O ETERNO D’US DE ISRAEL

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O princípio fundamental da religião judaica é a existência absoluta de D’s. O judaísmo revela que D’s é um Ser pleno de propósitos, criador de um mundo no qual o homem tem uma razão de ser.

 

Maimônides, o maior de todos os filósofos judeus, inicia o seu Código de Leis com a afirmação de que o fundamento de todos os fundamentos e o pilar de todo o conhecimento reside em saber-se que existe um D’s que dá vida a todos os seres. Similarmente, o primeiro dos Treze Princípios de Fé Judaica, outra obra de Maimônides, proclama que D’s é o Criador Único e Senhor de todas as coisas. O judaísmo se inicia e termina com a menção a D’s – o D’s de Abrahão, Isaac e Jacob, que, ao longo de toda a Bíblia, se autodenomina “D’s de Israel”.

No entanto, quem é este D’s de Israel? O que sabemos sobre este D’s que libertou o povo judeu da servidão no Egito e, a seguir, revelou-Se a eles no Deserto do Sinai?

D’us verdadeiro

Na Bíblia, o profeta Jeremias proclama que “o Senhor D’s é a Verdade; Ele é o D’s Vivo…” (Jeremias 10:10). O profeta assim nos dá os conceitos mais básicos acerca de D’s. Como o D’s de Israel é um D’s Vivo, Ele certamente é tão existente e presente quanto qualquer outro ser. Portanto, D’s não pode ser apenas considerado como um “princípio universal” ou um “conceito filosófico”, como tentam apregoar alguns pensadores. Além disso, como o D’s de Israel é o D’s verdadeiro, Sua existência é real e incondicional, não sendo, portanto, sustentada ou definida pela fé ou imaginação de um ou outro indivíduo.

D’us oculto

E, no entanto, apesar de ser D’s Vivo e Verdadeiro, o D’s de Israel nos parece, com freqüência, misterioso e inatingível. A Torá relata que nem mesmo Moisés, o maior entre todos os profetas, podia perceber plenamente o alcance da Glória Divina (Êxodo 33:18-20). Em outra parte da Bíblia, o profeta Isaías clama diante de D’s: “Tu és um D’s misterioso, que te ocultas” (Isaías 45:15). E, em uma obra clássica do Zohar consta que “Não há idéia ou pensamento que possa abarcar a plenitude de D’s” (Tikunei Zohar, 17a). O Rabi Shneur Zalman de Liadi, fundador do movimento Chabad-Lubavitch, explica-nos que assim como fisicamente uma mão não consegue agarrar um pensamento, tampouco consegue a mente humana captar a plenitude de D’s.

Na Torah D’s nos aponta que o homem jamais O entenderá verdadeiramente, assim como não entenderá os Seus caminhos (Isaías 55:8-9). Entretanto, D’s também proclama que se verdadeiramente O buscarmos, com todo o nosso coração e toda a nossa alma, certamente O encontraremos (Deuteronômio 4:29). De fato, apesar de nenhum ser humano jamais poder alcançar o Divino, nem tampouco captar toda a Sua essência, há uma enormidade de noções acerca de D’s que nos são conhecidas.

Criador do Universo

A Bíblia basicamente define D’s como o Criador de todos os seres vivos e inanimados. Não há absolutamente nada no universo, quer seja espiritual ou material, que não se tenha originado de D’s. O verso de abertura da Torá nos relata: “No princípio criou D’s os Céus e a Terra” (Gênese 1:1). Adiante, afirma: “Eu sou o Senhor, que faço todas as coisas” (Isaías 44:24). Claramente, por ter criado todo o universo, D’s criou todas as matérias físicas.

No artigo intitulado “O que sabemos acerca de D’s”, Aryeh Kaplan, renomado rabino e físico norte-americano, utiliza a Teoria da Relatividade de Einstein para derivar algumas definições básicas sobre D’s. O Rabi Kaplan escreve que a Teoria da Relatividade estabelece que espaço e tempo são atributos da matéria. Isto significa que em tendo criado tudo o que é físico, D’s simultaneamente criou as noções de espaço e tempo. Como, obviamente, D’s antecede Suas criações, Ele não é afetado nem determinado pela matéria, espaço ou tempo.

Tempo

E como D’s esta alem da noção de tempo, todas as estruturas temporais – início, período de existência e fim – não se aplicam a Ele. As pessoas geralmente perguntam: se D’s criou o universo, quem, então, criou D’s? A estas se responde que D’s esta alem da noção de tempo que Ele mesmo criou. Portanto Ele não teve início , nunca foi criado. D’s sempre existiu.

O judaísmo sempre afirmou que D’s é Eterno, não teve início, “não envelhece” e não tem fim. Como nos explica o Rabino Aryeh Kaplan, o fato de D’s manter-se apartado de qualquer atributo de tempo nos revela ainda mais sobre a natureza de Sua existência. As mudanças somente ocorrem dentro de uma estrutura de tempo e, portanto, D’s não vivencia mudanças. Este conceito também é mencionado na Bíblia: “Porque Eu sou o Senhor, eu não mudo” (Malaquias 3:6).

Matéria e espaço

Como os atributos de matéria e espaço não se aplicam a D’s, Ele naturalmente não possui aparência nem forma. Em hipótese alguma D’s pode ser um Ser físico, pois tudo o que é físico é feito de matéria e ocupa espaço Basicamente, é esta a razão pela qual D’s não pode ser visto. Quando D’s se revelou ao povo judeu no Monte Sinai, o povo apenas O ouviu, não O podendo ver. E, de fato, a Torá diz que os atributos físicos não se aplicam a D’s: “Guardai, pois, cuidadosamente as vossas almas, pois aparência nenhuma vistes no dia em que o Senhor vosso Deus vos falou, em Horeb (Sinai)” (Deuteronômio 4:15).

Surge, às vezes, confusão, pois a Bíblia parece indicar, em algumas passagens, que D’s tem atributos físicos e humanos e que vivencia mudanças. Um exemplo clássico disto é o verso da Torá que afirma que o homem foi criado à imagem de D’s (Gênese 1:26). No entanto, tal afirmação é apenas uma figura de retórica. Pois, como explicam nossos sábios, se a Torá deve ser compreensível ao homem – um ser finito que vive em um mundo físico finito – precisa, então, falar a linguagem dos homens (Berachot 31a). Portanto, a Bíblia utiliza uma linguagem antropomórfica – atribuindo qualidades humanas a D’s – para que o homem possa, ao menos em parte, entender e relacionar-se com Ele. Assim sendo, ao invés de falar da Infinita Onisciência Divina, a Bíblia diz que os “olhos” de D’s estão em toda a parte e vêem tudo o que se passa no mundo. Quando D’s se contém em aplicar a justiça severa, a Bíblia afirma que Ele “se tornou misericordioso”, ou que “usou Sua mão direita”. Quanto ao conceito de ter o homem sido criado à imagem de D’s, uma das inúmeras explicações para esse verso é que o homem foi criado com uma alma Divina que, como o Criador, é imortal e eterna.

Unicidade Divina

Há ainda um atributo de D’s de importância capital. É revelado no verso mais enfatizado da Torá: “Escuta, ó Israel, o Senhor é nosso D’s, o Senhor é Um” (Deuteronômio 6:4). Tal verso, conhecido como o Shemá Israel, é a mais sagrada de todas as preces judaicas, porque revela o principal atributo Divino. O D’s de Israel é definido por Sua Unicidade. D’s e apenas Ele é a Fonte e o Criador de todos os seres animados e inanimados, espirituais e físicos. Não há outras divindades nem fontes independentes de poder no universo. A Torá nos diz: “Por isso hoje saberás, e refletirás no teu coração, que só o Senhor é D’s em cima no céu, e embaixo na terra; nenhum outro há”. (Deuteronômio 4:39).
Até mesmo a Filosofia deixa claro que D’s necessariamente é Único, e que não pode haver dois Seres Onipotentes. Pois se um é mais poderoso que o outro, obviamente o menos forte não é onipotente. E se ambos são absolutamente iguais em poder, um pode refrear o outro, e, assim, nenhum dos dois é onipotente. Daí, pois, que só pode haver Um Ser Onipotente.

Todos os conceitos da moralidade dependem da Unicidade de D’s. Se D’s não fosse Uno, não haveria código universal de conduta e comportamento humano, nem um código único de Verdade e Justiça. É por este motivo que a Torá afirma que a idolatria – a crença de que existe mais do que um único D’s – equivale à negação de toda a Torá. Os Mandamentos Divinos só podem ser absolutos e supremos se Ele é reconhecido como sendo Uno e o Único Senhor e Juiz do universo.

A Bíblia assim se refere a D’s: “Porque o “Senhor Altíssimo é tremendo, é o grande Rei de toda a terra” (Salmos 47:2). Poderia parecer, como alguns indivíduos pensam erroneamente , que um D’s assim tão grandioso, que não pode ser visto e que é intemporal, fosse distante e inatingível. Acreditam , erroneamente como explicaremos mais adiante , que um D’s que criou todo um universo não poderia ou ” não se interessaria em cuidar ” dos seres humanos, muito menos de cada indivíduo em especial.

Um D’us pessoal

O primeiro dos Dez Mandamentos é a revelação Divina ao povo judeu. Está escrito: “Eu sou o Senhor teu D’s, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão” (Êxodo 20:2).

Alguns comentaristas indagam por que teria D’s estabelecido a Sua existência através do Êxodo, e não através do fato de que Ele criou e rege todo o universo. Por que D’s não teria dito: “Sou o Senhor teu D’s que criou e rege todo o universo”? Estes comentaristas respondem que se D’s Se tivesse revelado como o Criador do Universo, poderíamos pensar que D’s criou o mundo e seus habitantes, retirando-se e afastando-se, a seguir.

O primeiro dos Dez Mandamentos revela que D’s está profundamente envolvido com a Sua criação. É um D’s pessoal, como está escrito: “Perto está o Senhor de todos os que O invocam, de todos os que O invocam em verdade” (Salmos 145:18). Na Bíblia, o profeta Ezequiel fala contra aqueles que clamam que “O Senhor não nos vê, o Senhor abandonou a terra” (Ezequiel 8:12).

Mas é natural que se pergunte como iria um D’s que criou um universo inteiro preocupar-se com os seres humanos. O Rei David dirigiu esta mesma pergunta a D’s: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste; que é o homem, mero mortal, para que dele te lembres? E o filho do homem para que o visites? (Salmos 8:3,4 ).

A resposta a esta e outras perguntas semelhantes é que D’s é Infinito. O Rabi Shneur Zalman of Liadi escreve em sua obra-prima cabalística, o Livro Tanya, que não há lugar algum no universo desprovido da presença Divina. Na linguagem da Cabalá, D’s é mencionado como o Ein Sof – o Infinito, Aquele que não tem fim nem limite.

D’s não é limitado pela matéria, espaço ou tempo; e por ser Uno e Infinito, Ele está em todas as partes a todo o tempo. A infinidade é indivisível e sem dimensões nem limitações e, portanto, para um D’s Infinito, o grande e o pequeno são iguais em magnitude e relevância. Este D’s que olha por todas as galáxias e estrelas no firmamento é igualmente consciente e atento aos detalhes mais ínfimos na vida de cada uma das pessoas. D’s vê o que fazemos, ouve o que dizemos e sabe de tudo o que pensamos e sentimos. A Bíblia nos conta que: ” O homem vê o exterior, porém o Senhor vê o coração” (Samuel 16:7). D’s alegra-se com nosso feitos, partilha de nosso júbilo e sente nosso sofrimento. Pois está escrito: “Ele Me invocará, e Eu lhe responderei; na sua angústia Eu estarei com ele…” (Salmos 91:15). Os sábios do Talmud usam a linguagem antropomórfica ao dizer que quando uma pessoa está em aflição, a Divina Presença está em aflição (Sanhedrin 6:5).

Apesar de D’s só se ter revelado no Sinai ao povo judeu, incumbindo-os de uma missão Divina, a Bíblia deixa claro que D’s é o Pai de todos os seres humanos (Malaquias 2:10). Juntamente com Sua Unicidade, D’s é definido, acima de tudo, por sua Bondade, Amor e Misericórdia Infinitas. Como está escrito: “Com amor Eterno Eu te amei…” (Jeremias 31:3). Em Sua Bondade Infinita, D’s concede Sua Providência e Sua Atenção a cada uma de Suas criaturas. Pois está dito: “Ele fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e mantém para sempre a sua fidelidade. Ele faz justiça aos oprimidos e dá pão aos que têm fome” (Salmos 146:6-7). Também está escrito: “O Senhor é bom para todos, e as Suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras” (Salmos 145:9).

Quanto ao povo judeu, D’s o chama o Seu primogênito, Sua glória, Seu tesouro, e uma nação de justos da qual se orgulha. O Baal Shem Tov, fundador do movimento Chassídico, ensina que D’s ama cada judeu mais do que os pais amam seu único filho, nascido em sua velhice. E este amor Divino é incondicional e se aplica a cada judeu, sem distinção. Maimônides escreveu que uma pessoa pode passar a vida em pecado, blasfemando contra D’s, mas Este sempre está pronto a aceitá-lo de volta e a lhe permitir um novo começo.

Maimônides inicia seu Código de Leis afirmando que o fundamento de todos os fundamentos é a existência de D’s. Encerra este Código falando de uma era em que o mundo inteiro estará ocupado apenas em conhecer os mistérios de D’s. Diz que será a época em que não haverá fome nem guerras, dificuldades nem sofrimento. A bondade fluirá em abundância e todas as benesses estarão disponíveis como o pó.

Esta época, conhecida como a Era Messiânica, será a redenção suprema para toda a humanidade. Falando desta era, dizemos ao término de nossas preces diárias: “Naquele dia D’s será Um e Seu Nome será Um” (Zacarias 14:9). Nossos sábios fazem a seguinte pergunta: Não será D’s sempre Um, como o proclamamos no Shemá? Ao que respondem explicando que na redenção messiânica não veremos mais diferenças entre às vezes D’s que nos cobre de bondade e outras nos cobre de tristeza. Naquele época ficará claro que D’s apenas pratica o bem, e que tudo o que ocorre no mundo – mesmo o que é visto pelos homens como sendo ruim e doloroso – na realidade visa o próprio bem da humanidade.

O Rebe de Lubavitch costumava proclamar que esta época deixara de ser um sonho distante, e era uma iminente realidade. Perguntavam-lhe como ele podia antever tanta coisa boa para o futuro de uma era marcada por tanta maldade, especialmente com o povo judeu. O Rebe respondia que a hora mais escura é a que antecede a aurora. O Êxodo foi precedido pela escravidão. A mais intensa opressão de nossos antepassados no Egito ocorreu justamente antes de sua libertação.

Nossos sábios nos ensinam que a redenção suprema irá comparar-se à redenção de nosso povo da escravidão no Egito. Na Bíblia, D’s mesmo nos promete: “Eu te mostrarei maravilhas, como nos dias da tua saída da terra do Egito” (Miquéias 7:15). Será uma era de paz universal na qual a existência e a presença de D’s serão claras para todo o mundo. Não mais haverá idolatria nem interpretações errôneas sobre D’s Vivo e Verdadeiro. O mundo inteiro reconhecerá que o D’s de Israel é o Rei Único de todo o universo. E, naquele dia, toda a humanidade perceberá e proclamará que D’s é Um e Seu Nome Santificado é Um.

 

 

Fonte: http://www.morasha.com.br/ –  Edição 28 – Abril de 2000

 

ALBERT EINSTEIN

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Einstein: cientista e humanista

Autor da Lei da Relatividade e Prêmio Nobel de Física de 1922, Albert Einstein foi eleito Personalidade do Século XX pela revista Time. Considerado o pai da Física Atômica, seu nome é consenso na comunidade científica mundial e ninguém duvida de que suas teorias revolucionaram a ciência abrindo perspectivas até então inimagináveis.

