamá judaica, ao passo que alimentos não-casher fazem o oposto.

A dieta casher é uma dieta saudável para a alma, contendo a nutrição espiritual necessária para a sobrevivência judaica e para estabelecer o verdadeiro equilíbrio entre o corpo e a alma. Uma dieta prescrita pelo Dr. do Mundo.
Na outorga da Torá, D-us nos deu 613 preceitos, entre os quais as leis concernentes à Cashrut. Cada uma das mitsvot, por fazer bem à alma, faz bem ao corpo.

Cada vez que alguém se alimenta, a comida é absorvida pelo corpo e transformada em energia. Quando uma pessoa utiliza a energia produzida por este alimento para cumprir um preceito, ela eleva este alimento para o campo espiritual.

A moderna ciência nutricional reconhece que o Judaísmo sempre ensinou que de forma geral somos aquilo que comemos.

Sabemos que os alimentos têm um amplo efeito sobre nós. Ao tornar-se parte da carne e sangue do corpo, que é ligado à alma, o alimento que a pessoa ingere tem efeito direto sobre seu caráter, seu refinamento pessoal e seu desenvolvimento em todos os estágios da vida. A Torá, através da cashrut, nos ensina como comer para que o corpo seja um receptáculo apropriado para a alma, e não meramente um instrumento para satisfazer as necessidades físicas, como os animais.
Na Torá, cuidar da saúde e cuidar da Cashrut são distintas. Quando a Torá nos diz se o alimento é permitido ou não, está nos informando a respeito de sua faceta espiritual e sobre nossa capacidade de aproveitá-lo positivamente. Assim como no aspecto material, o nosso organismo físico não está preparado para digerir e retirar os nutrientes de qualquer tipo de substância, também no campo espiritual, a alma pode e deve utilizar a matéria, revelando a espiritualidade que está por trás dela.

Cada vez que alguém se alimenta, a comida é absorvida pelo corpo e transformada em energia. Assim quando a pessoa utiliza a energia produzida por este alimento para cumprir uma Mitsvá, ela eleva este alimento.

O conceito de Cashrut está ligado ao conceito de saúde da alma. Segundo o rei Salomão (Provérbios XX:27), "a alma humana é a vela Divina". Para que cada um possa revelar a chama Divina que está em nossos corpos é preciso cuidar para que não se impurifiquem com comidas não permitidas pelo Criador.

A cashrut foi instituída por D-us por razões que só Ele conhece. As leis da cashrut, com certeza, ajudam à saúde física da pessoa, mas não é este seu principal objetivo. Elas ajudam a tornar possível a ligação entre alma e corpo, alma e D-us. D-us é o Engenheiro do mundo que ligou os fios certos para que saiam da fonte de energia até a lâmpada, iluminando nossas vidas com mais vida.

Na prática
Os alimentos casher dividem-se em três categorias: carne, leite e parve, (alimentos neutros; não contém leite nem carne).

A "dieta" judaica
Carne
A carne Casher é singular em todos os aspectos, desde o tipo de animais que são permitidos até a maneira como são abatidos e preparados para o consumo. Os alimentos à base de carne são cozidos, manuseados e ingeridos separadamente dos alimentos à base de laticínios. Além disso, é exigido um período de espera de seis horas após comer todos os tipos de carnes e aves antes que qualquer laticínio possa ser ingerido.
Somente os animais que ruminam e possuem cascos fendidos (os dois sinais mencionados na Torá) são Casher. Vacas, carneiros e cabras servem como exemplos. Um animal que tenha apenas um dos dois sinais não é Casher. Uma vez que as leis da Torá são exatas, tendo sido projetadas pelo próprio Criador, com certeza há um motivo por que estes dois sinais foram escolhidos.

Animais ruminantes e cascos fendidos
Curiosamente a Torá enumera apenas quatro animais que ruminam ou possuem os cascos fendidos, mas não atendem a ambos os requisitos: o porco, o coelho, o camelo e a lebre. Apesar do grande progresso no conhecimento científico e da exploração dos mais remotos recantos do mundo pelo homem, nenhuma outra criatura com apenas um destes sinais foi descoberta.

Sabedoria Divina
A Torá afirma: "Estes são os animais que comereis de todo o quadrúpede que se acha sobre a Terra: todo o que tem o casco fendido e rachado ao meio e que rumina, entre os quadrúpedes, esse comereis. Mas estes não comereis dos que ruminam e tem o casco fendido: o camelo que rumina e não tem o casco fendido – impuro é ele para vós; e o coelho que rumina e não tem casco fendido – impuro é ele para vós; e a lebre que rumina e não tem casco fendido – impura é ela para vós; e o porco que tem casco e é fendido, mas não rumina – impuro é ele para vós" (Vayikra XI:2-7).

A Torá nos adverte claramente para quatro espécies de animais que contenham um ou outro dos itens relativos (ser ruminantes e ter o casco fendido) para não nos enganarmos e pensar que eles são casher. São eles o camelo (rumina, mas não tem o casco fendido), o coelho (que rumina, mas não tem o casco fendido), a lebre (que rumina, mas não tem o casco fendido) e o porco (que tem casco fendido, mas não rumina)

É notável que, embora a Torá tenha sido outorgada há mais de 3300 anos, muito antes que os homens descobrissem novos continentes habitados por animais desconhecidos e criaturas estranhas de que nunca ouvira falar, a Torá já havia declarado que existem somente quatro animais com apenas uma das duas características! Novas espécies de animais que foram descobertas não possuíam nenhuma dessas características, mas nenhuma só espécie nova foi encontrada com apenas uma ou outra dessas duas características. Isto se explica pelo fato da Torá ter sido dada por D-us, que conhece todas as espécies de animais que criou.

Porque os ruminantes?
Ao se entreter demais com os prazeres terrenos e o cotidiano, em vez do homem elevar o mundo material e transformá-lo em santidade, a matéria pode rebaixá-lo a um nível inferior, fazendo com que deixe de cumprir momentaneamente a função da qual foi incumbido.

Portanto, a Torá ensina que, antes de desfrutar deste mundo, o homem deve pensar se, com seu ato, estará ou não cumprindo a vontade Divina. Por exemplo, antes de comer, deve recitar uma berachá; ao ingerir o alimento deve ter em mente que está comendo para ter forças suficientes para servir o Criador; e, finalmente, não esquecer a bênção posterior.

Isto é simbolizado pelo fato de que um animal casher deve ser ruminante, ou seja, antes de se aproveitar do alimento, o mastiga várias vezes. Assim, o homem deve "mastigar" dentro de si para saber como tirar proveito do alimento da forma mais digna.

Animais ruminantes são aqueles que mastigam o alimento e o fazem voltar do estômago para a boca. Bois, vacas, carneiros, cabras, antílopes, búfalos, veados e outros fazem parte deste grupo. Também pertencem a esta classificação o camelo, o coelho e a girafa.

Estes mamíferos herbívoros são caracterizados por uma espécie de estômago especial: em vez de um só compartimento, o estômago é duplo, com quatro cavidades: pança, barrete, folhoso e coagulador ou nas formas alatinadas: rúmen (razão pela qual são denominados ruminantes), retículo, saltério e abomaso. Digerem em duas fases: na primeira, depositam as ervas na pança e no barrete; na segunda, após algumas horas, fazem voltar alimento, mediante contrações semelhantes às do vômito, às partes altas do tubo digestivo, para então ser novamente deglutido, seguindo para o folhoso e o coagulador.

Estes possuem vantagens sobre os outros animais, pois o ruminante é capaz de engolir grandes quantidades de alimentos rapidamente e armazená-los no rúmen. Mais tarde, quando está à vontade, traz o alimento de volta à boca para mastigá-lo bem e, dessa forma, o digere melhor.

O Criador, em Sua infinita sabedoria, deu a eles essa vantagem por um motivo peculiar. Eles são herbívoros e precisam consumir grandes porções. Embora a maioria possua chifres, são quase indefesos diante de animais ferozes e predadores como o lobo, o tigre, o leão e outros. Por isso, precisam engolir o alimento rapidamente e estar prontos para fugir tão depressa quanto as suas patas possam levá-los, sempre que surgir algum perigo.