 

Não há ninguém no mundo que não tenha ouvido o nome de Einstein. Seja como humanista, cientista ou homem, todos falam de maneira corriqueira sobre a Teoria da Relatividade. No entanto, nem sempre foi assim. Houve mesmo momentos, no início de sua vida profissional, em que nem emprego como professor ele conseguia, apesar de seu diploma e de seus excelentes resultados acadêmicos.

Segundo a revista Time, que traz em sua edição de 10 de janeiro deste ano uma ampla reportagem sobre o físico, Einstein conseguiu seu primeiro emprego graças a uma recomendação do pai de Marcel Grossman, um de seus melhores amigos. Foi, então, em 1901, contratado como assistente técnico do Departamento de Patentes da Suíça. Quatro anos mais tarde, obtinha o seu doutorado.

Judeu assumido, apesar de ter sido criado em um lar no qual o judaísmo jamais fora praticado e, posteriormente, simpatizante do sionismo, Einstein sempre acreditou em D’us. Sempre defendeu a ideia de o cosmo ser uma obra harmoniosa, fruto de uma inteligência suprema, responsável pela organização da matéria e da vida.

Foi elogiado por um grão-rabino da França, Jacob Kaplan, que admirou a sua capacidade de conciliar a rigorosa pesquisa sobre o universo com a convicção da existência de uma força criadora superior. Sua ligação com o sionismo e o Estado de Israel levou o então primeiro-ministro David Ben-Gurion, em 1952, a convidá-lo a suceder Chaim Weizmann na presidência do Estado Judeu, convite que o físico recusou alegando não estar à altura do cargo. Anteriormente, havia participado ao lado de Weizmann da campanha para arrecadação de fundos para a criação da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Einstein conseguiu ser a rara combinação de um gênio que possui um profundo senso de moral e é totalmente indiferente às convenções. Dono de uma personalidade controversa, segundo os seus amigos mais próximos, um tanto quanto temperamental principalmente em suas relações pessoais, Einstein foi o símbolo de tudo o que era novo, original e incerto na era moderna.

O jovem Einstein

Albert Einstein nasceu em Ulm, Alemanha, em 1879. Em sua certidão de nascimento constam as seguintes informações: “Nº 224. Ulm, 15 de março de 1879. Hoje, o comerciante Hermann Einstein, residente em Ulm, Bahnhofstrasse, 135, judeu, pessoa conhecida, compareceu perante o escrivão abaixo e declarou que uma criança do sexo masculino, que recebeu o nome de Albert, nasceu em Ulm, na sua residência, filho de Pauline Einstein, sua esposa, com o sobrenome Koch de solteira, judia, no dia 14 de março de 1879, às 11h30. Lido, confirmado e assinado: Hermann Einstein. O escrivão, Hartman”. A casa de Bahnhofstrasse foi destruída durante um ataque aéreo em 1944, mas o registro de nascimento ainda se encontra nos arquivos de sua cidade natal.

Albert foi o primeiro dos filhos de Hermann e Pauline, depois do qual nasceu Maria, em 18 de novembro de 1881. Segundo Abraham Pais, autor da obra “Sutil é o Senhor…A Ciência e a Vida de Albert Einstein”, provavelmente ela foi o ser humano a quem Einstein se sentiu mais ligado ao longo de sua vida. Chamava-a, carinhosamente, de Maja. Criados no seio de uma família predominantemente liberal, Einstein e sua irmã não receberam educação religiosa no lar e lhes foi transmitida uma visão pragmática face à religião.

Em um ensaio biográfico de Maja sobre o irmão, terminado em 1924, e mencionado na obra de Pais, há muitas informações sobre os primeiros anos de Einstein. São recordações familiares entre as quais ela menciona a preocupação da mãe, quando Einstein nascera, por causa da grande e angulosa parte posterior da cabeça do bebê; e da primeira reação de uma das avós ao ver o então mais jovem membro da família: “Viel zu dick! Viel zu dick” (“É pesado demais”). Maja fala também dos primeiros receios familiares de que a criança pudesse ser retardada, por causa do tempo excessivo que levou para começar a falar.

Segundo a obra de Pais, com base em uma das primeiras memórias de infância do próprio Einstein, quando tinha entre dois e três anos, ele queria dizer frases completas. Ensaiava a frase para si mesmo, dizendo-a em voz baixa. Se lhe parecesse boa, pronunciava-a em voz alta. Pais afirma, também, que Einstein era muito calmo quando pequeno, preferindo brincar sozinho. “Todavia era temperamental. Podia explodir de cólera. Nesses momentos, a face empalidecia, a ponta de nariz embranquecia e podia descontrolar-se. O pequeno e querido Albert chegou a arremessar objetos na irmã em várias ocasiões, mas os ataques de cólera cessaram por volta dos sete anos”, lembra Maja em seu ensaio. Ainda em sua infância, aprendeu a tocar violino, tornando-se um amante da música, mas jamais um músico brilhante.

Seis meses após o nascimento de Einstein, a família mudou-se para Munique, onde ele iniciou sua vida escolar posteriormente no Luitpold Gymnasiun, no qual permaneceu até os 15 anos. Em todos esses anos, obteve sempre, ou quase sempre, as notas mais altas em Matemática e em Latim. Sobre este período, sua irmã escreveu: “No conjunto, Einstein, no entanto, não gostou daqueles anos de escolaridade; professores autoritários, estudantes servis, ensino livresco – nada disso lhe caía bem. Além do mais, tinha uma natural antipatia por (…) ginástica e esportes (…). Tinha tonturas e cansava-se facilmente. Sentia-se isolado e fazia poucos amigos na escola”.

Alguns anos mais tarde, seus pais foram para Milão, Itália, mas ele continuou seus estudos na Suíça e, em 1896, ingressou na Escola Politécnica Federal, em Zurique, onde estudou Física e Matemática. Foi neste ano que decidiu desistir de sua cidadania alemã, pagando então três marcos por um documento, autenticado em Ulm, que declarava que já não era mais cidadão alemão. Em 1901, ao formar-se, adquiriu a cidadania suíça e começaram suas dificuldades para conseguir lecionar. Foi quando obteve o emprego no Departamento de Patentes em Berna.
Simultaneamente à sua vida profissional e científica, Einstein encontrou tempo para sua vida pessoal. Em 1903 casou com Mileva Maric, ex-colega de estudos, apesar da oposição da família. Teve dois filhos, Hans Albert e Eduard, divorciando-se. O mais velho tornou-se um importante professor de Hidráulica na Universidade da Califórnia e o mais jovem, formado em Música e Literatura, morreu em um hospital psiquiátrico na Suíça. Em 1919, Einstein e Mileva divorciaram-se e ele casou-se com sua prima, Elsa Einstein, que faleceu em 1936.

Início do sucesso

Em 1909, Einstein tornou-se professor Extraordinário em Zurique e, dois anos mais tarde, professor de Física Teórica em Praga. Em 1912, passou a ocupar o mesmo cargo em Zurique. Em 1914, foi indicado diretor do Instituto Kaiser Wilhelm de Física e professor da Universidade de Berlim, tornando-se, novamente, cidadão alemão no mesmo ano. Em 1920, durante uma de suas aulas em Berlim, foram realizadas manifestações anti-semitas, fato que o levou a deter-se com mais atenção aos fatos que então ocorriam na Alemanha.

Um ano mais tarde, fez sua primeira visita aos Estados Unidos cujo objetivo principal era arrecadar fundos para a construção da Universidade Hebraica de Jerusalém. Na ocasião, recebeu a Medalha Barnard e deu várias palestras. Em 1922, recebeu o Prêmio Nobel de Física, não pela Teoria da Relatividade, mas por um trabalho de 1905 sobre os efeitos fotoelétricos. Ele não participou da cerimônia de premiação pois estava no Japão. Ao longo de sua vida, visitou vários países, incluindo alguns da América Latina.

Em 1933, Einstein renunciou mais uma vez a cidadania alemã por razões políticas e emigrou para os Estados Unidos, onde assumiu a função de professor de Física Teórica na Universidade de Princeton. Tornou-se cidadão americano em 1940, mas manteve a cidadania suíça. Aposentou-se em 1945.

Ao longo de sua vida, Einstein atuou em prol da paz. Em 1944, por exemplo, autografou o seu trabalho de 1905 e permitiu que fosse leiloado para ajudar as vítimas da guerra. Cerca de seis milhões de dólares foram arrecadados e o manuscrito encontra-se atualmente na Livraria do Congresso.

Doou os manuscritos de seus trabalhos científicos para a Universidade Hebraica de Jerusalém, da qual foi presidente de 1925 a 1928. Recusou um convite para retornar ao cargo em 1933, por discordar da forma como era administrada. Uma semana antes de sua morte assinou sua última carta. Foi endereçada a Bertrand Russel na qual concordava em que seu nome fosse incluído em um manifesto pedindo a todas as nações que abandonassem as armas nucleares. Uma posição totalmente diferente da que possuía em 1939, quando defendeu o desenvolvimento da bomba atômica.

Einstein morreu no dia 18 de abril de 1955 em Princeton, Nova Jersey. Seu corpo foi cremado e seu cérebro doado a Thomas Harvey, patologista do Hospital de Princeton. Deixou várias histórias sobre sua vida e personalidade, muitas da quais, apesar de repetidas inúmeras vezes como se fossem verdadeiras, não passam de simples histórias, como por exemplo, o fato de que não conseguiu passar em matemática quando ainda era jovem; ou então que não era capaz de lembrar o endereço de sua casa ou de contar o troco correto da passagem de ônibus…

Em 1996, a Fundação Filantrópica Jacob E. Safra e a família Safra doaram ao Museu de Israel os manuscritos de Albert Einstein sobre a Teoria Especial da Relatividade, datados de 1912.

Idéias e teorias

Einstein sempre teve uma visão clara sobre os problemas da Física e a determinação de encontrar soluções. Tinha uma estratégia própria e era capaz de visualizar as etapas para atingir seus objetivos. Para ele, cada êxito era apenas mais um passo para o próximo avanço. Ele descobriu, apenas pensando sobre isso, a estrutura essencial do cosmos. Os pilares do mundo atual – a bomba, viagens espaciais, eletrônica, entre outros – têm a marca de suas impressões digitais.

Desde que começou a se dedicar à ciência, o então jovem físico percebeu algumas inadequações nas idéias de Newton e desenvolveu uma teoria especial da relatividade em uma tentativa de reconciliar as leis de mecânica com o campo da eletromagnética. Lidou com problemas clássicos de mecânica estatística os quais se fundiam com a teoria quântica, entre outros temas.

Durante sua permanência no Departamento de Patentes da Suíça, aproveitando o tempo livre que tinha, produziu uma grande parte dos seus trabalhos científicos que lhe garantiram posterior notoriedade. Em 1903 e 1904 publicou artigos sobre os fundamentos da mecânica estatística. Em 1905 terminou um trabalho que lhe garantiu o Prêmio Nobel de Física em 1922, além de finalizar o texto que lhe deu o título de Doutor pela Universidade de Zurique. Em finais de 1906, acabou um artigo fundamental sobre calores específicos e, no ano seguinte, deu as primeiras contribuições importantes para a Teoria da Relatividade geral.

Durante os anos 20, Einstein trabalhou no campo da unificação das teorias, embora prosseguisse com seus estudos sobre as probabilidades de interpretação da teoria quântica. Deu continuidade a estas pesquisas após emigrar da Alemanha para os Estados Unidos. Contribuiu também para o desenvolvimento da mecânica estatística. Ao aposentar-se continuou a trabalhar rumo à unificação dos conceitos básicos de física assumindo uma posição geometricamente oposta a da maioria dos físicos.

Seus principais trabalhos são: “Teoria Especial da Relatividade”, 1905; “Teoria Geral da Relatividade”, 1916; “Investigações sobre a Teoria do Movimento Browniano”, 1926; e “Evolução da Física”, 1938. Entre seus trabalhos não científicos destacam-se “Sobre Sionismo”, 1930; “Minha Filosofia”, 1934; e “Meus últimos anos”, 1950.

Einstein recebeu o título de Doutor Honorius Causa em Ciência, Medicina e Filosofia de diferentes universidade americanas e europeias  Durante os anos 20, lecionou na Europa, América e Leste Europeu e recebeu os títulos de Fellowship e Membro-Honorário da várias instituições científicas renomadas de todo o mundo. Recebeu vários prêmios entre os quais O Nobel de Física em 1922; a Medalha Copley da Sociedade Real de Londres, em 1925; e a Medalha Franklin, do Instituto Franklin, em 1936.

Frases de Einstein

“A paixão pelo conhecimento em si mesmo, a paixão da justiça até o fanatismo e a paixão da independência pessoal exprimem as tradições do povo judeu e considero minha pertença a esta comunidade como um dom do destino.

Aqueles que hoje se desencadeiam contra os ideais de razão e de liberdade individual e que, com os meios do terror, querem reduzir os homens a escravos imbecis do Estado, nos consideram com justiça como seus irreconciliáveis adversários. A História já nos impôs um terrível combate. Mas, por longa que seja nossa defesa do ideal de verdade, de justiça e de liberdade, continuamos a existir como um dos mais antigos povos civilizados, e sobretudo realizamos no espírito da tradição um trabalho criador para a melhoria da humanidade”.

“A História confiou-nos nobre e importante missão sob a forma de uma colaboração ativa para construir a Palestina… Temos a possibilidade de instalar focos de civilização nos quais todo o povo judeu pode reconhecer sua obra. Esperamos profundamente estabelecer na Palestina um lugar para as famílias e para uma civilização nacional própria, que permita despertar o Oriente Médio para uma vida econômica e intelectual”.

“Tem um sentido a minha vida? A vida de um homem tem sentido? Posso responder a tais perguntas se tenho espírito religioso, Mas, ‘fazer tais perguntas tem sentido?’ Respondo: ‘Aquele que considera sua vida e a dos outros sem qualquer sentido é fundamentalmente infeliz, pois não tem motivo algum para viver”.

Bibliografia

Pais, Abraham, “Sutil é o Senhor…A Ciência e a Vida de Albert Einstein”
Einstein, Albert, Como Vejo o Mundo
Revista Time, 10/01/2000
Manuscritos de 1912 da Teoria Especial da Relatividade de Einstein

 

Fonte: http://www.morasha.com.br/  -  Edição 28 – Abril de 2000

 

 

Purim e a Providência Divina

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Purim é uma festividade judaica única. Enquanto as demais festas religiosas enfatizam a espiritualidade – em Chanucá, por exemplo, acendemos velas que simbolizam a alma do homem e a Torá – Purim é guardada cumprindo-se quatro mandamentos, três do quais envolvem alimentos e bebidas.

 

Precisamos ter uma refeição festiva e abundante; enviar presentes com dois ou mais alimentos prontos para os amigos; doar dinheiro aos pobres, para que eles, também, possam desfrutar da festa; e estar presente na sinagoga para ouvir a leitura da Meguilat Esther. O principal tema de  Purim é a alegria, assim, além dos fartos alimentos e bebidas, realizam-se desfiles e celebrações, e as pessoas e crianças se fantasiam e usam divertidas máscaras.

Purim é uma ocasião festiva, mas pode dar a impressão de ser extremamente materialista. Mesmo a leitura pública daMeguilat Esther aparenta ser despida de espiritualidade, pois entre os 24 livros do Tanach (Torá, Profetas e Escritos Sagrados), é o único que nunca menciona o nome de D’us. Isso parece indicar que D’us não participou na história dePurim.

O mandamento dessa leitura da Meguilá parece ser a antítese das luzes de Chanucá: ao invés de dar publicidade a um milagre Divino, aparentemente aqui há uma negação do mesmo. De fato, podemos perguntar-nos por que a Meguilat Esther foi incluída no Tanach. Não se trata de um livro de mandamentos Divinos, como a Torá, tampouco uma ode a D’us, como o Livro dos Salmos. Pelo contrário, lê-se o Livro de Esther como um romance, onde há heróis e vilãos, tramas de conspirações e assassinatos, amor e sedução, reviravoltas, e, por fim, um final que foi plagiado, repetidamente, por escritores e cineastas: o mal se volta contra quem o iniciou, enquanto os heróis, após passar por um período de turbulência e sofrimento, emergem triunfantes.  Uma história fascinante e divertida, com certeza; mas seus autores acharam por bem não elencar D’us como um de seus personagens.

Um dia no qual comemos e bebemos, vestimo-nos com fantasias, realizamos festas e vamos à sinagoga para ouvir a leitura pública de uma história na qual não se menciona nem uma única vez o nome do Todo Poderoso parece contrário ao espírito do judaísmo. Contudo, nossos Sábios sempre prezaram a festa de Purim e nos ensinaram que deve ser celebrada como o dia mais jubiloso do calendário judaico. Os Cabalistas chegam ao ponto de equipará-la ao dia mais sagrado do ano: eles indicam que Yom HaKipurim literalmente significa “o Dia da Expiação”, mas também, o “Dia comoPurim” (Yom (Ha) ke´Purim). Quanto ao texto que conta sua história, além de ter sido escolhido para integrar o Tanach, aMeguilat Esther foi comentada por nossos maiores Sábios.  Há um tratado inteiro do Talmud – Tratado Meguilá – que discute, entre outros, a Meguilat Esther e a história e as leis de Purim

Mas, se Purim é uma festividade tão sagrada, por que razão seus mandamentos são tão materialistas? E se a Meguilat Esther é um livro sagrado, digno de ser incluído no Tanach, por que razão não faz menção a D’us sequer uma única vez?

Uma história feliz e inesperada

A história de Purim, segundo o relato da Meguilat Esther e a elucidação do Talmud e do Midrash, é uma saga com final feliz e inesperado, constituída por um sem fim de eventos fortuitos – a que muitos chamam de “coincidências”.

O rei da Pérsia, Achashverosh, que reinava sobre um grande império, organizara uma celebração com duração de um semestre. Ele ordenou à sua mulher, a rainha Vashti, que desfilasse nua durante as celebrações, como forma de mostrar sua grande beleza. Normalmente, ela não se teria oposto àquele pedido, no entanto, como havia contraído uma terrível doença de pele, não quis revelar o seu aspecto desagradável. O rei, furioso com sua recusa, fez com que a banissem do reino e a executassem.

Como o rei necessitava uma nova rainha, seus mensageiros saíram em busca de lindas moças, levando-as ao harém real. Uma delas era Esther, que era judia.  Ela também, por “coincidência”, era parenta de Mordechai – líder, à época, do Povo Judeu – que a criara.  Entre todas as mulheres do harém, é com Esther que o Rei se encanta e por quem se apaixona.

Enquanto Esther vive com Achashverosh em seu palácio, Mordechai toma conhecimento de um complô para assassinar o rei. Ele se apressa em levar a informação à Esther. O assunto é investigado e corroborado, sendo executados os que conspiravam contra a vida do soberano. Esther comunica a Achashverosh que fora Mordechai quem os prevenira sobre a conspiração. Inexplicavelmente, Mordechai não é recompensado por ter salvado a vida do rei; mas seu ato heroico é registrado nas crônicas reais. 

A trama se intensifica quando Haman – um homem que, como Hitler, era obcecado com a idéia de extirpar o Povo Judeu da face da Terra, de uma hora para outra, sobe ao poder e se torna primeiro ministro do reino. Ele convence Achashverosh – que não sabe que sua amada esposa Esther é judia – a lhe dar permissão de executar uma Solução Final para o Problema Judeu.  Haman estava determinado a executar Mordechai, que se recusa a se curvar perante ele, e, em seguida, a exterminar todos os judeus – homens, mulheres e crianças.

Haman manda construir a forca onde executaria Mordechai. Mas, na noite antes da planejada execução, o rei Achashverosh acorda em meio a seu sono e não consegue voltar a dormir. Pede então a seus serviçais que leiam para ele as crônicas reais. Entre os relatos encontra-se o episódio em que Mordechai havia salvado sua vida. Achashverosh pergunta aos serviçais se Mordechai tinha sido recompensado por tão nobre feito e é informado de que não. O Rei decide que era chegada a hora de pagar sua dívida de gratidão. E assim, no dia em que Mordechai devia ser executado, ele é recompensado pelo rei Achashverosh. Para cúmulo da ironia, o Rei ordena a Haman que ele, pessoalmente, renda o tributo ao líder dos judeus. Este se torna o momento da virada na história: a roda da vida começa a girar para o protagonista e o antagonista.

Enquanto a sorte de Mordechai começa a subir, a de Haman cai vertiginosamente. O clímax ocorre quando Esther – que vinha tramando secretamente com Mordechai uma forma de frustrar os planos genocidas de Haman – finalmente revela a Achashverosh que era judia. O rei desencadeia sua fúria contra Haman, e o vilão é enforcado no próprio patíbulo que construíra para Mordechai.  A história termina com Haman morto, em desgraça. Seus dez filhos malvados também foram enforcados – assim como o foram os dez filhos espirituais de Hitler após os julgamentos de Nuremberg. A Solução Final para o Problema Judeu é frustrada, Esther continua como rainha, Mordechai se torna o novo primeiro ministro do reino e os judeus passaram a ser honrados e favorecidos. Como escreveu Shakespeare: “Tudo bem quando termina bem”…

Mas é bem possível que tudo não tivesse terminado bem se qualquer um dos eventos da história de Purim tivesse sido um pouco diferente. E se a rainha Vashti não tivesse contraído uma doença de pele justo antes das celebrações? E se o rei Achashverosh tivesse sido mais compreensivo e tivesse decidido perdoá-la? E se uma moça não judia tivesse atraído seus olhares e fosse “a eleita” para sua rainha? E se uma moça judia fosse escolhida, mas não Esther – alguém que não conhecesse Mordechai, alguém que preferisse manter sua identidade judaica em segredo, e que não tivesse feito nada para salvar seu povo? E se jamais tivesse havido um complô para matar o Rei? E se Mordechai não tivesse tomado conhecimento de tudo? E se o Rei não tivesse despertado no meio da noite antes da planejada execução de Mordechai? E se outras passagens das crônicas reais, que não aquela sobre o nobre gesto do líder judeu que lhe salvara a vida, lhe tivessem sido lidas? E se Mordechai tivesse sido recompensado por seu ato ao invés de ter um mero registro nas crônicas reais? 

Há outros eventos fortuitos na história de Purim. Mencionamos alguns deles para ilustrar que bastava algum acontecimento, de maior ou menor porte, ter-se desenrolado de forma ligeiramente diferente para que a história fosse completamente outra. Mas como devemos interpretar esta cadeia de ocorrências fortuitas? Teriam os judeus sido poupados da aniquilação porque Alguém os guardava – trabalhando por trás dos bastidores para poupá-los? Ou teria a série de coincidências, resultado, em última instância, na salvação dos judeus?

Providência Divina ou simples coincidência?

Falando de modo geral, todos os seres humanos se dividem em dois grupos. Quando algo notável acontece com os integrantes do primeiro grupo, eles o entendem como algo mais do que simplesmente sorte; consideram como evidência de que Alguém zela por eles. Para tais pessoas, tudo é um sinal ou mensagem Divina e nada na vida é simples coincidência. Em contraste, os que pertencem ao segundo grupo, mesmo crentes em D’us, não endossam a ideia da Providência Divina. Portanto, sempre que algo de fortuito lhes ocorre, eles o consideram uma coincidência, e sempre que são confrontados com uma situação de incerteza, sentem-se apreensivos e até temerosos, pois crêem que nós, seres humanos, estamos sós neste mundo, sem ninguém que zele por nós.

Todos nós, judeus e não judeus, nos enquadramos em um desses dois grupos. Interpretamos os eventos felizes em nossas vidas como sinais Divinos, milagres? Ou os vemos como meras coincidências?

À luz desta pergunta, podemos abordar o mistério da Meguilat Esther não mencionar o nome de D’us sequer uma vez. Quem a escreveu? Não foi nenhum dramaturgo laico, mas seus próprios protagonistas: Mordechai e Esther. E foram os membros da Grande Assembleia, os Anshei Knesset Ha’Guedolá – constituída por 120 sábios, escribas e profetas – que  a incluíram entre os 24 livros do Tanach. Os autores da Meguilá omitiram propositalmente o Nome de D’us, e os Homens da Grande Assembleia corroboraram sua decisão, pois a história de Purim tem o propósito de nos ensinar uma lição que é ainda mais profunda do que a que nos é transmitida pelas velas de Chanucá.  Esta lição é que D’us governa Seu mundo enquanto Ele Próprio permanece oculto.  A mensagem da Meguilá é atemporal e universal.

Em Pessach, celebramos os milagres que D’us fez em favor do Povo Judeu na época de Moshé – no Egito e no deserto de Sinai.  Em Chanucácelebramos os milagres que D’us realizou em prol de nossos antepassados na época do segundo Templo Sagrado. Mas, desde então, quando foi que D’us realizou milagres? A Meguilat Esther ensina que o Todo Poderoso nunca cessou de fazer milagres, mas Ele agora trabalha por trás dos bastidores. Para simultaneamente fazer milagres e ocultar a Sua Presença e participação, Ele orquestra os eventos em nossas vidas em uma forma que nos faz imaginar a quem os atribuir: à Providência Divina ou simplesmente à sorte.

Não é apenas a Meguilat Esther, mas Purim como um todo que tem como seu tema básico e subjacente a ocultação Divina. Até mesmo o nome da protagonista da história, Esther, alude a isso. Este nome é derivado da palavra hebraica “Hester”, que significa “ocultação”, e alude ao conceito deHester Panim – a ocultação da “Face Divina”: uma época quando D’us não mais Se revela abertamente.

De fato, Esther nem era mesmo seu verdadeiro nome, que era Hadassah. O nome Esther, muito comum na Pérsia antiga, fora escolhido para ocultar sua identidade judaica até o momento em que ela a tornasse pública.

O costume de usar fantasias e máscaras em Purim também faz referência à ocultação Divina. Como o relato da Meguilá, aparentam ser mero entretenimento, mas transmitem uma séria mensagem: a de que D’us usa um disfarce e uma máscara e estes são o curso natural dos eventos e as leis naturais do mundo, que ocultam a Sua Presença e a Sua Providência. De fato, os Cabalistas ensinam que a palavra hebraica Olam, mundo, deriva da palavra Helem, que significa “oculto”. Vivemos em um mundo no qual seu Criador e Governante – Aquele que verdadeiramente comanda o espetáculo – permanece nas sombras.

O Nome de D’us foi propositalmente deixado fora da Meguilá para servir como uma mensagem e um desafio para todos os judeus e, de fato, para todos os seres humanos: não apenas quando ouvirmos a história de Purim, mas em nossa vida diária, vemos sinais Divinos – milagres ocultos – ou apenas coincidências? Colocando de outra maneira: Estará alguém zelando por nós? Ou nós, os 7 bilhões de seres humanos, estamos completamente sós neste mundo?

Três tipos de milagres

Há três festas judaicas que comemoram a salvação do Povo Judeu –PessachChanucá e Purim – sendo que cada uma simboliza um tipo diferente de milagre.  Em Pessach, celebramos milagres sobrenaturais ocorridos na época em que Moshé liderou o Povo Judeu: as 10 pragas, a divisão do mar, o maná que caía dos céus e outros mais. Esses milagres Divinos foram tão óbvios que mesmo o Faraó e seus magos idólatras não puderam negar sua Origem. Mas após Moshé Rabenu, milagres sobrenaturais em tamanha quantidade e magnitude jamais voltaram a ocorrer. 

Já os milagres que celebramos em Chanucá são uma mescla entre o natural e o sobrenatural. São naturais no sentido de que não caíram dos Céus: os Macabeus tiveram que lutar para vencer. Ademais, uma superpotência ser derrotada por um exército paramilitar, apesar de altamente improvável, não pode ser considerado um evento sobrenatural. Há apenas poucas décadas, as duas grandes superpotências foram derrotadas por exércitos de guerrilhas: os americanos pelos vietcongues e os soviéticos pelos afegãos. 

Daí a necessidade de um segundo milagre em Chanucá: o suprimento de azeite para um dia que ardeu durante oito dias.  Este milagre, que foi, de fato, sobrenatural, foi necessário para fazer entender ao Povo Judeu que sua vitória militar tinha sido também milagrosa, ainda que natural.  Mas mesmo os milagres de Chanucá, aos quais anunciamos acendendo as velas da festividade, estes ocorreram em nível nacional, quando os judeus viviam na Terra de Israel – a Morada Terrena de seu Pai Celestial. Sua luta era empreendida em nome de D’us, para preservar a Sua Torá e reaver Seu Templo Sagrado. Portanto, não surpreende o fato de o Divino ter vindo em seu socorro: o Rei lutou ao lado de Seus leais soldados.

Mas, será que D’us opera milagres por nós, individualmente, mesmo quando vivemos fora da Terra de Israel? Purim nos ensina que Ele o faz. Mas se por um lado os milagres de Pessach foram sobrenaturais e os de Chanucá uma mistura do natural com o sobrenatural, os de Purim foram unicamente do tipo natural. Milagres desse tipo são menos empolgantes do que os demais, mas em alguns aspectos, são os mais maravilhosos, pois acontecem o tempo todo, sem que nos demos conta de estarem ocorrendo.

A seguinte analogia ajuda a transmitir a razão para um milagre natural ser, de certa forma, superior a um sobrenatural. De tempos em tempos, temos notícia de uma operação extraordinária realizada pelas Forças Especiais do exército de Israel. Esses feitos heroicos são semelhantes a milagres sobrenaturais no sentido de serem louvados e celebrados e causarem um “big-bang” no mundo. Mas raramente ouvimos falar das inúmeras vezes em que os espiões israelenses – pessoas que ocultam sua identidade – frustram um ataque terrorista. Somente os espiões e os chefes dos serviços de inteligência em Israel estão cientes de quantas vezes eles conseguiram abortar tragédias e sofrimento. Em Israel e na Diáspora, eles são heróis judeus dos tempos modernos que zelam por nós; mas como são espiões, não podem revelar sua identidade, nem o que fazem, muito menos o que sabem. Portanto, raramente chegam ao nosso conhecimento seus esforços extraordinários e heroicos. As Forças Especiais de Israel realizam feitos que são espetaculares, porém raros. Em contraste, os espiões agem nas sombras, mas trabalham todos os dias para nos salvar contra aqueles que querem nosso mal.

Esta analogia está longe de ser perfeita, porque diferentemente dos espiões, D’us está em toda parte. Mas serve para transmitir a ideia de que a qualquer momento podemos vivenciar milagres, ainda que naturais. Como ensina o Talmud, não podemos sequer imaginar quantas vezes na vida D’us evitou males que vinham em nosso caminho. E mais, como o Todo Poderoso habita acima de tudo e do tempo, Ele zela por nós no presente e também olhando para o futuro. Isto significa que um evento mundano e aparentemente inconsequente poderia ter, muitos anos depois, um enorme significado – poderia ter sido um grande milagre. 

A história de Purim é o maior exemplo disto.  Poucas pessoas estão cientes de que os eventos narrados na Meguilá ocorreram durante um período de 12 anos.  Muitos dos eventos que constituem a história de Purim provavelmente passaram despercebidos pela grande maioria dos judeus que viviam no reinado de Achashverosh. Que diferença fez para eles o fato de a rainha Vashti ter-se recusado a desfilar nas comemorações? Doze anos depois, tornou-se claro: iniciava-se um processo que acabaria salvando-os da aniquilação. 