Naturalmente, os animais domésticos estão mais protegidos; porém, eles também precisam ingerir muita comida e engolem o alimento sem mastigar. Este entra no primeiro estômago e depois passa para o segundo. Quando o animal está em repouso traz de volta o alimento. Agora já misturado e amaciado, à sua boca em forma de "pelotas" e o mastiga adequadamente. Cada bocado então, é engolido mais uma vez, e o alimento passa para o terceiro e o quarto compartimentos

Casco fendido
Um animal é constantemente ligado ao mundo material por seus pés. Um animal casher, porém, tem o casco que o separa do chão e, por ser fendido, demonstra que sua ligação com o chão onde pisa não é demasiada. O mesmo ocorre com o peixe que, para ser casher, deve ter escamas envolvendo o corpo, separando-o do mundo exterior. Isto simboliza o acima dito, de que o comportamento ideal de um judeu é não se preocupar demais com o mundo material que o cerca.
O porco é um dos animais não-casher mais conhecidos. Possui um dos sinais de cashrut – o casco fendido – mas não é ruminante. Diz o Talmud que, sempre que se deita, o porco estica as patas para a frente, querendo mostrar que é casher; mas não é ruminante, deixando por isso de ser casher.

Também daqui podemos tirar uma lição de comportamento. Um dos piores defeitos do homem é o cinismo, ou seja, demonstrar exteriormente o que realmente não é. Isto pode ocorrer no meio judaico, quando a pessoa apresenta em público um comportamento que não é o seu verdadeiro, por vergonha ou orgulho. Tal comportamento deve ser completamente repelido.

Vários sábios contemporâneos apontam como principal causa da decadência espiritual e moral das últimas gerações justamente o fato de as leis de cashrut deixarem de ser observadas à risca por grande parte de nosso povo. Porém, ultimamente, com as facilidades que o mercado casher vem oferecendo e com o grande movimento de retorno desta geração, muitos voltaram a suas raízes, dando mais valor à dieta casher. Com certeza, isto acarretará a transformação benigna de nosso povo, preparando-nos para a época especial que tanto aguardamos.

Laticínios
Na cozinha Casher, os laticínios assumem um papel especial.

Todos os alimentos que contém leite, ou que são dele derivados, são considerados Chalavi ou milchig. Isto inclui leite, manteiga, iogurte, quefir, coalhada e todos os queijos (variáveis segundo sua consistência) – duros, macios e cremosos. Mesmo uma pequena quantidade de laticínio em um alimento faz com que este alimento seja considerado Chalavi. Todos os derivados de leite requerem um certificado de Cashrut. Para que sejam asseverados como Casher devem ser obedecidos os seguintes critérios:

Devem provir de um animal Casher.
Todos os ingredientes devem ser Casher e isentos de derivados de carne. Muitas vezes, laticínios não-Casher são produzidos com ingredientes de origem animal. Por exemplo, Os queijos duros são feitos com coagulador (liquido segregado pela quarta cavidade do estômago dos mamíferos ruminantes e utilizado para coalhar o leite); iogurte, às vezes, contém gelatina e a manteiga pode conter aditivos não-Casher.

Devem ser processados em equipamentos Casher.

Muitos substitutos de leite, alguns tipos de cremes (isentos de leite), cereais e margarinas contem derivados de leite, assim como alguns adoçantes de baixo teor calórico. Os ingredientes de leite cujos nomes aparecem nos rótulos de muitos produtos incluem caseína (proteína existente no leite), lactose (açúcar encontrado no leite) e soro.
O pão comercial que possui ingredientes de leite apresenta problemas de Cashrut Consulte um rabino ortodoxo antes de comprar ou usar qualquer pão contendo ingredientes de leite.

Os alimentos de leite e de carne não devem ser preparados, servidos ou consumidos ao mesmo tempo. Utensílios separados são usados exclusivamente para laticínios. Recomenda-se um forno separado para assar ou tostar alimentos de leite.

Ao planejar refeições de laticínios, assegure-se de que seis horas se passaram desde que foi ingerida carne. Certos queijos duros, próprios para ralar (tipo parmesão), também requerem uma espera de seis horas antes de comer carne.

Chalav Yisrael
A Torá nos proibiu beber leite de animais não-casher, da mesma forma que proibiu comer sua carne, pois tudo o que é extraído de animal ou ave não-casher, é como se fosse sua própria carne.

A Lei judaica requer que na produção de leite e seus derivados, um mashguiach (supervisor judeu) esteja presente desde o começo da ordenha até o fim do processamento. O leite que é submetido a esta supervisão é conhecido como Chalav Yisrael. A tradição judaica acentua a importância de usar exclusivamente produtos de Chalav Yisrael, e enfatiza também que o uso de produtos que não são de Chalav Yisrael podem ter um efeito espiritual desfavorável.

Essas leis assumem um significado especial para as crianças, inclusive as crianças de berço. Muitas fórmulas para bebês contem leite ou ingredientes derivados de laticínios, os quais não são Chalav Yisrael. Na maior parte dos casos, uma fórmula isenta de leite de vaca pode ser um substituto adequado.

Mesmo quando o Chalav Yisrael é muito difícil de ser obtido muitas pessoas, conscientes de seu efeito positivo na sensibilidade espiritual de um judeu, fazem todo o possível para adquirir esses produtos. E, certamente, onde eles são facilmente disponíveis, a pessoa é obrigada pela Lei judaica a fazer uso exclusivo desses produtos.

Todos os produtos de leite e seus derivados (queijo, manteiga, iogurte, sorvetes, etc) para serem casher devem obedecer certos critérios: devem provir de um animal casher, todos os ingredientes devem ser isentos de derivados de carne, e devem ser processados com ingredientes e em equipamento casher.

Mesmo uma pequena quantidade de laticínio em um alimento faz com que ele seja considerado chalavi, isto é, de leite.


Separação entre leite e carne
Consta na Torá: "Não cozerás um cabrito no leite de sua mãe."
Nossos sábios aprenderam daqui em detalhes a proibição de cozinhar, ingerir ou ter qualquer proveito da mistura de carne e leite.

D-us criou os seres do mundo em quatro níveis: a) mineral; b) vegetal; c) animal; c) ser humano. Cada um foi criado para se elevar e alcançar um nível espiritual acima daquele em que foi criado, aproximando-se desta forma do Criador.
Quando uma planta é regada, a água, um mineral inanimado, eleva-se ao nível do vegetal. O mesmo ocorre quando um animal se alimenta de plantas. Também o homem tem o dom de elevar seu alimento. E deve também tentar se elevar a um nível acima de seu próprio – o Divino – ligando-se a D-us pelo cumprimento das mitsvot.

A ingestão de sangue é proibida pela Torá. O sangue provém da fonte espiritual de severidade (guevurá). O sangue pode até ser positivo, mas necessita de uma força muito especial que o homem não possui para elevá-lo. Por isso, era jogado no Altar do Bet Hamicdash, onde obtinha energia suficiente para trazer os benefícios desta força severa de sua natureza, elevando-o para a santidade. Por não possuir esta força, foi proibido ao ser humano o consumo de sangue.

O Talmud diz que "o sangue se transforma em leite". No momento em que a severidade do sangue é quebrada e subdividida durante a gestação de um bezerro, por exemplo, uma parte alimenta o feto, enquanto a outra se transforma em leite; e torna-se possível ingeri-lo.

A carne do animal casher pode ser ingerida, pois provém da quebra do sangue que o ser humano tem força para elevar; também o leite pode ser ingerido. Mas no momento em que carne e leite se misturam volta-se à composição sangüínea original, de severidade, que faz mal à alma humana.

Um renomado médico em Jerusalém publicou um estudo que diz que a carne manda certas transmissões ao cérebro enquanto o leite manda outras transmissões; se houver cruzamento, podem se afetar mutuamente.

O lapso de tempo necessário para que o trabalho da carne termine até que o cérebro fique limpo para receber novas transmissões é de exatamente seis horas (o tempo exigido pelas leis da cashrut para ingestão de leite após carne). Após comer alimentos com leite ou seus derivados deve-se aguardar pelo menos meia hora, enxaguar a boca e comer ou beber algo neutro antes de ingerir carne. Uma espera de 6 horas também é exigida entre os queijos curados e carne.