Mas não sejamos ingênuos neste debate sobre os sinais e os milagres Divinos. Acreditar na Providência Divina não significa que a vida seja despida de dor e sofrimento. Nós, judeus, sabemos disto muito bem. O que significa é que como D’us está sempre presente, nada acontece sem uma razão ou propósito: tudo é, de alguma forma, parte de um plano Divino. Um corolário disto é que o homem não pode fugir nem se esconder de D’us.

Os Hamans e os Hitlers do mundo não são apenas a personificação da maldade – eles também são tremendamente tolos. Não importa quão poderoso um homem possa se julgar, é estúpido tentar medir forças com o Infinito. Haman e seus filhos, Hitler e seus capangas, e todos aqueles que com eles colaboraram, são responsáveis perante D’us por todos os seus atos. Sua desgraça e sua morte não foi seu fim, mas apenas o começo do sofrimento eterno que eles vivenciariam após deixar este mundo. Pois não há sofrimento na Terra que seja comparável ao castigo Divino imputado aos malfeitores no Mundo Vindouro. Mas o oposto também é válido para todas as pessoas de bem neste mundo, judeus ou não. Suas boas ações e seu sofrimento não passam despercebidos perante D’us e a recompensa infinita que recebem d’Ele após suas almas deixarem seu corpo sobrepuja qualquer prazer ou júbilo que o ser humano possa conhecer neste mundo. 

O dia mais feliz do ano

Como Purim celebra um tipo de milagre que ocorre frequentemente, é fácil entender por que a festa é tão apreciada por nossos Sábios e pelos Cabalistas. Mas como explicar o caráter materialista dos mandamentos referentes a esse dia? Mencionamos acima que dentre todas as demais festividades, Purim, devido à natureza de seus mandamentos, é a menos espiritual. A realidade é o oposto: os mandamentos de Purim são os mais espirituais, e é por isso que Yom HaKipurim, o dia mais sagrado do calendário judaico – é chamado de um “ dia como Purim”. Os quatro mandamentos de Purim representam a própria essência da Torá.

O mandamento de Mishloach Manot – enviar presentes de alimentos a amigos – destina-se a promover o amor e a amizade entre o nosso povo. Rabi Akiva, o maior mestre do Talmud, ensinava que o mandamento de “Amar nosso próximo como a nós mesmos” é o ensinamento fundamental da Torá (Sifra, Levítico, 19:18). O envio de presentes na forma de alimento é um cumprimento desse mandamento central da Torá.

O mandamento de dar dinheiro aos pobres para que, também eles, possam comer e beber é o mandamento de maior valor da Torá. A Tzedacá – o cuidado com os necessitados – é a Mitzvá que se destaca entre todas as demais. Quando o Talmud de Jerusalém usa a palavra Mitzvá sem especificar qual delas, está implícita a de Tzedacá.  O judaísmo nos ensina que nossa maior preocupação espiritual deve ser atender as necessidades materiais de pessoas carentes. Portanto, quando doamos para os pobres emPurim, estamos cumprindo o mandamento supremo da Torá.

No tocante ao mandamento de fazer uma refeição festiva e abundante, isto nos ensina que D’us está presente em nossa vida não apenas quando oramos e estudamos e realizamos bons atos, mas também quando comemos e bebemos e desfrutamos a vida. Isto, na verdade, faz eco ao próprio tema de Purim: ao fato de que D’us está presente no curso natural da vida. Nossos sábios ensinam, ademais, que D’us se preocupa muito com nosso corpo, talvez ainda mais do que com nossa alma. A razão para tal é que até a mais nobre das almas não pode cumprir os mandamentos Divinos se estiver desprovida de um corpo. Cuidar bem de nosso corpo é, pois, essencial para podermos servir a D’us. O judaísmo dá muita ênfase à vida e à boa saúde, pois quando estas não existem, não podemos cumprir plenamente a missão que nos foi atribuída por D’us na Terra. Como ensinava o Rabi Dov Ber de Mezeritch, o Grande Maguid: “Um pequeno furo no corpo pode causar um enorme vazio na alma”.

E, por fim, no que toca o mandamento de ouvir a leitura da Meguilá, esse ato representa o maior atestado de fé em D’us. Ouvimos essa leitura duas vezes – uma delas na noite de Purim e de novo no dia de Purim – e recitamos uma berachá antes de sua leitura. Ao assim proceder, estamos transmitindo a D’us que nós,  judeus, não nos deixamos iludir por Sua ocultação e não nos intimidamos por um mundo que ousa mascarar o Divino. Apesar do “Hester Panim”, a ocultação da “Face Divina”, acreditamos não em eventos aleatórios nem em coincidências, mas na Providência Divina e nos sinais e milagres Divinos.

Em Purim, as comidas e bebidas, os presentes e as doações, as fantasias e as máscaras, as festas e os desfiles, e o ouvir atentamente uma história que nos fascina… tudo isso tem um tema que tudo permeia: o júbilo.  Maimônides, o maior filósofo e codificador da história judaica, escreveu: “O júbilo com o qual o homem deve alegrar-se no cumprimento dos preceitos e no amor a D’us, Aquele que os ordenou, é um ato de suprema devoção Divina” (Hilchot Lulav, 8:15).

Devemos alegrar-nos em todas as festividades judaicas. No entanto, emPurim, há uma medida adicional de júbilo. Por que razão?

Nas demais festas, como PessachSucotShavuot, celebramos a revelação de milagres e a manifestação da “Face Divina”. Em Chanucá, festa das luzes, celebramos o fato de que D’us é encontrado na luz: de tempos em tempos, especialmente quando ousamos erguer-nos contra a escuridão e empreender Suas guerras, Ele faz brilhar Sua Face sobre nós. Por outro lado, em Purim, festa cujo tema é a ocultação Divina, celebramos o fato de que D’us também é encontrado na escuridão – mesmo quando Ele esconde Sua Face de nós.

O Rei David – um homem que conheceu as maiores Alturas e as maiores profundezas – escreveu: “Se eu aos Céus ascendesse, lá Te encontraria, e se às profundezas me lançasse, também lá estarias… De Ti nada encobrem as trevas e para Ti brilha a noite como o dia, pois luz e trevas são para Ti iguais” (Salmos, 139:8, 12).

Purim é o dia mais jubiloso do ano porque nos faz lembrar que onde quer que estejamos – em meio à luz ou em meio às trevas, na mais alta felicidade ou na mais profunda tristeza, neste mundo ou no vindouro – jamais estamos sós.

 

Fonte: http://www.morasha.com.br/ - Edição 74 – dezembro de 2011Imagem

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Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

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600 pessoas chegaram ao topo do Monte Everest em 2012. Este blog tem cerca de 11.000 visualizações em 2012. Se cada pessoa que chegou ao topo do Monte Everest visitasse este blog, levaria 18 anos para ter este tanto de visitação.

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Os números de 2012

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Rashi, o Mestre dos Mestres

Rabenu Shlomo ben Yitzhak, Rashi, o maior de nossos mestres e o erudito bíblico mais brilhante de todos os tempos, é o comentarista clássico da Torá e do Talmud. Sua contribuição ao estudo da Torá é atemporal. Decorridos quase mil anos desde a publicação de suas obras, estas permanecem insuperáveis.

 

Desde o século 12, quando seus escritos foram publicados, os mesmos se tornaram um recurso indispensável para o estudo dos textos sagrados judaicos, adquirindo praticamente o status de texto bíblico. Ao longo da história judaica, muitos sábios e místicos escreveram comentários sobre os Cinco Livros da Torá e o Talmud, mas nenhum deles alcançou a importância e a imortalidade de Rashi.

É imensurável o impacto de suas interpretações e explicações sobre o Tanach, particularmente sobre os Chamishá Chumshei Torá, em todo o mundo judaico. De fato, é raro alguém estudar o Pentateuco sem consultar os comentários de Rashi. E é graças à sua obra que o Talmud, uma verdadeira enciclopédia da Lei e Sabedoria Judaica até então hermeticamente fechada, tornou-se compreensível. As mais brilhantes mentes ainda se surpreendem com a exatidão de suas interpretações e pelo vastíssimo conhecimento que possuía.

A verdade é que em toda a história judaica, ninguém, além de Rashi, conseguiu escreveu um comentário bíblico capaz de ensinar uma criança que acabou de iniciar seus estudos da Torá e, ao mesmo, enriquecer o conhecimento de um grande erudito com toda uma vida dedicada ao estudo dos textos sagrados.

Quase mil anos após ter sido escrita, sua obra ainda é estudada e analisada, pois sempre há algum novo ensinamento a ser descoberto. As palavras de Rashi contêm camadas quase infinitas de significado e até o número de palavras em cada comentário tem um significado especial. É também quase infinito o número de ensinamentos ocultos, muitos dos quais místicos, acobertados por sua linguagem simples ao olhar do leigo.

Ao estudar a obra de Rashi percebe-se que há algo de extraordinário e sobrenatural em seus escritos. É evidente que seu trabalho é fruto da Providência Divina: Rashi foi um canal por meio do qual D’us revelou muitos dos segredos de Sua Torá a Seu Povo. Nenhum Sábio – antes ou depois dele – conseguiu produzir algo que se assemelhasse a seus comentários.

O Mestre dos Mestres

Por que Rabi Shlomo ben Yitzhak é conhecido pelo seu acrônimo? Uma explicação nos é dada por Rabi Chaim ben Attar, o Or HaChaim: o nome Rashi advém das letras iniciais do título Raban shel Israel, “Mestre de todo o Povo de Israel”. Já o grande mestre chassídico, Rabi Nachman de Bretslav, apelidou Rashi de “irmão da Torá”. O título é cabível, pois desde que Rashi publicou seu comentário sobre o Pentateuco, a Torá e ele se tornaram inseparáveis. Contudo, a melhor denominação é simplesmente “ha-Moré ha-gadol” – o Grande Mestre. Rashi é o professor dos professores, o mestre dos mestres, pois, independentemente de idade, sabedoria ou nível de conhecimento, somos todos seus alunos.

Na literatura chassídica, ele é chamado de “o sagrado Rashi”, pois sua pena foi guiada pela própria Shechiná – a Presença Divina. É impossível para um ser humano realizar tudo o que ele realizou. Foi provado que é fisicamente impossível alguém ter tido tempo de escrever todos os comentários que escreveu. Não obstante, não há dúvida de que foi Rashi, sozinho, quem os escreveu.

Nenhum outro Sábio escreveu tanto a respeito de tantas obras judaicas. Os comentários de Rashi elucidam além dos Cinco Livros da Torá, os Livros dos Profetas (Nevi’im), as Escrituras Sagradas (Ketuvim) e quase todos os tratados do TalmudBavli.

Evidentemente, Rashi possuía poderes que iam além das leis da natureza: ou o seu dia possuía mais de 24 horas ou ele conseguia fazer parar o tempo. De qualquer forma, não se trata de um ser humano como outro qualquer. As leis da natureza não se aplicavam a Rashi: sua extensa obra o comprova.

Graças a ele – sua erudição, genialidade e generosidade – qualquer judeu tem a possibilidade de compreender a Palavra de D’us. Se não fosse por ele, o Talmud permaneceria um livro fechado. Antes de seus comentários, poucos eram os que entendiam essa sagrada obra, que é o fundamento da Lei judaica, pois mesmo os eruditos judeus se perdiam no gigantesco labirinto que é o Talmud Bavli.

Por meio de seus escritos – de seu conhecimento enciclopédico e de seu estilo, sempre claro e cativante, preciso e inspirador – os segredos da Torá foram revelados e o Talmud se tornou compreensível. As explicações de Rashi são tão claras, tão didáticas, que, às vezes, quando um aluno estuda sua obra, tem a nítida sensação de que o mestre está estudando ao seu lado, guiando-o.

Apesar de sua grandeza e genialidade, no entanto, a obra de Rashi irradia simplicidade. Em geral, quando buscava a palavra ou a frase certa para explicar um verso bíblico ou um ensinamento talmúdico, o “mestre de todo o Povo de Israel” escolhia a mais simples e acessível. O principal objetivo de Rashi era esclarecer as coisas, principalmente as mais difíceis e complicadas. Ele jamais tentou impressionar com sua sabedoria sem fronteiras, seu domínio dos conhecimentos laicos ou religiosos. Em alguns casos, Rashi até candidamente confessava desconhecer o significado de um verso bíblico ou ensinamento talmúdico, tampouco hesitando em admitir que não conhecia a resposta para uma pergunta ou a solução para uma dificuldade. Nenhum outro Sábio fez o mesmo de forma tão franca e frequente.

A genialidade de Rashi ilumina o texto bíblico. Graças a seus comentários originais e, ao mesmo tempo, fiéis ao texto, o significado de um verso se torna claro, a armadilha das más interpretações é driblada, fazendo emergir detalhes e nuanças que nunca antes haviam sido notadas.

O que mais importava para Rashi era a verdade e seu principal objetivo era revelar o significado literal do texto. Seu principal intuito ao escrever seus comentários sobre os Cinco Livros da Torá foi torná-los compreensíveis até mesmo para uma criança de cinco anos.

Ele próprio declarou: “Vim apenas para explicar o significado simples da Torá ”. Contudo, suas explicações são tão ricas e profundas, tão cheias de sabedoria e significado, que enriquecem até os maiores eruditos da Torá.

A Torá com os comentários de Rashi foi o primeiro livro hebraico a ser publicado – em 1470. Nenhuma obra judaica foi tão difundida: logo atravessou as fronteiras e cruzou os mares. O mesmo vale para seus comentários sobre o Talmud. E é notável que estes, diferentemente dos escritos de Maimônides, nunca foram criticados. Suas obras tiveram aceitação imediata e praticamente unânime.

Mesmo eruditos cristãos se beneficiaram de seus comentários. O erudito franciscano, Nicolas de Lyra, que viveu durante o século 13 e foi o líder dos franciscanos na França, traduziu a obra de Rashi para o latim. Essa tradução teve grande influência sobre Martinho Lutero, cuja tradução da Bíblia para o alemão transformou não apenas a face do cristianismo, mas influenciou toda a história do Ocidente.

Vale ressaltar que Rashi não era apenas um mestre da Torá, mas também dos outros âmbitos do conhecimento humano. Eruditos, inclusive não judeus, ainda estudam suas obras para se aprofundar na língua francesa falada durante a Idade Média; há termos em francês nas obras de Rashi que não se encontram em nenhum outro lugar.

Sua vida

Descendente direto do Rei David, Rabi Shlomo ben Yitzhak nasceu no ano de 1040, em Troyes, França. Sabe-se pouco sobre sua vida.

Acredita-se que seu pai foi um grande erudito. Sua obra sobre os Cinco Livros da Torá faz alusão ao fato, pois seus comentários têm início com uma pergunta de Rabi Yitzhak: por que a Torá, que é, fundamentalmente, um livro de leis, começa com a descrição da criação do mundo? De acordo com vários comentaristas, “Rabi Yitzhak” teria sido o pai de Rashi, e a inclusão da pergunta teria sido uma forma por ele encontrada de homenagear seu pai.

Se são poucos os detalhes históricos que nos chegaram sobre sua vida, muitas, porém, são as lendas que envolvem seu nascimento, sua vida e, mesmo, sua morte.

Uma das lendas conta que a mãe de Rashi, nos últimos meses de gravidez, estava andando por um beco sem saída, estreito e escuro, quando uma carruagem quase a atropela. É salva por milagre, pois, ao apoiar a barriga contra a parede, a pedra curvara-se para dentro. Diz-se que em Troyes ainda pode ser visto um nicho arredondado nas pedras.

Outra lenda conta que no dia de seu Brit Milá, seu pai, Rabi Yitzhak, não estava conseguindo reunir um minyan, 10 homens judeus, para a cerimônia. Os Céus o ajudaram, pois o minyan foi completado por Avraham, nosso Patriarca, o primeiro judeu a ter sido circuncidado. De acordo com outra versão, quem veio para completar o minyan foi Eliyahu HaNavi. É bem verdade que nosso profeta Eliyahu está espiritualmente presente em todoBrit Milá, mas, na circuncisão de Rashi, ele teria comparecido em carne e osso, e, segundo outra lenda, foi Eliyahu HaNavi quem se sentou na cadeira e segurou o menino no colo, durante a circuncisão.