Assim, entendemos que as leis de cashrut são muito especiais e trazem para a alma e o lar judaico muita santidade, atingindo níveis superiores. D-us é o grande Médico especialista do mundo – não apenas fornece o remédio para a cura em caso de doença, mas faz um tratamento preventivo; orienta através de Torá e mitsvot todos os passos dos seres humanos: como deve se comportar e que dieta deve seguir, a fim de que não adoeça espiritualmente.

Parve – Neutro
Os alimentos que não são nem carne nem leite são chamados parve (neutros). Isto significa que eles não contêm carne nem leite, nem em seus derivados, e que não foram cozidos ou misturados com nenhum alimento de carne ou de leite.
Ovos, peixes, frutas, hortaliças, grãos, cereais e sucos naturais, massas, refrigerantes, café, chá e muitos tipos de balas e lanches são exemplos de alimentos parve.

Um item parve torna-se de laticínio ou de carne se for preparado junto com alimento de uma dessas categorias. Por exemplo: um macarrão na manteiga é considerado laticínio, perdendo seu status parve e tendo que ser servido em utensílios de leite, neste caso .

Todo o alimento parve industrializado perde sua condição de parve se processado em equipamentos usados para laticínios, ou quando são utilizados aditivos. Os rótulos nestes produtos não fornecem informações sobre o processamento de fabricação, fundamental para liberar seu consumo. Em todo e qualquer alimento industrializado é imprescindível a verificação de um rabino ortodoxo.
Muito embora os alimentos parve apresentem menos complexidades de Cashrut do que os alimentos de carne ou leite, muitos detalhes devem ser considerados.

Peixes
"Podereis comer de tudo o que vive nas águas, seja nos mares ou nos rios, desde que tenha nadadeiras e escamas" (Vayicra’ XI:9).

Peixe é um alimento parve, neutro. Somente peixes que têm tanto nadadeiras como escamas são Casher. O Talmud cita que todos os peixes que apresentam escamas possuem também nadadeiras, entretanto, a presença de nadadeiras não indica que possuem escamas.

A definição de nadadeiras e escamas deve ser conforme designada pela Lei judaica. Nem tudo o que é normalmente chamado de escama está de acordo com o padrão da Torá. Portanto, certifique-se de comprar peixe somente de um peixeiro que esteja familiarizado com os tipos de peixes Casher.

Ao comprar peixe, compre-o inteiro para que você possa ver as nadadeiras e as escamas, ou então, se o peixe estiver cortado em postas, em filés ou moído, compre somente de uma peixaria que vende exclusivamente peixes casher. Isto assegurará que as facas e outros utensílios são usados unicamente para peixes casher. Um cuidado que deve-se ter é a observação dos peixes, pois alguns costumam ter vermes compridinhos, principalmente na cabeça, espinha e às vezes até na carne, o que o torna proibido ao consumo, conforme a Halachá. Portanto, deve-se olhar minuciosamente o peixe cru para constatar sua pureza em relação aos vermes ou adquiri-lo em uma peixaria casher. Se a opção for comprar em uma peixaria que vende todo tipo de peixe, a pessoa deverá levar sua própria tábua e facas à peixaria além de assistir a limpeza e corte do peixe.

Sardinha, atum, etc, em lata necessitam surpevisão rabínica por causa dos óleos e outros aditivos e por não poderem ser, após enlatados, reconhecidos pela sua espécie (se pertencem aos peixes com escamas, ou não). Há inclusive fábricas que utilizam componentes à base de leite em latas de sardinha e atum, mas que não necessariamente aparecem em suas embalagens. Todo peixe segue a regra para produtos industrializados: qualquer processo de fabricação deve ter selo casher de um rabino ortodoxo competente.

Combinando peixes com outros alimentos
Peixe e carne: Não há proibição de ingerir o sangue do peixe, nem é exigido abate especial. É um alimento parve, neutro, podendo ser consumido em uma refeição de carne ou de leite, desde que se observem alguns cuidados: peixe e carne não podem ser cozidos nem comidos juntos, entretanto, podem ser comidos na mesma refeição, em pratos separados em talheres distintos ou lavados. Entre peixe e carne é costume ingerir algo para separar os sabores.

Peixe e leite: Entre os judeus sefaraditas há o costume de não ingerir peixe com queijo ou leite e quando servidos em uma mesma refeição, serem servidos em pratos e talheres separados.

Na comunidade ashkenazita não se costuma cozinhar peixe com molhos à base de leite, manteiga, etc, exceção feita ao queijo. (Por exemplo: pizza de atum é permitida).

No caso da não ingestão de peixe com leite, esta proibição foi instituída por nossos sábios pelo motivo de sacaná, perigo, pois pode afetar a saúde da pessoa que ingere ambos alimentos se cozidos juntos.

Peixes casher: Abrotea, anchôva, arenque, atum, bacalhau, badejo, barbado, betara,bonito, cambucú, cará, carpa, castanha, cavala, cavalinha, cherne, corimbatá, corvina, dourado, garoupa, gordinho, haddock, lambari, linguado, mandi, manjuba, merluza, mero, namorado, oliete, pargo, pescada (amarela, branca, do sul, inglesa, maria mole), piaú, porquinho, robalo, salmão, salmonete, sardinha, serra, sororoca, tainha, tilápia, tortinha, traíra, trilha, truta, etc.

Peixes não-casher: Anjo, bagre, cação, caçonete, enguia, manchote, moréia, peixe-espada, peixe-porco, peixe-serra, pintado, polvo, raia, viola, vongole, etc, e todos os frutos do mar (camarão, ostras, siri, lagosta, etc). Mamíferos cetáceos como golfinhos, botos e baleias, também são proibidos.

Ovos
De acordo com a lei judaica, os ovos com casca são parve e devem ser provenientes de aves casher e não conter nenhum sinal de sangue. Para certificar-se da ausência de sangue em ovos crus, estes devem ser abertos e examinados um a um em um prato ou copo transparente. Se for encontrado qualquer sinal de sangue, o ovo inteiro deverá ser descartado e o copo ou prato lavado com água fria. Uma única gota de sangue faz com que este ovo não seja casher.
No caso de ovos duros é preferível ter uma panela somente para fervê-los, colocá-los em número ímpar e para verificar se possuem sangue ou não após cozidos, descascá-los e olhar se na clara ficou um ponto escuro (este é o sangue que ao ser cozido vem para fora). Os ovos de casca escura, bem como os ovos orgânicos, têm mais probabilidade de conter manchas de sangue. Prefira ovos brancos.

Ovos sem casca retirados de uma ave, não são parve, mas considerados bassari, de carne. Devem ser preparados ou servidos somente em utensílios de carne.

Verduras, frutas e hortaliças
Hortaliças frescas, frutas e grãos, em seu estado natural e não-processado, são casher e parve. Podem ser consumidos tanto com laticínios como com carne. No entanto, uma vez que uma hortaliça foi combinada com um produto de carne ou de leite, se torna respectivamente um produto de carne ou de leite.

A Torá proíbe comer vermes e insetos, vivos ou mortos. As verduras, frutas e hortaliças devem ser minuciosamente examinadas. Entre as verduras incluem-se folhas (alface, agrião, espinafre, couve, couve flor, brócolis, etc), grãos (feijão, lentilha, grão de bico, milho para pipoca, etc) e frutas (morango, maçã, etc).

O problema mais comum nas verduras é uma possível infestação de insetos. A proibição contra o consumo de insetos, vermes, larvas e seus ovos, mesmo os mais minúsculos é muito rigorosa. Embora minúsculos, são visíveis a olho nu e devem ser removidos.

Nossos sábios dizem no Talmud que ao ingerir um certo tipo de verme a pessoa pode estar transgredindo até seis proibições. Portanto, antes de ingerir qualquer fruta ou verdura (ou mesmo peixe – que costuma ter vermes), é fundamental verificar tudo com cuidado para se certificar de que está isento de qualquer infestação.
Frutas e verduras in natura de todos os tipos podem ser compradas em feiras, supermercados, etc, sem necessidade de atestado de cashrut. O mesmo é válido para cereais e grãos, como farinha de trigo, de milho, de mandioca, fubá, aveia, arroz, feijão, ervilha, lentilha, folhas em geral (estas devem ser verificadas antes de usar). Todos estes produtos, depois de cozidos ou industrializados, só podem ser comprados se houver supervisão rabínica.