Esse homem racionalista, cuja missão foi tornar compreensível o incompreensível, foi também um grande místico, que vivia uma vida “sobrenatural”, desafiando as leis da natureza e do tempo. Rashi acreditava em milagres – e não apenas os que haviam ocorrido durante os tempos bíblicos e talmúdicos. Ele era da opinião que o advento da Era Messiânica não ocorreria de forma natural – acreditava que o Terceiro Templo não seria construído pelo Mashiach, e sim, pelo próprio D’us, que o faria descer dos Céus à Terra.

Na realidade, Rashi personificava a face revelada e a oculta da Torá: aHalachá – Lei Judaica – e a Cabalá – o misticismo judaico. O perito emHalachá estuda os escritos de Rashi e se maravilha com a contribuição que ele fez à nossa compreensão acerca da dimensão legal da Torá. Ao mesmo tempo, o Cabalista se aprofunda nas palavras de Rashi e se encanta com a forma pela qual o mestre transmitiu profundos ensinamentos cabalísticos por meio de seus comentários, aparentemente simples.

Rashi, que recebeu o nome do homem mais sábio de todos os tempos, o Rei Salomão, Shlomo, nasceu com uma missão e com talentos singulares. De acordo com alguns comentaristas, ele falava todas as línguas, dominava todas as ciências e viajava para terras distantes.

Aluno precoce, começou a escrever seus famosos comentários na juventude. Como vimos acima, na época, era difícil entender o significado das palavras da Torá e o Talmud era indecifrável para a grande maioria dos judeus. O jovem Rashi decidiu, então, escrever explicações e comentários, em linguagem simples, para facilitar o estudo dos textos sagrados.

A Providência Divina o abençoou com oportunidades singulares e com mestres extraordinários, que o ajudaram a cumprir sua missão. Em sua infância, estudou com um tio materno, Rabi Shimon bar Yitzhak, conhecido como Shimon, o Ancião. Aos 18 anos foi estudar em Mainz, na Alemanha, naYeshivá que havia sido fundada por Rabenu Gershom. Chamado de “A Luz do Exílio”, Rabi Gershon foi o primeiro grande erudito do judaísmo do Norte da Europa.

Rabenu Gershom já não vivia quando Rashi chegou à Yeshivá. Mas o jovem estudou com grande eruditos que haviam sido discípulos e alunos da “Luz do Exílio”. O mestre que mais o marcou foi Rabi Yaacov ben Yakar, a quem Rashi admirava e amava mais do que a qualquer pessoa no mundo. “Tudo que sei devo a ele, meu entendimento, minha compreensão e meu coração”, escreveu Rashi a respeito de seu mestre. Foi Rabi Yaacov quem introduziu o jovem aluno aos raros manuscritos do Talmud e a comentários do Midrash, sem os quais seria impossível estudar o Talmud em profundidade. Rashi teve acesso, também, a manuscritos do Talmud que haviam sido escritos por anciãos e pelo próprio Rabenu Gershom – um privilégio raro.

Após deixar Mainz, Rashi foi estudar durante vários anos em Worms, naYeshivá liderada por Rabi Yitzkah Ha-Levi. Na época, os mais renomados centros de estudos judaicos se encontravam na Alemanha, não na França.

Quando Rashi finalmente voltou a Troyes, fundou uma Yeshivá que passou a atrair alunos da França e de outros países, inclusive da Alemanha e da Europa Oriental.
O conhecimento de Rashi era extraordinário, ele sabia muito sobre praticamente tudo: não apenas a Torá e o Talmud, mas também as Ciências, inclusive Matemática, Astronomia, Geologia e Zoologia.

Ele também entendia muito a respeito de sua profissão: a vinicultura, pois vivia da produção de seus vinhedos. Como muitos outros grandes Sábios de nossa história, Rashi não usou a Torá como fonte de sustento, jamais cobrou de seus alunos e tampouco recebia salário como rabino.
É um mistério como ele encontrava tempo para aprender tudo que aprendeu, ensinar tudo o que ensinou, escrever tudo o que escreveu e, além de tudo isso, trabalhar para sustentar a si, à família e a seus alunos.

Rashi não teve filhos homens, teve apenas três filhas: Miriam, Yocheved e Rachel. As três ajudavam o pai no vinhedo e em seu trabalho sagrado. Pois Rashi não apenas lhes ensinara a ler e escrever em hebraico e francês, mas também a Torá e o Talmud, algo muito incomum na época. As filhas de Rashi se tornaram famosas por cumprirem um mandamento da Torá que tradicionalmente recai apenas sobre os homens: a colocação dos Tefilin. O marido de Miriam, Rabi Yehudá ben Nathan, foi um grande Sábio. Yocheved também se casou com um grande erudito: Rabi Meir ben Shmuel. A terceira filha de Rashi, Rachel, era conhecida por sua beleza: seu apelido era “Belle-assez”, bela demais.

Os alunos de Rashi estão entre os maiores eruditos em toda a história judaica, inclusive seus dois genros, que se tornaram os ilustres Tosafistas franceses. De fato, os genros de Rashi colaboraram na obra do sogro – como consultores, copistas e editores de seus manuscritos. Rabi Yehudá conseguiu escrever comentários sobre o Talmud que replicaram o estilo original do sogro. Após o falecimento deste último, foi ele quem concluiu seus comentários sobre o Tratado Makot do Talmud Bavli. Já o outro genro de Rashi teve um filho, Rabi Shmuel ben Meir, o Rashbam,
que foi um grande Sábio e comentarista.

Mas o mais famoso e admirado dos netos de Rashi foi outro filho de Rabi Meir, Yaacov, mais conhecido como Rabenu Tam (Ver Morashá 70). Ele nasceu quando Rashi tinha 60 anos. Rabi Yaacov ben Meir, o maior dos Tosafistas, foi, simultaneamente, o maior defensor e o maior crítico dos comentários de Rashi. O avô tornou o estudo do Talmud acessível; o neto o tornou mais profundo. Rashi permitiu que todos os judeus nadassem no mar do TalmudRabenu Tam convidou-nos a explorar suas profundezas. Juntos, avô e neto revolucionaram o estudo da Torá e modelaram a Halachá – a Lei Judaica – de forma significativa. Muitas das leis e dos costumes fundamentais do judaísmo, como o horário de início e término do Shabat, a forma como a Mezuzá é colocada no umbral da porta – são realizados conforme os decretos de Rashi, Rabenu Tam ou uma combinação dos ensinamentos de ambos.

Mas, apesar de todas as contribuições dos netos e genros, e de outros alunos, a grandeza de Rashi e o impacto de sua obra sobre o mundo judaico permanecem singulares, incomparáveis, insuperáveis. Já faz quase um milênio desde que ele deixou este mundo, mas ainda permanece sendo o companheiro de eruditos e o tutor dos alunos que começam a dar seus primeiros passos no estudo da Torá. Sua autoridade é indiscutível e a ajuda que ele presta através de seus comentários, indispensável.

Se há muitas lendas a respeito do nascimento de Rashi, há tantas outras sobre sua morte. De acordo com uma lenda chassídica, Rashi nunca faleceu. Assim como o profeta Eliyahu, ele não morreu fisicamente, mas ascendeu aos Céus. Isso explicaria o porquê de ninguém saber onde se encontra seu túmulo. Devemos acreditar nessa lenda? Talvez. Mas o que sabemos é que mesmo em seus momentos finais de vida, ele não parou de trabalhar para difundir os ensinamentos da Torá.

Na página 29 da edição de Veneza do Tratado de Bava Batra do Talmud da Babilônia, está escrito: “Aqui faleceu Rashi, abençoada é sua memória. Daqui em diante, segue o comentário de (seu neto) Rabi Shmuel ben Meir”. Mas em outro Tratado do Talmud, no de Makot, na página 19, encontra-se a outra anotação semelhante: “A alma pura de nosso Mestre aqui deixou seu corpo puro. E ele parou de comentar. Daqui em diante, a linguagem é de seu aluno, Rabi Yehudá ben Natan”. Será que Rashi estava escrevendo comentários sobre dois tratados do Talmud simultaneamente? É muito provável.

Se ele tivesse vivido mais, teria escrito ainda mais comentários sobre todo oTalmud Bavli, o Talmud Babilônico, e, também, sobre o Talmud Yerushalmi, o Talmud de Jerusalém. Cada momento de sua vida se reverteu em um enriquecimento espiritual para o mundo.

De fato, não é possível estudar o Talmud e não apreciar a contribuição singular e eterna de Rashi à compreensão desse texto sagrado. É inegável que outros comentaristas também escreveram comentários brilhantes, mas Rashi foi o pioneiro. Além disso, ninguém foi tão claro e didático como ele. É impossível estudar suas obras e não amá-lo – e agradecer-lhe – por elas. Rabi Akiva, o maior Sábio do Talmud, ensinou que um judeu sem a Torá é como um peixe fora d’água. A Providência Divina escolheu Rashi para ser aquele que ensinou nosso povo a nadar.

Aos que perguntarem como se estudava a Torá e o Talmud antes dele publicar seus comentários, respondemos: Poucos estudavam a fundo e apenas os grandes eruditos compreendiam o Talmud. Depois de Rashi, a Torá se tornou acessível a todos os judeus. Rashi mantém o título de Grande Mestre porque foi ele quem “democratizou” a Torá: por meio dele, a Palavra de D’us, que foi transmitida no Monte Sinai, verdadeiramente se tornoumorashat kehilat Yaacov – a herança da congregação de Jacob, ou seja, do Povo Judeu.

No ano de 1105 da Era Comum, aos 65 anos de idade, Rashi deixou a Terra e voltou para seu lar, certamente na maior altura espiritual atingível por um ser humano. A data de seu passamento foi registrada no pergaminho Parma de Rossi por um de seus alunos: “A Arca Sagrada, o Sagrado dos Sagrados, o grande Mestre Rabenu Shlomo, o justo de abençoada memória, filho do mártir Rabi Yitzhak, o francês, foi tirado de nós na quinta-feira, o dia 29 do mês de Tamuz, no ano de 4865, na idade de 65 anos, e chamado de volta para a Yeshivá de cima”.

O legado de Rashi

Transcorridos quase mil anos desde seu falecimento, Rashi permanece sendo o pai de todos os comentaristas. Como escreveu Nachmanides: “A ele [Rashi] pertence os direitos do primogênito”.

Desde que Rashi publicou seu comentário sobre os Cinco Livros da Torá, praticamente todos os Chumashim são impressos com seus comentários. Estes se tornaram inseparáveis do Texto sagrado: não se estuda a Torá; se estuda a Torá com Rashi. Em muitas comunidades, há o costume de estudar, ano após ano, a Parashá da semana com os comentários de Rashi.

Mais de 300 obras já foram publicadas analisando os comentários de Rashi. O Maharal de Praga, um dos maiores Sábios e Cabalistas de todos os tempos, escreveu uma obra prima, Gur Aryeh – seu comentário sobre os comentários de Rashi sobre a Torá.

Desde que os escritos de Rashi foram publicados, foram estudados e analisados a fio por Sábios e eruditos que o sucederam. Seus comentários sobre o Talmud servem como fonte para outros comentários, que ajudam a elucidar os ensinamentos dessa Enciclopédia Sagrada.

Rashi viveu na época das Cruzadas – tempos difíceis e violentos, de muito sofrimento para o Povo Judeu. Apesar de sua erudição e fama, de sua espiritualidade, ele nunca se distanciou das necessidades de outros judeus. O que motivou seu trabalho não foi apenas seu amor pela Torá, mas também seu profundo amor pelo Povo de Israel. Sua obra fortaleceu a alma coletiva de seu povo, que estava sendo massacrado por sua lealdade ao judaísmo e sua fé inabalável em D´us.

Tudo o que Rashi fez foi em prol do Povo Judeu. Ele usou toda a sua genialidade, brilhantismo e intelecto incomparáveis, para trabalhar arduamente por um único objetivo: ajudar os judeus a compreender melhor o judaísmo. Esse é o motivo pelo qual escreveu comentários da forma mais simples e direta possível. Ele não se permitiu exibir seu intelecto sem igual e arriscar alienar qualquer judeu que estivesse iniciando seus estudos de Torá.

É notável que Rashi escrevesse sua opinião sobre os Cinco Livros da Torá após ter escrito a maioria de seus comentários sobre o Talmud. Esperar-se-ia que após explicar o Talmud, Rashi escreveria um comentário sobre um texto mais místico – talvez o Zohar, Livro do Esplendor, ou outra obra cabalística – e não um comentário sobre o Chumash, para que até uma criança de cinco anos o entendesse. Mas Rashi, diferentemente de tantos outros comentaristas, optou pela inclusão, não pela exclusão. Ao final de sua vida, ele decidiu escrever sobre a Torá para que todo judeu pudesse compreender e apreciar a Palavra de D’us.

Contudo, é um erro pensar que Rashi era apenas um erudito, um grande professor, e não um místico. Ele possuía poderes sobrenaturais e o domínio da Cabalá. Seus comentários sobre o Talmud e a Torá contêm referências ocultas a conceitos cabalísticos. Tampouco é necessário relatar os milagres que tenha realizado, pois sua própria vida foi um milagre. Suas obras são por si só milagrosas.

Há 613 mandamentos na Torá. Conta-se que Rashi jejuou 613 vezes antes de iniciar sua obra. Esses jejuns fizeram com que ele merecesse uma forte inspiração Divina, que o guiou em toda palavra que escreveu.

Os ensinamentos cabalísticos presentes nos comentários de Rashi sobre os Cinco Livros da Torá levaram Rabi Shneur Zalman de Liadi, o autor da obra cabalística Tanya, a declarar: “Os comentários de Rashi sobre os Cinco Livros são o ‘vinho da Torá’. Eles abrem o coração da pessoa que os estuda e revelam seu amor e temor a D´us”.

Diz-se que quando o homem reza, ele fala com D’us, ao passo que quando ele estuda, D’us fala com ele. Rashi foi o canal por meio do qual D’us fala com nosso povo. O Zohar revela que há um triângulo místico que liga D’us, Sua Torá e o Povo Judeu. Rashi, talvez mais que qualquer erudito que o precedeu ou o sucedeu, fortaleceu esse triângulo. Seu nome se fundiu com a Torá por toda a eternidade. Como Moshé Rabenu, não se sabe onde Rashi está enterrado, pois ele transcendeu a morte: ele continua a viver dentro da Torá, que, como D’us, Seu Autor, é Eterna, e ao lado de todo aquele que estuda seus comentários e o aprecia por sua contribuição inigualável.

Zecher Tzadik Livrachá – Que sua memória seja uma fonte de bênção e mérito para todo o nosso povo.

Bibliografia:
Wiesel, Elie, Rashi. A Portrait, ed. Schocken
Schiller, Gail, Beam me up, Rashi, Olam Magazine http://www.olam.org
Rabbi Mindel, Nissan, Rabi Shlomo Yitzchaki, Rashi, http://www.chabad.org
Miller, Chaim.  Rashi’s Method of Biblical Commentary, http://www.chabad.org

 

Um comentário cabalístico sobre o Talmud

Conta-se a seguinte história: Rabi Shimshon de Ostropol, famoso por seus dois livros sobre a Cabalá, decidiu escrever um comentário cabalístico sobre o Talmud, explicando os segredos e ensinamentos místicos dessa obra.

Ele fez uso de toda sua sabedoria cabalística e escreveu um comentário místico.  Sendo homem devoto, decidiu sujeitar sua obra ao teste do sonho,sheeilá chalom. A resposta  que recebeu dos Céus foi que sua obra era por demais longa e elaborada.

Ele então a condensou e a sujeitou a outro teste do sonho. Recebeu a mesma resposta: “Longa demais”. Novamente reduziu o trabalho, mas, mais uma vez, foi-lhe revelado que sua obra não era suficientemente precisa e clara. Quando ele finalmente a terminou, conseguindo escrevê-la da forma mais concisa possível, descobriu que havia escrito Perush Rashi – o comentário de Rashi sobre o Talmud.

Rabi Adin Steinsaltz

 

 

Fonte: http://www.morasha.com.br/  -  Edição 76 – junho de 2012

Rashi, o Mestre dos Mestres

Citação

por WILSON MEILER

Era uma vez, um homem que sempre enxergava e realçava o mal em tudo o que via. Se alguém se aproximava dele com alguma proposta, já achava que estavam querendo passá-lo para trás. Em qualquer coisa que lhe acontecia, nas pessoas que dele se aproximavam, e até nas possibilidades que lhe surgiam na vida, ele estava sempre com um pé atrás, antevendo um problema ou algo de mal que iria acontecer.
Um dia ele “partiu desta para uma melhor”. Ao chegar do outro lado, percebeu que havia encontrado um companheiro que não largava do seu pé e o acompanhava o tempo todo. No início até gostou, porque se sentia só e o amigo lhe fazia companhia e o apoiava em sua nova vida. Porém começou a se cansar daquela pessoa. Cada coisa que dizia ou fazia era sempre mal interpretada. Enxergava sempre alguém querendo lhe prejudicar. Seu companheiro era egoísta, pessimista, mal-humorado, crítico, mal-agradecido, e dava a impressão de só se sentir bem quando estava mal.
O homem, não o suportando mais, foi ao anjo que o havia recebido em sua chegada e implorou: “Por favor, livra-me da companhia daquele sujeito, eu já não agüento mais…”
O anjo, entre admirado e compadecido, respondeu:
“Mas não há nenhuma companhia. Aqui só existe um sistema de espelho que faz com que cada um veja e conviva com o que formou de si mesmo. Depende somente de você libertar-se dele.
Essa história pode parecer fantástica, mas nem é tanto. Algumas pessoas desenvolvem esse tipo de companhia em suas vidas.
Ainda não se sabe muito bem se é uma tendência genética ou se é conseqüência do meio ambiente e das atitudes pessoais. Mas muitas pessoas, não são poucas, se transformam em suas próprias companhias negativas.
São conhecidas como “pessoas tóxicas”, que arrastam para baixo quem estiver próximo. Estão sempre esperando o pior, focando no pior, e essa expectativa negativa torna-se um hábito tão arraigado que as pessoas nem se enxergam mais e passam a se considerar “certas” enquanto todos os outros estão errados. E o que é pior, essa expectativa negativa freqüente parece que passa a agir como um imã.
A ciência ainda não conseguiu explicar por que pessoas que têm aversão por alguma coisa ou a alguém terminam por se colocar exatamente na situação que tanto as preocupava. Um exemplo é o de pessoas que tinham tanto medo de assalto, e foram assaltadas várias vezes na vida. Ou pessoas que têm medo de acidentes, medo de contraírem determinadas doenças, ou têm aversão por choro de crianças, parece que continuamente atraem para suas vidas exatamente a situação que tanto temem.
A partir de agora preste atenção a duas coisas: às pessoas tóxicas que surgem em sua vida. Procure ficar longe dessas companhias externas, pois não puxam ninguém para cima. De outro lado, comece a observar se não anda com uma “companhia interna” que espanta os outros. Experimente fazer o teste do espelho em sua vida e descubra como é a sua companhia de todas as horas e todos os lugares.
Ao seu sucesso!!

EMAIL – instituto@wilsonmeiler.com.br

O TESTE DO ESPELHO

Citação

por PAULO ROSENBAUM

Deve haver paralelos entre o funcionamento do organismo e a organização política da sociedade. A epidemiologia formula a questão da seguinte forma: para calcular o risco propõe uma balança imaginária – de um lado, fatores que expõem, aumentando a vulnerabilidade das pessoas; do outro, aqueles que podem protegê-las. Na média, nosso sistema psíquico é relativamente estável, e nosso organismo imunocompetente. Quando há homeostasia, vivemos “no silencio dos órgãos”; quando a autorregulação falha, adoecemos. Graças a isso, para a maioria, a saúde prevalece sobre as doenças. Nem tudo é tão linear ou mecânico, nem em medicina nem em coisa nenhuma. Pode parecer absurdo, mas precisamos de um pouco de instabilidade e patologia para viver. Como nada é perfeito, na nossa política doses extras estão garantidas. Parece sina da nossa pobre América de baixo: permanecer presa fácil do populismo paternalista, cafona e anacrônico.
Conforme rumores, o próximo tema que deve aportar por aqui é a liberdade de imprensa e a tentação autoritária de calar o debate encapuzando a mídia. E podem contar, ela está chegando. Toda vez que se manipula o discurso com “debater a mídia” e “controle social dos meios de comunicação” deveríamos nos arrepiar. Em geral é o código usado para preparar o golpe: a censura está de novo se organizando no Brasil. E censores têm idiossincrasias – pouco importa se o corte for à esquerda ou à direita. A mais comum é a indigestão crônica diante das sociedades abertas. Eles sempre foram assim, chegam de fininho, vão com tesouras e borrachas lá para trás, e cortam. Cortam e apagam os textos, as imagens, as verbas. Ninguém percebe. Trabalho profissional. A marcha retrógrada começa a se esboçar com consentimentos velados para “tirar do ar”, “acabar com o abuso” e “monitorar”. Céus, acabamos de escapar das botas da ditadura. Aliás, que vergonha o retorno que temos diante dos impostos cobrados! Ao contrário do que pensam os comissários lá de Brasília, liberdade não é valor pequeno-burguês, mas premissa vital do sujeito e organização das sociedades. Tudo o que não precisamos é de mais mordaças. Quem decide o que fica no ar ou não somos nós mesmos. Para renegar a humilhação e a aberração é preciso, antes, reconhecê-la em nós. Senão, continuaremos vidrados no grotesco, viciados em baixaria e submissos ao atraso.
Basta de histeria anarcossindicalista dos que não querem capitalismo, mas nada oferecem no lugar a não ser resmungar: dos Bancos, do sistema, da vida. Mudaram os temas prevalentes na percepção da opinião pública. O foco urgente está na segurança e no meio ambiente. Não foi à toa que Marina Silva foi a grande e única novidade na política nas últimas eleições. Infelizmente, a escalada ao muro a derrotou.
O tema do meio ambiente – reduzido ao estereótipo de salvar baleias e resgate de plantinhas – nos remete a uma ameaça sem precedentes. A degradação da biosfera/bioma pode comprometer nossa vida como espécie. Temos que passar a enxergar a Terra não mais como metáfora mas um organismo que precisa do oxigênio tanto quanto nós. Seria ingênuo não fosse prioridade absoluta para a sobrevivência.
Existe um ecossistema interno e um mundo interior não visível aospetscans e ressonâncias magnéticas, do qual também é preciso se ocupar. Chamei esse mundo de inneresfera. Nossos sistemas de excreção funcionam conforme a demanda. Apesar de esse espaço não ser de engenharia eletrônica, no caso do sistema neuropsicosensorial deveria haver proporcionalidade entre entrada(input) e vazão (output). Assim nosso sistema de excreção psíquica deveria funcionar tal qual operam os sistemas urinário, digestivo e as trocas gasosas nos pulmões e pele. Não parece haver muita consciência de que precisamos dessas eliminações, já que somos poluídos por imagens, sons, cheiros e tudo mais que a abundância da sociedade industrial nos oferta. Do outro lado, temos cada vez menos vida criativa e espaços para expressão. Abolimos os dias descompromissados. Laser e férias com iPads, iPhones e notebooks não contam: eles só aguçam o ciclo que nos viciou em produção, resultado e triunfo.
E que armadilha! Criou-se a ilusão de que a parafernália virtual substitui a realidade. Não estou certo se a lucidez excessiva faz bem à saúde. Provavelmente, não. Afinal, nosso espírito vive à custa de alegrias infundadas e do circo nonsense, do qual a própria realidade se encarrega. Precisamos dos pequenos lapsos, da distração contemplativa e, às vezes, até dos resfriados regeneradores.
Então, da próxima vez que alguém espirrar por perto, mude a entonação. Dos votos de melhora passe à confirmação: “Saúde”.

* PAULO ROSENBAUM

Médico e escritor, assina a coluna semanal “Coisas da Política”, no JB – Jornal do Brasil. Possui graduação em Medicina pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP-1986), mestrado em Medicina (Medicina Preventiva) pela Universidade de São Paulo (1999) e doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo (2005), pós doutor pela Universidade de São Paulo (2010). É escritor e autor de 7 livros na área médica e organizador de outros dois. Atua principalmente nos seguintes temas: homeopatia, ensino médico e história da medicina, desenvolvimento histórico-epistemológico das racionalidades médicas e aspectos filosóficos da atenção à saúde. Publicou “A Verdade Lançada ao Solo” ficção, pela Editora Record.

http://www.glorinhacohen.com.br/

ORGANISMO, ‘INNERESFERA’ E SISTEMAS POLÍTICOS

Groucho Marx

Padrão

por Marcio Pitliuk

 

Woody Allen diz que nunca existiu um humorista como Groucho. Mel Brooks só tem e logios para ele. Jerry Seinfeld o acha um gênio. Quem assistir seus filmes, todos lançados em DVD, assim como seu talk show “You bet your life” ou ler seus livros – os principais são “Groucho and Me”, “Groucho letters”, “Memories of a Mangy Lover”– ou ainda um dos mais de 200 livros sobre sua vida, concordará com os três grandes humoristas acima. Groucho foi o melhor de todos. Melhor que Efraim Kishon, S. J. Perelman, Sholem Aleichem ou qualquer outro.

Sobre seu talk show, “You bet your life”, vale lembrar que ele foi o primeiro a fazer esse tipo de programa de entrevistas, que inspiraria David Letterman e Jô Soares, apenas para citar dois entrevistadores famosos.

Outra invenção de Groucho Marx foi a famosa “Escolinha”, onde um grupo de alunos serviam de “escada”, ou seja, davam a “deixa” para suas maravilhosas piadas. A “Escolinha” do Groucho começou no “Vaudeville” e inspirou no Brasil diversos humoristas, entre eles Chico Anysio, Ronald Golias e Carlos Alberto de Nóbrega.

“Vaudeville” eram teatros de variedades que surgiram no final do século 19 nos Estados Unidos e Canadá. Artistas e humoristas se apresentavam, com shows de música e comédia. A mãe de Groucho, Minnie, tinha um irmão, Al Schoenberg, com o nome artístico de Al Shean, que trabalhava nesse ramo. Devido às dificuldades financeiras da família, Minnie achou que a saída para os filhos ganharem dinheiro era o mundo dos espetáculos. E como boa “iídiche mame”, tinha razão.

Mas vamos voltar um pouco no tempo para contar a história de Groucho. Seus pais, Sam e Minnie Marx, emigraram da região da Alsácia-Lorena para Nova Iorque no final do século 19. Julius Henri Marx, o nome verdadeiro de Groucho, nasceu em 1890 na Rua 78, em cima de um açougue. Mas passou pouco tempo nessa casa, pois, segundo ele, viviam mudando de endereço por causa da falta de habilidades de seu pai, que se julgava alfaiate. “Tirar medidas é para funerária, que tem que providenciar o caixão”, dizia Sam Marx. Um bom alfaiate sabe as medidas só de olhar para o cliente”. O resultado, segundo Groucho, é que “os fregueses podiam ser identificados na rua, pois tinham um braço do paletó mais curto que o outro e uma perna da calça mais comprida”. Com isso, a família tinha sempre que mudar de endereço, na esperança de conseguir novos e incautos clientes, até que descobrissem a inabilidade de seu pai na arte da alfaiataria.

Antes de Groucho nasceu Leonard, apelidado de Chico; depois de Groucho veio Adolpho, conhecido como Harpo; Milton, vulgo Gummo e, finalmente, Herbert, cujo apelido era Zeppo.

Com cinco filhos para criar, a vida da família Marx era extremamente difícil. Segundo Groucho, “Éramos tão pobres que um dia o caminhão do lixo chegou em casa e falei – Papai, o lixeiro está aí. – Fala para ele que não precisamos de nada, respondeu meu pai”.

Foi graças à obstinação da mamãe Minnie que os Irmãos Marx, como ficaram conhecidos, entraram no show business. Chico e Harpo não gostavam de ir à escola e isso a preocupava, pois sabia que sem estudos os filhos não teriam grandes oportunidades na vida. Groucho, ao contrário, adorava estudar, era excelente aluno e ficou muito triste quando teve que sair da escola para acompanhar seus irmãos no “Vaudeville”. Durante a vida toda ele se arrependeu de não ter estudado e concluído o curso. Autodidata, procurou aprender o máximo possível, tornando-se uma pessoa culta e bem informada. Lia tudo o que caía em suas mãos e os livros que escreveu são excelentes.

Minnie percebeu que Chico e Harpo tinham talentos musicais e enquanto Chico aprendia piano, Harpo pegou uma harpa abandonada por um familiar na casa deles e se tornou exímio harpista (daí seu apelido Harpo). Com os irmãos tocando tão bem, e auxiliados pelo tio Al Shean, foram ganhar a vida no “Vaudeville”. Groucho não tinha nenhuma habilidade musical e os acompanhava para contar piadas e fazer graça. Isso muito antes de estrearem no cinema. Os outros dois irmãos eram muito pequenos para a vida nos palcos.

Mais tarde, Milton, vulgo Gummo, por insistência de Minnie, também tentou a carreira artística, mas não tinha o menor talento. Chegou a participar de alguns filmes, mas acabou tornando-se o empresário dos Irmãos Marx, como ficaram conhecidos os três, Groucho, Harpo e Chico.

A vida no “Vaudeville” não era fácil. Os irmãos tinham que viajar de cidade em cidade para fazer apresentações e ganhar alguns trocados. O pior, segundo eles, era que a mamãe Minnie ia junto. Precisava tomar conta “das crianças”. Até o dia em que, segundo Groucho, por insistência das coristas e dançarinas que não viam com bons olhos a presença da “iídiche mame” junto do grupo, eles decidiram que já eram crescidos e queriam viajar sozinhos. Graças a seu talento, começaram a fazer sucesso no “Vaudeville” e no show business e foram convidados para fazer um teste de cinema, em Hollywood. Isso só foi possível depois que surgiu o cinema falado, pois se apresentavam tocando e contando piadas.

Nos primeiros filmes repetiam nas telas o que faziam nos palcos, mas, com o tempo, foram desenvolvendo histórias próprias para o cinema, com roteiristas e diretores do primeiro time de Hollywood. 

O sucesso veio quando Irving Thalberg, o garoto prodígio da MGM, também judeu, começou a produzir seus filmes. Certa ocasião, Thalberg disse que “o mundo não estaria nesse estado se Marx tivesse sido Groucho, em vez de Karl (Marx)”. Ele foi um dos maiores produtores de cinema de todos os tempos, apesar de ter morrido prematuramente aos 37 anos.

Foi o principal responsável pelo sucesso dos Irmãos Marx. Escolhia grandes diretores, como Sam Wood e Norman McLeod, excelentes roteiristas como George Kaufman, Arthur Sheekman e Morrie Ryskind, e dava total liberdade para Groucho criar durante as filmagens. O que parecia improviso na verdade era um trabalho árduo de Groucho que tinha um humor sarcástico e extremamente judaico.

Usava muito da autocomiseração e suas piadas eram sempre muito inteligentes. O tipo de humor que os americanos chamam de wit. Além da equipe de roteiristas, cada irmão tinha um grupo de três ou quatro gag men– humoristas com a única função de criar sacadas e tiradas para acrescentar no filme. Com uma equipe 100% judaica, o tipo de humor só poderia mesmo ser judaico.