Folhas – todo tipo de folha, como alface, repolho, agrião, salsão, salsinha, cebolinha, etc. costumam conter vermes. Para que possam ser usadas devem ser deixadas de molho, por mais ou menos meia hora, em água com vinagre, ácido acético ou germicida para matar os vermes. Assim, é mais fácil removê-los posteriormente. A seguir, folha por folha (mesmo as pequenas) devem ser lavadas em água corrente e examinadas contra a luz para constatar que estão isentas de qualquer verme. Às vezes, os vermes das folhas são da própria cor da folha. É muito difícil distinguí-los, necessitando muito cuidado na hora da verificação.

Couve-flor e brócolis – nestes dois legumes é praticamente impossível detectar vermes, pois contêm infindáveis folhinhas minúsculas e de difícil acesso. Por isso, em muitas casas judias não se costuma comê-los ou come-se somente os talos após bem verificados.

Berinjela – antes de cozinhar ou assar deve-se cortá-la ao meio em pedaços para se certificar de que não contém vermes. Às vezes, a berinjela não mostra nenhum sinal externo da presença do verme, porém este cresce dentro dela de forma visível (costuma deixar rastros de areia).

Tomates – pepinos, batata, cenoura, cebola, alho, abobrinha, mandioquinha, entre outros, se encontram na categoria de legumes mais simples de verificação, já que ao serem cortados, qualquer um poderá notar se estiverem estragados e desta forma, descartá-los para o consumo.

Grãos – feijão, ervilha, lentilha, grão-de-bico, etc. devem ser colocados de molho em água por várias horas antes de cozinhar, facilitando assim a verificação. Depois devem ser examinados cuidadosamente, dos dois lados, certificando-se que não contêm orifícios que comprovam a presença de vermes. É costume abrir o grão-de-bico na metade, após terem sido colocados de molho, pois os vermes não deixam orifícios visíveis nesta leguminosa. O milho de pipoca deve ser bem observado, um por um, se não contém orifícios ou pontos pretos, indicando a presença de vermes. A espiga de milho deve ser colocada de molho no vinagre antes de cozida; se contém vermes, estes saem depois deste molho. Os grãos de arroz devem ser verificados para que não tenham extremidades pretas indicando terem sido comidos por vermes.
Um rabino ortodoxo deverá ser consultado quanto às suas recomendações para verificação e uso dessas verduras sempre que surgir dúvidas.

Verduras industrializadas
Os vegetais processados, como os congelados ou enlatados, podem apresentar sérios problemas de cashrut. Podem conter ingredientes de carne ou leite ou terem sido processados em recipientes utilizados para carne e laticínios, ou fabricados na mesma divisão ou conectados a outros alimentos não-casher.Todos os alimentos naturais processados também requerem supervisão de cashrut de confiança, inclusive muitos produtos de soja, guloseimas e bebidas naturais.

Farinhas
Em países tropicais como o Brasil, o clima quente e úmido favorece a proliferação de vermes e insetos. Isto faz com que seja obrigatório peneirar as farinhas antes de sua utilização. Para que o papel da peneira seja eficiente na eliminação de bichinhos, é necessário utilizar uma peneira cujos furos sejam menores que os vermes e insetos existentes (suas cerdas chegam a ser vinte vezes mais finas que as das peneiras comuns).

Existem peneiras cuja malha é especial para este fim. No entanto, a rede retém vermes e insetos, mas não seus ovos (como não podem ser vistos a olho nu, enquanto misturados na farinha são considerados anulados). Em pouco tempo e por incubação, estes ovos se transformarão em novos vermes. A farinha, por este motivo, deve ser utilizada imediatamente após a peneiração. Se for bem estocada sob refrigeração ou no freezer, (a 0º c) não precisa ser peneirada novamente por um período de dois a três meses.

Farinhas cujos grãos não passam pela peneira deverão ser examinadas da mesma forma que grãos. Ex: farinha de fubá, centeio, semolina, farelo e germe de trigo.