Harpo fazia o papel de mudo e toda a sua comicidade era baseada no visual. Foi o primeiro grande mímico do show biz, verdadeiro clown, muito antes do surgimento do famoso mímico francês Marcel Marceau, também judeu! O humor visual de Harpo permitiu que, anos mais tarde, ele fizesse uma turnê na Europa chegando a se apresentar até na Rússia comunista, com o maior sucesso.

Chico fazia o papel de italiano, jogador compulsivo e malandro – o que não era diferente da sua vida real. Era viciado no jogo, chegava a fugir entre uma gravação e outra para ir à casa de apostas. Apostava nos cavalos, nas cartas, nas corridas, perdia tudo o que ganhava e terminou sendo sustentado pelos irmãos.

Groucho fazia o papel do conquistador e tinha um humor completamentenonsense. Seu personagem tinha o andar de um vigarista gozador, imitando uma galinha, que se tornou sua marca registrada. Em inglês, quando se fala de um wise-cracking hustler, imediatamente sabe-se que se trata do velho Groucho… Também pintava as sobrancelhas e um bigode bem grosso, que ele adotou mais tarde deixando o verdadeiro crescer. Tinha sempre um charuto na mão ou na boca. Esse foi seu grande prazer na vida real. Jamais se separava desse vício.

Os irmãos Marx reinaram durante anos em Hollywood, deixando 13 filmes que são verdadeiras obras-primas. Groucho sozinho participou de outros 13 filmes, até que quase aos 60 anos achou que era hora de parar. Não tinha mais idade para o esforço físico requerido pelo personagem e pelo cinema, e estreou um programa de rádio que durou alguns anos. Finalmente foi atraído pela televisão, onde apresentava o “You bet your life”, um misto de programa de auditório de perguntas, respostas e entrevistas. Groucho aprendeu com sua mãe que “Quando tiver algo importante para falar, fale com o presidente”, e por isso durante sua vida escreveu cartas engraçadíssimas, até que um dia as publicou no livro “Groucho letters”.

 

Extraído da Revista Morashá - Edição 74 – dezembro de 2011

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O Vidente de Lublin

Padrão

Muitos entre os mestres Chassídicos tinham o poder de prever o futuro, mas nenhum teve igual visão ao Rabi Yaacov-Yitzhak Horowitz, o Chozé de Lublin.

Os primeiros Mestres Chassídicos eram todos homens de grandes poderes espirituais. Faziam milagres e curavam através de sua fé, além de possuir um “sexto sentido” – oRuach HaKodesh – o Espírito Sagrado – uma pequena dádiva de profecia. Mas entre todos eles, há um que leva o aposto deChozé, o Vidente. Muitos outros tinham o poderde prever o futuro, mas nenhum teve igual visão. Assim sendo, este aposto ficou sendo unicamente seu.

Conta-se que esse Mestre do Chassidismo podia prever não apenas o futuro, mas também ver o passado distante e o espaço sideral. Era comum vê-lo próximo à janela, absorto, observando o que se passava nos continentes distantes. Era voz corrente que quando olhava determinada pessoa, ele conseguia identificar quantas vezes a alma da pessoa tinha encarnado – como, quando e onde.

Em sua presença, a pessoa se sentia abalada e transformada. O que mais impressionava eram seus olhos –de tamanho diferente, e assumiam uma inquietante imobilidade quando ele se fixava em alguém. Os Chassidim estavam convencidos de que quando fitava alguém, estava buscando o mais profundo de sua alma.

Além de ser vidente, ele era um Rebe, um guia, um amigo, um confidente e fazia milagres. As pessoas vinham pedir-lhe bênçãos e milagres e não saíam de mãos vazias. Inúmeras lendas falam de seus poderes. Os pobres, os doentes e os desesperados o procuravam, implorando que ele intercedesse aos Céus em seu favor. Judeus e não judeus acorriam a ele em bando, como se ele fosse seu último recurso. Ele tinha a cura para todas as dores e solução para todos os males, do corpo e da vida.

Erudito e místico, ele continua sendo um dos pilares do Movimento Chassídico. Juntamente com outros dos primeiros Mestres, ele intensificou a centelha acesa pelo Baal Shem Tov deflagrando uma bela chama – que rasgou a escuridão, iluminando a vida de incontáveis judeus que, de outro modo, teriam sucumbido à melancolia e ao desespero. Vejamos agora a história de sua vida.

Seus primeiros anos

O Rabi Yaacov-Yitzhak Horowitz nasceu em 1745, em uma aldeia perto de Tarnigrod, na Polônia. Como o Baal Shem Tov, ele cresceu só. Talvez tenha sido sua infância solitária o que mais tarde o levaria a abraçar o recém-fundado e vibrante movimento chassídico, cuja mensagem central baseava-se no amor, júbilo e companheirismo. Ele chegou ao movimento na qualidade de aluno, mas logo se tornaria um de seus maiores mestres. Diferentemente da maioria dos demais Rebes, ele não fundou dinastia própria: seus discípulos se tornaram líderes por mérito próprio.

Sabemos que ele foi uma criança brilhante e extraordinária. Descobriu seu dom de visão quando ainda era muito jovem. Aquilo era, para ele, um estorvo, e pedia a D’us que o livrasse daquele dom. Mas suas preces não foram atendidas.

Desde a mais tenra idade, tinha uma ligação especial com o Divino. Com três anos, já sabia todas as orações do serviço matinal de cor. E como fizera o Baal Shem Tov, muitos anos antes, metia-se na floresta para buscar D’us e com Ele falar. Costumava fugir da escola, sendo sempre repreendido pelo professor. Um dia, o Melamed conseguiu segui-lo, sem que ele o visse, pela floresta, para descobrir o que aquela criança lá fazia, todos os dias. Para sua surpresa, ouviu o menino bradar: “Shemá IsraelHashem é nosso D’us, Hashem é Um”. E, a partir daquele dia, nunca mais o repreendeu. Mas o pai do menino continuava intrigado com seu comportamento. “Por que você desperdiça seu tempo na floresta?”, perguntou ao filho. O garotinho de três anos lhe respondeu: “Estou procurando D’us”. “Mas D’us não está em todas as partes?”, disse-lhe o pai. “E não é Ele o mesmo em todas as partes?”. Ao que a criança retrucou: “Ele, sim, é. Mas eu não sou”.

Quando ele tinha 14 anos, Yaacov-Yitzhak foi para a Yeshivá. Estudava com um renomado Talmudista, o Rabi Moshe-Hersh Meisels, e, mais tarde com o celebrado Mestre do Chassidismo, o Rabi Shmuel (Shmelke) HaLevi de Nikolsburgo. Na Yeshiváde Rabi Shmelke, o regime era extremamente rigoroso – estudo e oração, com pouquíssimo tempo para o restante. Mas, o jovem Yaacov-Yitzhak tinha permissão de seguir seu próprio rumo. Livre das restrições impostas aos demais alunos, ele levava uma existência marginal: passava grande parte de seu tempo sozinho, orando e jejuando. Esforçava-se para purificar sua mente através da Devekut – a vinculação ao Divino. Apesar do esforço de Yaacov-Yitzhak de ocultar seus dotes e erudição, o Rabi Shmelke, ele próprio possuidor de poderes sobrenaturais, percebeu seu verdadeiro valor. Certa vez disse algo acerca desse discípulo que pouquíssimos podem dizer de seus Mestres: “Quando ele ora, até mesmo os anjos no Firmamento dizem Amén”.

Quando chegou a hora de Yaacov-Yitzhak se casar, seu avô e o RebeShmelke lhe encontraram uma esposa. A moça vinha de boa família. Mas, no dia do casamento, antes de se iniciar a cerimônia, Yaacov-Yitzhak, que nunca tinha visto a moça, pede ao avô que lhe mostre a futura esposa. Mandaram vir a noiva de seus aposentos. Quando Yaacov-Yitzhak levanta seu véu, ele começa a tremer. Ele vê algo de muito errado nela – algo que mais ninguém conseguia ver. E ele diz a seus pais: “Ela não é para mim. Vi seu rosto, o rosto de uma estranha”.

Mas, como não queria ofendê-la nem envergonhá-la, ele foi em frente com o casamento. Assim que a cerimônia terminou, ele fugiu, sem sequer se preocupar em esperar pelo dia seguinte. Mandaria o certificado de divórcio mais tarde. Simplesmente fugiu. Cansado e com fome, foi recolhido por alguns cocheiros que estavam a caminho de Mezeritch. Durante uma parada em uma estalagem, uma bela mulher tenta seduzi-lo. Dominado por violenta tentação, ele, no entanto, consegue resistir. Levanta-se e foge. E foge justamente para Mezeritch – e foi nesse vilarejo que sua vida toma um rumo extraordinário.

Como se faz um Mestre

Rabi Dov Ber de Mezeritch, conhecido como o Grande Maguid, sucedeu o Baal Shem Tov como o líder do Movimento Chassídico. O Maguid, um dos maiores eruditos e místicos da história judaica, foi o melhor aluno do Baal Shem Tov. Mas, diferentemente de seu Rebe, que foi um sonhador e revolucionário – o fundador de um movimento que mudou, para sempre, a face do judaísmo – o Maguid era um organizador e um estrategista – em outras palavras, um homem prático. Foi ele quem sistematizou e ensinou os ensinamentos do Mestre e quem, através de seus próprios discípulos, espalhou-os pela Europa Central e Oriental. O Grande Maguid foi “o Rebedos Rebes”: os primeiros Mestres – fundadores das grandes Escolas do Chassidismo e suas dinastias – foram todos seus alunos. Os Tzadikimaproximavam-se do Maguid na qualidade de discípulos e o deixavam comoRebes.

Antes de Yaacov-Yitzhak chegar a Mezeritch, o Maguid disse a seus discípulos: “Virá visitar-nos um ser humano ímpar, sem semelhante na Terra desde os dias dos Profetas”. Quando o jovem chega à aldeia, o Maguid o recebe com grande carinho. “O outro lado – o impulso do mal – tentou apossar-se de você. Estou feliz de ver que você venceu!”

Yaacov-Yitzhak permaneceu em Mezeritch durante um tempo. Tão pobre era que nem podia comprar uma Chalá para o Shabat. Mas aquilo não o abatia. Estar próximo ao líder indiscutível do Movimento Chassídico, cujos poderes sobrenaturais apenas eram sobrepujados por seus dotes intelectuais, já lhe bastava. O Vidente diria, mais tarde, com natural orgulho, que fora o próprioMaguid quem o ordenara como Rebe.  Em Mezeritch, Rabi Yaacov-Yitzhak aprendeu os princípios do novo modus vivendi do Baal Shem Tov, baseado no amor ao homem e a D’us. E o aprendeu em primeira mão do Maguid, um mestre dos mestres – místico e fazedor de milagres – com poderes para canalizar seus dons espirituais latentes e o expor ainda mais aos reinos celestiais. O Vidente testemunharia posteriormente: “Certa vez ouvi oMaguid dizer ‘Ein k’Elo´henu – ‘Não há Outro como nosso D’us’”, a última prece do serviço religioso da manhã. Naquele mesmo instante, os céus se abriram e vi as palavras voando, vivas, diante de meus olhos: não meramente as ouvia – eu as via! Via que não há Outro como nosso D’us!”

Mas o Maguid não estava interessado em acumular seguidores; queria formar líderes que disseminassem o Chassidismo em toda a Europa. Assim sendo, seus alunos não permaneciam muito tempo em seu convívio. No momento certo, o Rabi Yaacov-Yitzhak deixa Mezeritch, tornando-se o “protegido” de um dos mais notáveis discípulos do Maguid – o Rabi Elimelech de Lizhensk. Nessa aldeia, cabia-lhe zelar pelos jovens estudiosos. Com o passar do tempo, graças a seu talento e poderes, ele se torna um Rebe por seus próprios méritos, começando a atrair adeptos e seguidores. Para não fazer sombra a seu Mestre, deixa Lizhensk. Primeiro vai para Lanzhut, depois para Rozvadov e, em 1784, finalmente se estabelece em Lublin. Daí, seu título: o Chozé de Lublin, em tradução, o Vidente de Lublin.

Lublin era uma cidade conhecida por seus eruditos, mas também por sua oposição ao Chassidismo. Apesar do antagonismo, o Vidente logo arrebatou toda a cidade para seu Movimento. Conta-se que ele reunia quatrocentos alunos e que a visão deles, nos Shabatot, vestidos de branco – cor que, segundo a Cabalá, simboliza a pureza – era como uma visão de um bando de anjos. Mas não foi apenas em Lublin que o movimento se difundiu. Através de seus discípulos, que serviam como seus emissários, o Rabi Yaacov-Yitzhak intensificou as chamas do Chassidismo até abarcar toda a comunidade judaica da Polônia. Até 1806, sua principal tarefa foi vencer a oposição e levar os rabinos do movimento às principais congregações do país. E ele conseguiu fazê-lo. Mas depois que Napoleão conquistou o país, intensificou-se a secularização dos judeus, que já vinha ocorrendo, há algum tempo. E o Vidente de Lublin não mediu esforços para conter esse avanço.

O Milagreiro de Lublin

O que se sabe sobre o Chozé de Lublin? Sabe-se que ele era uma figura imponente e que inspirava respeito. Alto, robusto, belo e carismático, ele irradiava beleza interior, sabedoria e autoridade. Havia uma aura de realeza em torno de sua figura. Reinava entre seus alunos não apenas como Rebe, mas como verdadeiro príncipe. Raramente comia em público, no entanto, servia pessoalmente suas melhores iguarias aos mendigos e miseráveis.

Era um homem melancólico, muito triste, às vezes. E por lutar, como muitos outros Mestres do Chassidismo, contra a melancolia, ele tentava “bani-la”, rotulando-a de “o maior dos pecados”. Um de seus primeiros Mestres, o Rebe Shmelke, testemunhando sua luta contra a tristeza, mandou-o estudar com o Rabi Zusia de Anipoli, irmão do Rabi Elimelech de Lizhensk. Junto envia uma recomendação: “Tente transmitir-lhe um pouco de alegria”.

Qual a razão para a melancolia? Talvez uma decorrência de seus poderes visionários. Ele via muita dor e muito sofrimento – individual e coletivo – no passado, no presente e no futuro. Muitas pessoas iam vê-lo para relatar suas misérias e ansiedades e implorar por bênçãos e milagres. Dia após dia, ele ouvia suas dores e infortúnios. E como os amava com sinceridade, partilhava de seu sofrimento e os assumia como seus próprios. Certa vez observou: “Estranho, as pessoas chegam tristes e saem felizes… e eu fico com minha tristeza, que arde como uma bola de fogo”.

Para combater a melancolia, ele, assim como o Baal Shem Tov antes dele, dava tremenda ênfase ao conceito da exuberância e da celebração. Ele ensinava aos seus seguidores: “Prefiro um judeu simples que ore com alegria a um sábio que estude com tristeza”. Certa vez, ele perguntou: “Você sabe qual o verdadeiro pecado de nossos antepassados, no deserto? Não foi seu comportamento rebelde, mas sua constante melancolia”.

Em sua batalha para vencer essa tristeza, ele chegou ao ponto de fazer companhia a um conhecido pecador que vivia em Lublin. Aos Chassidim, seus companheiros, que demonstravam surpresa com o livre acesso que esse mau-caráter tinha a ele, o Vidente explicava: “Gosto dele porque ele é alegre. Quando vocês cometem um pecado, imediatamente se arrependem e se entristecem pelo prazer sentido na hora de pecar. Ele, não. Sua alegria perdura – mesmo após ter pecado”.

À exemplo dos demais Mestres Chassídicos, ele defendia a paixão, a compaixão e o entusiasmo. Para ele, o fervor era supremo. “Prefiro umMitnagued (oponente ao Movimento Chassídico) fervoroso a um Chassidindiferente”, costumava dizer. Pois os seus Mestres ensinavam que a ausência de fervor levava à indiferença e, daí, à resignação e à desesperança. E essas eram emoções que os judeus da Europa Oriental não podiam se permitir sentir. Tendo sofrido massacres e pogroms e vivendo empobreza e em medo constante, as centenas de comunidades judaicas se sentiam abandonadas pelos homens e por D’us. Parecia-lhes que apenas seus inimigos se lembravam de sua existência. Particularmente para os oprimidos, os ensinamentos do Chassidismo eram um chamado poderoso e irresistível.

O Vidente fazia eco dos ensinamentos do Baal Shem Tov: que D’us está presente em toda parte e que todos os homens podem falar com D’us sobre seus problemas cotidianos. O Chassidismo derrubou as muralhas que muitos acreditavam existir entre os homens e o Criador, ensinando aos judeus a se orgulharem de seu judaísmo e a voltarem a celebrar a vida. Em Lublin, os judeus de fato reaprenderam a sonhar.

Como o Baal Shem Tov, ele dava aos pobres e miseráveis aquilo que mais necessitavam: um senso de dignidade. Pessoas do povo vinham de longe para visitá-lo – para descarregar seus problemas, pedir uma bênção, pedir um milagre e vê-lo se realizar. Quando o Vidente entrava em sua vida, eles nunca mais eram os mesmos. Conhecê-lo, era uma experiência de vida. Era voz corrente que mesmo seus oponentes não resistiam a seu carisma, pois eles também ficavam enfeitiçados por seu encanto: aqueles que frequentavam a sua Seudat Shelishit, a terceira refeição do Shabat, sentavam à sua mesa como opositores e se levantavam como seus admiradores. Ao contrário de outros Mestres do Chassidismo, o Rebe Yaacov-Yitzhak não ocultava seus poderes sobrenaturais. Ele explicava por que os Tzadikim realizavam milagres: para inspirar respeito, para estimular a imaginação, para ajudar as criaturas a abrirem a sua alma a D’us. Com suas orações, explicava, o Tzadik revela a grandeza Divina. Os milagres foram feitos para estimular a fé do ser humano em D’us; para fazê-lo perceber que D’us ouve os homens. Ele usava seus poderes em prol dos demais – para curar, reconfortar, consolar e levantar o espírito daqueles que não se sentiam dignos da atenção Divina. Inúmeras pessoas, incluindo não judeus, iam a Lublin atrás de suas bênçãos e milagres. Um deles, o famoso Príncipe Adam Czartoryski, era calorosamente recebido pelo Vidente.

A despeito ou talvez justamente em virtude de sua grandeza, ele era um homem verdadeiramente humilde. Detestava a vaidade, arrogância e insensatez. Dizia: “Prefiro um homem mau que saiba que é mau do que um justo que saiba que é justo”.

Uma de suas histórias: Um dos maiores opositores dos Chassidim, em Lublin, o Rabi Azriel Hurwitz, apelidado de “mente de ferro”, disse certa vez ao Vidente: “Não entendo. Sou mais erudito do que você, mais culto, um estudioso da Torá mais conceituado do que você; mas, mesmo assim, as pessoas visitam-no, e não a mim. Por que razão?” Ao que o Vidente respondeu: “Você não entende por que as pessoas não veem se aconselhar com você; é justamente por isso que elas não veem. Eu não entendo por que elas veem me ver. É por isso que elas veem”. De outra feita, o mesmo Rabi Azriel o desafiou: “As pessoas o chamam de Tzadik, ao passo que nós dois sabemos que você não o é. Por que você não o admite publicamente? Se o fizer, as pessoas irão embora”. “Boa ideia”, disse o Vidente.

No Shabat seguinte, antes da leitura da Torá, o Chozépôs-se diante dacongregação e declarou: “Quero que saibam que eu não sou um Tzadik. Pelo contrário, sou um pecador. Não estudo suficientemente a Torá, não rezo o suficiente, não sirvo a D’us da forma como deveria. Portanto, deixem-me. Procurem outro Rebe – um mais digno de sua confiança”. A congregação ficou chocada. “Nosso Mestre é ainda mais digno do que pensávamos”, disseram. “Ele é o maior e mais digno de todos. Vejam quanta humildade…”.

Vendo o tiro sair pela culatra em seu plano mesquinho, o Rabi Azriel sugeriu, então, que o Vidente fizesse justamente o contrário: declarasse publicamente que ele era um verdadeiro Tzadik, para que as pessoas se ressentissem de sua vaidade e o abandonassem. Mas, dessa vez, o Chozéde Lublin se recusou. “Eu concordo com você que não sou um Tzadik – mas tampouco sou um mentiroso”.

Mas, admitindo ou não, ele era um verdadeiro Tzadik. Nem os Céus resistiam a ele – por essa razão conseguia realizar tantos milagres, revertendo decretos Divinos. E, na Terra, era amado e admirado por todos que o conheciam. Para os desesperados, ele representava sua última esperança. Para os discípulos, era o maior de todos os grandes Mestres. As centenas de alunos que orientou no caminho das Alturas espirituais eram ligados a ele por uma admiração apaixonada e intensa. Perguntaram a um deles, certa vez: “Já que vocês eram tantos e tão fortes, e tinham um Mestre com talento tão notável, por que não conseguiram fazer vir oMashiach?” E o aluno respondeu, com toda a seriedade: “Sua pergunta é válida, mas, vivíamos em tal estado de êxtase, em Lublin, que praticamente não sentíamos as privações do exílio”.

Os discípulos não sentiam as privações do exílio, mas seu Mestre as sentia. Ele lutava as suas batalhas sozinho, guardando sua melancolia para si. Mas suas vitórias e poderes eram compartilhados com os demais. Até mesmo os outros Mestres Chassídicos, que poderiam ter-se sentido ofuscados por ele, demonstravam-lhe grande afeto. O Rabi Baruch de Metzibush, neto do Baal Shem Tov, recebeu-o certa vez num Shabat, em sua casa. O anfitrião lhe perguntou: “Dizem que você é Vidente. Diga-me, pois, onde estamos? OChozélhe respondeu: “Vejo-nos na Terra Santa; estamos entrando em Jerusalém, estamos para atravessar o umbral do santuário”. Naquele instante, aquela mesma paisagem apareceu diante dos olhos deles dois.

Discípulo e colega de grandes Mestres, o Vidente também foi um formador deles. Seu aluno mais famoso, que tinha igual nome, Yaacov-Yitzhak, é conhecido na literatura chassídica como “o judeu sagrado de Peshischa”. Da mesma forma como o Vidente abandonou seu mestre, o Rabi Elimelech, para montar seu próprio tribunal rabínico, “o judeu sagrado de Peshischa” também cortou o coração de seu professor deixando-o e formando sua própria dinastia. Mas mestre e discípulo nunca deixaram de se amar. Antes de falecer, “o judeu sagrado de Peshischa” declarou: “Eu fiz a opção: era ele ou eu. Como minhas orações poderiam salvar apenas uma vida, preferi que fosse a dele, e não a minha”.

Quando o Vidente soube da morte de seu maior aluno, chorou e disse: “Ele será nosso emissário nos Céus para apressar a vinda do Mashiach”. Seus discípulos também choraram, e tanto que, de fato, o Mestre teve que consolá-los. “É verdade”, disse, “morreu um grande mestre. Mas, lembrem-se: D’us está vivo, portanto, não chorem”.

Conspiração para trazer o Mashiach

A alma do Chozéde Lublin estava interligada com a de dois outros Mestres chassídicos: Rabi Israel, Maguid de Koznitz, e Rabi Menachem Mendel de Riminov. Os três tinham sido alunos da Yeshivá de Rebe Shmelke. E os três se reuniram para tentar forçar D’us a trazer a redenção a nosso mundo. A história de sua conspiração mística para trazer o Mashiach está entre uma das mais belas do Chassidismo.

Na época, início do século 19, o mundo passava por grande tumulto: Napoleão chegara à Terra Santa, tinha invadido a Rússia e planejava dominar o mundo inteiro. Os três Rebes perceberam que se tratava do momento adequado para a chegada do Messias. Portanto, encontraram-se em segredo para coordenar atividades espirituais. O Vidente de Lublin viajava com frequência, sem que ninguém soubesse para onde se dirigia. Ele visitava Koznitz e Riminov. Os três acreditavam que juntando seus poderes espirituais, eles poderiam influenciar eventos e trazer a redenção ao mundo.

Certa vez, na noite de Yom Kipur, no momento do Kol Nidrei, o Maguid de Koznitz abriu a Arca Sagrada e exclamou: “Mestre do Universo, diga, por favor: ’Perdoei segundo tuas palavras‘. E envia-nos o Redentor. Se necessitas um Tzadik, o Rebe de Riminov o é. Se necessitas um Profeta, o Vidente de Lublin o é. Se necessitas um penitente, eu, Israel, filho de Sarah, proclamo aqui e agora, que estou disposto ao sacrifício em nome da comunidade de Israel”.

Mas, com exceção do Rebe de Riminov – que acreditava que se Napoleão vencesse, o Mashiach viria – nenhum dos outros dois deu ao Imperador francês apoio incondicional. Conta a lenda que Napoleão soube do ocorrido e foi clandestinamente negociar com o Maguid de Koznitz para conseguir seu apoio. Não obtendo sua bênção, ele perdeu a guerra. Outra lenda conta que um dos filhos do Vidente serviu no exército austríaco. Ele foi apresentado a Napoleão em uma parada militar e o Imperador lhe teria dito: “Diga a seu pai que eu não tenho medo dele”. Seu castigo por demonstrar tal insolência com o Chozé? A derrota de Waterloo.

Napoleão perdeu e o Mashiach não veio. Os três conspiradores, seguindo as súplicas do Vidente, decidiram que em Simchat Torá, naquele ano,eles fariam uma última tentativa de trazer o Redentor. Mas todos os três faleceram naquele ano. O Maguid de Koznitz morreu uma semana antes deSimchat Torá, na véspera de Sucot.

Quanto ao Vidente de Lublin, ele foi vítima da tragédia justo em Simchat Torá. Em meio às festividades, ele caiu da janela do segundo andar. Na literatura chassídica, este é um dos episódios mais misteriosos e é conhecido como a Grande Queda, especialmente porque a janela, segundo testemunhas, era muito estreita para que um homem da estatura e porte doRebe pudesse cair por ela. Além disso, ficaram intactas umas garrafas vazias no parapeito da janela. Há quem explique que o Vidente jogava com forças ainda mais poderosas do que ele: ele teria tentado precipitar a salvação cósmica, desencadeando sua catástrofe pessoal. Ele não conseguiu se recuperar da queda, ficando de cama durante 44 semanas.

Os opositores acirrados do Movimento Chassídico ficaram felizes com seu acidente – o que foi uma vergonha, em todos os sentidos. O Vidente retrucou: “Eles são tontos de exagerarem. Posso lhes assegurar que quando eu morrer, não poderão beber para celebrar a ocasião – nem um copo d’água”. Com razão! Ele morreu em Tishá b’Av, nono dia do mês de Av, dia mais triste no calendário judaico e dia de jejum completo, quando os judeus não comem nem bebem – nem mesmo um copo d’água…

No dia de sua morte, 15 de julho de 1815, ele profetizou que dali a cem anos, pelo calendário hebraico, os russos perderiam seu domínio sobre a Polônia. No dia 20 de julho de 1915 – Tishá b’Av, 5675 – os austríacos conquistaram Lublin. A profecia do Vidente foi publicada nos jornais poloneses.

“Ele será nosso emissário nos Céus”

Quando o Vidente de Lublin deixou este mundo – na mesma data em que os dois Templos Sagrados de Jerusalém foram destruídos – todo o mundo Chassídico ficou de luto. O Rebe Naftali de Ropshitz declarou: “O santo Vidente está morto – e o mundo continua de pé? Como pode ser?”. O RebeMoshe de Ujhely, o Yismach Moshe, disse: “Nosso Mestre possuía todas as qualidades e virtudes do Profeta Isaías – exceto que ele não habitava a Terra Santa”. Rabi Uri, conhecido como o Serafim de Strelisk, afirmou: “Lublin era a Terra Santa: o tribunal de nosso Mestre era Jerusalém; sua Casa de Estudo, o Templo; seu Gabinete particular, o santuário; e sua voz, a voz celestial que chegava até nós”. E Rebe Tzvi-Hersh de Zhidachov lamentou: “Enquanto viveu nosso Mestre santo, nos reuníamos em seu redor e colocávamos nossos braços uns nos outros, e assim chegávamos aos Céus. Agora, sem ele, perdemos as forças de olhar para cima. Até nossos sonhos estão diferentes”.

O fato de que o Vidente faleceu em Tisha b’Av não deve acrescentar tristeza a esse dia já tão triste – e não apenas porque o Chozédesdenhasse amelancolia. A Cabalá nos ensina a não chorar demais a morte de umTzadik, pois diz que quando um desses grandes homens deixa este mundo, eles se tornam ainda mais poderosos do que durante sua vida terrena, pois não estão mais restritos por suas vestes terrenas. Ademais, o misticismo judaico ensina que no aniversário do passamento de uma pessoa, sua alma vivencia uma aliá – uma ascensão espiritual. Isto significa que a cada ano, na data em que os judeus jejuam e choram e oram por Redenção, a alma do Vidente de Lublin se torna ainda mais poderosa.

Tisha b’Av é a data em que tombaram os dois Templos, mas é também, de acordo com o Talmud, a data do nascimento do Mashiach e o dia da Redenção Messiânica. Portanto, não é uma coincidência – como nada o é, na vida – que o Vidente, que tanto sonhava e tanto se empenhou para trazer oMashiach, tenha falecido no dia 9 de Av. Nessa data, cujo tema é não apenas a destruição do passado, mas a redenção do futuro, o Vidente torna-se um poderoso defensor diante do Trono Celestial. Assim sendo, ele tem condições de realizar das Alturas Celestiais, especialmente em Tishá b’Av, aquilo que ele não pode concluir aqui da Terra. A pergunta de Rebe Naftali de Ropshitz continua a reverberar através dos tempos: Como o mundo pode continuar sem o Vidente? Não o sabemos. Mas o que o Chozéde Lublin afirmou acerca de seu mais querido aluno, “o judeu de Peshischa”, nós podemos dizer acerca dele: Ele será nosso emissário nos Céus para apressar a vinda do Mashiach.

E se despertássemos de nosso sono espiritual e ouvíssemos com atenção, ouviríamos seus passos à medida que ele se aproxima.

Bibliografia:

Wiesel, Elie, Somewhere a Master – Hasidic Portaits and Legends, Shocken Books
Wiesel, Elie, Souls on Fire – Portraits and Legends of Hasidic Masters, Jason Aronson Inc.
Rabi Aryeh Kaplan,Chasidic Masters – History, Biography and Thought, Moznaim Publishing Corporation.

 

Extraído da Revista Morashá – Edição 74 – dezembro de 2011

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Citação

Uma águia nunca voa só.

Vive e voa sempre em pares.

Importa aqui recordar a lição de um mestre do Espírito.

O ser humano-águia é como um anjo que caiu de seu mundo angeli­cal.

Ao cair, perdeu uma das asas.

Com uma asa só não pode mais voar.

Para voar tem de abraçar-se a outro anjo que também caiu e perdeu uma asa.

Em sua infelicidade, os anjos caídos mostram-se solidários.

Percebem que podem ajudar-se mutuamente.

Para isso, devem se abraçar e completar suas asas.

E só assim, abraçados e juntos, com a asa de um e de outro, podem voar.

Voar alto rumo ao infinito do desejo.

Sem solidariedade, sem compaixão e sem sinergia, ninguém recupera as asas da águia ferida que carrega dentro de si.

Um fraco mais um fraco não são dois fracos, mas um forte.

Porque a união faz a força.

Uma asa mais uma asa não são duas asas,mas uma águia inteira que pode voar, ganhar altura e recuperar sua integridade e sua libertação.

 

(BOFF, 1997, p. 105-108)

Humano-águia